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Milho silagem: identificação de gargalos da produção no noroeste do RS

WAGNER BESKOW

EM 08/09/2016

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Capa

A região noroeste do Rio Grande do Sul tem produzido milho silagem, tipicamente, na ordem de 35 tMN/ha (toneladas de matéria natural por hectare) em anos normais. Em anos excepcionais, a média regional tem ficado em torno 45t e, em anos de estiagem, não ultrapassa 20tMN/ha.

Localização da região de estudo - Santa Rosa - RS
Figura 1. Localização do presente estudo no RS.
 
Ao norte de Santo Angelo (estendendo-se pelo oeste de SC), o verão é muito quente, com noites também muito quentes, fator que tende a contribuir para baixa produção, pois nessas condições, a planta consome muito do que produz (a fotossíntese líquida total é diminuída pela alta respiração celular noturna).

Sabemos que os milhos modernos brasileiros são capazes de ultrapassar 80t em bons anos, marca esta já alcançada comercialmente por alguns produtores de leite do RS, por exemplo em concurso de produção de silagem realizado pela Cotrisal (Cooperativa Tritícola Sarandi Ltda., Sarandi-RS, 2014/2015), mas não ainda no noroeste gaúcho. 

A Coopermil (Cooperativa Mista São Luiz Ltda., sediada em Santa Rosa), avaliando materiais em sua área experimental (2013/2014), obteve parcelas controladas superiores a 70t, demonstrando que é possível elevar em muito a produtividade do milho silagem na região (Sergio Schneider, comunicação pessoal, 2014).

Que fatores estão estrangulando a produtividade em lavouras comerciais do noroeste gaúcho?

Tentando responder esta pergunta, conduziu-se um estudo monitorando 24 lavouras de milho (safra 2015/2016), formadas por 5 híbridos, distribuídas em 5 municípios da grande Santa Rosa. Neste, foram avaliadas 50 variáveis (4 categóricas, 2 qualitativas e 44 quantitativas), listadas na Figura 2.
 
Variáveis estudadas
Figura 2. Lista de varáveis monitoradas.

E o que foi encontrado?

Para nossa surpresa, a principal causa por trás da variação na produção de silagem foram as variações em espaçamento entre linhas. A importância desse fator é bem conhecida e estudada, o que não era conhecido para nós é que as variações atualmente adotadas estavam causando tanta diferença em produtividade.

De forma geral, as produções das 24 lavouras variaram, num ano que foi bastante chuvoso, de 37,5 a 63,7t, com média de 53tMN/ha, uma amplitude bastante grande para propriedades de uma mesma região, numa mesma safra, adubadas e todas utilizando híbridos modernos.

Os espaçamentos utilizados pelos produtores variaram de 45 a 90cm. Percebeu-se que lavouras plantadas com menos de 65cm entre linhas produziram 22% mais (57,3tMN/ha) que lavouras com espaçamento maior (46,9tMN/ha). Veja Figura 3.
Gráfico da produção perto versus longe.
Figura 3. Produtividade do milho (kgMN/ha) em função dos espaçamentos utilizados (em m), denotando dois grupos bem definidos.
 
Os dois grupos circulados foram denominamos de perto (< 65cm) e longe (> 65cm). Em muitos casos, a escolha por espaçamentos grandes se deve a limitações da ensiladeira (evitar derrubar linhas adjacentes à linha cortada), em outros, por não possuir rodados estreitos para aplicações de cobertura e pulverizações, mas em vários casos, é pelo produtor achar que o milho mais espaçado produz mais, ou porque sempre plantou assim.

Que mais foi detectado?

A Figura 4 mostra os resultados em ordem decrescente de impacto na variação da produção de silagem. Barras vermelhas indicam impacto negativo, barras azuis, impacto positivo na produtividade. Os tons mais escuros de vermelho ou azul indicam que a variável foi estatisticamente significativa (maior confiabilidade dos resultados).

Resultados
Figura 4. Ordenação das variáveis de acordo com sua importância em explicar as variações observadas nas 24 lavouras monitoradas. 


 
Por segurança, devem ser consideradas apenas as variáveis com barras mais escuras. As demais devem ser vistas como uma possível tendência que, em outros anos e condições experimentais, poderiam se mostrar mais confiáveis e, só então, incluídas na interpretação.

