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De criador para criador: a importância da escala para a viabilidade econômica da produção

POR CAMILA RAINERI

E AUGUSTO HAUBER GAMEIRO

PRODUÇÃO

EM 22/09/2010

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Neste artigo trazemos algumas dicas de ovinocultores da Suécia que podem ser aplicadas ao momento que estamos vivendo na ovinocultura brasileira. Mas como isso pode ser possível, sendo estes países tão distantes e tão diferentes em incontáveis aspectos?

A leitura do trabalho "Profitable Swedish Lamb production by economies of scale", publicado no periódico Small Ruminant Research, permite encontrar mais semelhanças entre a criação de ovinos no Brasil e na Suécia do que poderíamos imaginar. O objetivo do trabalho foi analisar a possibilidade de tornar a criação de cordeiros economicamente viável naquele país através do aumento da escala de produção. O autor também entrevistou produtores para identificar as principais dificuldades enfrentadas durante o processo de expansão dos rebanhos.

A motivação do estudo vem do fato de que, apesar de importante para a subsistência no país, os criadores suecos de ovinos estão encontrando grandes dificuldades em manter a ovinocultura economicamente viável com a nova política de redução dos subsídios agropecuários e a concorrência da carne importada de países que possuem menores custos de produção. Por outro lado, a produção interna atende a apenas 37% do consumo, o que cria o desejo e a oportunidade de aumentar a produção. O leitor acha que esta situação parece familiar? Então continue lendo os próximos parágrafos...

Historicamente, a ovinocultura tem sido uma importante atividade para a pecuária familiar e de subsistência na Suécia. No entanto, em 1927 o tamanho médio do rebanho era de três ovelhas (fêmeas reprodutoras) por propriedade. Este número encontra-se atualmente em torno de 29 ovelhas. Esta estrutura pulverizada é muito diferente da encontrada em outros países europeus, grandes produtores de ovinos como o Reino Unido ou a Espanha, onde o tamanho médio dos rebanhos é de mais de 200 ovelhas. Na Nova Zelândia, maior exportador de carne ovina para a Europa, este valor é de quase 3.000 unidades por propriedade (onde cada unidade corresponde a uma ovelha de 55 kg parida de um cordeiro). Segundo os dados do Censo Agropecuário do IBGE de 2006, as propriedades produtoras de ovinos no Brasil possuem, em média, menos de 50 cabeças cada.

As maiores dificuldades enfrentadas pelos ovinocultores suecos são a alta exigência de trabalho demandada pelos animais nos sistemas adotados, e o curto período do ano em que as pastagens estão disponíveis. Devido ao frio intenso e gelo, os rebanhos precisam ser mantidos estabulados metade do ano, e as instalações utilizadas para esta finalidade são caras e devem obedecer a regras severas quanto ao bem-estar animal.

Em sua maior parte, os estabelecimentos rurais onde se criam ovinos na Suécia são pequenos demais para cobrir os custos de construção de novas instalações e contratação de funcionários. Assim, são adaptadas e reaproveitadas instalações e máquinas utilizadas anteriormente em outras atividades. Muitos dos pequenos criadores de ovinos obtêm sua renda de outras fontes e, portanto, possuem menor necessidade de lucro vindo da atividade.

Desta forma, espera-se que o maior crescimento do rebanho parta de novas criações, ou criações com condições de se expandirem, e isto precisa ocorrer de forma sustentável, em que os investimentos sejam pagos com os preços de carne de cordeiro praticados no país. Na Suécia, atualmente os valores pagos ao produtor por kg de carcaça são de cerca de R$ 9,50 durante o inverno, primavera e início do verão, e giram em torno de R$ 7,15 no restante do ano, quando a maior quantidade de cordeiros é oferecida por se tratar da época de disponibilidade de pastagens.

O aumento da escala parece ser necessário para tornar a ovinocultura de corte viável no país. No entanto, a falta de experiência dos produtores, a pequena área das propriedades (cerca de 23 ha) e a escassez de pastagens naturais e terrenos agricultáveis são entraves severos para se alcançar este objetivo. O custo das terras em locais mais planos e férteis praticamente inviabiliza sua utilização para a criação de cordeiros de corte.

O autor do trabalho em questão realizou cálculos de viabilidade econômica para rebanhos de diferentes tamanhos e entrevistou 20 produtores, proprietários de rebanhos entre 90 e 900 ovelhas (média de 380). Eles foram indicados por associações e frigoríficos como sendo criadores de sucesso, possuidores de criações em expansão. As perguntas feitas foram relativas a:

a) Quais foram os sacrifícios (redução de receitas ou aumento de custos) durante a fase de expansão, o que fizeram para tentar reluzi-los e o que eles fariam de forma diferente naquela situação, considerando a experiência que ganharam?

b) Quais foram as "deseconomias" de escala, representadas pelos custos que aumentaram com o crescimento do rebanho, e o que foi feito para tentar contorná-las?

c) Quais seriam os obstáculos esperados no futuro, para a continuação do processo de expansão?

Cálculos de viabilidade econômica

Os resultados da pesquisa demonstram que, sob as condições observadas na Suécia, a maior parcela dos custos de produção é atribuída às instalações necessárias para abrigar os animais do frio, alimentação, mão de obra e reposição de matrizes.

Os cálculos realizados sugerem que a criação de cordeiros pode ser lucrativa na Suécia em rebanhos de mais de 500 fêmeas. A expansão de rebanhos de 100 para 800 ovelhas permitiria uma grande economia de escala principalmente em instalações e mão de obra. Esta economia seria equivalente a todos os custos com alimentação dos animais, considerando-se os valores atuais praticados no mercado.
Com rebanhos menores, a atividade seria viável apenas em situações em que fossem explorados recursos previamente existentes, mão de obra familiar e baixo ou nenhum custo de oportunidade. No entanto, mesmo nestes casos a sustentabilidade econômica do negócio a longo prazo estaria comprometida.

