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Como cetonemia e glicemia pós-parto influenciam a lactação?

VÁRIOS AUTORES

RODRIGO DE ALMEIDA

EM 22/01/2024

9 MIN DE LEITURA

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Distúrbios metabólicos são comuns no pós-parto imediato de vacas leiteiras, podendo impactar a saúde, produtividade e fertilidade da lactação que se inicia. Nas últimas décadas, grandes avanços foram alcançados na compreensão sobre nutrição, manejo e estratégias de prevenção e tratamento das desordens metabólicas associadas ao periparto, como cetose e hipocalcemia, determinando melhorias na saúde e consequente maior produção de leite dos animais.

A lactação representa um consumo substancial de nutrientes, e a demanda da glândula mamária por glicose (para síntese de lactose) é determinante para a produção de leite. Então, não é surpreendente  que vacas leiteiras de alta produção possam ser hipoglicêmicas no período pós-parto inicial, pois a produção de leite está aumentando e o consumo alimentar ainda é baixo. Essa realidade é comumente encontrada até ao redor da terceira semana pós-parto, quando os níveis sanguíneos de glicose voltam a subir e estabilizam.

Um outro fator que culmina para essa dinâmica da glicose é a resistência à insulina. Vacas no pós-parto, fisiologicamente, apresentam algum grau de resistência à insulina e quando se enquadram nesta condição, a captação de glicose pelas células é prejudicada. Isso significa que as células não conseguem utilizar eficientemente a glicose como principal fonte de energia. Como resultado, o fígado é estimulado a aumentar a produção de corpos cetônicos. Em termos mais simples, espera-se que vacas com baixa glicemia favoreçam a quebra de gorduras (lipólise), levando a concentrações sanguíneas mais elevadas de corpos cetônicos.

Entramos então na discussão entre hipercetonemia e hipoglicemia apresentada neste artigo.

Naturalmente vacas durante os primeiros 30 a 45 dias após o parto estão em balanço energético negativo, ou seja, os nutrientes oriundos da dieta não estão atendendo todas as demandas da vaca, recorrendo a lipólise como alternativa. Este mecanismo é mais intenso em vacas logo após o parto, que tendem a consumir menos kg de MS por dia, e que apresentam grande demanda, particularmente para produção de colostro e leite.

A lipólise determina a liberação de ácidos graxos (AG) para utilização do organismo. Quando a mobilização de gordura se torna excessiva e supera a capacidade do fígado de oxidar esses AG, pode ocorrer uma condição conhecida como lipidose ou esteatose hepática, ou ainda, fígado gordo.

Durante este processo de lipomobilização do tecido adiposo, corpos cetônicos também são produzidos e liberados na corrente sanguínea, sendo a forma mais estável e de fácil mensuração, o beta-hidroxibutirato (BHB). Tanto os níveis de BHB quanto os de glicose podem ser facilmente mensurados por meio de glicosímetros portáteis, que podem ser adquiridos em boas farmácias. Com apenas uma gota de sangue colhida na cauda do animal por meio de uma agulha, resultados de BHB e glicose estão disponíveis em poucos segundos.

Ainda em tempo, hoje (janeiro de 2024) uma tirinha de BHB custa aproximadamente R$5,00/unidade, enquanto que uma tirinha para determinação de glicose custa ao redor de R$1,60/unidade. Ou seja, uma análise “conjunta” de BHB e glicose numa vaca recém-parida fica hoje em R$6,60/vaca.

A cetose é um distúrbio metabólico que afeta principalmente vacas leiteiras de alta produção. Acontece quando essas vacas apresentam um déficit energético; este balanço energético negativo desencadeia um processo em que o organismo começa a mobilizar triglicerídios do tecido adiposo e, no fígado, oxida parcialmente ácidos graxos livres ou não esterificados. Esse processo incompleto leva ao acúmulo de corpos cetônicos.

No que diz respeito ao tratamento da cetose, existem diferentes métodos, porém um dos mais conhecidos nas fazendas é o drench, usado imediatamente após o parto, tanto para prevenção quanto para tratamento. No passado, o drench era normalmente suplementado por sonda esofagiana, com algum risco de falsa via, mas há hoje vários bons produtos comerciais, que permitem o consumo voluntário.

Na literatura, algumas abordagens comumente discutidas (particularmente para vacas com cetose clínica) envolvem administrar uma solução de dextrose a 50% junto com um glicocorticoide ou fornecer uma dose oral diária de um precursor de glicose como o propilenoglicol por cerca de 3 a 5 dias. Além disso, também pode ser recomendada uma dose única de cianocobalamina (B12) e butafosfana (fonte orgânica de fósforo).

