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Neospora em bovinos leiteiros

POR RAQUEL RIBEIRO DIAS SANTOS

PRODUÇÃO DE LEITE

EM 03/11/2008

6 MIN DE LEITURA

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Atualizado em 17/08/2021

O que é Neosporose?

A neosporose bovina é uma doença parasitária causada pelo protozoário Neospora caninum, parasito coccídio formador de cistos, que foi descrito e caracterizado pela primeira vez em cães nos EUA.

Atualmente, essa enfermidade é considerada uma das principais causas de aborto em bovinos de todo o mundo, podendo também raramente causar distúrbios neurológicos em neonatos, sendo responsável por expressivos prejuízos econômicos a rebanhos de corte e, especialmente, à pecuária leiteira.

O principal efeito negativo da neosporose bovina é o aborto, mas pode provocar também morte embrionária e reabsorção, redução na produção de leite, nascimento de bezerros com anormalidades congênitas e menor taxa de crescimento dos animais jovens.

As perdas econômicas por neosporose em bovinos não se limitam apenas aos abortamentos, mas o descarte prematuro de matrizes, a mortalidade neonatal de bezerros, os gastos indiretos incluindo honorários profissionais, gastos com estabelecimento do diagnóstico e reposição de animais também devem ser incluídos.

O N. caninum tem como hospedeiros definitivos o cão e o coiote, que eliminam oocistos não esporulados nas fezes após a ingestão de tecidos ou órgãos dos hospedeiros intermediários, como membranas placentárias de vacas contaminadas com cistos teciduais.

 

Qual a principal forma de transmissão do Neospora caninum?

O N. caninum é transmitido de forma vertical ou congênita nos bovinos, durante algumas gerações, sendo esta a principal rota de infecção no rebanho. No entanto, a transmissão horizontal que ocorre por ingestão de oocistos eliminados nas fezes do cão parece ser necessária para sustentar e introduzir novas infecções no rebanho. Além do mais, estudos epidemiológicos e observações a campo têm demonstrado evidência cada vez maior da ocorrência de infecção horizontal nos bovinos.

A transmissão transplacentária pode causar aborto, mas na maioria das vezes ocorre o nascimento de um bezerro saudável, porém congenitamente infectado. Fêmeas infectadas congenitamente podem transmitir verticalmente a infecção para suas crias em sucessivas parições.

Entretanto, ocorre um decréscimo na proporção de bezerros infectados congenitamente, em vacas com maior número de partos, que pode ser explicado pelo aumento da imunidade protetora contra a transmissão transplacentária, ou seja, a transmissão vertical é mais eficiente em fêmeas mais jovens.

Até o presente momento a transmissão de N. caninum de animal para animal não foi descrita. DNA de N. caninum foi detectado no colostro de vacas soropositivas. Esse achado sugere a possibilidade de transmissão via colostro, apesar de não ser considerada uma rota de infecção natural importante.

Poucos estudos sugerem que o sêmen de touros infectados pode ser potencial fonte de transmissão venérea do N. caninum. De qualquer modo, DNA de N. caninum pode ser encontrado no sêmen de touros naturalmente expostos; no entanto, os resultados sugerem que a viabilidade destes parasitos quando presentes é pequena.

 

Quais os sinais clínicos da Neosporose em bovinos?

Aborto devido ao N. caninum é o único sinal clínico observado em vacas adultas e pode ocorrer em qualquer estágio da gestação, sendo mais frequente entre o 5o e 6o mês de prenhes. Problemas de abortamentos associados à neosporose em rebanhos bovinos podem ser caracterizados como epidêmicos ou endêmicos.

Geralmente, abortos epidêmicos ocorrem pela infecção horizontal primária por meio da ingestão de oocistos presentes em alimentos ou água, enquanto abortos endêmicos ocorrem em animais persistentemente infectados (transmissão transplacentária endógena) pela recrudescência da infecção durante a gestação.

O estágio da gestação no qual ocorre a infecção pelo N. caninum é importante no resultado da doença. Infecções adquiridas no início da prenhez, antes do feto bovino desenvolver o sistema imune, comumente causam morte fetal e reabsorção. Infecção no meio da gestação pode resultar em aborto ou no nascimento de um bezerro persistentemente infectado. Contudo, no período final da gestação, quando o feto é imunocompetente, ocorre o parto normal, porém o bezerro pode ser congenitamente infectado.

