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Resistência aos carrapatos no melhoramento de bovinos

POR FERNANDO ENRIQUE MADALENA

PRODUÇÃO DE LEITE

EM 19/02/2015

5 MIN DE LEITURA

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A resistência genética dos bovinos aos carrapatos pode ser convenientemente utilizada no combate a este parasita. No momento em que várias associações de criadores e grupos de pesquisadores se questionam sobre novos rumos na seleção de gado de leite e de corte, parece oportuno relembrar alguns resultados brasileiros sobre o assunto do título. Neste artigo gostaria de me referir a pesquisas desenvolvidas por nosso grupo, na EMBRAPA - Gado de Leite, em trabalhos que começaram 40 anos atrás.

A existência de variação genética entre bovinos, na sua resistência ao carrapato Riphicephalus (antes Boophilus) microplus, foi relatada há mais de 70 anos pelo Prof. Barisson Villares (1941), mas foram os australianos os primeiros em implementar programas de seleção para desenvolver linhagens mais resistentes, na década seguinte, tanto em gado de corte como de leite. Eles adotaram o esquema de infestações artificiais, com uma quantidade conhecida de larvas de carrapatos, seguindo protocolos estabelecidos após amplas pesquisas, definindo a idade dos animais, os níveis de infestação prévia necessários para se atingir o desenvolvimento da resistência (que é principalmente devida á imunidade), a época do ano para a infestação, e outros detalhes necessários para padronizar o desafio. Um exemplo da efetividade da seleção em aumentar a resistência, pode ser visto na Figura 1, que mostra o número de fêmeas ingurgitadas, sobreviventes à infestação artificial com 20 mil larvas, em tourinhos do projeto Australina Milking Zebu, de seleção para produção de leite, resistência ao carrapatos e tolerância ao calor. Esse projeto demonstrou ser possível melhorar simultaneamente aquelas três características.



A filosofia australiana de utilizar a variação genética para resistência ao carrapato no melhoramento dos bovinos foi adotada com bastante ênfase nas pesquisas desenvolvidas por nosso grupo, inclusive com visitas a Austrália de membros da equipe e de consultores daquele país no Brasil. O Dr. Klaus Utech, um dos principais responsáveis pelo desenvolvimento dos protocolos australianos para avaliação da resistência sob infestação artificial, nos orientou na adaptação destes protocolos às nossas condições aqui, e o Dr. R. W Hewetson, responsável pelo projeto Australian Milking Zebu, orientou em diversos outros aspectos das pesquisas.

Um resultado importante destes estudos foi a verificação de uma relação exponencial entre a carga de carrapatos por animal e o grau de sangue Holandês, em cruzamentos de Holandês/Guzerá, como se ilustra na Figura 2, que não tinha sido relatada antes na literatura. Cada ponto na Fig. 2 corresponde a contagens em 60 novilhas, realizadas imediatamente antes dos banhos carrapaticidas.



Teodoro et al (1994) não acharam diferenças estatisticamente significativas na carga de carrapatos entre as raças Holandesa, Jersey e Pardo Suíço, em cruzamentos com vacas Holandês/Gir.

Um resultado um pouco surpreendente foi a verificação de variação genética entre reprodutores da raça Holandesa, em cruzamentos com zebu, sendo a herdabilidade encontrada de h2 = 0,20 (Madalena et al 1985). Neste último estudo verificou-se também que o descarte das novilhas mais infestadas por carrapatos teria uma eficácia apenas moderada. Por exemplo, descarte do 10% das novilhas mais infestadas eliminaria 18% da população de carrapatos em novilhas Holandesas e 26% em novilhas 1/4 Holandês, sendo a resposta intermediária entre estas duas nos outros graus de sangue.

