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Você conhece os impactos que a sua indústria deixa no meio ambiente?

POR RAFAEL FAGNANI

ESPAÇO ABERTO

EM 17/07/2017

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Nas últimas semanas tivemos muitas notícias sobre o acordo de Paris e seus desenlaces mundo afora. Aproveitando essa vibe ecológica, vocês já imaginaram qual o impacto ambiental que a sua indústria deixa no meio ambiente? Ou ainda, qual é a quantidade de gases do efeito estufa que a produção de queijo pode emitir? Tudo isso pode ser calculado de maneira concreta e é exatamente nesse sentido que todo o setor lácteo já está caminhando. Fique por dentro desses conceitos você também!

Essa idealização nasceu na década de 90 e atualmente muitas indústrias e pesquisadores buscam calcular o rastro ecológico (ou pegada ecológica) de uma atividade ou produto. Essa demanda é proveniente da nossa própria consciência ambiental, e serve para identificar quais atividades ou processos geram mais poluição. Após essa análise, é possível determinar ações diretas para reduzir a poluição atmosférica. Esses cálculos não ficam restritos às indústrias, e hoje qualquer pessoa pode saber qual o impacto do seu estilo de vida no meio ambiente. Entre os vários índices que compõem o rastro ecológico, uma das mais usadas é o rastro de carbono, ou seja, a quantidade de gases do efeito estufa que é emitida por uma pessoa, por um produto ou por uma indústria. Você pode calcular o seu aqui.

O setor lácteo não é diferente, sendo um dos primeiros a se envolver nos cálculos do rastro de carbono. Hoje, outros setores como a indústria da carne e outras agroindústrias estão desenvolvendo abordagens similares para se alinhar e se comparar ao setor lácteo. O pioneirismo do nosso setor teve um marco importante no ano de 2010, com a publicação do primeiro guia que padronizava as definições e os cálculos do rastro de carbono para o setor de lácteos.

Esse guia é publicado pela IDF (International Dairy Federation) e é atualizado periodicamente. A última publicação foi em 2015, no boletim 479/2015 da IDF. Acesse aqui. Toda essa publicação também está alinhada com outros órgãos reguladores, como por exemplo: ISO 14040, 14044 e 14067, British Standards Institution, World Business Council for Sustainable Development, World Resources Institute e o Intergovernmental Panel on Climate Change. Dessa forma, o guia permite comparações justas, consistentes e padronizadas das emissões de carbono de indústrias e produtores de qualquer parte do mundo, exatamente por desenvolver uma metodologia internacional e harmonizada com diversos órgãos internacionais.

O cálculo do rastro de carbono envolve a metodologia de Avaliação do Ciclo de Vida, a qual avalia de forma integrada os impactos ambientais de todas as etapas envolvidas na manufatura de um produto, seja em uma fazenda ou em uma indústria. Ela pode envolver o uso da terra, da água, ou o impacto na biodiversidade. Porém, quando pondera a emissão de carbono, ela avalia o impacto de um produto ou processo exclusivamente nas mudanças climáticas do planeta. Os gases do efeito estufa são aqueles que possuem potencial para aquecimento global. Os principais provenientes do agronegócio são gás carbônico, óxido nitroso e metano. Porém, no cálculo do rastro de carbono todos esses gases são expressos em uma unidade padronizada: a equivalência em dióxido de carbono (CO2e).

Os desafios para calcular o rastro de carbono são muitos, principalmente devido às inconsistências metodológicas e variações na produção de leite. É exatamente essa lacuna que o guia IDF busca resolver. O rastro de carbono para leite e derivados provém majoritariamente da etapa agrícola, responsável por mais de 75% das emissões de CO2e. Dessa forma, as variáveis envolvidas na produção primária de leite são fundamentais para o cálculo do rastro de carbono de qualquer produto. Portanto, dependendo do tipo de produção, um mesmo queijo pode impactar o aquecimento global de forma mais ou menos intensa. Para termos uma ideia, a produtividade, o manejo alimentar e o manejo de dejetos de uma fazenda podem ser responsáveis por mais de 85% de variação no rastro de carbono, variando entre 0,37 à 0,69 kg de CO2e por kg de leite. Também se enganam os que pensam que o modo de produção antigo era mais eficiente. As práticas modernas exigem bem menos recursos para produzir uma tonelada de leite: 21% menos animais, 23% menos de alimentação animal, 35% menos de água e apenas 10% menos terras.

No Brasil temos poucos estudos que avaliam o rastro de carbono de produtos lácteos industrializados. A maioria, que também não é nada expressiva comparada a outros países, busca calcular o rastro de carbono na produção de leite. Um dos estudos concluiu que o sistema de confinamento é o que menos apresenta impactos no aquecimento global, comparado ao semiconfinamento à produção à pasto. Os pesquisadores também compararam o impacto da produção verde amarela a outros países, e concluíram que nossos índices de rastro de carbono são menores.

