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O que vamos selecionar em nossos rebanhos II - Características funcionais - Longevidade

ANDRÉ THALER NETO

EM 12/09/2014

7 MIN DE LEITURA

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No primeiro artigo desta série mencionamos que a seleção de animais deve enfatizar o aumento da lucratividade futura na atividade de leite. Além da seleção visando vacas com adequada produtividade, a seleção para características funcionais, tais como saúde, fertilidade e longevidade, pode melhorar a rentabilidade da propriedade leiteira. A seleção direcionada de forma extrema para desempenho produtivo tem levado a problemas, especialmente em termos de eficiência reprodutiva, longevidade e resistência a doenças, prejudicando o desempenho econômico das propriedades leiteiras.

A Longevidade é uma característica de suma importância para os rebanhos comerciais de leite, visto que o custo de criação das novilhas precisa ser amortizado ao longo de sua vida produtiva. Além disto, vacas com baixa longevidade apresentam geralmente atributos desfavoráveis a uma adequada lucratividade. Em um trabalho nos Estados Unidos, comparando vacas que foram descartadas após a primeira cria com aquelas que permaneceram por 2 ou mais crias no rebanho, (Lawlor, 2006) mostraram que as vacas com 2 ou mais crias produziam, em média, 39% mais leite, tinham 29% menos dias em aberto, 13% menos células somáticas, 13% maior pontuação para tipo e 6% menos problemas de parto.

A maior dificuldade para o melhoramento genético para longevidade é sua baixa herdabilidade, da ordem de 0,08 (CDCB-USA, 2010), o que está relacionado a diversos fatores, tais como o elevado número de variáveis que afetam a longevidade das vacas, além de ser consequência do descarte, o qual depende da decisão do produtor. Além das dificuldades impostas pela baixa herdabilidade, a estimativa de valores genéticos para longevidade depende, dentre outros fatores, da existência de um banco de dados consistentes, o que fez com que valores genéticos para longevidade estivessem disponíveis, na maioria dos países exportadores de genética de raças especializadas, somente na segunda metade da década de 1990, ainda não estando disponíveis nas avaliações genéticas da raça Holandesa no Brasil. Estes entraves fizeram com que a seleção para longevidade fosse negligenciada a um segundo plano em parcela significativa dos rebanhos em muitos países até aproximadamente a virada do milênio. Entretanto, pesquisas recentes evidenciando o grande impacto da longevidade sobre a lucratividade dos rebanhos leiteiros, juntamente com o aumento do potencial genético e sistemas intensivos de produção e alimentação que desafiam as vacas anatômica e fisiologicamente para a máxima produção leiteira, com consequente pressão sobre a longevidade, alteraram consideravelmente a ênfase na seleção para longevidade.

O melhoramento genético para longevidade pode ser realizado de forma direta ou indireta. A seleção direta é feita com base em características relacionadas ao tempo de vida produtiva e a seleção indireta com base em características correlacionadas, como resistência a doenças, fertilidade e tipo. As correlações genéticas entre características produtivas, de conformação, sanidade e fertilidade com vida produtiva (Tabela 1) vêm sendo exaustivamente estudadas. No trabalho de Van Raden et al. (2006), com dados de mais de um milhão de vacas nos Estados Unidos, observa-se que, dentre as características de tipo existe correlação genética positiva com as características de úbere, alguma correlação com as características de pernas e pés e correlação negativa com características corporais com vida produtiva. Neste estudo também se observa correlação levemente positiva com das características produtivas, visto que vacas mais produtivas, apesar de apresentarem maior pressão fisiológica para o desgaste, são mantidas por mais tempo nos rebanhos devido à produção.

Tabela 1: Correlação genética de algumas características funcionais, produtivas e de tipo com vida produtiva

Fonte: adaptado de Van Raden et al. (2006)

De maneira semelhante, em um trabalho com 268.000 vacas Jersey nos Estados Unidos, Caraviello et al. (2003) verificaram que as características corporais (estatura, força, caracterização leiteira) e de garupa (inclinação e largura) exercem influência relativamente pequena sobre o risco de descarte na raça Jersey, enquanto que as características de úbere, especialmente profundidade e clivagem de úbere afetam fortemente o risco de descarte.

