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A raça Santa Inês, a carne e os cruzamentos industriais de ovinos de corte

POR OCTÁVIO ROSSI DE MORAIS

PRODUÇÃO

EM 08/02/2007

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A raça Santa Inês constava, até pouco tempo atrás, das listas de raças nativas ameaçadas de extinção. Num trabalho inédito os criadores resgataram a raça, tornando-a talvez a mais numerosa no Brasil. Obviamente esse não foi um trabalho coordenado de preservação, mas uma visão de oportunidade, pois a ovinocultura ressurgiu num momento em que a bovinocultura esteve em baixa e cresceu o apelo por uma alternativa considerada mais viável e confiável.

Também é bom lembrar que a mudança de hábitos alimentares do brasileiro concorreu positivamente para o ressurgimento da ovinocultura, pois experimentar novos pratos e novos produtos, assim como aprender a cozinhar com arte, tornou-se sinônimo de elegância e sofisticação.

Não foi por ser carne mais magra ou por ter sabor1 diferenciado que a carne dos ovinos deslanados chegou à cozinha dos gourmets do Sudeste. Desculpem-me os defensores dessa teoria, mas acompanho muito de perto toda a evolução da ovinocultura e também os meandros da qualidade da carne ovina para me deixar enganar por bobagens. A carne dos deslanados chegou porque esse era o tipo de animal mais disponível, barato e, para o produtor, o de manejo mais fácil, por não depender de tosquia.

Por outro lado, também não foi por sua apresentação e musculosidade que a carne dos deslanados conquistou os restaurantes finos do Sudeste. Não, absolutamente! Excetuando-se o Dorper, os deslanados disponíveis no Brasil têm conformação de carcaça muito pobre, impossibilitando cortes nobres substanciosos. Daí alguns criadores influentes concluíram, a meu ver equivocadamente, que o negócio era "melhorar" o Santa Inês.

Melhorar pressupõe mudar de uma condição para outra mais vantajosa. O que se fez então? Decidiram que a raça Santa Inês deveria se converter numa raça de corte. Para tanto, aumentaram o tamanho dos animais por meio de diversos cruzamentos, e conseguiram aumentar também o peso adulto de machos e fêmeas, que se tornaram muito mais exigentes do que já eram em alimentação. Em pouco tempo obtiveram-se grandes mudanças na raça. No entanto, houve melhoramento?

A raça Santa Inês, como era originalmente, e como ainda pode ser mantida e melhorada, é essencialmente uma raça materna. Chama-se raça materna aquela que, para os programas de cruzamento, fornece as fêmeas. Isto ocorre quando a raça possui características naturais ou melhoradas, tais como boa fertilidade e prolificidade, baixa estacionalidade reprodutiva, boa produção de leite e afeição pela cria. Se as fêmeas com essas características forem pouco exigentes, tanto melhor.

É nesse sentido que a Santa Inês pode dar sua maior contribuição, e obviamente, é nessa direção que deve seguir seu melhoramento. Há muito por melhorar na raça, especialmente em relação à prolificidade e à habilidade materna. As raças Morada Nova e Somalis, por exemplo, são mais eficientes nesse sentido. Pena que não tenham tido a mesma sorte da Santa Inês.

Há muitas raças selecionadas para corte, atendendo a todos os gostos. São raças paternas, também chamadas de terminadoras, cuja finalidade num cruzamento é imprimir bom ganho de peso, precocidade para o abate e bom rendimento de cortes nobres. Há raças consagradas no mundo inteiro e com boas respostas no cruzamento com a Santa Inês, como Texel, Dorper, Ile de France, Dorset, Hampshire Down e muitas outras.

Alguns defendem, e eu mesmo em alguns casos, que se deve selecionar uma linhagem Santa Inês terminadora. Para isto, no entanto, devemos manter outra linhagem, a materna, e selecioná-la para melhorar suas aptidões de fêmea. Este procedimento é demorado e exige a objetividade comentada no artigo anterior (veja em "Nossos objetivos e os objetivos do Melhoramento Genético" ). Há que se lembrar também, que ao utilizarmos os "cruzamentos" entre linhagens da mesma raça e não entre raças diferentes, estaremos perdendo muito dos benefícios da heterose2.

A experiência tem mostrado que só há vantagens no cruzamento industrial de Santa Inês com as raças terminadoras mencionadas. Os restaurantes e os gourmets agradecem a melhoria na apresentação dos cortes. O sabor e a maciez da carne proveniente de animais bem mais jovens agradam a muito mais paladares. Nenhum dos cruzamentos testados até hoje proporcionou alteração negativa no sabor da carne.

