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Qual o fator de maior importância no bezerreiro?

POR CARLA MARIS MACHADO BITTAR

CARLA BITTAR

EM 07/01/2014

5 MIN DE LEITURA

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Dias atrás, depois de lecionar um minicurso de pós-graduação sobre criação de bezerras e novilhas, perguntei aos alunos qual era o fator de maior importância para o sucesso na criação. Para minha surpresa houve silêncio durante alguns segundos, talvez pela timidez ou medo de errar, talvez pela necessidade de reflexão tendo em vista as inúmeras tarefas realizadas em um bezerreiro diariamente. Na sequência, vieram as mais variadas respostas, sendo a colostragem apontada como a mais importante. Sim, a colostragem é extremamente importante para a sobrevivência dos bezerros, saúde e taxas de crescimento. Outros apontaram o bom manejo sanitário, já que as taxas de mortalidade e morbidade, assim como o desempenho dos animais, são fortemente afetados, principalmente pela freqüência e duração de problemas de saúde como as diarreias. Outros alunos disseram que a nutrição é o fator mais importante para o sucesso do bezerreiro, uma vez que animais bem nutridos são menos acometidos por doenças, apresentam altas taxas de ganho e podem inclusive ter seu potencial de produção aumentado. Depois de mais um tempo de discussão apresentei a minha hipótese: o fator mais importante para o sucesso do bezerreiro é o TRATADOR! Para minha surpresa, silêncio profundo na sala! Será que passamos o dia conversando sobre todos estes outros fatores, enquanto o mais importante será ter a pessoa certa para os cuidados com estes animais? Vamos à reflexão.

Em campo, observamos desempenhos diferentes em sistemas de produção muito semelhantes em termos de colostragem, manejo sanitário, nutrição e instalações. A diferença nestes sistemas está no tratador, no seu comprometimento e entendimento da importância de cada uma das tarefas no dia a dia do bezerreiro e no efeito que isso tem no bem estar e no crescimento dos animais. Sem um tratador treinado a anotar, monitorar e avaliar juntamente com o técnico o trabalho que vem sendo feito, não existe sucesso. Assim, temos como primordial a busca por uma pessoa treinada, que se sinta parte do processo e que seja reconhecida pelo seu trabalho.

O treinamento de funcionários de bezerreiros é mandatório para o sucesso. Funcionários treinados sabem a importância de cada uma das etapas do processo de criação e seus impactos no desempenho dos animais. O treinamento também pode resultar em aumento no comprometimento e este talvez seja o maior diferencial entre tratadores e resultados obtidos pelos mesmos. Quando o tratador é bem treinado e entende o porquê de cada etapa, também passa a estar comprometido com a realização de todas as tarefas.

O treinamento básico de um tratador deve passar obrigatoriamente pela importância da colostragem e da rotina diária com o trato dos animais. Realizar tarefas juntamente com o tratador, fazendo correções, parece ser a melhor forma de treinamento. Isso também passa a ideia de que aquele trabalho é extremamente importante, ou então você não estaria ali “gastando tempo” com ele. Infelizmente o treinamento não é rápido, é um processo lento e que muitas vezes requer reciclagem. O tratador bem treinado deve ser capaz de diagnosticar problemas rapidamente, de forma que a solução também seja rápida, e afete minimamente o desempenho dos animais. Observar os animais e aprender seu comportamento dá ao tratador vantagens no que diz respeito à velocidade de diagnóstico, mas isso muitas vezes é uma habilidade que somente alguns tratadores vão desenvolver com o tempo.

Na correria da rotina diária de um bezerreiro, muitas vezes os animais passam a ser vistos como mais um item no ambiente e não como indivíduos. A transformação de bezerreiros em linhas de produção, onde o tratador realiza tarefas de forma mecânica, tem trazido sérios problemas e prejuízos a bezerreiros com a redução no desempenho e aumento no custo com medicamentos. Alguns tratadores olham, mas não enxergam o problema. Falta sensibilidade! E isso faz com que o diagnóstico seja tardio. Durante o treinamento chame atenção para alguns aspectos que vão além da colostragem, da importância da rotina de alimentação e da limpeza, como por exemplo:

1. Observar o aspecto geral dos animais: olhos, posição das orelhas, pelagem;
2. Escore fecal;
3. Presença de descarga nasal;
4. Odores desagradáveis no animal ou nas instalações;
5. Velocidade com que consomem a dieta líquida;
6. Comportamento após o fornecimento da dieta líquida.

Alguns trabalhos de pesquisa sugerem que, assim como ocorre nas salas de ordenha pelo mundo, os melhores bezerreiros também são aqueles conduzidos por mulheres. Exceções a parte, a maior preocupação com limpeza e organização, aliada a grande sensibilidade no entendimento de alterações de comportamento animal, fazem com que os bezerreiros conduzidos por mulheres apresentem, por exemplo, menor ocorrência e de diarreias, resultando em melhor desempenho animal. No entanto, com adequado treinamento e motivação, homens também podem ser tratadores exemplares.


