Uma das grandes fontes de variabilidade dos resultados de composição e contagem bacteriana de rebanhos leiteiros é quando a coleta de leite é feita sem a adequada agitação prévia. Isto ocorre, pois o leite em repouso tende a acumular a gordura na camada superior (creme ou nata), a qual se associa com microrganismos e células somáticas, resultando em resultados equivocados quanto à composição do leite.
Ainda que seja um ponto crítico na credibilidade e funcionamento de programas de monitoramento e pagamento por qualidade, não existe unanimidade sobre os procedimentos para agitação do leite antes da coleta de amostras. Muitos países possuem legislações estabelecendo critérios mínimos para agitação do leite nos tanques imediatamente antes da coleta.Em alguns casos existem requisitos para agitação intermitente ou não do leite durante todo o período de armazenagem.
O objetivo de qualquer procedimento de agitação deve ser o que garantir que o leite coletado represente de maneira homogênea a composição do leite do tanque sem, no entanto, causar alterações da qualidade como a ruptura dos glóbulos de gordura - que ocorre sob excessiva agitação do leite. Adicionalmente, a implantação de procedimentos rígidos de agitação pode levar ao aumento dos custos de transporte do leite, pois pode aumentar o tempo de permanência do caminhão na fazenda.
Padrões internacionais existentes
De acordo com a legislação canadense (para a província de Ontário), o leite deve ser agitado pelo menos por 5 minutos antes da coleta de amostras, sendo que esta recomendação também é seguida pelas demais províncias. Nos Estados Unidos existem duas legislações sobre o assunto. Para a maioria dos estados do nordeste dos EUA, recomenda-se que o leite deve ser adequadamente agitado antes da coleta (agitação de 5 minutos para tanques abaixo de 3.800 L e de 10 minutos para tanques acima de 3.800 L - Farm Bulk Tank Collection Procedures, Dairy Practices Council). Alguns estados, contudo, seguem as recomendações da APHA (Standard methods for examination of dairy produtcts), a qual determina que o leite seja estremecido por pelo menos 5 minutos imediatamente antes da coleta da amostra e que tanques acima de 5700 L tenham agitação de 10 minutos ou de acordo com o fabricante.
Na Nova Zelândia, os códigos de práticas para coleta de leite determinam que o leite seja continuamente agitado durante o período de armazenamento, sendo que para silos de armazenagem de leite a agitação deve suficiente para que a variação do teor de gordura seja menor que 0,1% e que não haja variação de temperatura entre os vários pontos dentro do tanque, além de evitar a ocorrência de alteração dos glóbulos de gordura.
Na Austrália, não existe uma legislação nacional sobre o assunto, sendo que a única recomendação antes da coleta seria de que o leite deve estar abaixo de 5oC e que os procedimentos de coleta são aqueles recomendados pela IDF. De acordo com o protocolo da IDF (International Dairy Federation- IDF Standard 50B), o leite deve ser agitado por pelo menos 5 minutos até a obtenção da homogeneidade do leite. Para os tanques com agitação periódica automática, a coleta de amostras de leite pode ser feita após um ciclo de agitação de 1-2 minutos. Todos os países da União Européia seguem as recomendações da IDF e curiosamente a IDF não estabelece normas para a freqüência ou duração da agitação intermitente. A Grã-Bretanha segue as normas estabelecidas pela IDF.
Em resumo, os vários organismos internacionais apresentam normas gerais para agitação do leite entre 5 e 10 minutos para tanques pequenos e grandes, respectivamente. Quando a agitação intermitente é usada (ciclos de agitação e repouso), a recomendação é de que o tempo de agitação de 1 a 5 minutos é adequado antes da coleta, sendo que a Nova Zelândia é a única com determinação de agitação contínua do leite. Todas estas recomendações, entretanto carecem de embasamento de estudos científicos.
Bibliografia consultada
Journal of Dairy Science, v. 87, p.2761-2768, 2004; Journal of Dairy Science, v. 87, p.2846-2853, 2004.
Procedimentos de coleta de amostra: base para avaliação da qualidade do leite - Parte 1
Uma das grandes fontes de variabilidade dos resultados de composição e contagem bacteriana é quando a coleta de leite é feita sem a adequada agitação prévia.
Publicado por: Marcos Veiga Santos
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Material escrito por:
Marcos Veiga Santos
Professor Associado da FMVZ-USP Qualileite/FMVZ-USP Laboratório de Pesquisa em Qualidade do Leite Endereço: Rua Duque de Caxias Norte, 225 Departamento de Nutrição e Produção Animal-VNP Pirassununga-SP 13635-900 19 3565 4260
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