O poder da metionina: como o aminoácido atua em casos de mastite de vacas leiteiras

A metionina vai além da síntese proteica: atua no imunometabolismo, fortalecendo a imunidade e melhorando o desempenho de vacas leiteiras, especialmente em casos de mastite.

Publicado por: MilkPoint

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Nos últimos anos, a ciência da nutrição de ruminantes passou por uma verdadeira revolução. Hoje, sabemos que os nutrientes não são apenas “combustível” para o metabolismo, mas também mensageiros que modulam a saúde, a imunidade e o desempenho produtivo. Um dos protagonistas dessa nova era é a metionina (Met), um aminoácido essencial que vai muito além da síntese proteica.

Estudos recentes reunidos por Danielle N. Sherlock, PhD, da Adisseo, destacam que a metionina exerce um papel central no imunometabolismo das vacas leiteiras, influenciando tanto a resposta imune quanto o metabolismo energético. Esse campo, relativamente novo na bovinocultura de leite, vem abrindo caminhos para estratégias nutricionais capazes de preparar os animais para enfrentar períodos de estresse, doenças e transição metabólica.


Imunometabolismo: a ponte entre nutrição e imunidade

O termo imunometabolismo descreve a interação entre os processos imunológicos e metabólicos. Em outras palavras, ele mostra como o estado nutricional do animal impacta a capacidade do sistema imune de responder a desafios, e como as respostas imunes, por sua vez, consomem e redirecionam energia e nutrientes.
Durante eventos como o período de transição, o estresse térmico ou infecções como a mastite, o sistema imune é altamente exigido. As vacas precisam de energia e substratos para ativar células de defesa, produzir anticorpos e reparar tecidos, o que compete diretamente com a energia usada para a produção de leite. É nesse cenário que a metionina se destaca como uma peça-chave.


A metionina e o mTOR: regulando a resposta imune de dentro da célula

Além de ser precursora da glutationa e da taurina, que são potentes antioxidantes, a metionina atua como ativadora direta de uma importante via metabólica: o mTOR (alvo mecanístico da rapamicina).

O mTOR funciona como um “sensor nutricional” dentro das células. Ele integra sinais de energia, aminoácidos e fatores de crescimento, regulando a síntese de proteínas, a proliferação celular e a resposta inflamatória. Em células imunes, essa via controla a ativação de neutrófilos e linfócitos, essenciais para a defesa contra infecções.

Pesquisas mostram que, ao ativar o mTOR, a metionina aumenta a síntese proteica, melhora a função imune e até estimula a síntese de gordura no leite. Isso explica por que vacas suplementadas com metionina protegida no rúmen (RPM) frequentemente exibem maior teor de gordura e proteína no leite, mesmo em condições de estresse fisiológico.

Da teoria à prática: metionina durante a mastite subclínica

Um dos estudos mais recentes (Paz et al., 2024) avaliou o impacto da suplementação com Smartamine® M (0,09% da MS) em vacas submetidas a um desafio experimental de mastite subclínica induzida por Streptococcus uberis.

Os resultados foram notáveis:
As vacas suplementadas produziram mais leite por ordenha e por dia após o desafio.
O leite apresentou maior teor de gordura e proteína, resultando em aumento da produção de leite corrigido para energia (ECM).
Observou-se menor inflamação e estresse oxidativo, tanto local quanto sistêmico.

Esses achados indicam que a metionina ajudou as vacas a responder melhor ao processo infeccioso, preservando o desempenho produtivo, algo raramente observado durante episódios de mastite.

O papel das células imunes: menos inflamação, mais eficiência

As análises celulares do estudo mostraram que as vacas suplementadas apresentaram maior fosforilação de proteínas-chave da via mTOR, como AKT, S6RP e 4EBP, nas células imunes do sangue e do leite.

Essas proteínas são responsáveis por iniciar a síntese de novas proteínas dentro das células, o que acelera a ativação e a resposta imunológica. Além disso, as vacas suplementadas exibiram maior expressão de L-selectina, uma molécula de adesão que permite a migração de leucócitos para locais de inflamação, um indicativo claro de resposta imune mais rápida e eficiente.

Benefícios além da mastite: metionina como suporte em múltiplos desafios

Os efeitos positivos da metionina sobre o imunometabolismo não se limitam à mastite, como mencionados no artigo anterior. Diversos estudos anteriores (Osorio et al., 2013, 2014; Zhou et al., 2016a,b) mostraram que, durante o período de transição, o aumento do aporte de metionina:
- melhora a função hepática e a produção de glutationa;
- reduz o estresse oxidativo e inflamatório;
- fortalece a imunidade inata;
- e se traduz em melhor desempenho reprodutivo e produtivo no pós-parto.


Também há evidências de que a metionina contribui para melhor tolerância ao estresse térmico, auxiliando na manutenção do consumo de matéria seca e da eficiência metabólica mesmo em altas temperaturas.


Esses resultados reforçam a importância de enxergar a nutrição de vacas leiteiras de forma integrada, considerando não apenas a maximização da produção, mas também o suporte ao sistema imune e à saúde geral do animal.

A suplementação com metionina protegida no rúmen se mostra, portanto, uma estratégia multifuncional:
- potencializa o metabolismo celular via mTOR,
- melhora a resistência a doenças,
- e sustenta a produção de leite em momentos críticos.


Em outras palavras, o uso inteligente de aminoácidos como a metionina transforma a nutrição em ferramenta de prevenção — preparando as vacas para responder melhor aos desafios antes que o problema apareça.


Se preparar para o desafio é melhor do que reagir a ele

O conceito de imunometabolismo redefine a forma como entendemos o desempenho das vacas leiteiras. Ao apoiar os processos imunológicos e metabólicos de forma coordenada, nutrientes como a metionina permitem que o animal expresse todo o seu potencial produtivo sem comprometer a saúde.

Em um setor cada vez mais focado em sustentabilidade e longevidade produtiva, estratégias nutricionais que melhoram a resiliência fisiológica das vacas — como a suplementação com metionina protegida — representam um avanço concreto rumo a sistemas mais eficientes e equilibrados.

Figura 1

A Dra. Danielle Sherlock é Gerente Global de Suporte Técnico e Científico em Ruminantes na Adisseo. Ela obteve os títulos de Bacharel e Mestre em Ciência Animal pela The Ohio State University, e concluiu o doutorado em Ciência Animal na University of Illinois at Urbana-Champaign antes de ingressar na Adisseo. Sua pesquisa de doutorado investigou o impacto de doadores de metil no imunometabolismo durante períodos de estresse em vacas leiteiras. A Dra. Sherlock juntou-se à Adisseo em 2021 e está baseada em Madison, Wisconsin, EUA, onde desenvolve e gerencia projetos de pesquisa em Nutrição e Saúde de Ruminantes.

 

Referências:
 Baseado em: Danielle N. Sherlock, PhD (Adisseo); Paz et al. (2024); Osorio et al. (2013, 2014); Zhou et al. (2016a,b); Weichhart et al. (2008); Powell et al. (2012); Coleman et al. (2020).
 Fonte: Imunometabolismo – Life Time (Adisseo, 2024).

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