Outro estudo envolvendo 891.000 vacas Holandês (Caraviello et al., 2004) mostrou que as características que estão de forma mais consistente correlacionadas com longevidade foram aderência de úbere anterior, profundidade de úbere, clivagem do úbere e pernas vista lateral, enquanto características como estatura, força e largura de garupa tiveram um mínimo efeito sobre longevidade. No Canadá, ao analisar dados de 1.130.616 vacas Holandês registradas Sewalemet al. (2006) encontraram os maiores efeitos de características de tipo sobre longevidade funcional como sendo para classificação final, seguida de composto de úbere e de pernas e pés. Para as características lineares individuais os maiores efeitos foram observados para úbere anterior, textura do úbere e profundidade do úbere. No outro extremo encontram-se estatura e tamanho, as quais tiveram correlação desprezível com longevidade.

As características com maior impacto sobre a longevidade são fertilidade e saúde da glândula mamária, como pode ser observado pelas elevadas correlações com a taxa de prenhez das filhas e com o escore de células somáticas (Tabela 1), sendo estas as principais causas de descarte em vacas leiteiras. Estas elevadas correlações são compatíveis com os resultados obtidos por Caraviello et al. (2005) que, ao analisar dados de 978.043 vacas Holandês e 250.835 vacas Jersey nos Estados Unidos verificaram que vacas com mais de 700.000 células/ml tiveram risco de descarte 2 a 4 vezes maior do que vacas com 200-250.000 céls./ml. No Brasil, Silva e Almeida (Silva e Almeida, 2008), avaliaram as causas de descarte em rebanhos da raça Holandesa em Arapoti – PR e verificaram que as principais causas eram problemas reprodutivos (32,6%), problemas de pernas e pés (18,8%), mastite e alta CCS (18,5%) e má conformação da glândula mamária (7,2%), seguida de baixa produção de leite (5,8%).

As características que possuem elevada correlação com longevidade, como por exemplo, conformação de úbere e pernas e pés, sanidade da glândula mamária (escore de células somáticas) e fertilidade vêm sendo, a partir destes estudos, incorporados aos índices de seleção dos diferentes países, juntamente com o valor genético para longevidade, devido ao seu forte impacto sobre a rentabilidade da propriedade leiteira. A importância que vem sendo dada à seleção direta para longevidade ou vida produtiva pode ser visualizada pela ênfase que a mesma recebe em diversos índices de seleção. Por exemplo, no Mérito Líquido Vitalício (NM$ - USA) a ênfase para vida produtiva é de 22%, no TPI (raça Holandesa – USA) é de 14%, no JPI (raça Jersey – USA) é de 12%, no LPI (Canadá) é de 20% do índice de Durabilidade, o qual, por sua vez representa 33-34% do índice total.

Os resultados das avaliações genéticas para longevidade são apresentados de forma diferenciada nos catálogos de sêmen de diferentes países dos quais o Brasil importa sêmen, tais como meses de vida produtiva (meses produzindo leite na vida) acima ou abaixo da média, nos Estados Unidos, como Permanência no Rebanho no Canadá e como um índice de durabilidade (DU) na Holanda, sendo que nos dois últimos países os touros acima de 100 são melhoradores. Existe uma variabilidade consistente entre os touros com sêmen disponível no mercado, o que permite uma adequada seleção para longevidade. Por exemplo, na prova de agosto de 2014, os touros TOP para vida produtiva nas raças Holandesa e Jersey nos Estados Unidos apresentam valores genéticos de +10,0 e + 6,4 meses, respectivamente.

Entretanto, devemos considerar que o aumento da longevidade somente faz sentido caso as vacas que permanecem no rebanho sejam realmente produtivas, férteis, saudáveis e, consequentemente, lucrativas. Devido à heterogeneidade de modelos de produção e níveis de adoção de tecnologia em nosso país, convivemos com produtores altamente tecnificados, os quais possuem desafios de melhoria da longevidade dos seus rebanhos, de modo similar aos dos principais países de pecuária leiteira, e ao mesmo tempo com produtores que possuem rebanhos com idade média muito avançada, com animais pouco produtivos, sub-férteis e muitas vezes com vacas portadoras de mastite crônica, as quais servem de foco de disseminação desta doença às vacas mais jovens.

Uma vaca longeva dentro de um sistema produtivo deve ser aquela que é lucrativa por longo tempo. Todo animal que não oferece mais lucro precisa ser descartado.

Referências bibliográficas

CARAVIELLO, D.Z.; WEIGEL, K.A.; GIANOLA, D. Analysis of the relationship between type traits, inbreeding, and functional survival in Jersey cattle using a Weibull proportional hazards model. J Dairy Sci, v. 86, p.2984-9, 2003.

