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Cruzamento entre Holandês e Jersey - parte V - consumo de alimentos e eficiência alimentar

Nesta série de artigos vamos enfatizar a eficiência de transformação de alimentos em vacas leiteiras mestiças em comparação a vacas puras. As maneiras mais comuns de retratar esta eficiência é a produção de leite, de sólidos ou de leite corrigido por sólidos, divido pelo consumo de matéria seca (MS). Poucos trabalhos de pesquisa têm sido efetuados sobre este tema, principalmente pela dificuldade em obter informações sobre o consumo individual das vacas, sendo que alguns trabalhos alternativamente expressam o resultado em produção diária como percentagem do peso vivo (kg de leite ou de sólidos/100 kg de peso vivo.

Mesmo as pesquisas comparando vacas puras Holandês e Jersey quanto à eficiência alimentar são limitadas, sendo que neste caso uma dificuldade adicional é ter vacas equivalentes geneticamente para ambas as raças, especialmente considerando que neste trabalho normalmente são avaliados relativamente poucos animais.

Em uma revisão de literatura, Grainger e Goddard (2004) mostraram que quando a eficiência alimentar foi expressa como kg de leite corrigido para 4% de gordura/kg de MS consumida, a raça Jersey foi superior em 8 de 11 estudos (em média 6,2%). Entretanto, estimamos a eficiência como kg de leite/kg MS consumida em três trabalhos desta revisão, que apresentavam dados para proceder a estimativa, sendo 2 em confinamento e 1 a pasto. No caso, para esta variável, a raça Holandesa foi superior em todos os trabalhos, em média 15,2% (valores calculados a partir das informações disponíveis nestes trabalhos), o que foi confirmado posteriormente por Aikman et al. (2008) em um trabalho com vacas confinadas na Inglaterra.

Estes resultados sugerem que uma eventual superioridade de uma raça em termos de eficiência econômica, considerando apenas os aspectos produtivos, vai depender das estratégias de remuneração em termos de precificação dos sólidos do leite. Salienta-se que a maioria dos trabalhos demonstram que o consumo de matéria seca em relação ao peso vivo é maior na raça Jersey em relação a Holandesa, sendo que Grainger e Goddart (2004), relataram que, na média das publicações de trabalhos com vacas confinadas nos Estados Unidos e na Europa e com vacas sob pastejo, na Nova Zelândia, vacas Jersey ingerem 14,2% a mais do que as Holandesas. Os autores explicam o maior consumo em vacas Jersey como sendo em função do maior peso do trato gastrointestinal em relação ao peso vivo, especialmente de rúmen-retículo.

Com relação à eficiência alimentar e capacidade de consumo de alimentos das vacas mestiças Holandês x Jersey em relação às puras, um importante trabalho foi conduzido por Prendiville et al. (2009) com vacas pastejando azevém perene com pequena suplementação concentrada, no Moorepark Dairy Production Research Centre, importante centro de pesquisa sobre bovinos de leite na Irlanda. Eles observaram que vacas mestiças e Jersey apresentaram maior consumo de matéria seca como percentagem de peso vivo em relação às puras Holandesas (Tabela 1), sendo que em um trabalho retrospectivo de todas as vacas deste rebanho durante três anos foi observada heterose de 4,3% para produção de leite, como pode ser observado na figura 1, em que a produção das vacas mestiças supera a média das duas raças puras.

Figura 1 – Produção de leite (kg/dia) de vacas Holandês (__), Jersey (--) e ½ Holandês x Jersey (...). Fonte: Prendiville et al. (2010). 

cruzamento de vacas Holandesas com Jersey

Nestas condições, o consumo de alimentos das vacas mestiças foi intermediário em relação às puras, quando estimado como percentagem do peso vivo, enquanto a eficiência em kg de sólidos do leite/kg de matéria seca ingerida foi maior para vacas Jersey e mestiças, situação similar à observada para eficiência em termos de leite corrigido para sólidos. Por outro lado, em termos de kg de leite/kg de matéria seca ingerida, vacas mestiças e puras Holandesas tendem a superar as Jersey (Tabela 1).

Os pesquisadores concluem que o cruzamento entre Holandês e Jersey irá resultar em vacas adequadas para sistemas de pastagens, devido à elevada ingestão de pasto, juntamente com o benefício adicional de melhoria de produção e eficiência alimentar, sendo consequência do vigor híbrido e complementaridade entre as raças.

