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Gerenciamento de bezerreiros para aumento no potencial de produção - Parte 1

POR CARLA MARIS MACHADO BITTAR

CARLA BITTAR

EM 28/02/2018

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*Palestra proferida durante o Workshop #medirparagerenciar – Edição Leite, que ocorreu nos dias 8 e 9/02/2018 em Piracicaba – SP.

Já faz algum tempo a criação de bezerras deixou de ser vista como custo, tendo agora um status de investimento. Investimento no futuro do rebanho, uma vez que as vacas deixam o rebanho por descarte e há a necessidade de reposição de animais - seja para manutenção ou para o aumento da produção de leite do sistema. Enquanto vista somente como custo, as práticas de manejo principalmente no que se refere a alimentação, buscavam exatamente a redução dos mesmos. A maior parte dos sistemas de produção adotavam o sistema de aleitamento convencional e o desaleitamento precoce. Com isso, o custo com a dieta líquida era o mínimo, mas as taxas de ganho deixavam a desejar.  Houve uma mudança na abordagem de custo para investimentos de 10 anos pra cá em resposta às evidências de que bezerras em aleitamento intensivo se tornam vacas mais produtivas. Sim, o investimento é de longo prazo e o retorno deverá ocorrer por volta de 24 meses após o nascimento da bezerra.

A Associação de Criadores de Bezerras e Novilhas (DCHA – Dairy Calf and Heifer Association), uma organização americana, sumarizou recomendações de pesquisa de forma a nortear práticas de manejo e alimentação destes animais. Estas recomendações, chamadas de Padrão Ouro (Gold Standards), devem ser consideradas como metas pelos produtores. No entanto, se o seu manejo não pode ser considerado nem como bronze, não será possível conseguir alcançar resultados padrão ouro. Para que tudo isso seja ajustado, tanto metas quanto manejo ou o que podemos chamar de processos, é preciso levantar e trabalhar com índices.

De qualquer modo, independentemente de quais são as metas definidas para um determinado sistema de produção, o monitoramento do trabalho realizado e anotação/medidas de resultados é que possibilitam o gerenciamento da atividade de criação de bezerras.  O monitoramento se inicia com o nascimento da bezerra e durante todo o seu período de aleitamento muitos índices serão levantados. A avaliação e anotação destes dados tão somente não permite um estudo da criação naquela situação. Assim, trabalhar com estes dados, gerando índices os quais serão comparados com as metas pré-definidas é o que permitirá em última análise a gestão da criação.

Um dos pontos mais importantes na criação de bezerras é a gestão das pessoas envolvidas diretamente nesta atividade. Como já tratamos em textos anteriores, sem essas pessoas, seu envolvimento, comprometimento e inserção no processo, não se consegue gerenciar e ter bons índices. É importante que estas pessoas gostem e se sintam felizes com o que fazem, como alguns exemplos na Figura 1. Da mesma forma que não temos pessoas que não gostam de crianças trabalhando em escolas infantis, não devemos ter pessoas que não gostam de bezerros atuando em bezerreiros. Isso por vários motivos, a começar pelo fato de que estas pessoas vão “adotar” bezerras separadas de suas mães. São estas pessoas que vão alimentar, cuidar e porque não conviver com estes animais por um longo período. Além disso, estas pessoas precisam ter sensibilidade para entender alterações no comportamento animal e para compreender o que estes animais estão nos “dizendo” diariamente. Em terceiro lugar por que estas pessoas vão tomar e anotar medidas diárias que permitirão avaliação e ajustes no processo.

Figura 1. Tratadores de bezerros desempenhando suas funções com comprometimento e satisfação.

Tratadores de bezerros desempenhando suas funções com comprometimento e satisfação

Vários índices são importantes no gerenciamento da criação e todos deverão ser anotados na ficha do bezerro, a começar pelo peso ao nascer. O peso ao nascer determina o volume mínimo (10% peso) de colostro de alta qualidade a ser fornecido ao animal nas primeiras 6h, de forma a garantir a imunidade do mesmo. Assim, uma balança ou a fita de pesagem pode ser considerada a primeira ferramenta para gerenciamento da criação.

Como a colostragem define não só as taxas de mortalidade e de morbidade, mas também tem efeitos no potencial de produção futuro do animal, seu gerenciamento é de fundamental importância no processo. Uma vez que a eficiência da colostragem depende de tempo, volume e qualidade, estes três fatores precisam ser controlados. Anotando-se a hora de nascimento dos bezerros pode-se determinar a janela para fornecimento do colostro. Assim, um simples relógio também passa a ser uma importante ferramenta.

A gestão da qualidade pode considerar o uso de um colostrômetro ou de um refratômetro de brix (Figura 2). Uma vez que as medidas do colostrômetro são dependentes da temperatura do material, é necessário que o bezerreiro tenha um termômetro. Já o refratômetro de brix não tem esta dependência. Em ambos os casos o tratador precisa ser treinado.  O treinamento hands-on é o melhor, ou seja, o técnico deve realizar a medida juntamente com o tratador e depois acompanhá-lo realizando a mesma. Para que o colostro seja considerado de alta qualidade deve ter leitura no colostrômetro > 50 mg/dL e no refratômetro de brix > 22%.

