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Comportamento materno em búfalas

PRODUÇÃO

EM 23/11/2017

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Autoras do artigo:

Ariane Dantas - Professora da Escola Técnica Estadual “Dona Sebastiana de Barros” (São Manuel/SP)

Eunice Oba - Docente Titular do Departamento de Reprodução Animal e Radiologia Veterinária da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Unesp (Botucatu/SP)

Por comportamento materno, ou maternal, reconhece-se, em mamíferos, o conjunto de cuidados que a mãe oferece a seus filhotes a fim de proteger e suprir suas necessidades, bem como auxiliar na sobrevivência e propagação da espécie, sendo, portanto, determinante no desenvolvimento morfo e fisiológico da cria. Trata-se de características complexas, instintivas, inatas e específicas para cada espécie (FRASER e BROOM, 1990).

comportamento materno em búfalas

Durante o início do período pós-parto, os eventos comportamentais entre mãe e bezerro têm grande influência na sobrevivência do neonato, além de consequências diretas sobre os desempenhos produtivos e reprodutivos durante a sua vida adulta (DUBEYA et al., 2017). Em mamíferos, também existe um período crítico conhecido como imprinting, onde um vínculo mãe e recém-nascido é estabelecido. O sucesso de tal acontecimento varia de acordo com a aprendizagem adquirida por habilidades cognitivas específicas à espécie (PARANHOS DA COSTA e CROMBERG, 1998).

Os cuidados maternos, em particular nas búfalas, se expressam desde a preparação da mãe para o nascimento da cria e se mantêm por todo o período de lactação, sendo que os mesmos modificam-se de acordo com o tempo e crescimento dos filhotes (POINDRON, 2005).

Com a proximidade do parto, as búfalas gestantes apresentam diversas alterações comportamentais, sendo essas muito semelhantes as observadas em bovinos (HAFEZ e HAFEZ, 2004). Na preparação para o parto, as búfalas se afastam do grupo e buscam um local calmo e tranquilo para acolher os filhotes após o nascimento e demonstram aumento na agressividade em relação a intrusos (GORDON, 1996).

Além disso, o tamanho do úbere aumenta com aproximadamente 30 dias antes do parto, sendo que, em primíparas, isto pode acontecer um pouco mais cedo. Andrabi e Gill (1993), em estudos realizados em búfalas sobre a avaliação do comportamento da fêmea próxima ao parto e sua relação com os seus respectivos neonatos mostraram que a distensão do úbere e das tetas ocorre de 2,4 a 1,8 dias antes do parto, respectivamente, bem como a produção e liberação de colostro.

Mais próximo ao parto, ocorre liberação de muco viscoso pela vagina, relaxamento dos ligamentos e músculos da pelve e da cauda, bem como a vulva torna-se edemaciada. Todavia, estes sinais podem durar de 2 a 8 horas até a iminência do parto. As búfalas apresentam-se mais agitadas e inquietas, nota-se que caminham e batem a pata no chão repetidamente, olham para e tentam cheirar e lamber a região do flanco, movimentam bastante a cauda, as pupilas dilatam-se e diminuem a ingestão de alimentos. Também aumentam a intensidade e frequência da vocalização, sendo esse, o sinal óbvio de aproximação do parto (MOHAMMADA et al., 2013).

Durante o trabalho de parto, as búfalas levantam-se e deitam-se diversas vezes, desde a exposição da bolsa até a expulsão completa do bezerro, podendo parir deitada ou em pé. Os partos ocorrem preferencialmente à noite ou nas primeiras horas do dia e são marcados pelo aumento no número e intensidade das contrações, extensão da cauda do animal, distensão da cérvix, flexão da articulação do quadril e tendão das patas traseiras (FISCHER e BODHIPASHKA, 1992).

Ocorre o encaixe gradual e progressivo do feto no conduto pélvico materno, exposição e rompimento da bolsa, exibição dos membros anteriores do bezerro, focinho, cabeça, tórax e por fim membros posteriores e anexos embrionários (MODY et al., 2002). Ressalta-se ainda que em búfalas dificilmente observa-se a necessidade de intervenção do homem para retirada da cria.

As búfalas realizam a limpeza dos filhotes, ingerindo os anexos embrionários junto da placenta e mantêm suas crias o mais próximo possível de seu corpo para estimulá-los a se levantar e se direcionar ao úbere para mamarem, bem como afim de mantê-los sempre aquecidos (MURPHEY et al., 1991). A ingestão do saco amniótico e da placenta fornece nutrientes para a mãe e remove pistas olfatórias do pós-parto para potenciais predadores (PARANHOS DA COSTA e ANDRIOLO, 2000). A expulsão dos restos placentários pela fêmea pode variar de 2 até 12 horas.

Os cuidados maternos podem ser diretamente dirigidos aos filhotes, como por exemplo as lambidas, em particular da área genital, que os limpam e estimulam a defecação e micção, enquanto os indiretamente relacionados aos filhotes, classificam-se as atividades ligadas ao aumento da agressividade que permite vigiar e afastar intrusos com maior atenção. Com o ganho de independência dos filhotes, há diminuição da responsividade materna e o desmame tende a acontecer naturalmente (ANDRIOLO et al., 2001).

O comportamento materno é regulado pela interação de diversos elementos neuroendócrinos, desta forma, mudanças nesses fatores podem interferir diretamente na preparação pré e pós-parto. O início do comportamento materno depende primariamente de alterações hormonais que ocorrem durante a gestação e o parto (GONZÁLEZ-MARISCAL e POINDRON, 2002).

