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Compreendendo o ciclo do leite no mercado internacional

POR WAGNER BESKOW

ESPAÇO ABERTO

EM 26/02/2010

13 MIN DE LEITURA

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No Espaço Aberto de 18/02/10 propus a existência de um ciclo de três anos dos preços internacionais das commodities lácteas. Neste artigo, veremos a metodologia utilizada, detalhes sobre a provável origem do ciclo, como funciona, quão confiável parece ser e para onde parece estar nos levando.

Os ciclos são mais a regra do que a exceção

Ciclos resultam de sistemas. Um sistema é um conjunto de mecanismos funcionando em cadeia, onde uma coisa leva à outra. Para crescer e durar, todo e qualquer sistema necessita de mecanismos de regulação que, a certa altura do processo, aliviam a pressão de demanda por mais recursos - ou porque estes são limitados, ou porque seu uso excessivo causaria algum dano irreversível. Esse mecanismo se chama feedback negativo ou retroalimentação negativa. Sem ele o sistema entra em colapso (se autodestrói).

Todo o sistema equipado com feedback negativo produz movimentos oscilatórios.


Populações animais e vegetais quaisquer, pragas, doenças, hormônios na corrente sanguínea, comportamento animal ou humano, disponibilidade de pasto para o rebanho, estoques quaisquer e inflação monetária são exemplos de variáveis oscilatórias advindas de sistemas com feedback negativo. Alguns exemplos de feedbacks negativos: sensações de fome e saciedade; dor; escassez de alimento; falta de luz para a planta; cirrose hepática; bóia da válvula da caixa d'água; elevação da taxa de juros etc. Todos eles são reguladores de excessos para a sobrevivência do sistema.

Metodologia em poucas palavras

O método de análise utilizado chama-se transformada wavelet. Ele decompõe o sinal (os dados originais) em distintas ondas formadoras do movimento geral.

 

Comparo este procedimento, figurativamente, à decomposição de uma música sinfônica em sons vindos de seus vários instrumentos musicais.

Tecnicamente, o índice ANZ de preços (Figura 2, Espaço Aberto, 18/02/10) foi submetido à transformada wavelet do tipo à trous de acordo com Multiresolution Analysis of Time Series de Starck e Murtagh (2001) para discriminação das ondas, expressas em desvio padrão. Para visualização topográfica da potência das ondas e comparação do índice ANZ com o fenômeno El Niño, utilizei transformadas wavelet dos tipos Gauss e Morlet, respectivamente, de acordo com A Practical Guide to Wavelet Analysis, por Torrence e Compo (1998).

De onde vem aquela onda?

O primeiro método produziu sete ondas vindas das forças que têm determinado o comportamento dos preços. Seus períodos médios (intervalos entre cristas), seguidos dos desvios padrão em meses, foram: 3 (±0,9), 7 (±2,4), 15 (±7,2), 32 (±7,6), 41 (±3,8), 95 (±5,7) e 286 meses (desvio não disponível para esta onda por insuficiência de oscilações até o momento). Veja na Figura 4 como elas se mostram.



Figura 4. Ondas formadoras do índice ANZ de preços de commodities lácteas no mercado internacional, obtidas pela transformada wavelet, expressas em desvio padrão do índice. Números junto às linhas são seus períodos médios em meses.

Para facilitar a interpretação, essas sete forças foram agrupadas em três categorias: ondas curtas, médias e longas, resultando em períodos de 4, 36 e 96 meses, respectivamente (Figura 5), como se analisássemos os instrumentos da orquestra por cordas, sopro e percussão. A linha amarela mostra o aumento da volatilidade das ondas médias, mas note que esta tem aumentado nos três grupos (ou seja, no curto, no médio e no longo prazo).


Figura 5. Grupos de ondas formadoras do índice ANZ, obtidas da união das forças da Figura 4. Números junto às linhas são períodos médios em meses.

Conhecemos, agora, as ondas que determinam o movimento do índice ANZ, como elas se parecem, como se comportam, mas o que são e de onde veem?