Houve também uma variação muito grande em densidade de semeadura e, consequentemente, em população de plantas na colheita, variando esta de 48.500 a 79.200, com média de 65.368 plantas/ha. No entanto, ao contrário do espaçamento, o impacto da variação em população de plantas nas variações de produção não foi estatisticamente significativa (ou seja, faltou consistência).

Por trás da importância do espaçamento está a constatação de que o peso das plantas, em média, não conseguiu compensar os afastamentos (perto = 792g; longe = 833g, não diferentes estatisticamente).

Consistentemente, solos com mais MO (matéria orgânica) estiveram associados com maior produção. Isso não foi nenhuma surpresa, visto seu papel em liberar N, reter umidade, permitir maior aeração, tamponar reações químicas etc. A média foi de 2,59%, típica de solos de lavoura na região, mas baixa se o solo for bem manejado e com gado de leite em pastejo rotacionado (amplitude foi de 1,8 a 3,7%).

Estas e as demais médias e amplitudes podem ser verificadas na Tabela 1, abaixo.

Tabela 1. Média, desvio padrão, mínimo e máximo encontrados para cada variável. Elementos químicos referem-se ao seu teor no solo (quando no fertilizante, este é indicado). As abreviações estão explicadas na Fig. 2.
 
Tabela de resultados

A compactação de alguns solos foi bastante alta. Para este tipo de solo, valores acima de 1,2 kg/dm3 são considerados moderados e acima de 1,3 kg/dm3 são altos. A média geral econtrada foi de 1,63, variando de 0,25 (excelente) a 2,48 kg/dm3 (extremamente alta). O principal erro neste sentido é deixar os animais no piquete depois de atingirem a altura de resíduo ideal e o uso de máquinas com solo ainda encharcado.

Mesmo assim, esta variável (Fig. 4 e Tabela 1) não teve peso na explicação das variações. Ela possivelmente impediu produções maiores no geral, mas não esteve associada de forma consistente com as variações. Ou seja, não se pode dizer que se produz pouco na região porque o solo esteja adensado.

O mesmo vale para outras variáveis que são agronomicamente importantes para a produção, mas cuja variação a campo não se relacionou com a variação dos resultados. 

Considerações finais

Para entender qual seria a melhor configuração, comparamos por contraste o grupo acima da média geral com o grupo abaixo desta (independentemente do espaçamento usado) e os denominamos "superior" e "inferior", respectivamente. A Tabela 2 mostra como foi a produtividade média, a população na colheita, a densidade de semeadura, o espaçamento médio entre linhas de cada grupo, a distância média entre plantas e o peso das plantas.

Tabela 2. Características do grupo que produziu acima (superior) e abaixo (inferior) da média de massa de silagem (kgMN/ha), com destaque para densidade de semeadura (sem/ha) e espaçamento (EntreLn em m).
 
Tabela superior versus inferior
 
Percebe-se que o grupo mais produtivo (GS) usou 12% mais semente (1,12 na linha inferior da tabela), mas obteve 22% mais massa de silagem.

Consistentemente, economias em semente têm refletido em perdas onde o produtor entende que haveriam ganhos. Isso é válido também em pastagens.

O próximo passo deste trabalho é repetir o estudo com todos os produtores plantando abaixo de 65cm. Isso permitirá que outros gargalos se revelem.

A ilustração clássica desse dilema é o barril proposto por Liebig ("a lei do mínimo"). A produção (no caso o volume de água do barril) é determinada pelo fator mais limitante (a madeira mais baixa na Fig. 5).
Lei do mínimo
Figura 5. Ilustração clássica da Lei do Mínimo ou Lei de Liebig.
 
A principal mensagem a ser extraída deste estudo, no estágio que se encontra, é buscar plantar abaixo de 65cm, mantendo a população recomendada.

Se o maquinário de colheita não permite, deve-se fazer as contas. Quanto vale 22% mais silagem? Será que isso não pagaria a terceirização da operação, ou mesmo a aquisição de ensiladeiras que superem o problema mencionado na colheita?

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Notas de rodapé:

1. AGRADECIMENTOS: este estudo foi planejado e desenvolvido a campo com a valiosa colaboração do técnico agrícola Maurício Perin e do médico veterinário Marcos de Souza Freitas, ambos da Coopermil (Cooperativa Mista São Luiz Ltda.). Junto com estes colegas, agradecemos aos produtores de leite que colaboraram com o estudo e aos engenheiros agrônomos Milton Racho (gerente de política leiteira) e Sergio Schneider (gerente técnico), por sugestões e indispensável apoio.