Durante a gestação, há secreção contínua de progesterona pelo corpo lúteo e placenta, sendo fundamental na manutenção da gestação e lactogênese, contudo, com a proximidade do parto, seus níveis plasmáticos diminuem, enquanto, as concentrações plasmáticas do estrógeno aumentam (SENGER, 2005). Essa variação dos níveis plasmáticos de estrógenos estimula a produção e liberação de prolactina e ocitocina, os quais induzem a manifestação de comportamentos maternos em relação à cria (McDONALD, 1969).

Considerações finais:

O comportamento materno é, portanto, resultado da interação de diversos fatores e seu entendimento é fundamental para o desenvolvimento e sobrevivência dos filhotes. Desse modo, o estudo do comportamento materno no contexto da etologia e produção de búfalos é imprescindível, uma vez que os cuidados com os neonatos bubalinos podem causar grande impacto no desenvolvimento ponderal, fato esse de expressiva importância aos criadores.

Referências bibliográficas

ANDRIOLO, A.; PARANHOS DA COSTA, M. J. R.; SCHMIDEK, W. R. Suckling behaviour in water buffalo Suckling Behaviour in Water Buffalo (Bubalus bubalis): Development and Individual Differences. Revista de Etologia, v. 3, n. 2, p. 129-136, 2001.

ANDRABI, S. Z. A.; GILL, R. S. Studies on calving in buffaloes. Indian Journal of Animal Production and Management, v. 9, p. 61-66, 1993.

COSTA, M. J. R. P.; CROMBERG, V. U. O comportamento materno em mamíferos: bases teóricas e aplicações aos ruminantes domésticos. Jaboticabal: Sociedade Brasileira de Etologia, 1 ed. 1998. 262 p.

DUBEYA, P.; SINGH, R. R.; CHOUDHARYC, S. S.; VERMAD, K. K.; KUMARE, A.; GAMITF, P. M.; DUBEYG, S.; PRAJAPATIH, K. Post parturient neonatal behaviour and their relationship with maternal behaviour score, parity and sex in buffaloes. Journal of Applied Animal Research, v. 4, p. 1-5, 2017.

FRASER, A.F.; BROOM, D. M. Farm Animal Behaviour and Welfare. Wallingford: CAB International, 1990.

FISCHER, H., BODHIPAKSH, P. Reproduction in Swamp Buffaloes. In: Tulloh, N.M., Holmes, J.H.G. (Eds.), Buffalo Production, 1st Ed. Elsevier Science Publisher, Amesterdam, Netherland, 1992.

GONZÁLEZ-MARISCAL G. P.; POINDRON P. Parental care in mammals: immediate internal and sensory factors of control. In: PFAFF, D. W.; ARNOLD A. P.; ETGEN A. M.; FAHRFBACH S. E.; RUBIN R. T. 1 ed. Hormones, Brain and Behavior. New York: Academic Press, p. 215-298. 2002.

GORDON, I. Controlled Reproduction in Cattle and Buffaloes. 1st edition, CAB International, Wallingford, p. 432-466, 1996.

HAFEZ, E.S. Fisiologia da reprodução. 7. ed. Manole: São Paulo, 2004, 513 p.

McDONALD, L. E. Veterinary Endocrinology and Reproduction, 1st ed. Lea and Febiger, Philadelphia, p. 66-78, 1969.

MODY, M., CHAUHAN, R. A. S.; SHUKLA, S. P. Process of parturition in buffaloes. Indian Journal of Animal Reproduction, v. 23, p. 141-143, 2002.

MOHAMMADA, D. R. I.; ABDEL-RAHMANB, M. A. M. A comparative study on behavioral, physiological, and adrenal changes in buffaloes during the first stage of labor with normal and difficult parturition. Journal of Veterinary Behavior, v. 8, p. 46-50, 2013.

MURPHEY, R. M.; PARANHOS DA COSTA M. J. R.; LIMA, O. L.; DUARTE, F. A. M Communal suckling in water buffalo (Bubalus bubalis). Applied Animal Behaviour, v. 28, p. 341-352, 1991.

PARANHOS DA COSTA, M. J. R.; ANDRIOLO, A.; SIMPLÍCIO DE OLIVEIRA, J. F.; SCHMIDEK, W. R. Suckling and allosuckling in river buffalo calves and its relation with weight gain. Applied Animal Behaviour Science, v. 66, p. 1-10. 2000.

PARANHOS DA COSTA, M. J. R.; CROMBERG, V. U. O comportamento materno em mamiferos bases teoricas e aplicacoes aos ruminantes domesticos. Jaboticabal: Sociedade Brasileira de Etologia, 1998. 272 p.

POINDRON P. Mechanism of activation of maternal behavior in mammals. Reproduction Nutrition Development, v. 45, p. 341-351, 2005.

RAMASAMY, M.; SINGH, M. A comparative study on normal and abnormal parturition in Karan Fries Cattle and Murrah buffaloes. National Symposium Repord. Technologies for Augmentation of Fertility in Livestock. Nov. 14-16, IVRI, India. Compendium of Abstracts. p. 148-149, 2002.

SENGER, P.L. Pathways to Pregnancy and parturition. 2. ed. Pullman: Current Conceptions, 2005. 134 p.
 

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NATHÃ CARVALHO

ALEGRETE - RIO GRANDE DO SUL

EM 25/11/2017

Parabéns pelo artigo!

Gostaria de saber se para a exploração das búfalas em regime de ordenha, há dependência da presença do bezerro (estimulo visual, táctil e olfativo) para a mantença da lactação, como ocorre na maioria dos zebuínos, ou é possível desmamar o bezerro na data do parto sem interferir na duração da lactação da búfala?