Como vimos antes, o padrão oscilatório resulta de sistemas ou de subsistemas equipados com feedback negativo (com limites contra o crescimento excessivo). Isso é boa notícia, pois...

...é evidência de que o sistema maior, a grande cadeia láctea mundial, tem mecanismos internos poderosos que, até então, têm impedido seu colapso.

As ondas médias determinam o padrão de 36 meses (3 anos), que é o mais marcante da série devido a maior regularidade e volatilidade. No entanto, o que temos em nossa frente é uma combinação de vários ciclos operando em conjunto. Consequentemente, o movimento que vemos no índice é o resultado líquido dos movimentos dos vários ciclos somados. A ausência da crista 2004/05 é um bom exemplo. As forças que determinariam a crista neste período (32 e 41 meses) encontravam-se mais fracas e se anularam ao coincidir com a força oposta da onda de 95 meses (Figura 4), resultando apenas num sobe e desce das ondas curtas sobre a escalada maior da onda de 286 meses (Figura 2, Espaço Aberto, 18/02/10). Da mesma forma, o pico histórico de preços em setembro de 2007 foi um grande evento porque todas as ondas se encontravam subindo, estavam mais fortes que o normal e suas cristas coincidiram.

Embora o índice seja compilado na Nova Zelândia, numa economia globalizada, os efeitos sobre commodities no mercado internacional têm várias origens geográficas e políticas. Tendo isso em mente, ...

...proponho as seguintes hipóteses como prováveis causas para os padrões das ondas:

(a) As ondas curtas parecem se originar de variações sazonais de oferta e demanda de lácteos, tanto intra como entre hemisférios terrestres. Estas ocorrem associadas a duas importantes forças que também fazem o mercado oscilar: ambição e medo por parte dos compradores (importadores, atacadistas e varejistas). Uma expectativa de falta de leite, como extensa seca na Oceania, ou de forte aumento de demanda, como a recuperação da economia mundial, desencadeia acirrada concorrência pelos produtos e o preço sobe. Ao subir demais, sofre logo nova correção para baixo. Este é um processo permanente.

A dificuldade de antever os acontecimentos leva os compradores a tomar decisões com base num horizonte de tempo futuro que eles se sentem confortáveis, o que raramente vai além de três a sete meses.

Estabelece-se, assim, o efeito serrilhado das ondas curtas (Figuras 4 e 5).

(b) As ondas médias são mais importantes em magnitude e parecem ser mais complexas em sua origem.

Talvez a melhor explicação para as oscilações de três anos seja o tempo de formação de uma vaca em lactação.

Perspectivas de mercado são muito importantes para os produtores decidirem se mantém, diminuem ou aumentam seus rebanhos. Quando o cenário futuro é encorajador, mais animais são retidos e mais novilhas produzidas (o advento do sêmen sexado intensificou ainda mais este fator). Da decisão de inseminar uma vaca até a primeira parição de sua filha leva 36 meses (3 anos), um pouco mais ou menos, dependendo da fertilidade do rebanho. Se a decisão for segurar animais que seriam descartados, o tempo é encurtado. Se envolver a tentativa de fazer vacas-problema emprenhar, o tempo é alongado.

Perspectivas de mercado são amplamente divulgadas no mundo todo (market outlooks). Assim, a decisão de aumentar o rebanho é tomada por massas de produtores em todos os continentes, na mesma época, com as mesmas expectativas e mesmas ferramentas (com isso sobem os custos de produção) e, em três anos, todos terão mais leite. O mercado mundial é inundado pelo produto o que desencadeia uma série de feedbacks negativos. Preços aos produtores caem verticalmente, dívidas se tornam impagáveis, muitos quebram e assim por diante, levando à redução do estoque de vacas. Então, ...

...com menos leite no mercado, menores custos e novas perspectivas de demanda, o ciclo se reinicia.

É possível que este ciclo de geração da vaca seja influenciado por outras forças de similar periodicidade, mas neste momento, não as consigo enxergar.