O nascimento de bezerros infectados congenitamente que podem nascer clinicamente normais é de grande importância na epidemiologia da enfermidade por poderem transmitir a infecção a sua descendência. Vacas infectadas com o parasito têm de três a sete vezes mais chances de abortar se comparadas com aquelas não infectadas, sendo que o maior risco de abortamento ocorre em novilhas de primeira cria.

O feto pode morrer no útero, ser reabsorvido, mumificado, autolizado, morrer após o nascimento, desenvolver a doença após o nascimento ou então nascer clinicamente normal, porém cronicamente infectado. A neosporose em bezerros neonatos apresenta sinais clínicos como os membros posteriores e/ou anteriores flexionados ou hiperestendidos, ataxia, diminuição do reflexo patelar, perda da consciência, exoftalmia, assimetria ocular e deformidades associadas com lesões de células nervosas, na fase embrionária.

 

Como diagnosticar Neospora?

O diagnóstico clínico pode ser realizado através da observação dos sinais clínicos comuns a infecção por Neospora caninum. Nas fêmeas que abortaram não são observados sinais clínicos posteriores e o cio ocorre normalmente. No entanto, o aborto ou nascimento de animais infectados, com ou em sinais clínicos, pode se repetir em futura prenhez.

A partir do primeiro isolamento de N. caninum, testes sorológicos como a reação de imunofluorescência indireta (RIFI), teste de aglutinação de Neospora (NAT) e vários ELISAs, foram desenvolvidos para o diagnóstico em bovinos. A RIFI foi o primeiro teste utilizado para demonstração de anticorpos anti-N. caninum, sendo considerado o teste de referência quando outros ensaios são comparados.

 

Como controlar e prevenir a Neosporose em bovinos?

Uma das melhores formas de controlar a introdução da infecção no rebanho é a realização de testes diagnósticos e atestados negativos da doença em animais provenientes de outras propriedades.

Também como alternativas de controle são sugeridas algumas práticas de manejo relacionadas à interrupção do ciclo de transmissão do N. caninum. Uma delas é evitar a interação de cães com o rebanho, a fim de prevenir a contaminação fecal de água, pastagem; recomenda-se o isolamento dos galpões de armazenagem de sal mineral, ração e/ou silagem.

Outra alternativa de controle baseia-se na prevenção da aquisição da infecção pelos cães, evitando que os mesmos consumam restos placentários, fetos abortados, bezerros natimortos, carne e vísceras de vacas e bezerros mortos, e deve-se evitar o consumo de carcaças bovinas.

O estabelecimento de um programa de monitoramento para confirmação da ausência do N. caninum é recomendado. Este programa deve incluir testes sorológicos, de todas as vacas que abortaram e exames histopatológico e imunoistoquímico de tecidos fetais e placentários para confirmação da presença do parasito. Nas propriedades onde já foi diagnosticada a infecção o monitoramento deve ser realizado no sentido de prevenir abortos e minimizar os riscos de transmissão vertical e horizontal.

Com estas medidas a prevalência da infecção pode ser reduzida em longo prazo. A medida mais indicada para controlar a infecção congênita é a redução do número de animais infectados mediante o descarte e a reposição seletiva.

As medidas de controle devem atingir todo o rebanho, sempre em função das taxas de soroprevalência e aborto. A eliminação das vacas soropositivas pode ser a medida mais adequada se a soroprevalência for baixa, porém se for elevada, as ações a serem tomadas não devem ser tão drásticas.

Nos animais soropositivos podem ser encontrados diferentes tipos de manifestações, que influirão na decisão a ser tomada. Vacas que abortaram uma ou mais vezes devem ser priorizadas para descarte. Vacas soropositivas sem antecedentes de aborto, porém podem atuar como portadoras da infecção, devendo-se, portanto, evitar a utilização de sua descendência para reposição.

Garantir um bom estado nutricional das vacas prenhes vai ajudar a reduzir os riscos de aborto entre os animais contaminados por esse parasito. Rebanhos que utilizam a prática de transferências de embriões devem ter o cuidado de utilizar fêmeas doadoras e receptoras soronegativas.

