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Como seria um mundo sem vacas?

ESPAÇO ABERTO

EM 14/12/2020

19 MIN DE LEITURA

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E se acordássemos um dia e todas as vacas leiteiras do planeta tivessem sumido? Quais seriam as implicações nutricionais, ambientais, econômicas e sociais de um mundo sem vacas?

 

Se a Covid-19, que atualmente afeta o mundo, nos ensinou alguma coisa até agora, é que mudanças em grande escala no comportamento humano podem ter um grande impacto em vários indicadores ambientais. Os primeiros relatórios mostraram quedas de quase 25% nas emissões de gases de efeito estufa (GEE) em grandes regiões emissoras, como Estados Unidos, China e União Europeia durante as primeiras semanas da pandemia, devido principalmente às quedas no uso de transporte, paralisações das indústrias e o concomitante declínio na demanda por petróleo.

Embora ainda não se saiba qual o impacto que essas mudanças nas emissões de curto prazo terão sobre as mudanças climáticas globais, poucas pessoas com entendimento do assunto argumentariam que, se quisermos afetar significativamente a crescente crise climática de forma positiva no futuro, os seres humanos precisarão alterar seus hábitos a longo prazo. Questões como a maneira como aquecemos nossas casas, os meios de transporte que empregamos e os alimentos que comemos estão sob escrutínio mais pesado do que nunca, e com razão. A autorreflexão é um bom primeiro passo em direção à mudança, portanto, esperamos que os debates acalorados que ocorrem em várias frentes sejam instrutivos enquanto buscamos ajudar nosso planeta doente.

Juntamente com a crescente percepção de que muitos seres humanos em todo o mundo sofrem de desnutrição coletiva em todas as suas formas – desde atrofiamento e definhamento principalmente (embora não exclusivamente) em países em desenvolvimento até obesidade mórbida em outros lugares – muitas autoridades de saúde e organizações estão tendo uma visão mais crítica de nosso sistema alimentar global e as mudanças que precisaremos implementar para melhorar a saúde das pessoas e também do meio ambiente. Certamente o equilíbrio entre a saúde humana e a climática é delicado e a busca de soluções continuará sendo um dos maiores desafios do século XXI.

Com isso como pano de fundo, pensamos que seria interessante tentar um pequeno experimento mental: e se você acordasse amanhã em um episódio de Twilight Zone (série de TV, Além da Imaginação no Brasil) e todas as vacas da Terra tivessem morrido? Elas não pastavam mais em terras pastoris na Nova Zelândia, não perambulavam livremente pela Índia ou não forneciam sustento para tribos nômades na África ou na Mongólia ou comunidades inteiras em Wisconsin. Certamente, esta questão se tornou um grito de batalha político nos Estados Unidos, de ativistas invadindo o palco em comícios presidenciais com cartazes dizendo "morte ao leite", a políticos acusando seus oponentes de fomentar "um mundo sem vacas".

E se acordássemos um dia e todas as vacas da Terra tivessem sumido?

 

Implicações nutricionais de um mundo sem vacas

Para os moradores da cidade, os efeitos mais perceptíveis seriam vistos nos supermercados, em nossas geladeiras e em nossas dietas. Entre outras coisas, não teríamos mais acesso aos cortes de carne selecionados que muitas pessoas preferem, mas isso é uma história para outro dia. Para o propósito deste experimento mental, iremos focar principalmente em vacas leiteiras (embora seja importante notar que em alguns países as vacas leiteiras abatidas e excedentes podem representar aproximadamente 50% da carne produzida.

Se as vacas leiteiras deixassem de habitar a Terra, não teríamos mais acesso ao leite ou aos incontáveis derivados que ele gera. Não teríamos mais manteiga, queijos, iogurtes, kefirs ou sorvetes e receitas de muitas refeições básicas que requerem derivados lácteos para seus benefícios funcionais (textura, paladar, sabor etc.) teriam que ser alteradas. Globalmente, os laticínios fornecem 5% da energia da dieta. Sem ele, perderíamos uma fonte importante de minerais e vitaminas (vários dos quais são nutrientes sub-consumidos de interesse público), incluindo cálcio, fósforo, zinco, potássio, vitaminas A e D (em regiões do mundo que fortificam o leite com vitamina D), riboflavina e vitamina B12, e proteína de alta qualidade, bem como uma das fontes alimentares mais baratas e mais ricas em nutrientes na dieta.

