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Comparando decisões de colaboradores e diagnósticos veterinários para tratamento de bezerras

POR CARLA MARIS MACHADO BITTAR

E MARINA GAVANSKI COELHO

CARLA BITTAR

EM 25/10/2019

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As doenças são comumente relatadas como o principal problema de manejo para bezerros durante a fase de aleitamento. Segundo levantamentos nos Estados Unidos, 21% dos bezerros leiteiros são afetados por distúrbios digestivos que causam diarreia e 76% destes são tratados apenas com antibióticos.

Tomando como base essa informação, o uso de antimicrobianos no manejo sanitário dos bezerreiros é bastante expressivo, o que destaca a importância de entender como, por que e quando essas drogas devem ser utilizadas, a fim de tornar seu uso mais eficiente. Além do custo atrelado ao uso desnecessário ou impreciso de antibióticos, existe a legítima preocupação quanto ao seu uso indiscriminado e o aparecimento de resistência aos princípios ativos aprovados para o tratamento de diarreia, que são limitados. Por esse motivo, faz-se necessário o entendimento sobre os processos de tomada de decisão nas fazendas para o uso desses medicamentos na saúde de bezerros.

Sistemas de pontuação clínica têm sido utilizados para avaliação, treinamento e criação de protocolos de padronização de tratamentos nos bezerreiros. Essas ferramentas foram produzidas a partir de avaliações sistemáticas para detectar e/ou classificar a gravidade dos quadros clínicos e levam em consideração sinais como apetite, atitude, sinais respiratórios, inchaços, entre outros. Os sistemas de pontuação ou escores podem auxiliar no processo de tomada de decisão apoiando o uso criterioso de medicamentos, em especial os antimicrobianos.

Os escores de saúde são amplamente utilizados em nível de pesquisa, porém pouco difundidos nas fazendas. Em uma realidade utópica, todas as decisões de saúde e protocolos de tratamento deveriam ser baseadas em evidências. Entretanto, para produtores e colaboradores, a avaliação de comportamento e tomada de decisão quanto a saúde animal são complexos e regidos por fatores sociopsicológicos intrínsecos e difíceis de medir e prever. Em um estudo de Olson et al. (2019) os autores fizeram uma comparação entre a pontuação clínica estimada por meio de escore de saúde durante a fase de aleitamento e as decisões de tratamento tomadas pelos tratadores das fazendas de forma empírica.

O trabalho foi realizado com base em estudos clínicos prévios e manejos específicos descritos por Berge et al. (2009 a,b). Foram utilizadas 4 fazendas com cria de bezerros leiteiros machos e fêmeas:

  • CR1: propriedade com 90 bezerros machos
  • CR2: propriedade com 84 bezerros machos
  • CR3: propriedade com 95 bezerros machos
  • DF: fazenda comercial de leite com 191 bezerros machos e fêmeas

Todos os animais foram identificados ao nascimento e avaliados diariamente até os 28 dias. A avaliação da transferência de imunidade passiva foi realizada no segundo dia através de kit comercial de ensaio de imunodifusão radial, sendo utilizados os bezerros com falhas. Escores clínicos com base em multissintomas foram realizados por um veterinário (Berge et al., 2005). Os parâmetros avaliados foram: apetite (consumo de dieta líquida), consistência fecal, hidratação, sinais de doenças respiratórias e observações de olhos, orelhas, umbigo, articulações e atitude do bezerro (Tabela 1).

As fazendas tomaram decisões relacionadas a saúde e tratamento independentes das observações realizadas pelo veterinário do estudo. Em todas as fazendas havia um responsável pela tomada de decisão e tratamentos dos animais, com horários diários de avaliação e tratamento de bezerros incluídos na rotina da fazenda. Foram avaliados os 28 primeiros dias de um total de 460 bezerros, totalizando 12.101 observações.