RAQUEL RIBEIRO DIAS SANTOS

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LUCIO ANTONIO OLIVEIRA CUNHA

AIMORÉS - MINAS GERAIS - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 05/05/2020

Parabens pelo artigo
. Uma dúvida, em meu rebanho, vez por outra, vacas com historico reprodutivo normal, numa determinada lactação, apresentam cio normalmente, sem nenhum sintoma de quaisquer problema reprodutivo a ser daignosticado pelas visitas priodicas do veterinário, mas que não emprenham de jeito nenhum, seja com inseminação ou monta natural. Posso associar esse problema com alguma doença reprodutiva? Se sim, qual?
CAIO GUIMARÃES RIBEIRO

VARGINHA - MINAS GERAIS - MÉDICO VETERINÁRIO

EM 20/12/2015

bom dia! gostaria de saber se a neospora pode ser transmitida por agulhas! muito obrigado
RENATO MARIANI

PITANGA - PARANÁ - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 17/12/2015

Dra Raquel ja estamos alguns anos após a publicação de seu artigo e o problema continua!

Hoje recebi um RIFI positivo de 3 animais com resultados absurdamente altos, 3200, 800 e 12800.

Não foi feito o exame nos bezerros, pois os mesmos ja haviam sido enterrados após o aborto.

Gostaria de saber, existe alguma novidade sobre a doença que ainda não tinha sido relatada no artigo? Algum método de controle mais eficiente? Em relação a vacina, o posicionamento continua o mesmo?

Muito Obrigado.
MARCOS HELVECIO MONTEIRO JUNIOR

PIEDADE DO RIO GRANDE - MINAS GERAIS - ESTUDANTE

EM 12/05/2015

Tratamento para feto mumificado?
ANGELA

GUAXUPÉ - MINAS GERAIS - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 10/12/2013

Dra Raquel, preciso entrar em contato, não estou conseguindo um telefone para te ligar. Estou falando de Guaxupé-MG. Preciso saber se a senhora da consultoria em fazendas na area de acasalamento. Se possivel em envia um telefone por favor. Obrigada. Ângela
GUILHERME SILVA MOURA

BELO HORIZONTE - MINAS GERAIS - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 01/10/2013

Dra. Raquel Ribeiro, Boa noite,

Primeiramente parabenizo a doutora pelo artigo.

Estou enfrentando um problema com um novilha Jersey que foi inseminada com sêmen sexado por duas vezes e nas duas vezes foi confirmado a prenhez, porem entre o terceiro e o quarto mês este animal aborta, Fiz a coleta de sangue e submeti pra analise para IBR (ELISA), BVD (ELISA), Leptospirose (- Microaglutinação), Leucose (Imunodifusão em ágar gel) e neospora (ELISA). Para IBR, BVD, Lepto e Leucose o resultado foi negativo. já para neospora o resultado foi positivo (Reagente). Posso considerar este animal infectado e recomendar o descarte ou necessito de outro teste (como o RIFI)?

Desde já agradeço.

Atenciosamente,



Guilherme Silva Moura
RAFAEL MAGNUM LIMA GONTIJO LACERDA

BRAZILÂNDIA - DISTRITO FEDERAL - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 22/10/2010

parabens, tudo foi muito bem explicado!!! realmente antes de tentarmos combater um surto de abortos temos que investigar a causa !!
GILSON ANTONIO PESSOA

SANTA MARIA - RIO GRANDE DO SUL - PESQUISA/ENSINO

EM 14/12/2008

Raquel parabéns pelo artigo e pelas explicações das cartas dos leitores! Sou pós graduando em Fisiopatologia da Reprodução do Programa de pos graduação em Medicina Veterinaria da UFSM! Na minha dissertação vou estudar a neosporose em rebanhos leiteiros do RS. O tema é extremamente relevante, visto que há propriedades com alta incidência e perdas devido a abortos por N. caninum.
RAQUEL RIBEIRO DIAS SANTOS

LAVRAS - MINAS GERAIS

EM 01/12/2008

Prezada Elisabetta Raffaelli,
Tudo bem?

Como havia comentado anteriormente nesta seção, um contraponto da utilização da vacina para controle da neospora é não saber se o animal é soropositivo ou se apresenta anticorpos vacinais.

Gostaria de fazer algumas perguntas que poderão nos ajudar a diagnosticar e tentar solucionar seus problemas:

Quando você diz que houve aborto e foi diagnosticado neospora positivo, qual foi o teste utilizado? Foram realizados exames histopatológico e imunoistoquímico do feto abortado?

Não podemos considerar aborto por Neospora apenas pela sorologia da vaca que abortou; é necessário também a confirmação no feto.

Em relação às vacinas que tem utilizado, você utilizou vacinas para leptospirose, IBR, BVD? E brucelose?