CARAVIELLO, D.Z.; WEIGEL, K.A.; GIANOLA, D. Analysis of the relationship between type traits and functional survival in US Holstein cattle using a Weibull proportional hazards model. J Dairy Sci, v. 87, p.2677-86, 2004.

CARAVIELLO, D.Z.; WEIGEL, K.A.; SHOOK, G.E.; RUEGG, P.L. Assessment of the impact of somatic cell count on functional longevity in Holstein and Jersey cattle using survival analysis methodology. J Dairy Sci, v. 88, p.804-11, 2005.

CDCB-USA. Description of national genetic evaluation systems Council on Dairy Cattle Production. 2010. Disponível em

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ANDRÉ THALER NETO

LAGES - SANTA CATARINA - PESQUISA/ENSINO

EM 04/11/2014

Prezado Afonso
Muito obrigado pelas suas observações
AFONSO VOLTAN

JALES - SÃO PAULO - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 04/11/2014

Saudações à todos os comentaristas, em especial ao Professor André!
Como já foi muito bem esclarecido anteriormente o problema maior na pecuária de leite é a gestão. O produtor conhece muito bem quais são as suas vacas mais produtivas, porém não conhece as mais lucrativas e este é o cerne da questão. Acontece que para saber quais são as vaca mais produtivas, temos que compará-las mediante o confronto de seus dados zootécnicos e econômicos, como muito bem discutido nesta seção. Parabéns ao professor pelos seus excelentes artigos e aos comentaristas pelas suas ponderações.
Afonso.
ANDRÉ THALER NETO

LAGES - SANTA CATARINA - PESQUISA/ENSINO

EM 28/10/2014

Olá Cláudio

Muito obrigado pelos teus comentários.

A venda de vacas mais velhas em início de lactação muitas vezes realmente é uma oportunidade de maior rentabilidade econômica para os produtores que apresentam um adequado programa de melhoramento genético e de recria de bezerras e novilhas, aumentando o ganho genético em função da redução do intervalo de gerações, especialmente em momentos de pecuária leiteira em crescimento, com mercado de vacas e novilhas aquecido.

Por outro lado, pode ser uma oportunidade para produtores iniciantes em adquirir um material genético superior ao que possuem na propriedade. Entretanto, estes compradores precisam tomar muito cuidado quanto à introdução de novos problemas sanitários em seus rebanhos. Além dos atestados sanitários usuais, entendo que a CCS ou CMT das vacas é uma informação fundamental para o comércio de vacas em lactação.
Saudações

André
CLAUDIO MANOEL LIVRAMENTO

TOMAZINA - PARANÁ - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 28/10/2014

Cumprimentos ao nosso nobre professor André, que desde a faculdade e até hoje nos honra com suas interessantes explanações.
Aqui no Norte Pioneiro do Paraná temos uma situação interessante, que vale a pena destacar:
Alguns produtores que já alcançaram bom nível de conhecimento em cria e recria de bezerras e novilhas, estão conseguindo ótimos índices produtivos nas matrizes (elevados picos de produção e médias de produção na primeira e segunda lactações).

Nessa região, muitos produtores de leite estão investindo na ampliação do negócio e, por conseguinte, temos alta demanda de matrizes, as vacas têm alta liquidez e os preços das mesmas estão elevados.

Assim, para aproveitar essa questão de mercado, produtores com rebanhos estabilizados estão optando por descartes voluntários de vacas após o pico de produção da quarta lactação. Justificam a decisão alegando que as novilhas de reposição são muito produtivas e saudáveis. Também, a matriz descartada alcança ótimo preço de venda por ser ainda muito jovial e a entrada súbita de bom volume de receita melhora a qualidade de vida do produtor e auxilia muito nos investimentos da propriedade.

Ainda, como vários já utilizam o acasalamento corretivo nos rebanhos, eles acabam usufruindo mais intensamente dos benefícios do melhoramento genético, alcançado nos animais da nova geração.

Um abraço a você e a todo pessoal do CAV!
ANDRÉ THALER NETO

LAGES - SANTA CATARINA - PESQUISA/ENSINO

EM 24/09/2014

Sem dúvidas este é o grande desafio de um país cuja pecuária leiteira está em pleno desenvolvimento. É a luta que ainda precisamos travar na maior parte das bacias leiteiras. saudações. André
MICHEL KAZANOWSKI

QUEDAS DO IGUAÇU - PARANÁ - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 24/09/2014

Caro André,

Difícil acertar esta gestão. Principalmente quando nos deparamos com fazendas sem registros mínimos que possam apontar os pontos de estrangulamento de forma clara. Nem mesmo quando é proposto ao produtor a adoção de tais controles zootécnicos e também econômicos a grande maioria ainda são resistentes a tal pratica.
Sem dados a gestão é impossível.