Figura 1. Prevalência diária de diarreia x 100 por fazenda durante 28 dias. A prevalência foi calculada como casos diários de diarreia ou desidratação relativos ao total de bezerros observados em cada dia em cada fazenda, multiplicado por 100.

Segundo os dados apresentados, as quatro fazendas avaliadas tiveram taxas de mortalidade que variaram entre 2 e 28%. Dos 460 animais avaliados, 426 (92,6%) apresentaram algum escore anormal ao longo do período de observação. A diarreia foi a alteração clínica mais comum (393/460), com porcentagem de prevalência (Figura 1) entre as propriedades variando de 73 a 94%. A maior ocorrência de diarreia se deu entre os dias 7 e 14 para todas as propriedades, com variação de picos entre esses dias. Com exceção da fazenda DF, as primeiras observações ocorreram já na primeira semana de vida.

A desidratação foi a segunda alteração mais comum (150/460), sua incidência foi bastante variável, com alta prevalência na propriedade CR3 (Figura 2). Cerca de 9% dos bezerros que apresentaram diarreia foram avaliados como clinicamente desidratados e 20% também tiveram atitude depressiva. A maior quantidade de observações de desidratação ocorreu entre os dias 7 e 17, combinando-se com os dias de maior observação de escore fecal elevado. A fazenda CR3 apresentou 62% dos casos de desidratação e o dia de primeira observação foi bastante variável.

Figura 2. Prevalência diária de desidratação x 100 por fazenda durante 28 dias. Prevalência foi calculada como casos diários de diarreia ou desidratação relativo ao total de bezerros observados em cada dia em cada fazenda, multiplicado, por 100.

Quanto às abordagens terapêuticas, 84,7% dos bezerros receberam algum tipo de tratamento (fluidoterapia oral ou endovenosa, terapia antinflamatória ou antibiótico), porém 83% dessas abordagens foram realizadas com antibiótico (Figura 3 e 4). A primeira abordagem ocorreu em média no quinto dia de vida, à exceção da propriedade de leite (DF) que teve um maior número de abordagem no 11º dia. Aos 28 dias, todos os animais da propriedade CR3 e DF e 75% dos bezerros da fazenda CR1 e CR2 haviam recebido algum tipo de intervenção. Metade das abordagens se concentraram entre os dias 9 e 18. A Propriedade DF, embora tenha demorado mais tempo para iniciar as abordagens terapêuticas, foi a que teve um número maior de tratamentos ao longo dos 28 dias.

Figura 3. Dias para o primeiro tratamento com eletrólitos ou antibióticos por fazenda.

Durante o estudo, totalizou-se 673 observações de fluidoterapia, sendo 13 destas endovenosas,  75% associadas a outros tipos de tratamento e 66,3% realizados com antibiótico. Estima-se que os tratamentos com fluidoterapia dependeram da observação de sinais clínicos associados a diarreia, desidratação, falta de apetite e sinais respiratórios. Foi notável que bezerros, à primeira observação de desidratação, tiveram cerca de duas vezes mais chances de receber fluidoterapia. Porém, não houve diferença de probabilidade de receber fluído entre a observação geral e a primeira observação de diarreia. Demonstra-se que a utilização dessa ferramenta para tratamento foi bastante moderada, tendo em vista que a observação de fluidoterapia foi de 6%, enquanto que a incidência de diarreia foi de 13%.

Figura 4. Prevalência diária de tratamento x 100 por fazenda durante 28 dias. A prevalência foi calculada como casos diários de diarreia ou desidratação relativo ao total de bezerros observados em cada dia em cada fazenda, multiplicado por 100.

A probabilidade de bezerros receberem tratamento com antibiótico foi maior quando observados sinais de diarreia, falta de apetite, sinais respiratórios e/ou desidratação, em comparação aos assintomáticos. A probabilidade de receber tratamento ao primeiro sinal de diarreia foi baixo (exceção a fazenda DF), mas foi alta para o primeiro sinal de doença respiratória. O achado consistente do estudo aponta que houve variação no uso de antimicrobianos entre as fazendas, porém esses foram utilizados com menor frequência do que seria indicado por escores clínicos. A exceção da fazenda com criação de novilhas que utilizou em excesso.