2. ANÁLISE ESTATÍSTICA: Para aqueles mais interessados nos aspectos científicos deste estudo, a análise estatística baseou-se em regressão múltipla, passo a passo, com seleção à frente (stepwise regression with forward elimination), além de diversas análises de regressão linear e de variância, com e sem covariáveis, utilizando-se o pacote SAS 8.1.
 
 
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WAGNER BESKOW

TRANSPONDO Pesquisa Treinamento e Consultoria Agropecuária Ltda: Leite, pastagens, manejo do pastoreio, rentabilidade, custos, gestão, cadeia do leite, indústria, mercado. palestras, consultoria, cursos e treinamentos.

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DERLEI BRANDAO

BOM REPOUSO - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 17/09/2016

wagner boa tarde,qual o espaçamento entre sementes na mesma linha?
WILLIAN PEREIRA DOS SANTOS

LAVRAS - MINAS GERAIS - PESQUISA/ENSINO

EM 15/09/2016

Parabéns pelo artigo Wagner, excelente trabalho! Pra mim ficou bastante claro o impacto da população na produtividade final. Como não existiu diferença no peso das plantas nos diferentes espaçamentos o que realmente impactou foram as 10900 plantas a mais no cenário "Superior" que totaliza 8,9 toneladas de MV considerando 820 gramas por planta. Talvez eu esteja olhando para os dados de forma viesada, mais não ficou muito claro pra mim o impacto do espaçamento na produtividade final!
FRANCISCO CAETANO LIRA

CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 14/09/2016

Excelente Artigo. Parabéns!!!
VICTOR CARVALHO MATOS

EM 13/09/2016

Parabéns pela Publicação!
Mostra também que a compactação de solo é problema muito recorrente nas lavouras.
CLAUDIR JORGE KUHN

TOLEDO - PARANÁ - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 13/09/2016

Por aqui a realidade não é diferente. O difícil é convencer os professores de Deus a mudarem. Valeu pelo belo trabalho.
BRUNO DA SILVA PEREIRA

BELO HORIZONTE - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 13/09/2016

Ótimo artigo. Muito bem escrito e fundamentado.
É este tipo de trabalho que com certeza contribui de forma prática para vida dos produtores rurais.
Parabéns.
PAULO FERNANDO MACHADO

PIRACICABA - SÃO PAULO - PESQUISA/ENSINO

EM 12/09/2016

Parabéns Wagner,

Você mostra mais uma vez que podemos fazer de nossa fazendas verdadeiros laboratórios de onde se extraem informações muito importantes para melhorar a eficiência dos processos.
Grande abraço!!!
ALEXANDRE BENVINDO FERNANDES

RIO BRANCO - ACRE - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 10/09/2016

Parabéns! Ótimo trabalho, Wagner. Sempre preciso.
Abraço.
MAURICIO PERIN

SANTO CRISTO - RIO GRANDE DO SUL - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 09/09/2016

Parabéns Wagner pelo artigo, com certeza de grande importância para a nossa região.
Estudos como este são muito raros de se encontrar , pois abrangem muitas variáveis. Felizmente conseguistes chegar a uma definição muito clara, de como conseguirmos incremento na produção de silagem.
Parabéns.
Abraço.
JOÃO RICARDO ALVES PEREIRA

PONTA GROSSA - PARANÁ - PESQUISA/ENSINO

EM 08/09/2016

Olá Wagner!
Excelentes observações. Retratam a real situação de boa parte de nossas lavouras de verão no sul do Brasil.
As baixas populações de plantas observadas não seriam perdas de sementes pós plantio por pragas e doenças? O tratamento de sementes com inseticidas e fungicidas ainda é bem pouco utilizado.
O espaçamento de 0,60m é o mais complicado para colheita com ensiladeiras que colhem em linha. E o produtor prefere plantar no mesmo espaçamento da soja para não ter que mexer na plantadeira.
Já existe no mercado plataformas reguláveis que colhem de 0,45 a 0,55cm e que são facilmente adaptadas às ensiladeiras de uma linha. Custa cerca de dez mil reais, o que é facilmente pago pela maior produtividade que vocês avaliaram.
Parabéns pelo trabalho...
Abraço e mais sucesso!!!