Foi feito diagnóstico para brucelose nesses animais?

Qual a fonte de água da propriedade?

Foi realizada sorologia para outras doenças da reprodução?

Você acha que há morte embriónaria com reabsorção, certo? Mas já avaliou a qualidade do sêmen utilizado, se utiliza inseminação artificial, outros detalhes como a medição de nitrogênio do butijão. Quem está realizando a IA? Houve mudança de manejo ou de inseminador?

E em relação ao sal mineral? Tem sido utilizado? Foi trocado recentemente?

Como sabemos, a reprodução sofre influências de diversas áreas, então na minha opinião você deveria checar alguns desses pontos que citei acima e realizar uma sorologia dos animais para outra doença infecciosa.

Qualquer dúvida estou à disposição.

Abraços
Raquel Ribeiro
ELISABETTA RAFFAELLI

BURI - SÃO PAULO - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 27/11/2008

Prezada Dra Raquel Ribeiro,
Tenho um rebanho de 150 cabeças de gado Holandês e muitos problemas de aborto. Foi feita analise e apareceu Neospora positiva; então foi iniciada a vacinação das vacas e novilhas com a vacina importada no dia da inseminação e no dia do toque. Agora quando aparece aborto e a analise dá positiva, mas como saber se é pela vacina ou não? Aqui não tem mais cachorros e quando a gente acha restos de placenta é interrado. Vacinamos as vacas de tudo quanto existe, aplicamos antitoxinas na ração e ainda continuam abortando.

Com tantas vacinas, acho dificil decobrir a verdaderira causa. Que fazer? Os bezerros nascem sadios, mas tem voltas no cio com 40 a 60 dias da inseminação.
Atenciosamente, Elisabetta.

RAQUEL RIBEIRO DIAS SANTOS

LAVRAS - MINAS GERAIS

EM 10/11/2008


Prezado Eduardo Mensnik,

Estudos demonstraram que a transferência de embriões é uma técnica segura e eficiente de controle da transmissão vertical, uma vez que os embriões oriundos de doadoras positivas, se transferidos para receptoras negativas, rompem o ciclo da infecção congênita. Porém, o contrário pode acontecer: se ocorrer a transferência de embriões de doadoras, tanto negativas como positivas, para receptoras soropositivas, estas são capazes de transmitir N. caninum para o feto e terem a chance de abortar.

Obrigada pela participação.
Raquel Ribeiro
EDUARDO MESNIK

PRODUÇÃO DE LEITE

EM 09/11/2008

Prezada Dra. Raquel Ribeiro

Temos em Israel fazendas com ate 35% de animais soropositivos. Se uma fazenda implantar embrioes em animais soropositivos, ha alguma chance de nao abortar?

Obrigado,

Eduardo Mesnik
RAQUEL RIBEIRO DIAS SANTOS

LAVRAS - MINAS GERAIS

EM 06/11/2008

Prezado Gildo F.de Oliveira,
Tudo bem?

Muito tem se discutido sobre a utilização da vacina de neosporose bovina disponível no mercado. Em setembro estive em Curitiba no Congresso Brasileiro de Parasitologia e todos os pesquisadores lá presentes foram categóricos na não utilização da vacina disponível no mercado pela falta de dados (estudos) mostrando a eficácia da mesma, e também porque não há como diferenciar um animal positivo para a neosporose e vacinado. Além disso a vacina não garante nenhuma imunidade para o feto.

A proposta da vacina no mercado é diminuir a taxa de aborto da fazenda. Assim eu lhe pergunto, houve aborto na fazenda? Foi realizado algum exame sorológico da vaca que abortou? Houve confirmação pelo histopatólogico no feto abortado? Qual a taxa de aborto da propriedade?

Considerando os dados acima e levando em conta a baixa prevelência da doença na propriedade citada, acho que seria mais recomendado outros tipos de contole, como descarte de animais positivos, segregação de cães, utilização de exames sorológicos no rebanho. Descarte apropriado de restos placentários e de abortos.

Espero que tenha contribuído.
Obrigada pela participação.
Estou a disposição,
Raquel Ribeiro
GILDO F. OLIVEIRA LIMA

ITAÚNA - MINAS GERAIS - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 04/11/2008

Prezada Dra. Raquel Ribeiro

Queria saber a sua opinião sobre a utilização da vacina contra Neosporose em rebanho positivo mas com a prevalência muito baixa da doença.

Obrigado!
Gildo
MilkPoint AgriPoint