O autor aponta um aspecto muito importante que pode ser um motivo para a atividade continuar existindo no país, apesar de muitas vezes ser conduzida de forma pouco ou nada rentável: a satisfação pessoal e da família é atingida também através de variáveis não-econômicas. Este objetivo pode ser mais importante que a maximização da lucratividade da produção.

Entrevistas com produtores

Os maiores entraves vivenciados pelos produtores foram a baixa disponibilidade de pastos baratos e campos próximos para a produção de silagem. As formas encontradas para contornar estas dificuldades foram:

i)o arrendamento de terras mais baratas, porém distantes para produção de alimento, com o transporte do alimento até os animais ou dos animais até estas áreas para pastejo;

ii) aumentar a produção de alimento por área, com uso de fertilizantes e técnicas de manejo das forrageiras;

iii) transformar áreas de produção de madeira de reflorestamento em pastagens após o último corte e

iv) trocar com vizinhos terras para produção de madeira por terras para produção de forragem (nos casos em que os vizinhos produziam madeira em áreas mais favoráveis à agricultura que aquelas possuídas pelos criadores).

Outro problema indicado pelos criadores foi o alto custo representado pela subutilização das novas instalações até que a expansão do rebanho terminasse, uma vez que seu dimensionamento é realizado para a quantidade final de animais. Para acelerar o aumento do número de animais, optou-se por adquirir mais fêmeas e manter grande parte das borregas produzidas para reposição. A aquisição de animais por sua vez gerou problemas sanitários para muitos dos entrevistados, enquanto a grande proporção de borregas acarretou baixa pressão de seleção nos rebanhos e produtividade mais baixas em seus primeiros 1-2 anos.

Muitos dos entrevistados afirmaram ter operado suas criações com fluxo de caixa negativo após os investimentos para expansão, situação que se normalizou com a regularização do manejo. Sua sugestão para minimizar estes problemas foi formar um rebanho tão grande quanto às instalações já presentes permitirem, e só então investir em novas. Desta forma, as novas áreas podem ser preenchidas mais rapidamente, seja com borregas de criação própria ou pela aquisição de novos animais, oriundos do menor número possível de criatórios confiáveis.

Neste período de implantação, antes de ser possível viver da atividade, os criadores trabalhavam apenas parte do tempo em suas propriedades. No restante do período, os criadores já profissionais se dedicavam a outras atividades em suas terras ou a trabalhos externos. Já os iniciantes, aproveitavam o tempo para ganhar experiência e conhecimentos que seriam necessários para a ovinocultura em maior escala.

A maior parte dos entrevistados reduziu a necessidade de investimentos em máquinas e equipamentos no início da criação através da contratação de serviços de terceiros para trabalhos como plantio e colheita de forrageiras. Apenas algumas fazendas muito grandes ou muito distantes das demais possuíam todos os equipamentos necessários a estas atividades.

A alta carga de trabalho durante as épocas de parições foi apontada como um obstáculo à futura expansão dos rebanhos. Alguns produtores optaram por partos a pasto durante a época de disponibilidade de pastagens ao invés de parições em confinamento durante o inverno, como forma de reduzir o trabalho especialmente com limpeza de baias e reposição de cama. No entanto, este manejo pode ser um problema por acarretar oferta de cordeiros jovens em épocas de menor preço, ou de animais mais velhos (e que, portanto, tiveram que ser alimentados por mais tempo) em épocas de melhor valor.

Apesar das dificuldades enfrentadas, a maior parte dos grandes criadores considera ou planeja continuar a expansão dos rebanhos. Um motivo importante para isto são os recursos conquistados durante a primeira fase do crescimento: equipamentos que, apesar de já lucrativos, possuem capacidade para atender mais animais, e o conhecimento adquirido. Segundo estes criadores, a maioria dos problemas enfrentados no início da atividade ou nos primeiros passos de seu crescimento é devida a erros de manejo e à aplicação incorreta de técnicas, e são superados à medida que se ganha experiência, que se aprende com os próprios erros. Além disto, criadores grandes e experientes podem, além de conseguir preços mais baixos de insumos, conquistarem melhores preços de venda para seus cordeiros devido a bônus por qualidade.

Assim as entrevistas revelaram que, passada a fase de aprendizado e investimento, não há um motivo econômico para se parar a expansão dos rebanhos. Esta expansão seria freada por dificuldades em se administrar e manejar grandes criações, o que também pode ser contornado com experiência e boa assessoria.

A conclusão do autor é que os fazendeiros suecos gostam de criar ovelhas, portanto a expansão dos rebanhos ovinos acontecerá sempre que houver condições para tal. Foi verificada também a tendência de existência de rebanhos menores, nos quais se trabalha apenas parte do tempo e se utilizam recursos baratos e pré-existentes. No entanto, é preciso considerar que estes recursos não duram para sempre, portanto é importante que se formem rebanhos grandes para que seja possível desfrutar das economias vindas da maior escala de produção. Estas economias seriam a chave para a sustentabilidade no longo prazo da atividade.

Artigo citado:

KUMM, K.I. Profitable Swedish Lamb production by economies of scale. Small Ruminant Research v. 81, p. 63-69. 2009.

CAMILA RAINERI

Zootecnista formada pela FZEA/USP, com mestrado pela mesma instituição. Doutoranda pela FMVZ/USP. Responsável Técnica pela Paraíso Ovinos e consultora em Ovinocultura.

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