E, particularmente no que diz respeito à nutrição das crianças, foi demonstrado que as bebidas vegetais alternativas ao leite simplesmente não são nutricionalmente suficientes para preencher este espaço deixado pelos lácteos. Um documento de posição recente da Sociedade Norte-Americana de Gastroenterologia Pediátrica, Hepatologia e Nutrição deixou claro que as bebidas à base de plantas são substitutos pobres dos laticínios, indicando que o leite de amêndoa e arroz contêm 2% e 8%, respectivamente dos equivalentes de proteína encontrado em um copo de leite de vaca, entre outras coisas.

Dito isso, poderíamos subsistir nutricionalmente em um mundo sem vacas e ainda nos manter saudáveis? Claro, muitos de nós poderiam, se necessário. Algumas pessoas optam por não consumir laticínios por motivos pessoais ou de saúde/alergia e, com um planejamento alimentar cuidadoso, certamente podem viver uma vida saudável e cheia de escolhas.

Para outros, entretanto, substituir os laticínios como um alimento básico saudável não é tão fácil quanto pode parecer. Os lácteos são a principal fonte de uma das proteínas da mais alta qualidade e mais acessíveis na dieta humana, e nas regiões em desenvolvimento do mundo onde as proteínas de alta qualidade são escassas, os laticínios podem literalmente salvar vidas. Para a pessoa média na maioria dos países desenvolvidos que vive em um “ambiente de fartura” nutricional, este pode ser um conceito difícil de entender. Mas em países como a Índia, onde estima-se que até 70% da população sofre algum grau de desnutrição proteico-calórica e 40% da força de trabalho sofreu de nanismo quando crianças, essa noção é muito real.

Em países em desenvolvimento que têm acesso a produtos lácteos seguros e baratos (ou seja, Quênia, Vietnã, Camboja, Ruanda, Bangladesh), as taxas de nanismo e desnutrição são comprovadamente mais baixas do que em países que subsistem principalmente de dietas à base de vegetais e grãos, principalmente nas regiões da África Oriental e Meridional, Centro-Sul da Ásia (incluindo a Índia) e partes da América Central. A qualidade da proteína importa! Pesquisas indicam que os requisitos de aminoácidos essenciais podem ser atendidos com uma ingestão calórica mais baixa quando os aminoácidos são fornecidos por meio de proteínas de alta qualidade em comparação com proteínas de qualidade inferior, com alguns pesquisadores sugerindo que uma pessoa poderia consumir cerca de 20% a 30% menos proteína cada dia com lácteos na dieta do que com alimentos básicos de baixa qualidade à base de grãos ou dietas veganas. O uso mais eficiente de calorias pode ter implicações no uso de terras agrícolas também.

E quanto ao argumento de que vacas são conversores fracos de proteína? Algumas estimativas sugerem erroneamente que as vacas devem ingerir mais de 6 kg de proteína para produzir 1 kg de proteína comestível humana. Deve ser lembrado, no entanto, que as proteínas que as vacas tendem a ingerir – via feno, pastagem, silagem e outros produtos fibrosos que consomem enquanto pastam – são em grande parte não comestíveis por humanos e de qualidade muito inferior do que a proteína produzida pelas vacas. Na verdade, estima-se que cerca de 86% da dieta consumida pelo gado não é consumida por humanos.

Como exemplo, na Califórnia, as vacas consomem mais de 17,2 milhões de quilos de casca de amêndoa por ano, um subproduto da indústria de amêndoas que, de outra forma, acabaria em aterros. Ao fazer isso, as vacas não apenas nos salvam do descarte de um resíduo praticamente não comestível, mas também nos ajudam a criar uma nutrição humana "dois por um". Não apenas os humanos podem se beneficiar das amêndoas colhidas no processo, mas também se beneficiam do leite produzido pelas vacas secundário ao consumo das cascas.

Também deve ser lembrado que, à medida que a genética e o manejo animal avançaram ao longo dos anos, também avançou a capacidade da vaca leiteira de converter proteínas não comestíveis em leite comestível de alta qualidade. A pesquisa indica que, à medida que nossa capacidade de criar vacas mais eficientes e criar opções de alimentação mais saudáveis melhorou, mais da ração consumida pelas vacas é usada para a produção de leite em vez de manter a saúde e o peso do animal. Da mesma forma que um automóvel altamente eficiente pode viajar longas distâncias com menos combustível, vacas mais eficientes podem gerar mais leite com menos alimentos e menores intensidades de emissão.

