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Importância da condição corporal para vacas leiteiras

POR JUNIO CESAR MARTINEZ

PRODUÇÃO DE LEITE

EM 10/05/2010

5 MIN DE LEITURA

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O que faz a vaca leiteira ser única dentre outras espécies de mamíferos é a sua capacidade de mobilizar reservas corporais para nutrir a cria, ou seja, produção de leite. Essa característica é resultado de mais de 50 anos de intensa seleção genética, o que resultou em grande mudanças fisiológicas que facilitaram essa característica.

Muitos fatores afetam a condição corporal, como o parto, a idade ao parto, a estação do ano em que o parto ocorreu, o tipo de manejo que é dado à vaca, regime alimentar, tipo de dieta, dentre outros. Assim, o assunto é tão importante que recentemente foi publicado uma extensa revisão no "Journal of Dairy Science", a qual resumidamente apresentarei aqui.

Fisiologia do metabolismo de lipídeos

Os autores da revisão, depois de estudarem muitos artigos científicos, chegaram à conclusão de que a mobilização de reservas corporais, no início da lactação, é grandemente controlada pela genética do animal, sendo que as enzimas envolvidas na lipogênese estão primariamente reguladas pelo consumo de energia. Esse é o motivo pelo qual as tentativas de reduzir a mobilização de reservas corporais no início da lactação através do fornecimento de dietas altamente energéticas, nem sempre tiveram sucesso, uma vez que várias restrições alimentares ocorrem nesse período de tempo. Isso é a causa pela qual a cetose é um importante mecanismo provedor de energia para vacas em início de lactação, quando mais de 80% da glucose disponível é particionada para a glândula mamária, e os órgãos vitais não podem mobilizar ácidos graxos como fonte de energia (por exemplo o cérebro), e dependem desta oxidação para sobrevivência. Entretanto, estudos recentes indicaram uma potencial interação entre genótipo e dieta, abrindo margem para maiores estudos para elucidar esta questão.

Avaliação da condição corporal da vaca

Embora existam evidências de que por muitos séculos as vacas perdem e ganham condição corporal durante o ciclo de lactação, existe dados mensurando essa variável somente a partir dos anos 70. A condição corporal passou a ser avaliada porque o peso corporal sozinho não é um bom indicador da reserva corporal, uma vez que este é influenciado por muitos fatores, como parto, estágio de lactação, tamanho corporal, gestação, raça, etc. Em adição, a mobilização de tecidos corporais vai diminuindo à medida que o consumo vai aumentando. Mas, isso não necessariamente implica dizer que a vaca estará recuperando sua condição corporal, simplesmente porque o seu peso está aumentando, pois o aumento dos tecidos gastrointestinais e a maior capacidade de consumir alimentos mascaram esse efeito. Assim, o escore de condição corporal pode variar em até 40% para vacas de peso semelhante.

Existem diferentes metodologias para mensurar a condição corporal no mundo. No Reino Unido usa-se uma escala de 0-6 pontos. Na Austrália é comum a escala de 0-8 pontos. Na Nova Zelândia preferiu-se uma escala de 1-10 pontos. Mas, a escala mais comum é a de 1-5 pontos, proposta por Wildman no ano de 1982, nos Estados Unidos, e muito utilizada no Brasil, conforme apresenta a figura abaixo.

Figura 1. Ilustração da escala proposta por Wildman (1982).



Indiferentemente da escala utilizada, valores baixos referem-se a vacas magras, e valores altos a vacas obesas. Como este método tem grande correlação com a deposição de reservas corporais, ela pode ser usada para mensuração do tecido adiposo em vacas leiteiras.

Fatores afetando a condição corporal

Alguns fatores em nível de rebanho, como taxa de lotação, teor de carboidratos não estruturais na ração total, nível de concentrado oferecido para vacas em pastejo, sistema de manejo (confinamento vs pastejo), têm sido reportados como fatores que afetam a condição corporal. Todos esses fatores estão associados com o nível de alimentação ou tipo de dieta. Outras variáveis, como a pessoa que realiza a avaliação e a escala utilizada, são chamados de "fatores de perturbação", pois podem embutir erros na avaliação.

