Em um cenário de margens apertadas e busca constante por eficiência operacional, o evento se destacou ao unir a tradição acadêmica de grandes especialistas às demandas urgentes do campo, seguindo uma linha lógica de construção do conhecimento — da genética à gestão.
O alicerce: genética e sanidade
A abertura definiu o tom técnico do dia. João Pedro Monteiro do Carmo (ESALQLAB) apresentou o conceito central de “medir para gerenciar”, reforçando a importância do uso de dados na tomada de decisão. Ele destacou o banco de dados do laboratório, que reúne mais de 38 mil análises de silagem de milho e evidencia o padrão das silagens classificadas como “diamante” pelo IQS.
Na sequência, o professor Luiz Gustavo Nussio, da Universidade de São Paulo (USP), trouxe uma visão estratégica sobre a escolha do híbrido de milho. Ele ressaltou o papel da plataforma Guia da Forragem como ferramenta essencial para embasar essa decisão, integrando informações de produtividade e qualidade bromatológica.
Aprofundando o uso de dados no campo, Igor Quirenbach (Dakar Pesquisa Agrícola) abordou os aspectos sanitários da lavoura. Com base em pesquisas realizadas para o Guia da Forragem, chamou atenção para pontos muitas vezes negligenciados, mas que impactam diretamente a fermentação e a segurança alimentar do rebanho.
Fechando o bloco sobre culturas, Dimas Cardoso destacou o avanço da silagem de sorgo como alternativa estratégica, analisando seu posicionamento técnico e viabilidade econômica frente aos desafios climáticos recentes. A silagem de capim também entrou em pauta, apresentada por William Tabchoury como opção complementar dentro de sistemas bem planejados.
Processamento e nutrição de precisão
A programação seguiu com o professor Carlos Corassin, da Faculdade de Zootecnia e Engenharia de Alimentos (FZEA-USP), que trouxe um alerta sobre a presença de micotoxinas na silagem. Ele detalhou os impactos à saúde do rebanho, as formas de mensuração — por meio de análises disponíveis via ESALQLAB — e estratégias de prevenção.
Gustavo Salvati (Tracking Feed) abordou um dos temas mais debatidos atualmente: o processamento de grãos (KPS). Ele explicou como a quebra adequada do grão e o monitoramento durante a colheita influenciam diretamente a disponibilidade de amido, fator determinante para o desempenho animal.
Na aplicação prática das forragens na dieta, o professor João Daniel, da Universidade Estadual de Maringá (UEM), apresentou uma análise detalhada sobre o uso de fibras em dietas de vacas leiteiras, destacando como o manejo adequado da fração fibrosa é essencial para a saúde ruminal e a sustentação da produção em animais de alto desempenho.
Em um dos momentos de maior impacto técnico, a professora Carla Bittar, da Universidade de São Paulo (USP), propôs uma quebra de paradigmas: o fornecimento de silagem para bezerras ainda em fase de aleitamento. A apresentação trouxe dados que desafiam conceitos tradicionais e apontam a viabilidade da prática no desenvolvimento dos animais jovens.
Da máquina à prova real: operação e casos de sucesso
Levando a discussão ao campo, Willian Santos (Tracking Feed) destacou os aspectos operacionais da produção. Ele reforçou que a qualidade da silagem depende de compactação eficiente e de cuidados rigorosos com a lavoura — lembrando que a conservação começa antes mesmo da colhedora entrar na área.
O encerramento trouxe a validação prática da teoria, com dois cases que ilustram a diversidade da pecuária nacional:
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Ricardo Goulart apresentou o case da Agro Santa Clara, em Terenos (MS), demonstrando como a gestão eficiente da forragem é aplicada em sistemas de corte e confinamento no Centro-Oeste, além da realidade da produção de feno como estratégia de conservação.
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Túlio, da Fazenda Cobiça, em Três Corações (MG), compartilhou a rotina de uma grande propriedade leiteira, mostrando como métricas bem definidas e o gerenciamento fino da silagem se traduzem em produtividade e saúde do rebanho em larga escala.
Conclusão
O II Workshop do ESALQLAB foi mais do que uma sequência de palestras: representou um retrato da maturidade técnica do setor. Ao integrar fitotecnia, zootecnia e a realidade de grandes fazendas, o evento evidenciou que a produção de silagem no Brasil deixou o empirismo para trás.
O recado de Piracicaba foi direto: para gerenciar a pecuária do futuro, é preciso medir cada etapa do processo hoje.