Com certeza, essa situação difere muito de região para região. Vacas leiteiras na América do Norte, Europa e Oceania são muito mais eficientes e produzem muito mais leite por unidade de GEE do que vacas em outras partes do mundo. No entanto, esta situação sem dúvida melhorará no futuro, permitindo que os países em desenvolvimento “recuperem o atraso” à medida que a tecnologia se torna mais disponível para eles, o que por sua vez melhorará ainda mais a pegada global do setor de lácteos.

 

Implicações ambientais de um mundo sem vacas

O que dizer da ideia de que se as vacas não pastassem mais na Terra, como fazem em muitas partes do mundo, teríamos milhões de hectares ao redor do globo para cultivar? O fato é que cerca de 70% das terras atualmente usadas no mundo para criar vacas são pastagens permanentes, o tipo de terra que, devido à topografia, qualidade do solo ou outros fatores, não serviria como terra de cultivo viável na melhor das circunstâncias. Estima-se que aproximadamente apenas 3% da terra usada globalmente por vacas leiteiras é terra cultivável em potencial. Se as vacas desaparecessem do planeta, grande parte da terra que atualmente faz parte de um sistema alimentar vibrante e produtivo se tornaria essencialmente improdutiva e/ou altamente dependente de fertilizantes manufaturados (em oposição ao estrume de vaca, que pode fertilizar os campos com eficácia) para alcançar uma produção agrícola viável.

Estima-se que aproximadamente apenas 3% da terra usada globalmente por vacas leiteiras é potencial terra arável. Muitos ambientalistas apontam que, se as vacas não existissem mais, nos livraríamos de uma fonte importante de GEE. E embora seja verdade que as vacas são uma fonte ambiental de metano, óxido nitroso e dióxido de carbono (CO2), a quantidade e o tipo de GEE produzido por vacas leiteiras precisam ser mantidos no contexto das emissões totais de GEE de todas as fontes. É importante notar também que a forma como a produção de GEE é expressa pode ter um grande impacto em como um animal ou espécie é percebido como uma ameaça ambiental. Quando as intensidades de emissão são expressas por quilograma de proteína que um animal produz (em vez do kg CO2-eq mais frequentemente usado, que não leva em consideração os produtos finais altamente nutritivos da produção de leite), as vacas leiteiras se saem muito bem, mais alinhados com produção de frango e suíno do que com a maioria dos pequenos ruminantes ou vacas de corte.

Globalmente, toda a agricultura é responsável por 24% das emissões de GEE. Dentro desse total, a produção de leite é responsável por 2,7% (3% se você fatorar o GEE adicional produzido quando vacas mais velhas não são mais capazes de produzir leite de forma eficiente e são abatidas para carne). No entanto, de acordo com relatórios globais e dos EUA de 2016 da Agência de Proteção Ambiental (EPA) americana, o setor de transporte nos Estados Unidos é responsável por aproximadamente 28% das emissões de GEE (14% globalmente), energia por aproximadamente 28% (25% globalmente) e indústria, 22% (21% globalmente). Além disso, a EPA estima que nos Estados Unidos o impacto da agricultura na produção de GEE é ainda menor do que as estimativas globais: toda a agricultura dos EUA contribui com 9% dos GEE, com a pecuária contribuindo com 3,9%. Consequentemente, a produção de energia nos Estados Unidos (que abrange a produção de eletricidade/calor, transporte, manufatura e outros setores) é responsável por cerca de 4 a 6 vezes mais emissões de GEE do que o setor agrícola. Globalmente, o número está mais próximo de 3:1. É claro que a contribuição dos lácteos para as emissões globais de GEE, embora não seja sem consequências, é muito menor do que a das indústrias de maior emissão.

Também digno de nota é a questão frequentemente esquecida e mal compreendida dos tipos de gases de efeito estufa emitidos por várias fontes produtoras de carbono. De acordo com muitos especialistas ambientais, comparar os GEEs emitidos pelo gado aos combustíveis fósseis é uma como comprar maçã com laranja. O principal GEE produzido pelo gado é o metano, um gás potente, mas de vida relativamente curta, que acaba sendo destruído na atmosfera. O dióxido de carbono, o principal gás dos combustíveis fósseis, tende a se acumular na atmosfera e a exercer um efeito de aquecimento décadas após ser emitido. A longo prazo, a remoção de combustíveis fósseis do solo e seu uso subsequente como combustível são considerados pela maioria como sendo muito mais prejudiciais ao meio ambiente do que o metano produzido pelo gado, grande parte do qual é destruído ou reciclado na atmosfera.