Acredito que o caminho natural seja o de usar o melhor que temos de nossas raças nativas e melhorá-las ainda mais naquilo que for necessário. Usar o melhor das raças exóticas terminadoras para a produção de cordeiros para corte, aproveitando o máximo de heterose, o que se consegue no primeiro cruzamento.

Há uma receita simples, embora não sirva para todos: manter um núcleo Santa Inês, usando carneiro Santa Inês nas borregas e ovelhas de 1ª cria, produzindo assim a reposição de fêmeas. Nas demais matrizes usa-se carneiro de raça terminadora. Desta forma tem-se para abate cordeiros Santa Inês e também cordeiros e cordeiras cruzados.

O processo como um todo depende de selecionadores de Santa Inês ou de outra raça nativa para as características maternas e de selecionadores de raças terminadoras, bem como dos multiplicadores de ambas. Todos devem tentar atender aos anseios de seus compradores, que serão os produtores comerciais de cordeiros cruzados. Tudo isto depende de um trabalho integrado.

Assim como é preciso que cada um se organize dentro de sua propriedade é imprescindível que nos organizemos como categoria produtora. Nosso sucesso só depende de nós mesmos.

1O sabor da carne dos ovinos difere de uma raça para a outra, mas difere mais ainda dentro das próprias raças dependendo da idade dos animais, da porcentagem de gordura, da dieta. Esta é uma afirmação simplesmente calcada na experiência, mas não é totalmente desprovida de embasamento científico, e é comungada por grande parte daqueles que degustam todo tipo de carne ovina. O processamento da carne influencia sobremaneira seu sabor, sendo que do abate ao armazenamento muita coisa pode interferir nas qualidades organolépticas. Do armazenamento à mesa, nem se fala.

2O que é a heterose? É um fenômeno natural da genética que faz com que os filhos de indivíduos de raças ou linhagens diferentes tenham desempenho produtivo superior à média dos pais. Somando-se os efeitos sobre as características de produção, a heterose pode proporcionar um desempenho econômico até mesmo superior dos filhos, quando comparado a qualquer um dos pais. Ao se cruzar um animal "meio sangue" com outro de uma das raças que o originou há perda de heterose, como no exemplo: Texel x Santa Inês = 100% de heterose. ½ sangue Texel Santa Inês x Santa Inês = 50% da heterose. Por isso a afirmação "o maior efeito da heterose está no primeiro cruzamanto". Mais: a heterose tem efeito exatamente contrário da consangüinidade.

OCTÁVIO ROSSI DE MORAIS

Melhoramento Genético de Caprinos e Ovinos - Embrapa

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OCTÁVIO ROSSI DE MORAIS

SOBRAL - CEARÁ - PESQUISA/ENSINO

EM 08/02/2018

Meu e.mail é octavio.morais@embrapa.br. Esse artigo é de quando eu estava na Epamig. Fiquem a vontade para enviar questões técnicas. Respondo à medida em que dispuser de tempo, então às vezes demora um pouquinho.
LUÍS GUILHERME

EM 08/02/2018

Primeiramente parabéns pelo trabalho publicado! Sou um jovem produtor e está matéria pode abrir um pouco mais meus olhos e a cabeça!

Desta forma o senhor poderia enviar o seu email? Pois gostaria de fazer uma na quantidade de perguntas!

Seria possível? Obrigado
OCTÁVIO ROSSI DE MORAIS

SOBRAL - CEARÁ - PESQUISA/ENSINO

EM 08/02/2018

Respondi acima. octavio.morais@embrapa.br. Um abraço.
OCTÁVIO ROSSI DE MORAIS

SOBRAL - CEARÁ - PESQUISA/ENSINO

EM 13/10/2016

Desculpe-me o Edemar, pois não havia visto a postagem dele. Olha a pelagem varia, mas normalmente os animais saem vermelhos com pequena capa de lã branca. No Brasil tropical, machos Texel em fêmeas SI é o mais viável.