Além disso, houve baixa correlação do tratamento com fluidoterapia para animais com diarreia e alta correlação para animais observados com desidratação, comparados aos assintomáticos. Estes dados sugerem que, em algumas propriedades, quando os animais passam a receber antibióticos, deixam de receber fluidoterapia oral.  Por outro lado, ainda neste estudo, a probabilidade de um animal tratado ter desidratação foi de 10%.

O estudo ilustra a notável incongruência entre a decisão do tratador para tratamento dos bezerros e as observações de sinais clínicos. Mesmo que o uso de antimicrobianos tenha sido subestimado, bem como uso de fluidoterapia, uma alta proporção de bezerros foi tratada com antibióticos de forma incompatível às observações de sinais clínicos, sugerindo que as decisões de tratamento são inadequadas e imprecisas. Esta informação é necessária para a implementação de práticas e protocolos que padronizem o uso criterioso de medicamentos em fazendas.

Comentário

Percebemos que raramente os técnicos se envolvem no treinamento e cuidado com as bezerras, de forma que geralmente o treinamento se dá de colaborador para colaborador ou de gerente para colaborador. De qualquer maneira, se os protocolos de tratamento incluírem definições claras da doença, particularmente para diarreia, os colaboradores responsáveis pelas bezerras se tornam mais capazes de direcionar intervenções apropriadas e reduzir o uso de antimicrobianos de forma desnecessária, além de lançar mão de ferramentas que são mais eficazes no tratamento da doença, como a fluidoterapia oral. O uso indiscriminado de antibióticos tem sido cada vez mais comum em propriedades leiteiras, especialmente em bezerreiros. É notável o uso de medicamentos de forma desnecessária, o que aumenta o custo de produção de bezerras desaleitadas, assim como gera casos de resistência a antibióticos. É interessante que, mesmo com o uso excessivo de medicamentos, ainda nos deparamos com altas taxas de morbidade e mortalidade em diversos bezerreiros, sugerindo que pontos relacionados a conforto e nutrição, principalmente colostragem, precisam ser melhorados. O estabelecimento de protocolos e fluxogramas para a adequada tomada de decisão na aplicação de medicamentos, assim como o treinamento dos colaboradores, são de extrema importância para o aumento da eficiência na criação de bezerros.

Referências
Berge, A. C. B., T. E. Besser, D. A. Moore, and W. M. Sischo. 2009a. Evaluation of the effects of oral colostrum supplementation during the first fourteen days on the health and performance of preweaned calves. J. Dairy Sci. 92:286–295.

Berge, A. C. B., D. A. Moore, T. E. Besser, and W. M. Sischo. 2009b. Targeting therapy to minimize antimicrobial use in preweaned calves: Effects on health, growth, and treatment costs. J. Dairy Sci. 92:4707–4714.

Olson, A., Sischo, W. M., Berge, A. C. B., Adams-Progar, A., & Moore, D. A. 2019. A retrospective cohort study comparing dairy calf treatment decisions by farm personnel with veterinary observations of clinical signs. J. Dairy Sci. 102:6391–6403.

CARLA MARIS MACHADO BITTAR

Prof. Do Depto. de Zootecnia, ESALQ/USP

MARINA GAVANSKI COELHO

Mestranda em Ciência Animal e Pastagens, ESALQ/USP

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FERNANDO MELGAÇO

GOIÂNIA - GOIÁS - MÍDIA ESPECIALIZADA/IMPRENSA

EM 28/10/2019

Acho que seria muito interessante, publicar no site, aquela propaganda tão bem bolada, chamada "Got Milk". Fernando Melgaço