(c) As ondas longas derivam-se de forças macroeconômicas. Uma delas parece ser a inflação, que resulta em aumentos progressivos dos preços, comportamento compatível com a onda mais longa da Figura 4, como também o é a expansão e criação de novos mercados consumidores de lácteos. Da taxa de câmbio, por outro lado, se esperaria um efeito oscilatório muito maior que o da inflação. Considera-se, também na Nova Zelândia, que o USD (dólar americano) estando forte desencoraja o mercado internacional de lácteos. Na Figura 6 encontram-se os índices ANZ em NZD (dólar neozelandês) e em USD e a taxa de câmbio entre estas duas moedas. Note que nos períodos indicados pelas elipses verdes, o USD esteve supervalorizado, mas, mesmo assim, houve grande demanda mundial por lácteos (levando a altos preços em ambas as moedas), comportamento exatamente inverso do que é normalmente esperado (visto nos demais períodos).



Figura 6. Comportamento do índice ANZ de preços de commodities lácteas (eixo da direita) frente à taxa de câmbio NZD/USD (eixo da esquerda) e períodos de aparentes anomalias (elipses verdes).

Curiosamente, numa regressão entre câmbio e preços (Figura 7), os maiores preços ocorrem nos dois extremos, quando o USD está muito baixo (elipse vermelha) ou muito alto (elipse verde). O coeficiente de determinação alto (R2=0,76) sugere que boa parte da variação do índice pode ser explicada, pelo menos estatisticamente, pelas variações do câmbio (a correlação foi de 0,87).


Figura 7. Análise de regressão entre a taxa de câmbio e o índice ANZ.

Porém, uma alta correlação entre variáveis não revela, necessariamente, uma relação causa-efeito.

Por exemplo, a correlação entre taxa de crescimento de pastagens (TCP) e contagem total de bactérias no leite (CTB) é alta no Brasil, mas a causa são as variações de temperatura ambiental influenciando a ambas e não TCP determinando CTB só porque estão altamente correlacionadas. Da mesma forma, vejo indícios de que a taxa de câmbio e o índice ANZ sejam efeitos com causas comuns e suspeito que...

...a taxa de câmbio tenha muito menor influência nos preços de commodities lácteas no mercado internacional do que normalmente se supõe, mundialmente.

Outras forças que exercem oscilações cíclicas nos preços das commodities lácteas são: políticas governamentais seguidas por políticas contrárias de governos que se sucedem (os vários pacotes de estímulo às economias e intervenções governamentais pelo mundo provavelmente terão grande impacto no sistema, em algum momento mais adiante) e a oscilação dos preços de outras commodities, em particular petróleo, soja e milho pelas ligações diretas com o leite.

O fenômeno El Niño e os preços das commodities lácteas

Nesta seção pretendo demonstrar que os preços internacionais das commodities lácteas são mais previsíveis que o fenômeno El Niño. Compare as próximas três figuras. Quanto mais próximo do padrão mostrado na Figura 8, mais previsível o sistema.


Figura 8. Exemplo de um sistema altamente previsível: (a) sinal único com ondas senóides perfeitamente regulares e (b) representação topográfica da potência das ondas vistas de cima (topos em vermelho; vales tracejados).

Na Figura 9, temos em (a) o sinal (os dados originais de temperatura do Pacífico); em (b) a decomposição das ondas vistas de cima, com seus vários períodos e potências no mapa topográfico colorido; e em (c) um teste estatístico da potência dessas ondas, que é uma visão em corte lateral esquerdo de (b). A porção que ultrapassar a linha pontilhada é estatisticamente significativa (ou seja, as ondas não se tratam de mero "ruído"). Em (b) veja que as ondas dominantes (em vermelho) se repetem em períodos de 3, 5, 10 e 16 anos.

 


Figura 9. Análise da transformada wavelet das oscilações de temperatura do Oceano Pacífico (a), mostrando o espectro de potência das ondas e seus períodos dominantes (b) e teste estatístico da significância das potências (c).

