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O que vamos selecionar em nossos rebanhos II- Características funcionais - Fertilidade

ANDRÉ THALER NETO

EM 03/11/2014

8 MIN DE LEITURA

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No artigo anterior desta série relatamos a longevidade como estratégia para melhorar a rentabilidade da propriedade leiteira. Uma das principais causas de descarte e, consequentemente relacionada à longevidade, é a eficiência reprodutiva, para a qual, também é possível fazer seleção direta dos animais. Silva e Almeida (2008) avaliaram as causas de descarte em rebanhos da raça Holandesa em Arapoti – PR e verificaram que a principal causa era “problemas reprodutivos”, representando 32,6% dos descartes.

Durante muito tempo a fertilidade foi relegada a segundo plano na maioria dos programas de melhoramento genético de bovinos de leite, basicamente devido a dois fatores.
 
Em primeiro lugar está a herdabilidade extremamente baixa, o que se deve à grande variabilidade ambiental à que são submetidas as vacas e ao grande número de fatores relacionados à probabilidade de uma vaca emprenhar. Em função disto, por muito tempo indicava-se como principal estratégia a melhoria do ambiente para aumentar a eficiência dos rebanhos. Esta afirmativa pode estar correta, mas esbarra no segundo fator que é a produção de leite, característica com correlação genética desfavorável com fertilidade.
 
Como a seleção geralmente visa primariamente a melhoria da produtividade, caso não seja feito um trabalho efetivo de seleção para fertilidade, as vacas e touros selecionados tendem a ser, em sua maioria, geneticamente inferiores para fertilidade. Mesmo os rebanhos que melhoram significativamente o manejo reprodutivo, a sanidade e nutrição de suas vacas, têm no aumento da produção de leite um grande desafio para o manejo reprodutivo. Vacas com elevada produção de leite tendem, dentre outras variáveis, a reduzir a duração do cio, com consequente redução do número de saltos e dificuldade de visualização do cio.

Em um trabalho nos Estados Unidos, Lopez et al. (2004) observaram menor duração e intensidade do cio em vacas de alta produção, relacionadas à uma menor concentração de estradiol em vacas de alta produção.
 
A partir de equações estimadas por estes autores, em um sistema com observação de cio a cada 12 horas, por exemplo, a probabilidade de detectar um cio diminuiria de 97% em vacas produzindo 25 litros de leite/dia no período pré-inseminação, para 47 ou 32%, respectivamente, em vacas produzindo 40 ou 50 litros/dia.
 
Além disto, vacas de alta produção são muito mais sensíveis a fatores estressantes, como o estresse térmico, ou doenças metabólicas, os quais deprimem consideravelmente a fertilidade. Em função disto, o aumento do desempenho produtivo requer, além de muita dedicação ao manejo reprodutivo, uma preocupação com a seleção dos animais. Deve-se considerar que a queda nos índices reprodutivos não é somente conseqüência direta da seleção para produção de leite, mas da falta de seleção para fertilidade (Weigel, 2006).

De modo diferente a que ocorreu com a maioria das demais características de importância em bovinos de leite, na maioria dos países, durante muito tempo os ganhos genéticos para fertilidade foram negativos, como pode ser visto na figura 1 para o caso da raça Holandesa nos Estados Unidos. Além da queda na fertilidade média, observa-se que o valor genético médio dos touros era inferior ao das vacas, o que pode ser explicado principalmente pela intensa seleção para produção de leite e de seus componentes.
 
Este quadro começa a sofrer alguma mudança a partir da segunda metade da década de 90. Além da maior preocupação com a seleção para características funcionais, a partir desta época começaram estar disponíveis estimativas de valores genéticos para longevidade, os quais apresentam correlação positiva com fertilidade e, a partir de 2003 valores genéticos diretos para fertilidade.

Observa-se que as mudanças mais expressivas são no valor genético dos touros, fruto de profundas mudanças nos objetivos de seleção, com ênfase considerável para fertilidade nos índices de seleção da maioria dos países de destaque em genética de bovinos de leite.
 
Esta nova estratégia resultou em ganho genético positivo para fertilidade, o qual foi estimado para a mudança da base genética dos Estados Unidos, prevista para dezembro de 2014 (vacas nascidas em 2010 em comparação a 2005), mesmo ainda não refletindo os ganhos da seleção genômica (Vanraden et al., 2014). De modo semelhante, no Canadá houve queda no valor genético para fertilidade, entretanto, segundo Beaverse Doormaal (2013), a tendência negativa foi interrompidae umaligeira tendência ascendenteestá sendo alcançada.



Figura 1 – Valor genético para taxa de prenhez das filhas (DPR) na raça Holandesa, nos Estados Unidos, de acordo com o ano de nascimento.
Fonte: CDCB-USA (2014)


Nos testes de progênie de diversos países são estimados valores genéticos para fertilidade das filhas dos touros, sendo que a forma de apresentação dos resultados diverge entre estes países. Nos Estados Unidos os valores genéticos são apresentados como Taxa de Prenhez de Filhas (Daughter Pregnancy Rate- DPR), a qual reflete o percentual de vacas prenhez em relação ao número de vacas liberadas para inseminação, dentro de um ciclo estral (21 dias).
 
