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Efeitos da restrição nutricional durante a gestação de ovelhas sobre os índices produtivos do rebanho - Parte II de III

PRODUÇÃO

EM 10/12/2014

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Autoras do artigo:

Mylena Taborda Piquera Peres - Zootecnista formada pela Universidade Federal do Paraná.
Juliana Varchaki Portes - Zootecnista formada pela Universidade Federal do Paraná, Mestranda do Programa de Pós-graduação em Zootecnia da Universidade Federal do Paraná.


No primeiro artigo sobre limitações nutricionais durante a gestação, abordamos a situação dos rebanhos ovinos brasileiros e a importância da alimentação, visando melhoras nos índices reprodutivos da propriedade. Mas enfim, quais são os índices zootécnicos que são diretamente afetados pela nutrição da ovelha que entrará em reprodução e, futuramente, fará parte do rebanho de animais gestantes?

Todo o processo produtivo tem a reprodução como sua base e qualquer problema que houver no manejo reprodutivo do rebanho vai comprometer seu potencial de produção, influenciando diretamente nos custos de produção. Por isso, faz-se necessário o uso de ferramentas que monitore a viabilidade da produção.

Na produção animal, diversos índices têm a finalidade de avaliar o rebanho e seu desempenho, por meio de informações numéricas coletadas na escrituração zootécnica dos animais. Machado (2006) destaca os seguintes índices zootécnicos de interesse na criação de ovinos, que podem sofrer influência da nutrição durante a estação reprodutiva e a gestação (Tabela 1):

Tabela 1. Índices zootécnicos e seus valores de referência para rebanhos ovinos.
brasileiros.



Fertilidade

A fertilidade é considerada como a habilidade da fêmea em apresentar condições favoráveis para gestação e lactação (Souza, 1992). Este índice pode ser influenciado pela temperatura, fotoperíodo, manejo e nutrição. Uma taxa de fertilidade igual ou maior que 80% é considerada ideal para o rebanho ovino (Machado, 2006).

Boucinhas et al. (2006) verificaram que fêmeas Santa Inês e mestiças Suffolk com acesso a concentrado (ração contendo rolão de milho, polpa cítrica e farelo de milho) nos períodos pré e pós-parto apresentaram maior peso corporal, foram mais prolíficas e apresentaram taxas de fertilidade 10% maiores, se comparadas a fêmeas não suplementadas. Em pastagem de trevo, com baixa lotação e cobrindo as exigências nutricionais das gestantes, fêmeas Border Leicester x Merino alcançaram taxas de fertilidade de 95%, sem suplementação, mostrando que é possível atingir altos níveis de fertilidade em pastejo (Davies & Southey, 2001).

Abecia et al. (2011) citam que os níveis nutricionais são proporcionais às concentrações de progesterona (hormônio que prepara o útero para a gestação) e que as taxas de perda embrionária estão associadas a este fato, uma vez que a progesterona deixa de agir no endométrio (membrana que reveste a parede uterina), que também fica menos sensível à ação do hormônio. Os autores afirmam que ovelhas subalimentadas apresentam níveis baixos do hormônio no endométrio a partir do 5° dia após a monta, alterando negativamente o ambiente uterino para a sobrevivência do embrião.

Natalidade (ou fecundidade)

No Brasil, muitos animais não emprenham a campo por estarem debilitadas fisiologicamente chegando a nem apresentar ovulação durante a estação reprodutiva. Edey (1968) demonstrou uma forte dependência do peso vivo sobre a taxa de ovulação em ovelhas, além de observar também que abaixo de um determinado peso corporal muitas ovelhas não ovulam, mesmo resultado obtido por Fletcher (1971). Algumas ovelhas apresentam ovulação tardia, o que gera um período de parição muito grande e dificuldade na homogeneidade no lote de cordeiros para a venda.

A nutrição no início da estação de monta melhora a condição corporal da ovelha, o que tem efeito direto na taxa de ovulação. Matrizes que apresentam bons escores de condição corporal (entre 2,5 a 3 na escala de 5 pontos) apresentam maiores ocorrências de cios, maior taxa de concepção, menor mortalidade embrionária e maior taxa de parição (Mellado et al., 2004).

Morley et al. (1978), analisando dados de várias publicações, observou que havia uma relação entre peso vivo e taxa de ovulação entre grupos de ovelhas e, em alguns casos, dentro dos grupos. Na maioria das raças, relatava-se que por cada quilograma de peso vivo adicionais aumentava-se de 2,0 - 2,5% na taxa de ovulação e 1,5 - 2,0% em cordeiros nascidos por ovelha.