Além disso, a relação simbiótica que existe entre a vaca e a terra no que se refere ao ciclo do carbono e ao manejo de nutrientes é frequentemente subestimada. Não apenas a gramínea e a folhagem onde as vacas pastam servem como um sumidouro que pode sequestrar muito do carbono produzido pelas vacas, mas também os dejetos produzidos são em si uma fonte de sequestro de carbono. Se for adicionado de volta às nossas terras agrícolas, podemos armazenar ainda mais carbono. Uma vaca produz cerca de 64 litros de estrume por dia, fertilizante suficiente para cultivar aproximadamente 38 kg de tomates. Sem as vacas, os agricultores teriam de depender ainda mais fortemente de fertilizantes sintéticos para ajudar suas safras a crescer, o que não é uma situação ótima em termos ambientais (na verdade, muitas das emissões incluídas no cálculo de GEE do leite vêm da contribuição de fertilizantes sintéticos). Além disso, as tecnologias mais recentes, como os sistemas digestores anaeróbios, permitem que os agricultores e outros empresários gerem eletricidade a partir de esterco e abasteçam carros e caminhões. Um mundo sem vacas nos privaria dessa fonte de energia muitas vezes subestimada, bem como do fertilizante orgânico e dos nutrientes que ela produz.

Já que estamos sendo provocativos, por que o gado, que é uma fonte de nutrição humana e outros aspects para qualidade de vida, é frequentemente apontado como um “infrator” de GEE, enquanto outras espécies, como cavalos e animais domésticos parecem ter um passe livre? Existem 9 milhões de vacas leiteiras e cavalos nos Estados Unidos, mas mais de 160 milhões de cães e gatos, e estima-se que essas criaturas carnívoras consomem aproximadamente 30% dos alimentos e produzem 30% das fezes dos humanos. Estima-se que cães e gatos produzam aproximadamente 64 milhões de toneladas de metano e óxido nitroso por ano. No entanto, a maioria dos amantes de animais de estimação nunca consideraria as implicações de viver em um mundo sem cães e gatos.

Dito isso, não queremos minimizar o fato de que atualmente as vacas são produtoras líquidas de GEE. Mas, por meio da criação para produzir vacas mais eficientes, melhores práticas de manejo agrícola e o advento de tecnologias que podem diminuir a quantidade de carbono emitida e aumentar a quantidade de carbono armazenado no solo, o futuro da pecuária e seu impacto sobre o ambiente parece promissor. Com um manejo adequado, não há razão para que o setor de lácteos não possa se tornar um produtor líquido zero de carbono nas próximas décadas, uma situação que certamente tornaria mais "palatável" para humanos e ruminantes as vacas viverem simbioticamente na Terra, como eles têm feito quase desde o aparecimento do homem.

 

Implicações culturais e econômicas de um mundo sem vacas

Finalmente, as áreas onde os humanos sentiriam mais agudamente o impacto de um mundo sem vacas são as regiões, principalmente rurais, onde as vacas pontilham a paisagem e servem como a principal fonte de renda e um ponto de contato cultural chave para a comunidade. Essas regiões existem predominantemente em países em desenvolvimento (ou seja, na Índia, Ruanda, Tanzânia, Quênia e Bangladesh), mas não exclusivamente (na França, Estados Unidos, China e Nova Zelândia).

Aproximadamente 600 milhões de pessoas em todo o mundo vivem em cerca de 133 milhões de fazendas leiteiras, a maioria pequenas fazendas que abrigam em média 2 a 3 vacas. Outros 400 milhões de pessoas dentro e fora dessas comunidades agrícolas obtêm seu sustento da indústria de lácteos. Imagine os efeitos causados em cidades e regiões inteiras se as vacas desaparecessem da paisagem. Comunidades que dependem de vacas perderiam sua vitalidade, bem como uma “apólice de seguro” contra colheitas ruins ou outras catástrofes que exigem acesso imediato a comida ou dinheiro. E em áreas do mundo em desenvolvimento, onde as mulheres têm poucas oportunidades de possuir terras, mas podem possuir gado e onde a pecuária leiteira oferece a elas a chance de desenvolver e liderar negócios e gerar fluxo de caixa diário, essas opções seriam severamente restringidas. Atualmente, 37 milhões de mulheres em todo o mundo lideram fazendas leiteiras e cerca de 80 milhões de mulheres estão empregadas no setor de lácteos. Questões como essas são frequentemente esquecidas por pessoas que vivem em áreas não leiteiras e predominantemente ocidentais, mas suas implicações são reais.