A hipercetonemia subclínica, classicamente definida como BHB acima ou igual a 1,2 mmol/L, atinge rebanhos em diferentes proporções. Nosso Grupo do Leite da UFPR tem monitorado esta desordem há mais de 15 anos em dezenas de rebanhos leiteiros paranaenses de boa ou excelente produtividade, e entre 4.400 vacas monitoradas, encontramos 33% de incidência de hipercetonemia (cetose subclínica + clínica).

Já a hipoglicemia é definida quando a concentração de glicose está abaixo ou igual a 2,2 mmol/L (ou 40 mg/dL), e este é um segundo indicador que tem sido incluído no monitoramento. Assim, alguns estudos começaram a explorar as relações entre hipercetonemia (HK), hipoglicemia (HG), as duas condições concomitantemente (HKHG) e suas consequências.

Em 2017, houve um estudo inicial realizado por Ruoff e colaboradores, que investigaram a relação entre hipercetonemia e hipoglicemia. Surpreendentemente, eles descobriram que vacas com hipercetonemia e hipoglicemia concomitante produziram mais leite no primeiro controle leiteiro pós-parto, em comparação a vacas apenas com hipercetonemia ou vacas totalmente saudáveis. Também demonstraram que essas vacas HKHG foram mais responsivas ao tratamento com propilenoglicol do que aquelas com apenas hipercetonemia, levando a uma produção de leite ainda maior.

No entanto, dois estudos na última década (McArt e colaboradores) mostraram que vacas com baixa glicemia até 3 semanas pós-parto podem apresentar comprometimento do desempenho reprodutivo, com mais dias abertos (período de serviço) e diminuição na taxa de concepção ao primeiro serviço, quando hipoglicêmicas no pós-parto recente.

Sabendo destas controvérsias, Hubner e colaboradores conduziram dois estudos em 2020 (e publicados em 2022) a fim de obter respostas mais conclusivas. Para isso, monitoraram 2.418 vacas em 3 rebanhos dos EUA, nos estados de Illinois e Wisconsin. Os rebanhos variaram em tamanho entre 400 e 960 vacas em lactação, com produção diária de leite variando de 38 a 45 kg/d. As avaliações ocorreram no período de 3 a 9 dias pós-parto. Em sua classificação, animais com BHB ≥ 1,2 mmol/L foram classificados como HK, aqueles com glicose ≤ 2,2 mmol/L como HG e aqueles com ambos os diagnósticos foram classificados como HKHG. Animais normocetóticos e normoglicêmicos foram categorizados como normais.

Curiosamente, vacas somente hipoglicêmicas (HG) ou hipercetóticas e hipoglicêmicas (HKHG) produziram mais leite quando comparado às vacas normais (Norm: 49,6 kg, HK: 48,6 kg, HG: 52,4 kg e HK+HG: 50,8 kg; Figura 1). Mais importante, as vacas somente HK apresentaram as menores produções. No entanto, é relevante acrescentar que as vacas HKHG também apresentaram maior incidência de problemas como deslocamento de abomaso e cetose clínica.

Vacas multíparas HG produziram mais leite do que as vacas normais da 10ª à 20ª semana, enquanto as vacas multíparas HK produziram menos leite do que vacas normais e ficaram mais doentes, com maiores incidências de retenção de placenta e metrite. Já as primíparas hipercetóticas não apresentaram diferenças significativas na produção de leite em comparação com as demais categorias.

Figura 1. Produção de leite semanal de vacas multíparas em cada um dos grupos metabólicos.

Produção de leite semanal de vacas multíparas em cada um dos grupos metabólicos.

Norm: não hipercetonêmica (HK) ou hipoglicêmica (HG); HK: apenas hipercetonêmica; HG: apenas hipoglicêmica; HKHG: hipercetonêmica e hipoglicêmica. Fonte: Hubner et al. (2022a)

O mesmo grupo de pesquisadores publicou um segundo artigo para avaliar como vacas diagnosticadas com hipercetonemia (HK), hipoglicemia (HG) ou ambas as condições (HKHG) responderiam ao tratamento envolvendo propilenoglicol e vitamina B12 (cianocobalamina), ou seja, determinar se era possível tratar seletivamente as vacas com base na sua categoria metabólica. Curiosamente, este estudo revelou que vacas diagnosticadas apenas com hipercetonemia (HK) não apresentaram resposta positiva ao tratamento com propilenoglicol e vitamina B12.

Quanto a produção de leite durante seus 305 dias de lactação, tanto as vacas primíparas HG quanto aquelas HKHG tenderam a produzir mais leite quando receberam tratamento em comparação com aquelas que não foram tratadas. Esta tendência também se repetiu nas vacas multíparas; aquelas com hipoglicemia ou com a combinação de hipoglicemia e hipercetonemia produziram mais leite quando tratadas, ou seja, responderam ao tratamento. E o que aconteceu com as vacas somente hipercetóticas? Vacas HK, independentemente de terem sido tratadas com propilenoglicol e B12 ou não, não apresentaram melhora significativa na produção de leite, como mostram as figuras abaixo.