Anderson, é possível sim, sem problemas. É bom avaliar o macho Dorper quanto ao seu andrológico e não forçar muito o reprodutor. Assim, ele deve permanecer isolado das fêmeas durante o dia, com sombra, água e alimento. À noite ele vai para o lote de fêmeas.   
ANDERSON KRAIESKY LENCINA

SANTA MARIA - RIO GRANDE DO SUL

EM 12/10/2016

é possivel fazer monta natural com carneiro dorper com matriz santa ines
EDEMAR ANIECEVSKI

XAVANTINA - SANTA CATARINA

EM 05/11/2015

Octavio no caso de cruza texel X santa ines, qual a cor da pelagem dos animais? Devo usar femeas ou machos santa ines no cruzamento?
OCTÁVIO ROSSI DE MORAIS

SOBRAL - CEARÁ - PESQUISA/ENSINO

EM 01/09/2015

Caro Leandro, tive um grupo bem grande de animais cruzados Santa Inês x Texel quando era pesquisador na Epamig, bem como acompanhei outros rebanhos que faziam esse cruzamento. O resultado é bem interessante, animais rústicos, com boa conformação de carcaça, sendo a maioria deslanada ou semi lanada. O resultado depende também dos carneiros e ovelhas que você usar, se ambos forem de boa qualidade a tendência é o resultado ser bom. As ovelhas cruzadas costumam não ser estacionais e, nesse caso, o cruzamento terminal com o próprio Texel é bem interessante (animais 3/4 Texel, Santa Inês para abate) ou pode-se usar uma terceira (Ile de France, Dorper...) dependendo do objetivo.
OCTÁVIO ROSSI DE MORAIS

SOBRAL - CEARÁ - PESQUISA/ENSINO

EM 01/09/2015

Caro Luis José, normalmente as fêmeas Somalis cruzadas com Santa Inês não têm problemas de parto, mesmo porque os cordeiros não costumam nascer tão grandes. Isto pode variar de um carneiro para outro, conforme a genética de cada um, então não dá para garantir que não haverá problema, mas em regra não há.




LEANDRO

PASSO FUNDO - RIO GRANDE DO SUL - PRODUÇÃO DE OVINOS DE CORTE

EM 11/08/2015

qual o resultado do cruzamento de femeas texel com reprodutor santa ines ???

LUIS JOSE PEREIRA

QUIXELÃ - CEARÁ - INDÚSTRIA DE LATICÍNIOS

EM 04/07/2015

Bom dia Sr Otavio Rossi, a minha duvida, eu tenho um rebanho de somalis pura e quero cruzar com santa inez, as femeas nao vao ter problemas no parto por causa do porte do macho santa inez?

obrigado

aguardo
OCTÁVIO ROSSI DE MORAIS

SOBRAL - CEARÁ - PESQUISA/ENSINO

EM 29/06/2015

Pessoal, obrigado pelas perguntas e comentários que continuam "pingando" mesmo 8 anos após a publicação. Tentarei esclarecer: a heterose é perdida no segundo cruzamento quando voltamos a uma das raças que o originou, se entrarmos com uma terceira raça, teremos heterose de 100%. Como o ganho é em relação à média dos pais, a heterose nesse segundo cruzamento não tem relação de proporcionalidade com a do primeiro. Mas num exemplo prático: Santa Inês x Lacaune (raça leiteira)= 100% de heterose; 1/2 Santa Inês/Lacaune x Dorper = 100% de heterose. Normalmente, se quisermos manter uma base mais fácil de manejar teremos que interromper em algum ponto essa seqüência de cruzamentos e abater machos e fêmeas cruzados (chamamos isso de cruzamento industrial). Outra forma é o cruzamento alternado, exemplo: Santa Inês (SI) x Dorper (D), na próxima geração 1/2 SI/D x D, na seguinte, SI/D/D x SI e assim sucessivamente, ou seja, em cada geração troco a raça do reprodutor. Isso pode ser feito com duas ou mais raças em alternância. Desta forma mantém-se alguma, mas não 100% de heterose.
EDSON MELO

PARNAGUÁ - PIAUÍ - PRODUÇÃO DE OVINOS DE CORTE

EM 03/05/2015

a minha preocupação é a mesma do Walderi Frco., de Palma-TO. O que fazer das fêmeas cruzadas do Dorper com Sta. Inês, sem que as mande para abate? posso fazer cruzamento com outra raça e assim não perder rendimento?
PAULO SERGIO RABELLO GUIMARAES

NOVA LIMA - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE OVINOS DE CORTE

EM 05/01/2015

REFORÇANDO MEU COMENTÁRIO ANTERIOR, PARABENS.