De posse desse conhecimento, agora compare as Figuras 9 e 10. Veja que a Figura 10 (b) está muito mais próximo da Figura 8 em regularidade, especialmente se olharmos por períodos. Apesar de não ser exatamente a mesma análise das Figuras 4 e 5, os períodos revelados são praticamente os mesmos nesta transformada. O gráfico (c) mostra que as ondas da Figura 10 são estatisticamente significativas, exceto as ondas curtas, com menos de 16 meses, que em (b) aparecem como "ruído" (áreas azuis).

 


Figura 10. Mesmo que a figura anterior, mas para o índice ANZ.

Apesar das irregularidades vistas na Figura 9, o fenômeno El Niño é o sistema climático com oscilações de curto prazo mais previsível de nosso planeta e as previsões de seu comportamento têm se tornado melhores a cada ano. Como o sistema formador dos preços internacionais das commodities é mais regular...

...é possível formular modelos de previsão de preços mais confiáveis que os modelos de previsão do El Niño.

A previsão do El Niño só passou a funcionar quando os pesquisadores compreenderam as dinâmicas dos sistemas associados a ele. Creio que temos a aprender com essa experiência.

E como fica o futuro?

Há muito que avançar em conhecimento deste ciclo. A proposta acima deverá ser escrutinada criticamente, colocada à prova e melhorada onde se mostrar falha. Isso estabelecerá as condições para se formular um modelo computacional preditivo para o comportamento dos preços internacionais. Até que se chegue a esse ponto, qualquer previsão é arriscada. Mesmo assim, podemos extrair algumas conclusões e delinear as tendências mais evidentes.

Sabemos, agora, porque não podemos esperar que os preços das commodities lácteas, ao subirem, permaneçam elevados, mas também sabemos que, ao caírem, não permanecerão baixos por muito tempo. Recentemente saímos de um fundo de preços e o ciclo dominante indica que estamos subindo em direção a um novo topo. De US$5.000/t de LPI caímos para US$1.700 e estamos agora oscilando próximo dos U$3.600 na Oceania. Os índices ANZ de janeiro e fevereiro ainda não foram publicados. No entanto, nestes últimos dois meses sabemos que houve uma freada na escalada. A Figura 5 indica que deve se tratar de uma correção das forças de curto prazo, que haviam subido demais (linha preta) e estão, agora, se equilibrando. No entanto, as forças de médio prazo continuam indicando subida, com as de longo prazo sustentando a tendência geral também para cima.

Ao longo dos 24 anos da série, os picos tenderam a ocorrer nos meses de setembro, a cada três anos, e os fundos centrados em abril com recuperação a partir de junho, também a cada três anos.

O último pico foi em setembro de 2007, então a expectativa seria de um pico em setembro deste ano. Como a última recuperação tardou dois meses, influenciada pela crise mundial, pode ser que o pico também atrase um pouco (com tendência a isso se regularizar, pois é o que os dados históricos mostram que ocorre).

Muitas incertezas permanecem com relação à recuperação da economia pós-crise imobiliária dos EUA. Se essas se resolverem ainda ano primeiro semestre, tudo indica que teremos novos preços recordes. Se as incertezas continuarem no segundo semestre (pouco provável), então poderá que o pico se resuma a valores apenas um pouco maiores que os atuais e que percamos a oportunidade de grandes ganhos, pois...

...a partir do final deste ano devem começar a operar forças baixistas do ciclo de três anos para culminar no próximo fundo em abril de 2012.

A grande onda da Figura 4 parece estar chegando ao seu topo, mas a verdade é que ainda não a conhecemos o suficiente. Mesmo que ela (a tendência geral de grande prazo) permaneça em fase de alta por mais tempo, a próxima queda ocasionada pelas ondas de três anos deverá ser muito importante.

Produtores, no mundo todo, assumiram muitas dívidas na última onda altista de 2007/2008, mas expectativas frustradas impediram a muitos de as saldarem. Alguns quebraram (muitos nos EUA) e outros negociaram as dívidas (como na NZ e no Brasil). Se este pico realmente chegar a valores recordes, estes mesmos produtores tenderão a assumir ainda mais dívidas, pois todos (inclusive os bancos) parecem ficar superotimistas frente a cenários tão animadores.

Isso agora seria perigoso, porque o nível de endividamento dos produtores no mundo todo já está alto demais e a próxima queda deverá ser mais forte.

