Alterações da estabilidade do leite - Parte 1

O principal fator que tem impulsionado a melhoria da qualidade do leite é a demanda crescente por parte dos laticínios e esses, necessitam de estabilidade.

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Introdução

O principal fator que tem impulsionado a melhoria da qualidade do leite no Brasil é a demanda crescente por parte dos laticínios, indústrias e dos consumidores por produtos de qualidade aumentada, refletindo assim, na necessidade de implantação de medidas visando o aumento da qualidade da matéria-prima.

O termo qualidade do leite é atualmente muito utilizado, dada a importância que adquiriu no setor de produção leiteira, fazendo-se necessária a sua correta conceituação. O leite de alta qualidade pode ser caracterizado como um alimento livre de agentes patogênicos e outros contaminantes (resíduos de antibióticos e pesticidas), apresentando reduzida contaminação microbiana, sabor agradável, adequada composição e baixa contagem de células somáticas (CCS). Considerando este conceito internacional, podemos enfocar a qualidade do leite sob diferentes aspectos: características microbiológicas (higiene), controle de mastite e resíduos, e características de composição. O objetivo do presente artigo é o de discutir as alterações da estabilidade do leite.

Alterações da estabilidade do leite

A indústria de laticínios busca a recepção de leite de elevada estabilidade térmica, uma vez que esta é importante para o processamento de derivados lácteos que sofrem tratamentos térmicos severos ou com vida de prateleira longa. Atualmente, a redução da estabilidade térmica do leite é um problema freqüentemente encontrado em vários estados do Brasil, sendo este um fator limitante principalmente da matéria prima utilizada para a fabricação do leite UHT, o qual representa atualmente cerca de 74% do mercado de leite fluido do Brasil. O tratamento térmico do leite tem como objetivos a garantia de sua segurança ao consumidor e o aumento da conservação, o que é obtido pela redução de microrganismos patogênicos e deteriorantes, assim como da atividade enzimática. No entanto, com o tratamento térmico ocorrem alterações indesejáveis, tais como deslocamento do cálcio e fosfato solúveis para a fase coloidal (precipitação de fosfato tricálcico), diminuição da solubilidade da proteína do soro e quebra da lactose em ácidos orgânicos (Wastra e Jenness, 1984).

A estabilidade térmica do leite pode ser definida como o tempo necessário para ocorrer coagulação visível, em determinado pH e temperatura. Esta estabilidade está diretamente relacionada com a capacidade de o leite resistir à coagulação pelo calor e, portanto, às suas características de processamento (Silva, 2003). Diversos fatores afetam a estabilidade do leite: tempo, temperatura, pH, equilíbrio salino, concentração de uréia, estágio de lactação, alimentação e ocorrência de mastite. De forma geral, considera-se aceitável estimar a estabilidade térmica do leite pelo emprego da prova do álcool ou do alizarol, que é um teste muito utilizado para determinar a aptidão do leite para o tratamento térmico. Atualmente, a prova do álcool é muito empregada nas indústrias de laticínios como um teste para aceitação ou rejeição do leite no momento da recepção na plataforma ou mesmo de fazenda leiteira.

O equilíbrio salino do leite influencia a estabilidade térmica do leite, destacando-se entre os seus componentes principais as concentrações de cálcio, fosfato e citrato. Devido ao papel importante do fosfato de cálcio na estabilidade das micelas de caseína, alterações no equilíbrio entre cálcio solúvel e coloidal afetam a prova do álcool e, conseqüentemente, a estabilidade térmica do leite.

O leite produzido por vacas no início e final de lactação apresenta concentrações alteradas de proteínas e de cálcio e fósforo, o que afeta a sua estabilidade térmica. De forma geral, os teores de macrominerais na alimentação não afetam as suas concentrações no leite, pois mesmo em dietas deficientes em cálcio, a vaca mobiliza o cálcio e fósforo das reservas ósseas de forma a manter as concentrações no leite. Por outro lado, as alterações de permeabilidade vascular ocasionadas pela mastite alteram o equilíbrio salino do leite e podem afetar a estabilidade térmica.

A ocorrência de enzimas proteolíticas de origem tanto do sangue ou das células somáticas como de origem microbiana resulta em degradação da caseína e conseqüente redução da estabilidade do leite. A proteólise do leite UHT durante o armazenamento é um exemplo de redução da estabilidade do leite pela formação de sedimento e aumento da viscosidade, configurando-se como um importante problema de qualidade.

Em estudo realizado para determinar os fatores relacionados com a sedimentação e gelificação do leite UHT, Silva (2003) avaliou amostras de leite de três diferentes regiões do Brasil (RS, SP e GO) nas duas estações do ano, acompanhando as características de qualidade do leite UHT durante 120 dias de armazenamento. De acordo com os resultados, maiores teores de cálcio e maior relação cálcio/fósforo reduziram a estabilidade do leite cru na prova do álcool, enquanto teores de fósforo e uréia aumentaram esta estabilidade. Verificou-se para alguns dos critérios avaliados (sedimentação) efeitos significativos da região de origem das amostras, demonstrado que tais defeitos de qualidade devem ser abordados localmente pelas indústrias. Adicionalmente, observou-se que os problemas de sedimentação e gelificação - que ocorrem pela perda progressiva de estabilidade protéica do leite submetido aos tratamentos térmicos - têm maior ocorrência na estação chuvosa. A perda de estabilidade do leite também pode se apresentar pela separação da gordura e gelificação, esta última caracteriza-se pelo aumento da viscosidade do leite. Entre os mecanismos que explicam o aumento da viscosidade do leite destaca-se a ocorrência de proteólise da caseína por enzimas de origem microbiana e as da própria vaca.