CONTINUO AGUARDANDO NOVOS COMENTÁRIOS
WALDERI FRANCISCO DE CARVALHO OLIVEIRA

CAMPO MAIOR - TOCANTINS - PRODUÇÃO DE OVINOS DE CORTE

EM 02/01/2015

Muito esclarecedora a matéria. Chama muito a atenção os esclarecimentos sobre a heterose, principalmente no que concerne ao cruzamento de um animal meio sangue resultante de um primeiro cruzamento, com   outro de uma das raças que o originou, o que de acordo que o foi explanado, salvo equívoco da nossa parte, geraria perda de desempenho econômico. Nesse caso, o que poderia ser feito para manter os mesmos resultados.
JOSE ILDO

ITABAIANA - PARAIBA

EM 28/12/2014

Boa tarde ..tenho um carneiro cm sangue de santa ines mas ele  e muito grande  e brabo  ele tem 2anos d vida e queria vender ele mas nao encontro ninguem para o compralo... Queria uma ajuda cm vendelo....

AUGUSTO LOBATO

BELO HORIZONTE - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE CAPRINOS DE CORTE

EM 11/08/2014

Boa noite meu caro , gosteria de uma ajuda  na escolha de qual ovino devo comprar as matrizes e o macho  , para criar com objetivo de abate , abundancia em carne ?
PAULO SERGIO RABELLO GUIMARAES

NOVA LIMA - MINAS GERAIS

EM 17/10/2013

PARABENS POR ESTA AULA SOBRE OVINOCULTURA. ESTIVE ONTEM COM O MARCATTI NA EPAMIG QUE ME ADIANTOU SER VOCÊ A PESSOA MAIS CREDENCIADA PARA UMA EXPLICAÇÃO A RESPEITO, E, DEVE SER MESMO PORQUE UM VETERINÁRIO QUE LARGA TUDO POR AMOR A PESQUISA  MERECE TODOS OS APLAUSOS. COMO ELE ME PASSOU O SEU END., GOSTARIA DE ME VALER DELE NESTE FIM DE SEMANA PARA QUE VOCÊ ME INFORMASSE A QUEM DEVO PROCURAR PARA TER UMA MELHOR ORIENTAÇÃO OU MESMO ALGUM MANUAL INFORMATIVO. MORO EM NOVA LIMA E TENHO +- 8.000 m2 DE  ÁREA NA QUAL GOSTARIA DE CRIAR ALGUMAS OVELHAS. NÃO CONHEÇO ABSOLUTAMENTE NADA SOBRE ESTE TIPO DE CRIAÇÃO, MAS SE DER CERTO QUERO EXPANDIR PARA UMA FAZENDA DE UM IRMÃO NA REGIÃO DE LAGOA SANTA E NESTE CASO O FOCO DEIXA DE SER EXPERIÊNCIA PARA PRODUÇÃO DE CARNE.

AGRADECENDO PELO QUE PUDER ME AJUDAR, PAULO SERGIO GUIMARÃES

PSYGUIMARAES@IG.COM.BR


MARCELO REZENDE

OUTRO - SÃO PAULO

EM 25/06/2013

Estou iniciando uma criação de ovinos e gostaria de maiores informaçoes de qual raça criar. Meu foco é carne e estou pensando em comprar femeas santa ines e macho dorper. Mas me falaram que borregas de 1 cria podem ter problemas no parto quand cruzadas com dorper, ocorre muito isso? Esse seria o cruzamento ideal? Minha regiao é Cravinhos-SP.



Att



Marcelo Rezende
SILVIO IRAN DA COSTA MELO

NOVA ALVORADA DO SUL - MATO GROSSO DO SUL - OVINOS/CAPRINOS

EM 15/06/2008

Simplesmente brilhante a clareza e objetividade dos esclarecimentos. Adotarei o processo. Forte abraço!!
JOSÉ MAURÍCIO DE SOUZA CAMPOS

VIÇOSA - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE OVINOS

EM 04/09/2007

Caro Otávio,
Logo que seu artigo foi publicado queria parabenizá-lo.
Está na hora de você escrever um artigo mostrando resultados de cruzamento do Santa Inês com as raças citadas. Quero fazer cruzamento industrial mas tenho muitas dúvidas sobre qual raça usar no Santa Inês, já que o preço de aquisição dos reprodutores pode influenciar o resultado econômico. Aceita minha sugestão? Tenho certeza que outros criadores também estão com está dúvida.

Abraços,

José Maurício DZO/UFV - Criador
SINVALDO ALVES LIMA

SALVADOR - BAHIA - PRODUÇÃO DE OVINOS

EM 10/06/2007

Parabens pela matéria. Estou iniciando uma criação visando produção de carne e as informações contidas no artigo acima, com base em dados técnicos, muito me servirão para o meu futuro negócio.