Além disso, à medida que a população global se aproxima de 10 bilhões de habitantes até 2050, a necessidade de proteínas de alta qualidade e outras fontes de alimentos altamente nutritivos se tornarão mais valiosas do que nunca. Como compensaríamos essa deficiência nutricional em um mundo sem vacas? Em suma, não é fácil. Mesmo os autores do recente relatório EAT-Lancet, um documento que pretende ser um plano global de como as pessoas devem viver e comer no futuro para sustentar a saúde humana e ambiental, indicam que, na ausência de laticínios e outros produtos de origem animal, as pessoas precisarão tomar suplementos para compensar as deficiências nutricionais em dietas baseadas em vegetais.

 

Conclusão

Como seria um mundo sem vacas? Do lado positivo, as emissões de GEE podem ser menores, porém, à medida que mais e mais produtores de leite em todo o mundo se comprometam a reduzir as emissões por meio de uma combinação de melhor manejo da dieta e alimentação, uso de esterco e fertilizantes, uso mais inteligente de energia na fazenda e melhor saúde animal e práticas de criação, este benefício se tornará menor no futuro. E embora todos desejemos comer de forma mais sustentável, vale a pena nos lembrar de que é tolice pensar que escolher grão-de-bico que chega ao supermercado vindo do outro lado do mundo em vez de um queijo de origem local é uma escolha mais sustentável.

Do lado negativo, um mundo sem vacas sem dúvida tornaria mais difícil para nós alimentarmos adequadamente uma crescente população global. As economias e culturas de comunidades, estados e países inteiros sofreriam tremendamente se essa importante fonte de renda e segurança fosse removida. Produtos alimentícios que proporcionam alegria à vida de muitas pessoas não existiriam mais.

À medida que buscamos maneiras criativas de alimentar os habitantes da Terra no futuro, com um impacto mínimo sobre o meio ambiente, precisamos ter certeza de não “jogar o bebê fora junto com a água do banho”. Restringir o que foi por milhares de anos uma forma de nutrição de alta qualidade e um modo de vida para milhões de pessoas provavelmente não ocorreria sem consequências indesejadas. Se a pandemia de Covid-19 nos ensinou alguma coisa, é que podemos exigir grandes mudanças nas emissões globais de GEE em um curto período, principalmente alterando nossos hábitos de uso de energia, sugerindo que a necessidade de pressionar por mudanças dramáticas na produção pecuária, embora seja importante, é relativamente pequena em comparação.

Embora a indústria de lácteos (como todos os setores que contribuem para as emissões globais) tenha trabalho a fazer, um mundo sem vacas é provavelmente melhor deixado como um episódio de Twilight Zone, e não um reality show. O custo/benefício de perder esta importante fonte de nutrição e estabilidade econômica e cultural seria tremendamente alto.

 

Artigo original em inglês: A World Without Cows - Imagine Waking Up One Day to a New Reality, de Mitch Kanter e Donald Moore, publicado no Nutrition Today e traduzido pela Equipe MilkPoint.

 

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TELCIO SCHNEID TEJADA

SÃO LOURENÇO DO SUL - RIO GRANDE DO SUL - INDÚSTRIA DE LATICÍNIOS

EM 16/12/2020

Fantástico
TELCIO SCHNEID TEJADA

SÃO LOURENÇO DO SUL - RIO GRANDE DO SUL - INDÚSTRIA DE LATICÍNIOS

EM 15/12/2020

Fantástico
EQUIPE MILKPOINT

PIRACICABA - SÃO PAULO - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 15/12/2020

Que bom que gostou, Telcio. Compartilhe com pessoas que precisam saber disso! Obrigada por nos acompanhar, grande abraço!
LUIS ALBERTO DEPABLOS ALVIAREZ

LAVRAS - MINAS GERAIS - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 15/12/2020

Excelente...
EQUIPE MILKPOINT

PIRACICABA - SÃO PAULO - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 15/12/2020

Muito legal, não é mesmo, Luis? Muitas pessoas que pregam esse mundo sem vacas e sem leite não sabem dessas consequências! Compartilhe o texto com seus conhecidos e obrigada pela participação! :)
EM RESPOSTA A EQUIPE MILKPOINT
LUIS ALBERTO DEPABLOS ALVIAREZ

LAVRAS - MINAS GERAIS - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 15/12/2020

Pode deixar, parabéns ao equipe Milkpoint pela escolha do artigo!!
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