Figura 2. Colostrômetro e refratômetro de brix para gestão da qualidade do colostro.

Colostrômetro e refratômetro de brix para gestão da qualidade do colostro

A gestão da quantidade pode ser feita com a criação de banco de colostro, que consiste no armazenamento de colostro excedente em freezer. O colostro armazenado deve ter alta qualidade e ser armazenado preferencialmente em sacos plásticos formando placas que facilitam o descongelamento. O descongelamento deve ser realizado em banho-maria em temperatura abaixo de 55°C e portanto um termômetro será necessário. Práticas para coleta de colostro (ordenha da recém-parida) para a redução da contaminação e obtenção de colostro com baixa carga bacteriana (< 100.000 UFC) são de extrema importância tanto para o fornecimento imediato quanto para o armazenamento em banco.   

A eficiência da colostragem pode ser medida através da avaliação do sangue da bezerra após um período de 24-48h. Para isso serão necessárias seringas e agulhas ou tubos vacuolizados e um refratômetro de brix ou de proteína. O sangue será colhido e deixado dessorar para que a leitura seja feita o soro. Para que a transferência de imunidade seja considerada como de sucesso, a leitura no refratômetro de proteína deve ser > 5,5 mg/dL e no refratômetro de brix >8,4%.

A partir deste ponto é que passamos a pensar na gestão da alimentação durante o período de aleitamento. Enquanto não temos a certeza de animais com adequada transferência de imunidade não existe razão para se discutir sobre tipo de alojamento, volume de fornecimento de dieta líquida, tipo de dieta líquida e de dieta sólida e outros fatores que influenciam no desempenho dos animais e no que agora chamamos de investimento. Pensando no animal, o maior investimento de recursos e tempo se dá nestas primeiras 6h de vida que determinarão o futuro produtivo destes animais.

CARLA MARIS MACHADO BITTAR

Prof. Do Depto. de Zootecnia, ESALQ/USP

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MARCOS CESAR NOGUEIRA

CRISTAIS - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 06/03/2018

Dra Carla, como a maioria das novilhas estão atingindo peso para inseminar por volta de 12 meses, ainda não penso e diminuir o leite e porque também ainda tenho espaço nas casinhas.
MARCOS CESAR NOGUEIRA

CRISTAIS - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 05/03/2018

Com 8 litros diariamente até 80 a 90 dias estou desmamando bezerras com média de 120 kg.
CARLA BITTAR

PIRACICABA - SÃO PAULO - PESQUISA/ENSINO

EM 05/03/2018

Marcos,
Nunca pensou em reduzir este período de aleitamento e liberar espaço no bezerreiro ou permitir um vazio sanitário?
Você poderia ir com 8L até uns 50 dias e depois reduzir pra 6L e depois para 4L e desaleitar com 60-65d. Claro que vai desaleitar os animais um pouco mais leves, mas vai ver benefícios também econômicos sem reduzir o potencial de produção dos animais.
Abs.
DIJALMA CHAVES DOS SANTOS

VALPARAÍSO DE GOIÁS - GOIÁS - ESTUDANTE

EM 01/03/2018

Boa tarde Dra. Carla Bittar, gostaria de saber se posso obter o soro para avaliar Transferência de Imunidade Passiva, com o sangue colhido direto na orelha em microcapilar, e depois centrifugar?
CARLA BITTAR

PIRACICABA - SÃO PAULO - PESQUISA/ENSINO

EM 05/03/2018

Dijalma,
pode sim! Não há problema!
DIJALMA CHAVES DOS SANTOS

VALPARAÍSO DE GOIÁS - GOIÁS - ESTUDANTE

EM 01/03/2018

Boa tarde Dra. Carla Bittar, tudo bem? Quanto a obtenção do soro pode ser em microcapilar com sangue colhido direto na arena e rodado na centrífuga?
RICARDO LUIZ DORE

LONDRINA - PARANÁ - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 28/02/2018

Carla, Excelente artigo, aliás eu acompanho todos os seus artigos.
Pergunta: com relação ao nivel de PB da ração de bezerros em aleitamento, existem varias discuções, mas qual o requerimento diario em proteina para esta fase.
CARLA BITTAR

PIRACICABA - SÃO PAULO - PESQUISA/ENSINO

EM 01/03/2018

Ricardo,
temos respostas em desempenho com concentrados com PB de até 23%. A partir disso não existe mais resposta em desempenho.
Abs.,
ROSANE

SEROPEDICA - RIO DE JANEIRO - PESQUISA/ENSINO

EM 28/02/2018

A falha no fornecimento do primeiro colostro ainda é uma das principais causas de mortalidade/morbidade de bezerros jovens.