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Como melhorar a composição do colostro das vacas leiteiras

NOVIDADES DOS PARCEIROS

EM 08/04/2022

13 MIN DE LEITURA

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A placenta dos ruminantes evita a transferência de imunoglobulinas da mãe para o feto (imunidade passiva). Os bezerros não estão protegidos contra infecções até que desenvolvam sua própria imunidade ativa, com exceção dos anticorpos recebidos através do colostro (Figura 1).

Figura 1: Esquema da imunidade bovina materna, inata e adquirida

A produção de colostro (colostrogênese) se inicia entre 3 a 7 semanas antes do parto, mas sua composição muda a partir da segunda ordenha, até que se torna propriamente leite (da 4ª ordenha em diante, Tabela 1). As imunoglobulinas são moléculas grandes absorvidas não-seletivamente antes da maturação da mucosa intestinal (primeiras 24 horas após o nascimento). As imunoglobulinas G (IgG) são cerca de 75% do total: elas estimulam a fagocitose e enfrentam as toxinas bacterianas. É importante que os bezerros recém-nascidos recebam mais de 100 g de IgG dentro das primeiras 12 horas após parto, através do colostro.

Tabela 1: Composição analítica do colostro, leite de transição e leite de vacas Holandesas.

 

Colostro

Leite de Transição

Leite

 

1a ordenha

2 a ordenha

3 a ordenha

 

Peso específico

1056

1040

1035

1032

Sólidos totais (%)

23,9

17,9

14,1

12,9

Gordura (%)

6,7

5,5

3,9

4,0

Proteína (%)

14,0

8,4

5,1

3,1

Caseína (%)

4,8

4,3

3,8

2,5

Albumina (%)

6,0

4,2

2,4

0,5

Imunoglobulinas (%)

6,0

4,2

2,4

0,09

IgG (g/100 ml)

3,2

2,5

1,5

0,06

Lactose (%)

2,7

3,9

4,4

5,0

IGF-1 (μg/L)

341

242

144

15

Insulina (μg/L)

65,9

34,8

15,8

1,1

Cinzas (%)

1,11

0,95

0,87

0,74

Ca (%)

0,26

0,15

0,15

0,13

Mg (%)

0,04

0,01

0,01

0,01

Zn (mg/100ml)

1,22

-

0,62

0,3

Mn (mg/100ml)

0,02

-

0,01

0,004

I (mg/100ml)

0,20

-

-

0,05

Co (mg/100ml)

0,5

-

-

0,10

Vitamina A (μg/100ml)

295

190

113

34

Vitamina E (μg/g grasso)

84

76

56

15

Riboflavina (μg/100ml)

4,83

2,71

1,85

1,47

Vitamina B12 (μg/100ml)

4,9

-

2,5

0,6

Ácido Fólico (μg/100ml)

0,8

-

0,2

0,2

Colina (mg/ml)

0,7

0,34

0,23

0,13

Hammon et al., 1987

Os bezerros que recebem baixa concentração de IgG, têm falhas na transferência passiva (FTP) dessas proteínas (menor que 10 g/l de sangue durante o primeiro dia de vida). A FTP pode ser frequente (> 50% dos bezerros) e causar perdas devido à elevada mortalidade, incremento na prevalência de patologias e baixo desempenho durante a vida produtiva inteira. A FTP tem duas causas principais: 1) os bezerros não recebem suficiente colostro de boa qualidade  durante as primeiras horas de vida; e 2) o colostro contém baixa concentração de IgG. A primeira causa é a mais frequente. Quanto mais tempo se passa, menos  imunoglobulinas serão absorvidas (a absorção é nula depois de 24 horas de vida). Sugere-se então, fornecer aos bezerros Holandeses recém-nascidos pelo menos 3 kg (ou 5-10% de seu peso corporal, Tabela 2) de colostro de boa qualidade durante as primeiras 2 horas de vida.

A imunodifusão radial é a análise padrão ouro para avaliar o conteúdo de IgG no colostro: é altamente precisa, mas é restrita aos laboratórios. O colostrômetro e o refratômetro Brix são ferramentas muito usadas para avaliar colostro na fazenda. Dependendo da metodologia de avaliação, o colostro de boa qualidade deve conter mais de 50 g de IgG/l, Brix superior a 22%, ou peso específico >1050mg/ml.

Tabela 2: Exigências de colostro estimadas para um bezerro de 40 kg atingir a concentração sanguínea de 10g IgG/l 24 horas após o nascimento.