Figura 2. Produção de leite de primíparas (A) e multíparas (B) em 305 dias de lactação de acordo com a categoria metabólica e se tratadas ou não com propilenoglicol e vitamina B12.

Produção de leite de primíparas (A) e multíparas (B) em 305 dias de lactação de acordo com a categoria metabólica e se tratadas ou não com propilenoglicol e vitamina B12.

HK: apenas hipercetonêmica; HG: apenas hipoglicêmica; HKHG: hipercetonêmica e hipoglicêmica. Fonte: Hubner et al. (2022b)

Quanto a saúde, vacas HG tratadas tiveram uma redução no diagnóstico de cetose clínica em comparação com as vacas HG que não receberam tratamento. Provavelmente o tratamento desempenhou um papel crucial na redução da duração da hipoglicemia, o que a longo prazo, pode ter minimizado a mobilização de tecido adiposo e eventualmente a cetose.

Além disso, é importante notar que a hipercetonemia isolada (HK) e as condições concomitantes HKHG, foram associadas ao aumento da incidência de metrite clínica. Vacas somente hipercetóticas não parecem se beneficiar muito com o tratamento envolvendo propilenoglicol e vitamina B12. Por fim, não há indícios de benefícios do tratamento quanto a reprodução em nenhum destes grupos.

Em resumo, os últimos estudos avaliando rebanhos com monitoramento de vacas recém-paridas entre 3 e 9 dias, mostraram que vacas concomitantemente hipoglicêmicas e hipercetóticas apresentaram: 1) respostas positivas para produção de leite; 2) maior incidência de cetose clínica; 3) menos distúrbios de Ca, Mg e NEFA em comparação com vacas apenas com HK. E ainda, curiosamente, vacas multíparas HG aumentaram a produção de leite em comparação a vacas normais após 10 semanas de lactação.

Para finalizar, é evidente que ficar atento à ocorrência de hipercetonemia e hipoglicemia durante o período pós-parto pode desempenhar um papel crucial na determinação de onde concentrar os esforços de tratamento. Esta abordagem estratégica pode levar a uma melhor produção de leite e à saúde geral das vacas, não apenas durante a fase pós-parto imediato, mas também durante todo o período de lactação. É importante notar que embora o tratamento possa ser benéfico para alguns grupos metabólicos, pode não produzir resultados positivos em todas as vacas, enfatizando a necessidade de uma tomada de decisão direcionada.

 

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Referências:

HUBNER, A., I. F. CANISSO, P. M. PEIXOTO, W. M. COELHO JR., L. RIBEIRO, B. M. ALDRIDGE, P. MENTA, V. S. MACHADO, F. S. LIMA. Characterization of metabolic profile, health, milk production, and reproductive outcomes of dairy cows diagnosed with concurrent hyperketonemia and hypoglycemia. Journal of Dairy Science, v.105, p.9054-9069, 2022a.

HUBNER, A., I.  F. CANISSO, P. M.  PEIXOTO, W. M.  COELHO JR., L. RIBEIRO, B. M. ALDRIDGE, F. S. LIMA. A randomized controlled trial examining the effects of treatment with propylene glycol and injectable cyanocobalamin on naturally occurring disease, milk production, and reproductive outcomes of dairy cows diagnosed with concurrent hyperketonemia and hypoglycemia. Journal of Dairy Science, v.105, p.9070-9083, 2022b.

McART, J. A. A., D. V. NYDAM, G. R. OETZEL, C. L. GUARD. An economic analysis of hyperketonemia testing and propylene glycol treatment strategies in early lactation dairy cattle. Preventive Veterinary Medicine, v.117, p.170-179, 2014.

McART, J.A.A., D. V. NYDAM, M. W. OVERTON. Hyperketonemia in early lactation dairy cattle: A deterministic estimate of component and total cost per case. Journal of Dairy Science, v.98, p.2043-2054, 2015.

RUOFF, J., S. BORCHARDT, W. HEUWIESER. Short communication: Associations between blood glucose concentration, onset of hyperketonemia, and milk production in early lactation dairy cows. Journal of Dairy Science, v.100, p.5462-5467, 2017.

 

MILENA BUGONI

Zootecnista, M.Sc., Doutoranda em Zootecnia (PPGZ-UFPR)

ANA CAROLINA MOCELIN

Zootecnista, Mestranda em Zootecnia (PPGZ-UFPR)

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CLEIDIMAR BATISTA DE PAULA

GOIÂNIA - GOIÁS - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS

EM 12/02/2024

Excelente artigo e muito esclarecedor. Obrigado por compartilharem informações tão relevantes.
RODRIGO DE ALMEIDA

CURITIBA - PARANÁ - PESQUISA/ENSINO

EM 12/02/2024

Obrigado Cleidimar pelo comentário; ficamos felizes que vc gostou.

Prof. Rodrigo

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