Pesquisas recentes demonstraram que o fornecimento de concentrado no início da lactação não reduz a taxa de perda de condição corporal no mesmo período, mas reduz a duração da perda de condição corporal. Outros fatores, entretanto, são inerentes à vaca, como o intervalo entre parto, condição corporal ao parto, idade ao parto, estação do ano no momento do parto, raça ou mérito genético, e presença ou ausência de heterose. A composição genética contribui significantemente para a variação em condição corporal entre animais.

Por muitos anos o foco principal da seleção de vacas leiteiras tem sido para produção de leite. Isso levou a um aumento na produção de leite, que não foi seguido por um correspondente aumento na capacidade de ingerir alimentos. Existe uma concordância geral de que a habilidade genética para comer é influenciada pela condição corporal ao parto no início da lactação, sendo que a maioria dos estudos apontam uma correlação negativa entre condição corporal e consumo de matéria seca.

A condição corporal também afeta grandemente a produção de leite, portanto, a correlação entre essas duas variáveis é negativa. Normalmente, vacas levemente mais magras produzem mais leite que vacas obesas, exatamente devido à capacidade de consumir alimento. Neste caso, vacas com escore de condição corporal entre 2,8 e 3,9 é considerado como sendo o ideal. O escore considerado ideal ao parto é de 3,5.

Considerações finais

Há uma concordância geral de que a condição corporal fornece uma mensuração razoável das reservas energéticas da vaca, embora o seu uso seja limitado para vacas muito magras ou muito gordas. A condição corporal ao parto é provavelmente o ponto mais importante ao longo do ciclo de lactação da vaca, pois afeta o consumo de alimento no início da lactação, a perda de reservas corporais no pós-parto, a produção de leite, a imunidade da vaca e por fim, a reprodução.

O Escore considerado ideal ao parto é considerado sendo entre 3,0 e 3,5 na escala de 1-5 pontos. Vacas que parem muito magras produzem menos leite, com menor teor de gordura, tem maior período de anestro no pós-parto, tem maior dificuldade para emprenhar. Por outro lado, vacas que parem obesas apresentam reduzido consumo de alimento, também produzem menos leite, e estão mais propensas a desordens metabólicas.

O manejo alimentar no pós parto tem pouco efeito na perda de condição corporal durante a fase de balanço energético negativo, mas é importante para evitar grandes perdas de peso, e facilita a recuperação da condição corporal após a vaca ter chegado ao seu escore mais baixo.

Fonte: ROCHE, J.P et al. Body condition score and its association with dairy cow productivity, health, and welfare. J. Dairy Sci. v. 92, p. 5769-5801, 2009.

JUNIO CESAR MARTINEZ

Doutor em Ciência Animal e Pastagens (ESALQ), Pós-Doutor pela UNESP e Universidade da California-EUA. Professor da UNEMAT.

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FERNANDO VICENTE

ASSIS - SÃO PAULO - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 23/10/2017

Boa noite, tenho vacas a pasto girolandas, com 2kg de aveia moida no cocho ao colocar teteiras, e 1kg de concentrado no fim da tarde,com media de 5 litros dia (somente uma tirada), e elas estao com bezerros de 2-4 meses, estao com escore de 4-5. Agora a pergunta, comp faço pra aumentar a quantidade de leite ?? Ja aumentei a aveia, ja aumentei o concentrado e nada. Ps: pastagem de excelebte qualidade adubada corrigida (faço reformas com soja). Obrigado
JUNIO CESAR MARTINEZ

TANGARÁ DA SERRA - MATO GROSSO - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 07/06/2010

Prezado Paulo.
Sim, esse é um tema bastante importante e merece maior destaque.
PAULO MOREIRA

PORTO VELHO - RONDÔNIA - PESQUISA/ENSINO

EM 14/05/2010

Parabéns pelo artigo! É um tema importante e pouco explorado e discutido tanto no meio acadêmico quanto técnico. O autor não aborda a importância de se observar o escore corporal no momento da mudança de grupamentos recomendada de acordo com a produção, no período da lactação. Esta observância pode manter uma vaca no grupo de maior produção mesmo que ela, em tese, tivesse de ser transferida para o grupo seguinte. Este procedimento estabelece a priorização da reprodução em em detrimento da produção.
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