Espero que este artigo seja também lido e lembrado por produtores e gerentes de bancos nessa situação, de forma que eles não caiam na armadilha da ilusão de um "novo patamar de preços" novamente. Isso não existe, mesmo em nosso mercado interno.

Um crescimento significativo e sustentável só pode resultar da identificação e posterior elevação planejada dos limites do sistema e não da insistência em desafiá-los a qualquer custo.

Agradecimentos

No desenvolvimento deste estudo recebi valiosas críticas e sugestões dos seguintes cientistas: Dr. Alvaro Romera (modelagem, DairyNZ, NZ), Daniel Conforte (gestão de agronegócios, Massey University, NZ), Matthew Newman (economista, DairyNZ) e Dr. Wayne B. Beskow (análise de sistemas, CNPq, Brasil).

Wagner Brod Beskow, Eng. Agrônomo, Ph.D. pela Massey University (NZ), pesquisador da CCGL Tecnologia (divisão de pesquisa do Grupo CCGL em Cruz Alta, RS).

WAGNER BESKOW

TRANSPONDO Pesquisa Treinamento e Consultoria Agropecuária Ltda: Leite, pastagens, manejo do pastoreio, rentabilidade, custos, gestão, cadeia do leite, indústria, mercado. palestras, consultoria, cursos e treinamentos.

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CRUZ ALTA - RIO GRANDE DO SUL - PESQUISA/ENSINO

EM 10/03/2015

Prezado Marcelo:



Este artigo de dezembro  passado revisita o tema e trás um gráfico no sentido que estás pensando:



http://www.milkpoint.com.br/mypoint/transpondo/p_precos_em_baixa_hora_de_investir_leite_ciclo_precos_previsoes_sips_beskow_transpondo_5689.aspx



A transformada de wavelet se mostrou mais eficaz neste caso. Há uma falta de estudos de seu uso para mercados.Quem sabe aí uma oportunidade?



Qualquer avanço, me interessará saber.



Abraço e muito obrigado pelos comentários e interesse.
MARCELO RIBEIRO DE ANDRADE

MANAUS - AMAZONAS - INSTITUIÇÕES GOVERNAMENTAIS

EM 02/03/2015

Olá, embora já tenha bastante tempo, parabenizo-o pelo excelente e intrigante artigo. Gostaria de saber se seria possível, fazer uma comparação da série histórica do mercado lácteo desde 2009 até ao presente ano de 2015 com o seu modelo, e discorrer em breve comentário se o comportamento corresponde ao esperado ( seu modelo).

Se puder me informar boas bibliografias para o estudo de séries temporais (wavelets, Fourier, Haar, etc) aplicadas ao mercado em geral, eu agradeceria.
RAMON BENICIO LIMA DA SILVA

NITERÓI - RIO DE JANEIRO

EM 17/04/2010

Prezado Wagner,

Parabéns pelo seu artigo, realmente impressiona. Eu já havia lido alguma coisa a respeito da transformada wavelet a uns 10 anos atrás, mas como a metodologia tradicional para resolução deste tipo de problema sempre foi usar as Transformadas de Fourier não me preocupei em aprofundar o estudo.

Ao que me parece este método tem muito da análise de harmonicos e sua influência sobre funções periodicas. Talvez influência das séries de Fourier.

Gostei muito do seu exemplo da bola presa num elástico. Já algum tempo vinha tentando elaborar um experimento mental que descrevesse o mercado de leite.

Cheguei perto com um modelo baseado num reservatório de água com sensor de nível (mercado consumidor), duas torneiras uma sendo de entrada de água fria (produção de leite) e outra de saída de água quente com sensor de fluxo(consumo de leite) e um sistema de aquecimento que supostamente tem que manter a água em uma determinada temperatura (preço do leite). O volume máximo de água que o sistema comporta não pode ser ultrapassado bem como o volume mínimo abaixo do qual o sensor de temperatura fica fora da água e não envia o sinal para o controle (produtores de leite) e ai a temperatura (preço do leite) fica completamente desregulada.