Figura 1. Tratadora do bezerreiro da Fazenda Agrindus durante o fornecimento de leite.


Figura 2. Tratador de fazenda leiteira no Uruguai durante fornecimento de dieta líquida em sistema coletivo

Outro aspecto importante é a inclusão do tratador no sistema de produção. Tenho observado em algumas visitas na presença de veterinários e outros técnicos, que poucas vezes o tratador é chamado a participar. Como técnica, entendo que o tratador é a peça mais importante no diagnóstico de problemas no bezerreiro, sendo que muitas vezes ele mesmo é o problema! Conversar com o tratador sobre o dia a dia já dá ao técnico uma idéia do trabalho que vem sendo realizado, como é realizado e com qual comprometimento e atitude. Muitos trabalhos de pesquisa mostram que a atitude positiva do tratador em relação aos animais melhora o desempenho de bezerros em aleitamento. Só conseguimos entender a atitude do tratador conversando e trabalhando junto com o tratador. Incluir o tratador no processo com a participação ativa em visitas - assim como a apresentação de resultados, de forma que ele saiba como sua ação juntamente com a nutrição, manejo sanitário, etc, vem afetando o desempenho dos animais - é também uma forma de reconhecimento. A conversa com o tratador juntamente com a avaliação de resultados pode sugerir que o tratador precise de mais treinamento ou que simplesmente precise ser mais incluído e reconhecido como parte do processo.

O último aspecto que afeta o desempenho do tratador é o reconhecimento pelo seu trabalho. O reconhecimento verbal aumenta a auto-estima e acaba por motivar ainda mais o tratador. Tenho escutado opiniões bastante diferentes com relação ao estabelecimento de prêmios em função do alcance de determinadas metas. Algumas propriedades dão prêmios para funcionários quando, por exemplo, a taxa de mortalidade permanece dentro do limite estabelecido para aquele sistema de produção. Em outras situações, prêmios em função do peso ao desaleitamento. No entanto, alguns estudiosos dizem que a premiação é inadequada já que o alcance destas metas deve fazer parte do trabalho do tratador.

Neste início de ano, reavalie o treinamento de seu tratador. Aproveite o novo ano para reciclar o conhecimento do mesmo, aumentando o comprometimento e a motivação, aliada à atitude positiva. E lembre-se de agradecer pelo trabalho realizado durante o ano que passou. Reconheça não só os erros, mas também todos os acertos!

Feliz 2014! Que nossos bezerreiros tenham mais bezerros e tratadores felizes!
 

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CARLA MARIS MACHADO BITTAR

Prof. Do Depto. de Zootecnia, ESALQ/USP

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DANIELLE ENGEL

UBERLÂNDIA - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 24/07/2014

Excelente matéria. Sabe me dizer onde encontro cursos de aperfeiçoamento para o tratador de bezerros? Obrigada.
BRUNO PRATES

LAGOA VERMELHA - RIO GRANDE DO SUL - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 11/06/2014

sem duvida os métodos usados pelo tratador auxiliam muito no desemvolvimento dos bezerros muito boa matéria
ESTÊVÃO DOMINGOS DE OLIVEIRA

QUIRINÓPOLIS - GOIÁS - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 15/01/2014

Muito bom o artigo.



O ser humano sempre em primeiro lugar.



Sem as pessoas qualquer local é vazio.
REGIS NUNES FERREIRA LEITE

LAGOINHA - SÃO PAULO - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 13/01/2014

Parabens pela reportagem,oportuna e o tratador é nosso elo  empressario /funcionario. Ele é Colaborador ,sensevil aos minimos detalhes e na nossa criação todas já tem brinco com nome individual ,pois elas unicas ,especiais .E qto a moradia lá primeiro as casas deles devem estar melhores,para depois voltar a pensar na minha  Parabens
HUDSON ERIVALTER VALEZI

BOA ESPERANÇA - PARANÁ - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 12/01/2014

gostaria de saber qual  o movimento do mercado do leite para fevereiro, pois outubro estavamos recebendo 1.23 por litro. agora estamos recebendo 0.98.  O laticinio que trabalhamos é LBR.  Os laticinios não podia ter baixado tanto assim.
JORGE SILVA

VILA DO CONDE - PORTO

EM 08/01/2014

o tratador é a principal  maquina para o bom funcionamento e para atingir os objetivos pretendidos
IVON CORREA

ANÁPOLIS - GOIÁS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 08/01/2014

Muito bom seu artigo.

Já faz algum tempo que detectei essa solução. De nada adianta investir em tecnologia se operador dessa não se sentir compromissado e envolvido com os resultados.

O produtor (empresário) há que investir primeiramente em seus recursos humanos se quiser bons resultados.

Parabéns pela oportunidade da apresentação do tema.

Parabéns pela simplicidade com que foi apresentado.
JOSÉ CARLOS AZEVEDO

ITAPERUNA - RIO DE JANEIRO - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 08/01/2014

Dra  CARLA BITTAR:

Em síntese era tudo que qualquer proprietário rural gostaria de ter como confirmação relativamente ao explanado com segurança de quem conhece a vida do campo. Estabeleceste o exato. Reconhecimento do tratador pela longa experiência pelo trato com estes animais desde seu nascimento. Estes homens são corresponsáveis pela geração futura de nossos animais e daqueles que sacrificam-se para um melhor desempenho na produção. Muito bom tê-la em nosso convívio. Suas explicações são desenvolvidas com muita convicção. Não há o que contestar.   