Para avaliar o efeito dos carrapatos, Teodoro et al (1998) compararam a produção de leite de vacas adultas infestadas artificialmente com carrapatos com a produção de vacas mantidas livres do parasita, através de banhos, e obtiveram um resultado intrigante: enquanto em vacas Holandesas as infestadas produziam 26% menos leite que as banhadas, em vacas F1 e 5/8 as diferenças entre ambos os grupos não foram estatisticamente significativas. Este resultado, também inédito, tem grande importância prática, e deveria ser verificado em outras pesquisas semelhantes.

Avaliações da resistência de tourinhos, sob infestação artificial, foram realizadas no projeto Desenvolvimento do Mestiço Leiteiro Brasileiro (MLB), um projeto de pesquisa e desenvolvimento visando obter informações para o delineamento de programas de seleção de gado mestiço (Madalena, 1999). Este foi o primeiro programa de teste de progênie de gado de leite no Brasil, sendo os tourinhos avaliados para resistência antes do início das coletas de sêmen, na hoje EMBRAPA - Pecuária Sudeste, em São Carlos-SP (Teodoro et al 1984). As progênies foram avaliadas para produção de leite, gordura e proteína, em fazendas participantes do programa, e em parte delas também foram realizadas contagens da carga de carrapatos em condições de infestação natural e artificial. Conceição Jr. (1997), na sua tese de doutorado na UFMG, analisou os dados de 1075 contagens de carrapatos de filhas de 25 touros mestiços, num banco de dados que incluía 2321 lactações de progênies de 136 touros. Neste trabalho houve indícios de que as cargas de carrapatos sob infestação artificial e natural representavam a mesma característica. As herdabilidades estimadas podem ser vistas na Tabela 1, estando dentro do esperado na literatura. Note-se que a herdabilidade da carga de carrapatos (0,49) é relativamente alta, possibilitando resposta rápida à seleção para resistência, como mostrado na Figura 1 acima. As correlações genéticas foram bastante baixas, indicando que os genes que influenciam a produção são diferentes dos que influenciam a carga de carrapatos, e, portanto, a seleção para uma destas características não terá maiores consequências na outra. Em outras palavras, não se espera que a seleção para resistência ao carrapatos altere maiormente a produção, nem que a seleção para produção altere a resistência. As correlações genéticas mostradas na Tab. 1 também são inéditas na literatura.



Em conclusão, parece claro que há importantes vantagens na exploração da variação genética dos bovinos na sua resistência aos carrapatos, tanto nos cruzamentos quanto na seleção de reprodutores. Este é mais um método de enfrentar o parasita, que logicamente deve ser integrado com outros, como os banhos estratégicos, a rotação das pastagens, vacinas e descarte dos animais mais infestados do rebanho. No Brasil, o gado de corte largou na frente na aplicação prática da seleção para resistência, pois há vários anos existem sumários que apresentam DEPs para a carga de carrapatos em infestação natural. A avaliação genômica é mais uma ferramenta hoje disponível para aumentar a eficiência da seleção. Entretanto, a simples avaliação fenotípica dos reprodutores, sob infestação artificial, como descrito acima, constitui um método simples, prático e eficaz, especialmente em programas em que o número de touros não é muito alto, como, por exemplo, nos programas de baseados na inseminação artificial.

Referências
Os trabalhos citados podem ser acessados livremente no site do autor www.fernandomadalena.com

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FERNANDO ENRIQUE MADALENA

Consultor autônomo. www.fernandomadalena.com

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MARCUS ANTONIO RUIZ

EM 04/07/2015

Crio bovino pantaneiro em um projeto para se identificar linhagens leiteiras e uma das qualidades da raça é a tolerância e resistência as infestações por carrapatos. No NUBOPAN- Nucleo de Bovinos pantaneiros da UEMS em Aquidauana/MS foram feitos experimentos semelhantes pelo prof. Marcus Vinicius de Oliveira e se comprovou a resistência das novilhas pantaneiras á infestação, qdo colocadas num local onde anteriormente se estabulavam vacas girolandas e a infestação era visível até nas paredes das baias.
MARIO MACHADO PASCHOAL