Ultimamente tenho tentado utilizar o filtro de Kalman em modelos preditivos, pois me parece mais simples uma vez que não estaremos descartando a "variabilidade" discreta da variável preço e mantemos o modelo dinâmico do sistema. O principal problema é quais variáveis usar posto que não é fácil conseguir dados precisos das váriáveis possíveis de utilização.

Realmente o trabalho está muito bem embasado.

Um grande abraço
Ramon Benicio
WAGNER BESKOW

CRUZ ALTA - RIO GRANDE DO SUL - PESQUISA/ENSINO

EM 10/03/2010

Prezado Claudio Winkler:

É exatamente este tipo de raciocínio e indagações que levantas que nos permitirão chegar num modelo preditivo.

Primeiro, devemos lembrar sempre que o ciclo trata dos preços das commodities, não do preço ao produtor brasileiro. Este tende a se aproximar cada vez mais daqueles, mas ainda são coisas diferentes. Na NZ, como cerca de 90% do leite é exportado, preço de commodity é praticamente sinônimo de preço do leite aoprodutor (como ocorre com a soja no Brasil).

Quando é que os preços das commodities lácteas estão mais atraentes, ou quando que eles inspiram maior confiança e vontade de se investir no setor? Quando estão bastante altos. Isso ocorre no terço superior da crista (alguns meses antes, durante e logo após a queda). Ninguém percebe a queda. Ela sempre parece mais uma "leve correção".

Nesses meses é quando as loucuras acontecem e é, de acordo com a HIPÓTESE que levanto (como bem notaste) um período quando os produtores do mundo todo decidem fazer o que podem para terem mais vacas produzindo (diminuem descartes, inseminam quem não mais seria inseminada, insistem com vacas que custam a emprenhar, adotam sêmen sexado quando antes não, etc.). Compras e importações também são importantes, pois mais que simples troca de mãos, elas estimulam criadores a produzirem mais do que precisam.

Na média, três anos após vem o fruto desta decisão, só que tarde demais, obviamente, pois logo após a decisão de aumentar o rebanho, passa varrendo os pés de todo mundo a queda repentina de preços. Primeiro ninguém crê, depois é esperança de que as coisas vão melhorar logo, depois a choradeira (chegamos ao fundo do poço). E vem a quebradeira.

Só que, em geral, a quebradeira é troca de mãos. Grande parte dos animais extras, planejados e concebidos na última crista, está se desenvolvendo. Abate de animais produtivos é restrito aos EUA.

O que ocorre? Estão aí os números mostrando: o mundo está cheio de novilhas em 2010. Nos EUA o número de novilhas aumentou como nunca!! E vão entrar em produção este ano. Aposto que temos o mesmo no mundo todo, só que lá o USDA monitora isso estatisticamente.

Por que aumentou? Fruto da última crista...

Então, quando os produtores, no afã de aproveitar bons preços, decidem aumentar o rebanho, na colada vem o resultado de uma decisão semelhante tomada pelo mundo três anos antes. Não é incrível? E 3 anos depois se repete novamente. É uma hipótese. Veremos...

A tua sugestão de correlacionar com outros dados, como população de novilhas é uma forma de se verificar esta hipótese. Sem dúvida estás antevendo a próxima fase deste estudo, seja lá quem for fazê-lo ;-)

Um grande abraço, parabéns pela clareza de idéias, obrigado pelas palavras e pela participação. Contribuições como essas valem ouro.

Wagner Beskow
CLAUDIO WINKLER

CARAMBEÍ - PARANÁ - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 09/03/2010

Sr. Wagner, primeiramente gostaria de parabenizá-lo pela análise. Já havia visto que colocaste alguns pontos a respeito no dairyforums.com, o que havia me intrigado. "De onde será que ele tirou isso?!?" eu pensava. Vendo seu artigo de 18/02, e especialmente agora, cada vez me fica mais claro como sua análise realmente faz sentido. Mas o que mais me intrigou, obviamente, desde o princípio, foi a onda média, com comprimento de 36 meses. E fico pensando, será que a hipótese que propuseste realmente é a principal responsável?