Coop (1962) analisando um grande número de registros, encontrou que o percentual de nascimentos de gêmeos ao total de nascimentos aumentou em 6% para cada 4,5 kg aproximadamente adicionais no peso corporal da ovelha.

A natalidade (ou fecundidade) relaciona o número de cordeiros nascidos e a quantidade de fêmeas cobertas. Mori et al. (2006) avaliando 112 ovelhas das raças Hampshire Down, Suffolk, Corriedale e Ile de France, observaram que os animais suplementados demonstraram maiores ganhos de peso e melhores condições corporais, apresentando assim maiores taxas de natalidade, o que mostra que uma suplementação adequada (com energia e proteína) pode maximizar o número de cordeiros nascidos por ovelha prenhe.

Em ovelhas Corriedale, a suplementação energética pré-monta aumentou a taxa de natalidade para 180% (Barioglio & Rubiales de Barioglio, 1994), mesma conclusão obtida por Gunn et al. (1979), que observaram um aumento na taxa de ovulação em ovelhas suplementadas e com escore de condição corporal de 2,5, valor abaixo do ideal citado por Robinson et al. (2002), que comentam que as fêmeas apresentam máximo desempenho reprodutivo quando se encontram com escore de condição corporal entre 3,0 e 3,5.

A taxa de ovulação sofre influência dos aminoácidos, glicose e insulina circulantes no sangue, como asseguraram Molle et al. (1995), porém, é comprovada a existência de grupos raciais que apresentam maiores taxas de parição e prolificidade (Demirören et al., 1995). O limite superior de prolificidade da ovelha é determinada geneticamente e depende do número de óvulos liberados na ovulação. O grau em que uma ovelha pode expressar esse potencial genético é muito influenciado por fatores ambientais. Um destes é o regime nutricional antes e durante a estação de monta. A informação de que a nutrição é importante em relação à taxa de parição não é nova (Youatt, 1837) e foi observado pela primeira vez com ovelhas em bom estado nutricional ou pasto de qualidade deram à luz a uma maior percentagem de cordeiros gêmeos. A observação de que as ovelhas mais pesadas produzem mais do que os cordeiros mais leves ovelhas da mesma raça (Heape, 1899) foi seguido, no início deste século, por inúmeros relatos semelhantes.

Os índices abordados até aqui estão diretamente ligados à condição reprodutiva da fêmea ovina, sendo assim, no terceiro e último artigo deste assunto, apresentaremos a relevância da nutrição materna sobre os resultados obtidos na produção de cordeiros.

Referências bibliográficas

ABECIA, J.A.; FORCADA, F. MEIKLE, A.; SOSA, C. The effect of undernutrition of the establishment of pregnancy in the ewe. Options Méditerranéennes, v. 99, p. 189-193, 2011.

BARIOGLIO, C.; RUBIALES DE BARIOGLIO, S. Sincronizacion de celos y suplementación energética en ovejas. Archivos de Zootecnia, v.43, n.164, p.327-334, 1994.

BOUCINHAS, C.C.; SIQUEIRA, E.R.; MAESTÁ, S.A. Dinâmica do peso e da condição corporal e eficiência reprodutiva de ovelhas da raça Santa Inês e mestiças Santa Inês-Suffolk submetidas a dois sistemas de alimentação em intervalos entre partos de oito meses. Ciência Rural, v. 36, n. 3, 9. 904-909, 2006.

DAVIES, H.L.; SOUTHEY, I.N. Effects of grazing management and stocking rate on pasture production, ewe liveweight, ewe fertility and lamb growth on subterranean clover-based pasture in Western Australia. Australian Journal of Experimental Agriculture, v.31, p. 161-168, 2001.

DEMIRÖREN, E.; SHRESTHA, J.N.B.; BOYLAN, W.J. Breed and environmental effects on components of ewe productivity in terms of multiple births, artificial rearing and 8-month breeding cycles. Small Ruminant Research, v.16, p.239-249, 1995.

GIRÃO, R. N.; MEDEIROS, L. P.; GIRÃO, E. S. Mortalidade de cordeiros da raça Santa Inês em um núcleo de melhoramento no estado do Piauí. Ciência Rural, v. 28, n. 4, p. 641-645, 1998.

GUNN, R.G.; DONEY, J.M.; SMITH, W.F. The effect of level of nutrition before and after mating on ovulation rate and early embryo mortality in South Country Cheviot ewes in moderate condition at mating. Animal Production, v.29, p.25-31, 1979.

MACHADO, R.C. Criação de cordeiros: diversificação da propriedade. 69 p. Trabalho apresentado a MBA de Agronegócios. Faculdades Integradas Antônio Eufrásio de Toledo, Presidente Prudente, 2006.