Fonte: adaptado de SANTOS, M. V. Aspectos não microbiológicos afetando a qualidade do leite. In: J. W. Durr; M. P. Carvalho; M. V. Santos (Org.). O compromisso com a qualidade do leite no Brasil. Passo Fundo, 2004, p. 269-283.
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Material escrito por:

Marcos Veiga Santos

Marcos Veiga Santos

Professor Associado da FMVZ-USP Qualileite/FMVZ-USP Laboratório de Pesquisa em Qualidade do Leite Endereço: Rua Duque de Caxias Norte, 225 Departamento de Nutrição e Produção Animal-VNP Pirassununga-SP 13635-900 19 3565 4260

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Lucas dos Santos Pereira
LUCAS DOS SANTOS PEREIRA

CACHOEIRO DE ITAPEMIRIM - ESPÍRITO SANTO - INDÚSTRIA DE LATICÍNIOS

EM 14/12/2012

dentro de um rebanho leiteiro,uma vaca com problemas no leite,pode alterar toda a integridade das demais?


Paulo Cesar Cia
PAULO CESAR CIA

UMUARAMA - PARANÁ - INDÚSTRIA DE INSUMOS PARA A PRODUÇÃO

EM 23/05/2011

Situação:Um produtor o leite não passa no teste do alisarol,sempre coagula,No mesmo momento que o transportador coletava o leite,o produtor coletava uma amostra e fervia e o leite, nao cogulava,falaram para ele usar bicarbonaato de sodio algumas colheres antes do teste do alisarol a partir dai não teve reação ao alisarol.Mais o produtor nao se sente confortavel em colocar o bicarbonato de sodio.O que fazer????


Tem como resolvermos atravez da alimentação????.O que o bicarbonato pode interferir na composição do leite?O Bicarbonato pode ser prejudicial a saude?O bicarbonato pode prejudicar a fabricação dos produtos?.Vacas  com produção media de 15 litros,pouco concentrado,mais é usada rsapa de mandioca como volumoso.Mais tambem já esperimentou tirar por 60 dias a raspa de mandioca e nao adiantou.


Elisa de Souza Junqueira Rezende
ELISA DE SOUZA JUNQUEIRA REZENDE

LAVRAS - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 25/03/2009

Boa tarde Marcos Veiga,
Gostaria de pedir informações sobre o metabolismo do citrato na glândula mamaria. Tenho um seminário p/ apresentar e não estou achando material.
Desde já agradeço,
Elisa

<b>Resposta do autor:</b>

Prezada Elisa de Souza Junqueira Rezende,

Sugiro que seja feita uma revisão de literatura sobre o assunto, pois não tenho trabalhos específico sobre esse tema para te ajudar.

Atenciosamente, Marcos Veiga

andre ferreira pinto
ANDRE FERREIRA PINTO

ITAPAGIPE - MINAS GERAIS - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS

EM 22/06/2005

Olá, meu amigo!



Tenho um produtor, que está produzindo um leite desequilibrado e já mudei alimentação, mineralização, CMT, CCS, CBT, separei lotes, fiz teste de alizarol vaca á vaca e a maioria reage total. O que poderia estar acontecendo com estes animais?



Desde já agradeço a sua atenção;



André

Técnico - Copapi

Itapagipe-MG



<b>Resposta do autor</b>



Prezado André,



No caso de problemas com instabilidade do leite, ainda não temos uma resposta completa sobre as causas deste problema, mas podemos tentar eliminar algumas prováveis situações:



1) Verificar se existe problemas de refrigeração deficiente ou de limpeza, que caracterizaria um problema real de acidez do leite. Neste caso, pode verificar se o leite apresenta alta CBT;



2) Verificar se existe problemas de alto nível de vacas com mastite (alta CCS), o que pode ocasionar problemas de instabilidade do leite;



3) Identificar se existem vacas no final de lactação em grande número, pois o leite de final de lactação tende a ser mais instável



4) Corrigir eventuais problemas de nutrição, tais como deficiência de energia, proteína e de minerais;



5) Não adianta fazer o Alizarol de vaca individual, pois existe grande variação e o que importa é o resultado do leite de conjunto;



6) Caso mesmo assim, persista o problema, tem que ser feita uma revisão completa dos procedimentos do Alizarol (verificar se a concentração de álcool não é muito elevada, por exemplo acima de 76-78%). Caso o Alizarol seja positivo, a recomendação é que seja feita uma prova auxiliar, como a prova da fervura do leite (ver se coagula quando o leite é fervido). Caso haja coagulação, então o leite deve apresentar problemas durante o processamento, caso contrário o leite poderia ser utilizado.



Atenciosamente, Marcos Veiga
Qual a sua dúvida hoje?