Não estou dizendo que não seja, até concordo com ela. Mas penso que: se as novilhas que entram em produção logo após o ponto de maior amplitude da onda são responsáveis pela queda nos preços, e caso elas sejam o resultado de investimentos em inseminações 36 meses atrás, estes investimentos não teriam sido feitos também já após o pico? Não faz muito sentido investir quando os preços começam a cair. Talvez devêssemos considerar então o tempo para que as novilhas atinjam seu pico de lactação como alguns meses a mais, algo em torno de 38-42 meses, não? Ou este ´delay´ seria causado exatamente por este "efeito retardado de resposta" que mencionas no post anterior? Vai-se um certo tempo até o produtor perceber que a hora já passou, etc?

Enfim, pra não complicar muito, queria te perguntar: é possível estabelecer uma relação clara entre a o índice ANZ (figura 10a) e a quantidade de vacas responsáveis pela produção do leite incluído no cálculo destes índices? Não sei se tais dados estão disponíveis, mas se houver tal correlação, reforçaria muito sua hipótese, ou pelo menos, mostraria que a inclusão de novas matrizes é o principal fator causador desta "onda média".
WAGNER BESKOW

CRUZ ALTA - RIO GRANDE DO SUL - PESQUISA/ENSINO

EM 05/03/2010

Prezado Antônio E. Silva:

Entendo o que colocas. Com base no comportamento do ciclo, me parece que o sistema tem uma fase aparentemente inelástica, mas que, no fundo, ele é elástico até demais.

Imaginemos uma bola de madeira pesada, em repouso no chão e amarrada a uma correia de borracha. Inicialmente a correia é puxada para cima (aumento da demanda) e só o que se percebe é que a tensão na correia aumenta (o sistema não tendo como responder com produção na mesma proporção, os preços sobem). A bola permanece parada. Até aqui estamos juntos em termos de efeito e aparente inelasticidade.

Só que a força (demanda) continua a aumentar e a correia a esticar (preços a subirem fortemente) até que num determinado momento a bola é levantada do chão (a produção estimulada no início começou a aparecer; os preços estão em pico máximo) e, ao romper a inércia, adquire grande velocidade na subida (a suba da bola do exemplo representa preços caindo abruptamente, com o alívio da tensão na correia).

A bola sobe proporcionalmente à força que tinha sido exercida na correia (estímulo, perspectivas que se tinha, disponibilidade de crédito, sucesso tecnológico resultando em mais leite por vaca e por hectare, leite em novas fronteiras agrícolas etc.) até que se esgota a energia cinética da bola, ela para de subir e inicia uma queda livre ao chão. A chegada ao chão representa preços no fundo do poço.

Produtores quebram, novilhas ficam mais baratas, custos de insumos caem, estoque de lácteos diminuem e começa a força na correia novamente...

O que temos, então, seria uma "oferta com efeito retardado de resposta", que acaba se tornando elástica a ponto de causar danos.

Enquanto conseguirmos aumentar produção por vaca e por área como estamos conseguindo e enquanto tivermos isto e/ou mais áreas a explorar, a bola vai continuar subindo e caindo cada vez mais violentamente.

Está aí uma nova forma de dizermos as mesmas coisas que os gráficos estão dizendo.

Obrigado pela contribuição. É ótimo poder trocar este tipo de idéias com alguém sintonizado na mesma frequência (também, produtor de leite e economista!!!).

Grande abraço,

Wagner Beskow
ANTÔNIO ELIAS SILVA

CAMPO ALEGRE DE GOIÁS - GOIÁS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 05/03/2010

Obrigado pela resposta, Sr. Wágner.