BRAZILÂNDIA - DISTRITO FEDERAL - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 17/03/2015

Bom dia Professor Madalena. Tenho trabalhado intensamente no DF e entorno (GO) divulgando as orientações que estão no Manual da Embrapa: Instrução Técnica para o Produtor de Leite - Cruzamento em Gado de Leite. Também vários pesquisadores do nosso Brasil, assim como o Senhor, avaliam essa instrução técnica, que diga de passagem, está bem clara e objetiva, diferentemente de outras unidades da Embrapa, que não consigo entender para quem está dirigida, pois é muito difícel de um produtor familiar tomar uma decisão com aquela quanttidade de informações contidas. A Instrução Técnica da Embrapa Gado de Leite, assinada por Roberto Luiz Teodorol sim dá o caminho, conforme a pesquisa da década de 80. Em primeira opção trabalhe com a Heterose, que, também, terá animais resistentes aos carrapatos. Tenho tido resultados para lá de esperados, pois não tem como errar, com o Cruzamento Rotacionado Simples (H x Z). As propriedades que seguiram disciplinadamente o cruzamento, já não sabem o que é banho carrapaticida a muitos anos. Fazenda limpa de carrapato, e muito raramente alguma cabeça recebe um carrapaticida pour on.

Continuo perplexo como pouco se fala sobre o assunto. A produção de leite ainda será uma alternativa para muitos produtores, principalmente dos assentamentos, mas que infelizmente não tem acesso as informações que lhes serve. Muito fácil falar. Difícel é encarar a realidade de quem mais necessita de nós técnicos. soluções simples ainda tem seu espaço (recuperação de braquiária com guandú, cruzamento rotacionado H x Gir (hoje o maior problema é acesso ao Holandês), presença com convivência, projeto silvipastoril, etc...A luta continua. Um abraço Professor e ainda não desisti de trazê-lo a Brasília.
FERNANDO ENRIQUE MADALENA

BELO HORIZONTE - MINAS GERAIS - PESQUISA/ENSINO

EM 16/03/2015

Prezada Barbara,

Muito bom! Sucesso!




































BÁRBARA CAROLINA VEIGA DE CARVALHO

PIRACICABA - SÃO PAULO

EM 16/03/2015

Olá Pessoal, tudo bem?



Estamos com um curso inédito e imperdível sobre o Controle Estratégico do carrapato bovino - Rhipicephalus (Boophilus) microplus.

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Obrigada, grande abraço!
FERNANDO ENRIQUE MADALENA

BELO HORIZONTE - MINAS GERAIS - PESQUISA/ENSINO

EM 04/03/2015

Prezada Cecília, você tem uma vida dedicada ao assunto. É isso mesmo, integrar os vários métodos de combate. Grande abraço.
CECÍLIA JOSÉ VERÍSSIMO

NOVA ODESSA - SÃO PAULO - PESQUISA/ENSINO

EM 26/02/2015

Parabéns professor Madalena, mestre e amigo,

concordo em gênero, número e grau com suas palavras. Se hoje o Nelore é o principal gado brasileiro, isto se deve, em muito, à sua enorme resistência ao carrapato.



O gado leiteiro que hoje se encontra por todo o Brasil é o mestiço Holandês x zebu, e isto também se deve a sua maior resistência ao carrapato, conforme demonstraram as pesquisas lideradas pela Embrapa na década de 80, as quais eu tive o prazer de participar e vivenciar ativamente na Fazenda Santa Mônica, da Embrapa em Valença, RJ, quando fazia estágio, e onde ficavam os animais de vários graus de sangue que faziam parte do projeto.