Até breve.

José Carlos Azevedo  
ROMUALDO MARTINS DE PAULA

UBERLÂNDIA - MINAS GERAIS - INDÚSTRIA DE INSUMOS PARA A PRODUÇÃO

EM 08/01/2014

Excelente matéria!!!

Visitamos todos os anos centenas de propriedades rurais Brasil a fora. E a figura deste profissional `` O tratador `` tem nós mostrado o quando o seu profissionalismo tem feita a diferença nos resultados positivos da atividade leiteira. Um ponto me leva a ampliar o comentário sobre o seguimento Lácteo no Brasil. Vejo que em grande parte da propriedades que pude visitar, o profissionalismo na condução da atividade ainda e pequeno. Em sua grande maioria, são produtores que fazem da atividade mais um fonte de renda para sua família e mais recurso para custear parte das despesa da fazenda.  Existem varias possibilidades de como atuar para a melhora deste profissionalismo lácteo no país. Sou um exemplo `` O que esperamos e desejamos tanto do TRATADOR, devemos fazer em toda a propriedade``.
CÁSSIO DE OLIVEIRA LEME

PARANAPANEMA - SÃO PAULO - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 08/01/2014

Importante matéria Carla. Normalmente focamos a produção em procedimentos mais técnicos e menos em recursos humanos. Como pode um funcionário (colaborador) motivar-se numa fazenda que mostra altos investimentos em tecnologia e baixo interesse na pessoa dele? Muitos produtores ainda não entenderam que se o negócio fechar, todos estarão desempregados, inclusive o falido proprietário. Ainda observo a cultura do "Patrão X Empregado", infelizmente! Precisamos diminuir o contraste social da "Sede Mansão com a casa de colonos no porão! O choque de classes pode estar dentro das fazendas.
MARCIO GARBIN MEDEIROS

PIQUETE - SÃO PAULO - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 08/01/2014

Parabéns -Otima materia - O que mais falta e mesmo a sensibilidade e faro para os tratadores. Uma vez o problema detectado em tempo habil , tudo fica mais certo de ser resolvido.


EIZAMI ABDIEL DE OLIVIERA FILGUEIRA

PIRES DO RIO - GOIÁS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 08/01/2014

Muito bom, com toda certeza!



Seria interessante repassar como avaliar os 6 pontos expostos:



1.     Observar o aspecto geral dos animais: olhos, posição das orelhas, pelagem;

        Qual seria os aspectos normais e o que estaria indicando irregularidade e quais os possíveis diagnósticos?



2.     Escore fecal;

        Quando se deve preocupar e quando pode ser considerado normal?



3.     Presença de descarga nasal;

        Descarga nasal seria catarro? O que isso pode simbolizar?



4.     Odores desagradáveis no animal ou nas instalações;

        Isso é simples mas talvez pode ser mais bem detalhado.



5.     Velocidade com que consomem a dieta líquida;

        Qual é a velocidade normal, é preocupante se consome rápido de mais ou somente quando se faz com certa demora? Qual a melhor forma de fornecer a dieta líquida, o leite, seria com mamadeira ou balde, ou tanto faz? O mais indicado ainda é os 4 litros diários divido em 2 vezes?



6.     Comportamento após o fornecimento da dieta líquida.

        Qual seria o comportamento ideal?





Eu sou muito interessado neste assunto, pois as nossas bezerras de hoje são as vacas produtoras de amanhã.



Obrigado!
JOSÉ CARLOS TEIXEIRA DOS REIS

ROLIM DE MOURA - RONDÔNIA - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 08/01/2014

PARABÉNS. Excelente matéria!!!!
MARCELO MOREIRA ANTUNES

PASSO FUNDO - RIO GRANDE DO SUL - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 08/01/2014

Interessante a abordagem. Certamente o fator humano é primordial em qual atividade...
JULIANO BÉRGAMO RONDA

UBERABA - MINAS GERAIS - PESQUISA/ENSINO

EM 07/01/2014

Em minha opinião os prêmios são bem vindos. Vamos pensar... em grandes empresas existem participação de lucros, sendo assim, não vejo problemas na bonificação do colaborador. O meu maior receio é o ciclo vicioso que poderá ser formado. Mas mesmo assim, pode ser considerado uma solução a alguns dos problemas de gestão pessoal. Abraços e excelente matéria.  Parabéns.  
THULIO CÔRTES

BOM JESUS DE GOIÁS - GOIÁS - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 07/01/2014

Excelente Matéria, e realmente o tratador é engrenagem do sucesso do bezerreiro.
ALEXANDRE BENVINDO FERNANDES

RIO BRANCO - ACRE - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 07/01/2014

Parabéns pela matéria Carla.
MilkPoint AgriPoint