MELLADO, M.; VALDEZ, R.; LARA, L.M. Risk factors involved in conception, abortion, and kidding rates of goats under extensive conditions. Small Ruminant Research, v. 55, p. 191-198, 2004.

MOLLE, G.; BRANCA, A.; LIGIOS, S. Effect of grazing background and flushing supplementation on reproductive performance in Sarda ewes. Small Ruminant Research, v.17, p.245-254, 1995.

MORI, R.M.; RIBEIRO, E.L.A.; MIZUBUTI, I.Y.; ROCHA, M.A.; SILVA, L.D. Desempenho reprodutivo de ovelhas submetidas a diferentes formas de suplementação alimentar antes e durante a estação de monta. Revista Brasileira de Zootecnia. v.35 n.3, 2006.

ROBINSON, J.J.; ROOKE, J.A.; McEVOY, T.G. Nutrition for conception and pregnancy. Em: FREER, M.; DOVE, H. Sheep nutrition. Wallingford: CAB International, p. 189-211, 2002.

SOUZA, W. H. Melhoramento genético de ovinos da raça Santa Inês. Em: Parâmetros de produção. 14 p. João Pessoa: EMEPA. 1992.
 

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JOSÉ ROBERTO DA ROCHA

RIO DE JANEIRO - RIO DE JANEIRO

EM 28/04/2015

Boa noite Mylena e Juliana, parabens pelo artigo,alto nível,moro no Rio de Janeiro, RJ,   estou pesquisando para montar um pequeno projeto de criação de ovinos confinados, em todas sa fases, se possivel, gostaria de saber quais os níveis de PB e energétco, para as matrizes, que possa atender, os resultados contidos no presente artigo? Desde já muito obrigado.



Um grande abrço, att: Zé Roberto  
JOSÉ ROBERTO DA ROCHA

RIO DE JANEIRO - RIO DE JANEIRO

EM 19/04/2015

Boa noite Mylena e Juliana, parabens pelo artigo,alto nível,moro no Rio de Janeiro, RJ,   estou pesquisando para montar um pequeno projeto de criação de ovinos confinados, em todas sa fases, se possivel, gostaria de saber quais os níveis de PB e energétco, para as matrizes, que possa atender, os resultados contidos no presente artigo? Desde já muito obrigado.



Um grande abrço, att: Zé Roberto  
WALDERI FRANCISCO DE CARVALHO OLIVEIRA

CAMPO MAIOR - TOCANTINS - PRODUÇÃO DE OVINOS DE CORTE

EM 18/02/2015

Muito grato pela matéria que me enviaste. (escore corporal...)



GUILHERME MARIOT

URUSSANGA - SANTA CATARINA - PRODUÇÃO DE OVINOS DE CORTE

EM 16/02/2015

BOA NOITE,

GOSTARIA DE OBTER MAIORES INFORMAÇÕES SOBRE A FORMULAÇÃO  DE UMA RAÇÃO QUE EU POSSA DEIXAR A  DISPOSIÇÃO NOS COMEDOROS  POS GOSTARIA DE ALIMENTAR  AS OVELHAS 3 X POR DIA COM RAÇÃO, MAS COMO  SÒ POSSO ESTAR NO SITIO PELA MANHA TENHO QUE DEIXAR CAPIM (FORRAGEM) E RAÇÂO O SUFICIENTE PARA DIA, NESTE CASO ANIMAIS  SEMI CONFINADOS.



GRATO
MYLENA TABORDA PIQUERA PERES

CURITIBA - PARANÁ - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 16/12/2014

Boa tarde, Walderi!



Este artigo aborda de modo didático a avaliação de escore corporal de ovinos. Espero que te auxilie!



http://www.farmpoint.com.br/radares-tecnicos/reproducao/escore-de-condicao-corporal-importante-ferramenta-de-manejo-54578n.aspx



Estamos à disposição para posteriores dúvidas também... é só nos escrever!



mylenap89@gmail.com

juh@zootecnista.com.br
WALDERI FRANCISCO DE CARVALHO OLIVEIRA

CAMPO MAIOR - TOCANTINS - PRODUÇÃO DE OVINOS DE CORTE

EM 16/12/2014

Acrescentando, gostaria de esclarecimentos que permitam entender e avaliar o escore de um animal.
WALDERI FRANCISCO DE CARVALHO OLIVEIRA

CAMPO MAIOR - TOCANTINS - PRODUÇÃO DE OVINOS DE CORTE

EM 16/12/2014

Mais uma vez realço a importância do assunto explanado, em especial para quem lida com a produção de ovinos no nordeste, onde há uma grande dificuldade de produção de alimentos, o que é agravado pelo longo período sem chuvas.