Peso corporal (PC) do bezerro

40 kg

Volume do plasma (9% PC)

3,6 l

Concentração plasmática mínima de IgG

10 g/l

Eficiência aparente de absorção

35%

Exigência de ingestão de IgG (3,6 x 10/0,35)

103 g

Concentração de IgG no colostro

50 g/l

Necessidade de consumo de colostro

2,1 l

A composição do colostro no gado leiteiro é afetada por (Fischer-Tlustos et al., 2021; Soufleri et al., 2021):

· Número de parto: vacas com mais idade ou partos, possuem colostro de maior qualidade e conteúdo de imunoglobulinas;

· Época de parto: O estresse calórico durante a última parte da prenhez está associado à baixa qualidade do colostro (diminuição dos conteudos de IgG, IgA, proteína, caseína, lactoalbumina, gordura e lactose), devido ao menor consumo de alimento e à redução do fluxo sanguíneo à glândula mamária;

· Duração do período seco: A transferência de imunoglobulinas para o colostro tem início cerca de 5 semanas antes do parto. Se não houver período seco ou se esse perdurar menos que 21 dias, o conteúdo de IgG no colostro será muito baixo; menos de 40 dias de período seco afeta o volume do colostro, mas não o seu conteúdo de IgG. Período seco de 57,5 ± 11 dias, não interfere na concentração de IgG do colostro;

· Volume do colostro: Se a lactogênese começa antes do parto, o leite pode efetivamente diluir as IgG acumuladas na glândula mamária durante a colostrogênese;

· Raça da vaca: a seguintes raças apresentam conteúdo de imunoglobulinas crescente  no colostro; Holstein > Guernsey > Pardo Suiço > Ayrshire > Jersey;

· Nutrição da vaca (detalhado abaixo);

· Outros: Protocolos de vacinação, exposição a doenças, variação individual, variação da fazenda e regulação sistemática e endócrina.

Antes da concentração de imunoglobulinas do colostro, o mau manejo no fornecimento do colostro (Vaz et al., 2004), o número de ordenhas após o parto e o número de lactações da vaca (Gomes et al., 2011) foram os fatores de risco mais importantes na transferência de imunidade passiva em bezerros Holandeses no Brasil. Para este tipo de animais, a falha de transferência de imunidade passiva foi de 18,92% em Lages (SC) (Vaz et al., 2004) e entre 10 e 20% em Araçatuba (SP) (Feitosa et al., 2010). Vacas mestiças (diferentes proporções das raças Holandês-Zebu) de Ponte Nova e Viçosa (MG) não apresentaram diferenças no conteúdo de IgG do colostro, mas o valor médio foi superior ao reportado para raças taurinas puras (Soares Filho et al., 2001). Em bezerros Holandês-Zebu, avaliados em Felixlândia (MG), as falhas na transferência da imunidade passiva se apresentaram em 11,7% deles (Silper et al., 2012).

Pouca supervisão noturna dos partos, desconhecimento da quantidade e qualidade do colostro consumido pelos neonatos e da concentração de proteínas no soro sanguíneo dos bezerros  foram alguns dos aspectos melhoráveis encontrados por Santos & Vittar (2015) em 179 fazendas de diferentes graus de intensificação leiteira dos estados Minas Gerais, São Paulo e Paraná.

Geralmente, associa-se o nível de IgG como indicador da qualidade do colostro. Contudo, pouco se sabe de macronutrientes e compostos bioativos (ácidos graxos, oligossacarídeos, fatores de crescimento [superfamília da insulina-relaxina], RNAs, entre outros) presentes no colostro, que influenciarão o desenvolvimento e o metabolismo dos bezerros recém-nascidos (Abuelo, 2020; Fischer-Tlustos et al., 2021).

A nutrição e o manejo da vaca durante o período seco podem ter um efeito profundo na sobrevivência, saúde e crescimento do bezerro recém-nascido (Quigley Iii & Drewry, 1998, Abuelo, 2020). Embora os efeitos da nutrição e manejo pré-parto da vaca leiteira sob a produção e qualidade do colostro sejam pouco estudados, algumas pesquisas começam a proporcionar noção para o entendimento do assunto.