Abraço
ANDRÉ THALER NETO

LAGES - SANTA CATARINA - PESQUISA/ENSINO

EM 24/09/2014

Prezado Michel
Obrigado pela colaboração. Muito importantes tuas observações. Realmente o elevado número de animais com baixa produtividade ainda é um grave problema em muitas propriedades leiteiras, não somente nas condições de baixa adoção de tecnologias adequadas à produção.

Quanto à questão que levantas, entendo que o foco deve ser a maximização de lucro e, para tal, logicamente não existe resposta única. Maiores taxas de descarte tem como vantagem o aumento do ganho genético anual, desde que esteja sendo um adequado processo de melhoramento genético. Por outro lado, nestas condições, além do maior custo de reposição, pode-se ter uma menor eficiência alimentar em produção de leite, quando o percentual de vacas de primeira cria aumenta muito, o que pode aumentar os custos de produção. Com o aumento da idade média das vacas espera-se maior eficiência alimentar, porém perdas em termos de fertilidade e saúde, em especial mastite. Entendo que o equilíbrio entre estas variáveis e a análise do desempenho dos animais mais velhos pode ajudar nesta equação. Para tanto, precisamos de registros zootécnicos (controle reprodutivo, controle leiteiro, avaliação de células somáticas ou teste de CMT das vacas, etc.) em nosso rebanhos e análise minuciosa destes resultados, ou seja, gestão.
MICHEL KAZANOWSKI

QUEDAS DO IGUAÇU - PARANÁ - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 24/09/2014

Caro André,

Parabéns pela abordagem deste importante tema.

Rebanhos com baixa fertilidade e com variados problemas de saúde representam o Calcanhar de Aquiles da estruturação dos rebanhos leiteiros. Vacas com alta produtividade individual são mantidas no rebanho pelo produtor mais por motivos passionais que pela razão da seleção. Somando uma recria mal feita, que acaba piorando todos os índices citados, temos rebanhos com muitos animais improdutivos. Isso afeta substancialmente a lucratividade e também a sustentabilidade da atividade.

O cálculo que o produtor deve fazer é: O que representa maior lucratividade, elevar determinada porcentagem a produtividade das vacas ou a longevidade dos animais, significando ter menos animais para reposição, sobrando vacas e bezerras para venda e obtendo o máximo desempenho produtivo (a produção máxima de uma vaca é alcançada na quinta lactação)?

Abraço
ANDRÉ THALER NETO

LAGES - SANTA CATARINA - PESQUISA/ENSINO

EM 24/09/2014

Prezado Fenelon

Sem dúvida o número de partos é uma variável importante para o descarte. Se uma vaca com 5 parições ainda estiver saudável, reproduzir e produzir adequadamente não precisará obrigatoriamente ser descartada. Entretanto, muitas vacas podem apresentar deficiências nestes ou outros atributos em idade mais precoce, de modo que precisam ser descartadas mais cedo, visando uma adequada lucratividade da propriedade leiteira.
FENELON PIRAGIBE

RIO DE JANEIRO - RIO DE JANEIRO - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 24/09/2014

Na minha região os produtores consideram eleitas para descarte as vacas com 5 ou mais parições.
Faz sentido?
Fenelon Piragibe
FERNANDO BACK

FORQUILHINHA - SANTA CATARINA - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 24/09/2014

THALLER, PARABÉNS PELO ARTIGO.ALTAMENTE TÉCNICO E COMPROVADAMENTE CIENTÍFICO. A SELEÇÃO DE REBANHOS SOB ASPECTOS DE DESEMPENHO COMO PRODUÇÃO REPRODUÇÃO E CCS O PRODUTOR JÁ FAZ EMPIRICAMENTE, MAS A ÊNFASE NA ESCOLHA DE MATERIAL GENÉTICO COM ESTE ENFOQUE SÃO POUCOS QUE ESTÃO MAIS ATENTOS A ESTA QUESTÃO. PORTANTO, NA HORA DE AVALIAR CATÁLOGO DE TOUROS, LEMBRAR DE DAR MAIOR IMPORTÂNCIA AS CARACTERÍSTICAS ACESSÓRIAS.ABRAÇOS.
MilkPoint AgriPoint