Para calcular os índices do rastro de carbono no seu produto ou na sua indústria, vale uma lida detalhada no boletim IDF. Após algumas horas, você vai perceber que a metodologia não é tão complicada e está toda descrita em etapas lógicas e bem detalhadas. De forma geral, as etapas envolvem o mapeamento do processo industrial, definição do escopo (incluir ou excluir as etapas pertinentes), aquisição dos dados (ponderando inclusive a conversão em carne de vacas de descarte ou de touros) e finalmente o cálculo propriamente dito.

Em relação à aquisição dos dados, os dados próprios (primários) são mais aconselháveis. Mas em alguns casos, os dados podem ser adquiridos de fontes secundárias, como artigos técnicos, científicos, etc, sempre levando em consideração os fatores temporais, geográficos e as semelhanças técnicas. Os fatores de emissão são um dos dados que devem ser coletados. Eles representam a quantidade emitida de gases do efeito estufa proveniente de uma determinada atividade. Podem ser genéricos ou detalhados, e o guia IDF recomenda a aquisição do relatório do IPCC (IPCC Guidelines for National Greenhouse Gas Inventories - Volume 4: Agriculture, Forestry and Other Land Use).

O próximo passo é a divisão conforme os diferentes produtos gerados em uma fazenda ou indústria. Como os produtos são diferentes, é necessário atribuir emissões de CO2e específicas para cada produto. Antes, também é necessário padronizar o leite em relação às porcentagens de gordura e proteína. O padrão é 4% de gordura e 3% de proteína. Assim são possíveis comparações independentes de raça ou de outros fatores que afetem a composição.

Vamos pegar o exemplo de uma fazenda que produz 1000 tonelada de leite (corrigido para gordura e proteína) por ano e exporta 0,024 kg de carne para cada kg de leite. Para a carne, foram computados os pesos vivos dos animais comercializados, exceto os que não entraram no mercado da carne, como exemplo as novilhas vendidas para outras fazendas leiteiras. O rastro de carbono geral para essa situação foi calculado em 1,4 Kg CO2e por Kg de leite corrigido:

Você conhece os impactos que a sua indústria deixa no meio ambiente?

Após a aplicação de uma fórmula (detalhada no guia IDF), chegaremos ao resultado de que 86% das emissões são atribuídas ao leite, produzindo 1.2 Kg CO2e por Kg de leite. Para carne, o valor será de 8,17 Kg CO2e por Kg de carne (peso vivo).

Para as indústrias o raciocínio é o mesmo, e deve ser aplicado inclusive nas etapas de transporte do leite. Caso as indústrias tenham informações limitadas, conhecendo apenas os valores de entrada (leite cru e energia) e saída (quantidade de coprodutos), é recomendável que a energia consumida seja baseada no teor de sólidos totais dos produtos. Veja esse exemplo de uma indústria hipotética que recebe 100 mil toneladas de leite cru ao ano e produz 12 mil toneladas de leite em pó integral e 1400 toneladas de gordura anidra anualmente. Para a produção geral, são gastos 230 mil GJ (giga Jaules) por ano.

Você conhece os impactos que a sua indústria deixa no meio ambiente?


Após a aplicação da fórmula, vamos chegar ao resultado de 228.700 GJ de energia gasta para produção de 12 mil toneladas de leite em pó. Ou 19 GJ por tonelada de leite em pó. Se a indústria for no Brasil, a energia daqui gera 0.064gCO2e/kWH. Noves fora e chegaremos à 3.38 Kg de CO2e a cada tonelada de leite em pó produzido.

Vimos portanto um resumo de como calcular as emissões de gases do efeito estufa na produção e no beneficiamento de leite e derivados. Dessa forma fica bem mais fácil saber quais processos são críticos e então, planejar meios para reduzi-los. Que tal deixar nos comentários algumas ações que diminuem o rastro de carbono e são praticadas na sua indústria ou fazenda?

Como diria o Capitão Planeta, "o poder é de vocês!". Também convido a todos a curtirem a fan page do Mestrado em Ciência e Tecnologia de Leite da UNOPAR. Até a próxima!

Referências bibliográficas

CAPPER, Jude L.; CADY, R. A.; BAUMAN, D. E. The environmental impact of dairy production: 1944 compared with 2007. Journal of animal science, v. 87, n. 6, p. 2160-2167, 2009.

DE LÉIS, Cristiane Maria et al. Carbon footprint of milk production in Brazil: a comparative case study. The International Journal of Life Cycle Assessment, v. 20, n. 1, p. 46-60, 2015.

O’BRIEN, D. et al. A case study of the carbon footprint of milk from high-performing confinement and grass-based dairy farms. Journal of dairy science, v. 97, n. 3, p. 1835-1851, 2014.

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RAFAEL FAGNANI

Rafael Fagnani é professor na UNOPAR orientando alunos no curso de mestrado em ciência e tecnologia de leite e derivados. É formado em medicina veterinária com mestrado e doutorado em ciência animal pela UEL.

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