O incremento energético da dieta pré-parto de vacas Holandesas (de 100 a 150% das exigências) diminuiu o conteúdo de IgG, mas aumentou a insulina e os ácidos graxos de novo no colostro. (Mann et al., 2016). O nível de proteína, de aminoácidos metabolizáveis, e de moléculas antioxidantes (vitamina E e selênio) na dieta das vacas no pré-parto também podem afetar a quantidade e absorção de imunoglobulinas, nutrientes e compostos bioativos do colostro.

Durante os 102 dias anteriores ao parto, a baixa ingestão de proteína bruta de vacas de primeira gestação não afetou o consumo de matéria seca, o ganho médio diário das vacas, o peso ao nascer dos bezerros, a produção de colostro ou a concentração de imunoglobulinas no colostro, porém, os bezerros nascidos de vacas sob déficit proteico tiveram redução na absorção de imunoglobulinas e, consequentemente, baixa concentração delas no soro sanguíneo, fato que os autores atribuíram à mudanças nos enterócitos do jejuno dos neonatos (Tabela 3, Burton et al., 1984).

Tabela 3: Efeito do consumo de proteína bruta de vacas Holandesas durante o final de sua primeira gestação, na concentração de imunoglobulinas no soro sanguíneo de seus bezerros, após 24 horas da primeira ingestão de colostro

 

Dieta de baixa proteína

Grupo controle

Consumo de proteína bruta (g/d)

918

1598

Porcentagem das exigências de proteína bruta*

66

115

IgG1 (mg/100 ml)

693,2a

1257,7b

IgG2 (mg/100 ml)

409,8a

721,8b

IgA (mg/100 ml)

95,9a

120,4b

IgM (mg/100 ml)

92,4a

217,5b

* Segundo NRC (1978)

Burton et al. (1984)

A subnutrição ou retardo do crescimento intrauterino durante a segunda metade da gestação dos ruminantes pode reduzir a massa, comprimento e aspectos funcionais do trato gastrointestinal do neonato, com efeitos que se estendem a longo prazo (Osorio, 2020). Estruturas proteicas presentes no colostro, como os fatores bioativos de crescimento (insulina e IGF-I), influenciam a maturação intestinal, a absorção de nutrientes e o desenvolvimento pós-natal do bezerro (Fischer-Tlustos et al., 2021). É possível que a subnutrição proteica que experimentaram as vacas da experiência de Burton (1984) tenha afetado a funcionalidade do intestino dos neonatos e com isso, a absorção das imunoglobulinas do colostro.

Também é possível que sinalizadores moleculares (microRNAs e lncRNAs) presentes no colostro tenham similares funções sobre a maturação intestinal e, no caso de serem comprovados esses efeitos no neonato bovino, esse mecanismo de transferência horizontal de material genético não codificante poderá ser aproveitado para fornecer espécies de RNAs ideais no colostro, através de mudanças na nutrição materna ou manejo durante o final da gestação (Osorio, 2020).

As vacas em transição pré-parto, devem ter fluxos de proteína, metionina e lisina metabolizáveis de 1200-1300, 30 e 90 g/vaca/d respectivamente, para restaurar as reservas de proteínas lábeis, prevenir a mobilização de proteínas no pré-parto e não prejudicar o desempenho e a saúde durante a lactação subsequente (Ji & Dann, 2013). Em vacas leiteiras pré-parto, consumindo uma dieta base balanceada (de aporte proteico e de aminoácidos similar à recomendação supracitada), a suplementação adicional de aminoácidos protegidos (metionina, lisina ou ambos) aumentou o consumo de matéria seca e a qualidade do colostro (Brix). Suas crias tiveram incremento nas concentrações plasmáticas de IgG e de proteínas totais, bem como no ganho médio diário e o peso ao desaleitamento. O aumento nas proteínas totais do plasma dos bezerros foi correlacionado positivamente com o Brix do colostro consumido. As respostas positivas nas vacas e bezerras foram maiores quando a suplementação contemplou ambos aminoácidos protegidos (Wang et al., 2021).

As dietas de vacas pré-parto devem ser suplementadas com vitaminas e minerais (vitamina E e selênio, principalmente), para melhorar seu conteúdo no colostro. As vitaminas A, D e E possuem limitações de transporte através da placenta. A vitamina E é um poderoso antioxidante, que protege todas as membranas celulares (inclusive as das células imunológicas) contra a peroxidação de lipídios poli-insaturados devida aos radicais livres. O neonato depende quase que exclusivamente do aporte da vitamina no colostro. Isso leva ao fato de que, comumente, sejam suplementadas as dietas pré-parto com dosagens mais altas do que a sugestão do NASEM (2021), para proteger os animais do estresse oxidativo e melhorar a atividade do sistema imunológico.