Com efeito, as ondas longas já internalizam a expansão do nº de consumidores no mundo. Ainda acredito, porém, que pode haver pressão de alta pela crescente diminuição da elasticidade da oferta de leite no futuro; i.e., a oferta não poderá responder tão prontamente mais a um aumento de preço porque em vários locais do globo, a Nova Zelândia inclusive, não se pode mais aumentar a produção por conta da escassez de mão-de-obra. Isso já acontece a olhos vistos em Goiás. Muitos produtores estão fazendo jornadas reduzidas de 6 horas para conseguir mão-de-obra. Em outros países produtores, aliado a esse fator, existe escassez de terra. Poder-se-ia dizer que o problema de pastagem pode ser resolvido com confinamento. No entanto, para produzir raçaõ, precisamos também de terra. A não ser que haja um grande breakthrough tecnológico (como a revolução verde dos anos 60, por exemplo), a dificuldade de produzir alimentos, principalmente leite, por ser intensivo em mão-de-obra, será crescente.
WAGNER BESKOW

CRUZ ALTA - RIO GRANDE DO SUL - PESQUISA/ENSINO

EM 04/03/2010

Prezado Antônio E. Silva:

Aproveito teu comentário inicial para fazer o seguinte resumo do estudo que pode facilitar a compreensão ou estimular algum interessado que não o tenha lido, a ler:

- Quanto mais avançar a consolidação do Brasil no mercado internacional de lácteos, mais importante os preços lá de fora para todos nós.

- Há três movimentos básicos nos preços internacionais das commodities lácteas.

- Um, de ondas curtas, é um sobe e desce de poucos em poucos meses, aparentemente devido às variações sazonais de oferta e demanda e da incapacidade dos compradores enxergarem corretamente além de três a sete meses no futuro (super-expectativas são logo corrigidas).

- Outro, de ondas médias, que se repete a cada 36 meses, onde uma variável importante parece ser o ciclo de formação de uma vaca. Quando se completa, todo o mercado mundial é inundado por mais leite do que consegue absorver, pois os produtores do mundo todo responderam a mesma perspectiva de bons preços, com a mesma estratégia, no mesmo período.

- E, por fim, por ondas de longo prazo, que refletem fatores macroeconômicos, como expansão do mercado mundial, vertical e horizontalmente, políticas e contra-políticas econômicas, inflação e câmbio (quanto a este, o artigo mostra não ser tão determinante assim, como se pensa).

- Então, mostro quão confiável parece ser o modelo proposto e ilustro que parece ser mais confiável que as previsões do El Niño.

- Ressalto as seguintes tendências para o futuro, com base nas ondas: novo pico de preços a partir de setembro 2010 (podendo atrasar um pouco); início de uma fase de baixa a partir do final deste ano; com fundo centrado em abril de 2012.

- A principal mensagem é que todos fiquemos alerta contra a crescente volatilidade dos preços lá fora e que não nos iludamos com "novos patamares de preços", pois o estudo mostra que isso não existe. A norma é sobe e desce mesmo.


Assim, Antônio, concordo contigo e faço alusão ao fator crescimento do mercado mundial. Tu colocaste muito bem este ponto e é, sem dúvida, um fator importante por traz das ondas longas.


Um grande abraço e obrigado pela mensagem.

Wagner B. Beskow

ANTÔNIO ELIAS SILVA

CAMPO ALEGRE DE GOIÁS - GOIÁS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 03/03/2010

Wagner, muito bom seu artigo, ainda que um pouco complexo. Acho que uma análise do crescimento da população asiática e africana entrante no consumo de leite poderá jogar novas luzes neste seu trabalho. Considerando que a população asiática beira 3 bilhões, e supondo que perto de meio bilhão não deve consumir quantidade adequada de leite, o ritmo de entrada dessa população no consumo de leite pode determinar o aumento da demanda mundial. Da mesma forma, a população africana deve estar próxima de um bilhão, e cerca de meio bilhão não deve consumir leite de forma suficiente hoje em dia. Então, estamos falando de um bilhão de pessoas nesses dois continentes carentes que poderão entrar no mercado consumidor nos próximos anos. Por outro lado, a oferta não parece ser tão elástica, haja vista a escassez crescente de mão-de-obra no campo no mundo todo e o aumento do preço de grãos para ração. Então, creio que se os países asiáticos continuarem com um ritmo forte de crescimento e os países africanos lograrem decolar nas próximas décadas, os preços do leite continuarão em trajetória ascendente no longo prazo.
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