Tive a oportunidade, enquanto estagiária, de fazer uma pesquisa com homeopatia (bioterápico), na qual eu infestei novilhos com 20.000 larvas de carrapato, e o que me marcou neste trabalho foi a grande diferença entre a infestação de animais com diferentes graus de sangue: os mais próximos ao Holandês eram, de longe, os mais infestados. Desde então, tenho estudado a relação hospedeiro x parasita, e sempre encontrando animais mais resistentes, em todas as raças, porém, naquelas mais suscetíveis, como a Holandesa, esses animais são raros, mas existem! E o produtor deve procurá-los no rebanho, e sempre descartando os mais suscetíveis (aqueles que se infestam muito), pois são esses animais responsáveis pela infestação de todo o rebanho!



Hoje em dia, falamos em controle seletivo também para o controle do carrapato (aplicar o carrapaticida somente nos animais mais suscetíveis). Essa pode ser uma forma de diminuir a quantidade de carrapaticida que é aplicada no rebanho. Trabalhos científicos têm sido feitos com essa abordagem, mas ainda são poucos.



A eficácia de um controle estratégico (aplicar carrapaticida a todo o rebanho com espaçamento menor ou igual a 21 dias, por 5 ou 6 vezes consecutivas) é diretamente dependente de um teste de eficácia, conhecido como biocarrapaticidograma, que é realizado grátis pela Embrapa Gado de Leite. Sem esse teste fica difícil saber qual o carrapaticida mais eficaz para a sua propriedade, porque este é o maior problema que temos no campo hoje: a resistência dos carrapatos aos carrapaticidas!



Por isso, sua abordagem no controle do carrapato é muito importante!

Criar animais resistentes ao carrapato é a forma mais eficaz, econômica e ecológica que existe!



Grande abraço!
FERNANDO ENRIQUE MADALENA

BELO HORIZONTE - MINAS GERAIS - PESQUISA/ENSINO

EM 25/02/2015

Prezado Andrew, muito obrigado. Grande abraço.
ANDREW JONES

CANOAS - RIO GRANDE DO SUL - INDÚSTRIA DE LATICÍNIOS

EM 22/02/2015

Parabéns Mestre Fernando Madalena!!!
FERNANDO ENRIQUE MADALENA

BELO HORIZONTE - MINAS GERAIS - PESQUISA/ENSINO

EM 22/02/2015

Prezado Ruthele, obrigado. Concordo, a resistência genética é mais uma ferramenta, a ser integrada com as outras.



Prezado Marne, obrigado. Pois é, o carrapato que não sai de pauta, né? De fato, houve dedicação da pesquisa, como você diz, e espera-se que os resultados encontrem maior aplicação prática. Grande abraço.



Prezada Danielle, obrigado pelos comentários.
DANIELLE MARIA MACHADO RIBEIRO AZEVÊDO

TERESINA - PIAUÍ - PESQUISA/ENSINO

EM 20/02/2015

Madalena, como sempre, um excelente artigo. Simples, claro e aplicável ao dia a dia.



Parabéns!



Danielle.
MARNE SIDNEY DE PAULA MOREIRA

JUIZ DE FORA - MINAS GERAIS - PESQUISA/ENSINO

EM 20/02/2015

Dr. Madalena, parabéns pelo excelente artigo.



O Sr. traz para a discussão um tema que nunca sai de pauta e que as abordagens raramente passam por este veio de discussão.

Aliás, é bom reforçar que já houve muita dedicação da pesquisa neste tema.



Um grande abraço.   
RUTHELE MORAES DO CARMO

RIO VERDE - GOIÁS - ESTUDANTE

EM 19/02/2015

Caro Fernando, parabéns pelo excelente artigo.



Acredito que a seleção também pela resistência à parasitas é uma forma de minimizar a incidência de infestações no rebanho, mas se a propriedade não adotar algumas medidas de manejo como as descritas no artigo acima, nada adiantará para que o grau de infestação seja baixo dentro do sistema de criação, ou seja, o produtor deve ter consciência de que aquele animal é resistente mas não se anula totalmente a infestação.



Até mais e parabéns novamente.
MilkPoint AgriPoint