Já o selênio, não apresenta a placenta como limitante e, mesmo assim, a suplementação do mineral nas dietas de vacas pré-parto e a adequada ingestão de colostro pelo neonato são fundamentais para a adequada nutrição do oligoelemento no recém-nascido (Quigley Iii & Drewry, 1998).

Em geral, as dietas de vacas leiteiras são suplementadas com selenito de sódio até que se atinja 0,3 mg de selênio/kg de MS (sugestão do NRC, 2001 mantida no NASEM, 2021). Porém, essa forma inorgânica de selênio é pouco biodisponível. Durante a transição, há um grande aumento na necessidade de antioxidantes (principalmente glutationa peroxidase, uma selenoproteína). Essas duas condições podem afetar negativamente a concentração de IgG no colostro e, por isso, nas dietas pré-parto, sugere-se complementar o selenito com outras fontes de selênio, de maior biodisponibilidade.

A suplementação pré-parto com selênio inorgânico e vitamina E via oral (Lacetera et al., 1996) ou injetada (Moeini et al., 2011), aumentou a produção do colostro e do leite de vacas Holandesas. Apesar da melhoria do status do selênio das vacas e dos bezerros, esta não trouxe benefícios nas concentrações de IgG do colostro ou do plasma dos bezerros nas experiências supracitadas. Contudo, Moeini et al. (2011) encontraram um aumento nas contagens de glóbulos brancos e neutrófilos nos bezerros filhos de vacas injetadas com as duas maiores doses do mineral, mais a vitamina.

Contraditoriamente, a suplementação pré-parto orgânica adicional de 105 mg de levedura selenizada/vaca/d (0,3 mg Se*/kg MS dieta base) e o enriquecimento a 3 mg Se*/l do colostro (*ajustes feitos com selenito de sódio) aumentaram a concentração e conteúdo total sérico de IgG em bezerros. Sendo que, os efeitos mais expressivos se apresentaram em bezerros filhos das vacas que receberam a suplementação adicional (Hall et al., 2014).

No Brasil, existem deficiências de selênio nos solos, forragens, cereais e fluídos de bovinos em várias regiões. Inclusive, foram estimadas deficiências no consumo do oligoelemento pelos humanos. Um resumo bibliográfico diagnosticando, as deficiências e as respostas de bovinos à suplementação do micromineral está disponível aqui, deixando claro que informação nacional sobre mudanças na qualidade do colostro devidas à suplementação de selênio, proteína, aminoácidos, ou vitaminas é, talvez, inexistente.

Os efeitos da nutrição das vacas leiteiras no pré-parto sobre a quantidade e a composição do colostro, bem como o aproveitamento pelos neonatos e os efeitos a longo prazo apenas estão sendo elucidados. Os mecanismos específicos que explicam as respostas ainda não estão claros e, por isso, a investigação adicional é necessária.

Considerações finais:

· É recomendável controlar o consumo de colostro pelo neonato (volume, tempo após nascimento), bem como determinar o conteúdo de imunoglobulinas do colostro e do soro sanguíneo de bezerros, para monitorar possíveis falhas na transferência de imunidade passiva;

· A concentração sérica de imunoglobulinas ≥ 10 g/l em bezerros durante os primeiros dias de vida indica boa transferência de imunidade passiva; falhas na transferência pode afetar a saúde dos bezerros, bem como seu desempenho durante toda a vida;

· Durante o pré-parto deve-se evitar o estresse por calor, a superlotação e as deficiências/desequilíbrios nutricionais. Recomenda-se o fornecimento diário de 1200 g de proteína metabolizável/vaca (30 e 90 g/vaca/d de metionina e lisina metabolizáveis), 1200 mg de vitamina E protegida da ação ruminal/vaca e 0,3 mg de selênio altamente biodisponível por cada kg matéria seca da dieta.

O SmartSel®, é a solução de selênio microencapsulado da Vetagro. De biodisponibilidade similar ao selênio orgânico (Grilli et al., 2013), o SmartSel® é uma alternativa eficaz e econômica para melhorar o aporte do micromineral nas dietas de vacas leiteiras.

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Artigo original de Alessandro Fantini disponível na língua italiana aqui

Adaptado por Luis Depablos (luis.depablos@vetagro.com)

Este é um conteúdo da Vetagro

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