Por exemplo, as filhas de um tourocom PTAparaDPRde +1%, apresentam probabilidade um por cento maior deemprenhardurante ociclo estral em relação a filhas deum tourocom valor genético zero. Apesar da relação entre DPR com o intervalo parto-concepção (ou dias em aberto) não ser totalmente linear, uma conversão aproximada de DPR para dias em aberto pode ser feita, de modo que um aumento de 1% na DPR significa uma redução aproximada de 4 dias no período entre o parto e a concepção.

Mesmo considerando a baixa herdabilidade da fertilidade em bovinos de leite, diferenças expressivas podem ser observadas no valor genético dos touros. Se considerarmos os touros ativos na raça Holandesa nos Estados Unidos, na avaliação genética de agosto de 2014, os 10% touros com valor genético positivo para fertilidade apresentam DPR média de +2,6% conta -2,4% para os 10% inferiores, o que, quando traduzido para dias em aberto dá uma diferença próxima a 20 dias.
 
A partir da avaliação genética de dezembro de 2012 a DPR deve ser desmembrada em dois novos indicadores de fertilidade: taxa de concepção de novilhas (HCR) e taxa de concepção de vacas (CCR).

Nas provas de touros do Canadá o resultado é apresentado como fertilidade das filhas e expresso como desvio em relação ao valor médio (100), sendo que touros com fertilidade das filhas maior que 100 são melhoradores para fertilidade e vice-versa, cada 5 pontos representando um desvio-padrão.
 
Os valores genéticos são estimados a partir da % de fêmeas não re-inseminadas após 56 dias de sua inseminação. Sistema similar é utilizado para expressar o valor genético para fertilidade pela maioria dos países europeus, sendo a diferença na interpretação apenas o número de pontos que representam um desvio padrão acima ou abaixo da média em cada país.

Deve ser tomado cuidado para não confundir os valores genéticos para fertilidade das filhas com os valores de fertilidade do sêmen, expressos, por exemplo como Sire Conception Rate (SCR) nos Estados Unidos ou Semen Fertility Rating no Canadá, sendo que estes indicadores refletem apenas a probabilidade de uma vaca emprenhar quando inseminadas com sêmen de um determinado touro, não sendo esperado ganho genético para esta característica através da escolha de sêmen mais fértil.
 
Estas características são afetadas, além das diferenças entre touros, pelas estratégias da indústria de inseminação em melhorar a fertilidade de cada dose de sêmen, tais como o aumento do número de espermatozoides por dose.

Também deve haver preocupação com às malformações genéticas relacionadas à perda de infertilidade. Ao longo das últimas décadas genes recessivos com prejuízos econômicos foram identificados e sua prevalência na população diminuída a partir de seleção de animais livres e acasalamentos dirigidos. Com o avanço de técnicas genômicas, alguns haplotipos (combinação de alelos em genes ou marcadores próximos, em um mesmo cromossoma) relacionados à morte embrionária tem sido identificados em diferentes raças.
 
Dentre estes, merece destaque o JH1 (Jersey Haplótipo 1), visto ser frequente na população, tendo sido estimada inicialmente uma prevalência de 23,3% de portadores na raça Jersey nos Estados Unidos (Sonstegard et al., 2013). Este haplótipo está associado à redução nafertilidadedevido a mortedos embriões homozigotosno início da gestação(menos de 60 dias). Posteriormente estudos permitiram identificara causa biológica deperdado embrião, como sendoum alelo defeituoso no geneCWC15. Os touros são identificados como homozigóticos ou não-portadores (JH1F) ou portadores (JH1C).
 
O status do touro merece atenção visto que, apesar de em uma primeira geração (ex: vacas livres com touros portadores) não haver prejuízos, no acasalamento de animais portadores (heterozigotos) é esperada morte embrionária em 25% dos acasalamentos.

Conclui-se que as ferramentas disponíveis para a seleção de bovinos de leite permitem obter adequados ganhos genéticos em produtividade, concomitante com melhoria do potencial genético para fertilidade em nossos rebanhos.

Referências bibliográficas

BEAVERS, L.V. Lifetime Profit Index: Are We Achieving Our Goals? CDN. 2013. Disponível em .

CDCB-USA. Trend in Daughter Preg Rate for Holstein or Red & White. Council on Dairy Cattle Production. Council on Dairy Cattle Production. 2014. Disponível em >.

LOPEZ, H.; SATTER, L.D.; WILTBANK, M.C. Relationship between level of milk production and estrous behavior of lactating dairy cows.Anim Reprod Sci, v. 81, p.209-23, 2004.

SILVA, D.F.F.; ALMEIDA, R.Principais causas de descarte e de morte em vacas leiteiras na região de Arapoti, Paraná.2008. .

SONSTEGARD, T.S.; COLE, J.B.; VANRADEN, P.M.; VAN TASSELL, C.P.; NULL, D.J. Identification of a Nonsense Mutation in CWC15 Associated with Decreased Reproductive Efficiency in Jersey Cattle PLOS One, v. 8, e54872, 2013.

VANRADEN, P.M.; TOOKER, M.E.; WRIGHT, J.R.; COLE, J.B.; NULL, D.J.; LAWLORT.J. Genetic base changes for December 2014. Council on Dairy Cattle Production. 2014. Disponível em .

WEIGEL, K.A. Prospects for improving reproductive performance through genetic selection. Anim Reprod Sci, v. 96, p.323-30, 2006.

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ALDA MARIA RIBEIRO LEITÃO

TUBARÃO - SANTA CATARINA

EM 20/11/2014

Grande Prof Thaler, Parabéns por mais esta publicação de grande valia para o conhecimento geral.
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