Tabela 1 – Consumo de alimentos e eficiência alimentar de vacas Holandês, Jersey e ½ Holandês x Jersey.

cruzamento de vacas Holandesas com Jersey

Na UDESC, em Lages, SC, conduzimos um experimento visando avaliar a eficiência alimentar, juntamente com o perfil metabólico de vacas ½ Holandês x Jersey em comparação com vacas puras Holandesas em sistema de confinamento durante os primeiros dois meses de lactação. Observa-se que nesta fase da lactação não houve diferença em consumo de matéria seca, sendo de aproximadamente 3,7% do peso vivo ao dia para ambos grupamentos genéticos (Tabela 2)

Tabela 2 – Produção de leite e eficiência alimentar em vacas puras Holandês e ½ Holandês x Jersey. Fonte: Lengert (2016).

cruzamento de vacas Holandesas com Jersey

A eficiência alimentar para produção de leite foi similar para vacas mestiças e puras, com aproximadamente 1,6 kg de leite/kg de MS ou 6% do peso vivo ao dia (Tabela 2). Entretanto, para a produção de gordura ou para produção de leite corrigido para gordura, as mestiças tendem a ser mais eficientes. Esta maior eficiência na produção de sólidos do leite provavelmente ocasionou uma maior mobilização de reservas corporais nas vacas mestiças, visto que as concentrações de betahidroxibutirato nas primeiras semanas pós-parto foram mais elevadas nas vacas mestiças (Pelizza, 2015).

Figura 2 – Vacas em condições experimentais no setor de bovinocultura de leite – UDESC – Lages/SC.

cruzamento de vacas Holandesas com Jersey

Maior eficiência alimentar em vacas mestiças em outros sistemas de cruzamento também tem sido apontada recentemente, assim como, nos trabalhos com outras raças, como o trabalho com cruzamento rotacionado de três raças (Montbeliarde, Viking Red e Holandesa). Veja aqui ou em https://www.dairyherd.com/article/crossbreds-may-be-more-feed-efficient).

Nosso grupo também está avaliando eficiência alimentar em vacas ½ Holandês x Simental em relação às puras Holandesas em sistema de confinamento. Conduzimos dois experimentos, sendo um no inverno e outro no verão, sendo que os dados preliminares sugerem produção de leite e eficiência alimentar similares para ambos grupamentos genéticos, porém com vacas mestiças mantendo escores de condição corporal mais elevados, o que também foi observado nos estudos norte-americanos acima citados.

No ensaio de inverno as produções de leite das puras Holandês e das mestiças Holandês x Simental foram de 50,43 e 49,48 (Knob et al., 2017a) e no de verão foram de 37,5 e 39,2 kg/vaca/dia (Knob et al., 2017b), respectivamente, sem diferenças também para a eficiência alimentar (dados ainda não publicados). Em estudos anteriores observamos, entretanto, que a maior condição corporal nas vacas mestiças é acompanhada de uma diminuição considerável no intervalo entre partos em comparação às vacas Holandês (Knob et al., 2016).

Concluímos que com o cruzamento com Jersey pode-se aumentar a eficiência alimentar para produção de sólidos ou de leite corrigido pelo teor de sólidos, com eficiência similar ao Holandês para produção de leite.

Bibliografia consultada

AIKMAN, P. C.; REYNOLDS, C. K.; BEEVER, D. E. Diet digestibility, rate of passage, and eating and rumination behavior of Jersey and Holstein cows. Journal of Dairy Science, v.91, p.1103-1114. 2008.

GRAINGER, C.; GODDARD, M. E. A review of the effects of dairy breed on feed conversion efficiency - an opportunity lost? Animal Production in Australia, v.25, p.77-80. 2004.

LENGERT, A.H. Perfil hemogasométrico, comportamento ingestivo e eficiência alimentar de vacas Holandês e mestiças Holandês x Jersey no periparto. Dissertação (Mestrado em Ciencia Animal) - Universidade do Estado de Santa Catarina. 2016.

KNOB, D.A.; ALESSIO, D.R.M ; THALER NETO, A. ; MOZZAQUATRO, F.D. Reproductive performance and survival of Holstein and Holstein × Simmental crossbred cows. Tropical Animal Health and Production, v. 48, 1409-1413, 2016.

KNOB, D. A. ; Alessio, D.R.M. ; PERAZZOLI, L. ; MENDES, B. P. B. ; HAUSER, A. ; THALER NETO, A. Produção, composição e contagem de células somáticas do leite de vacas mestiças Holandês x Simental e vacas holandês durante o verão. In: VII Congresso Brasileiro de Qualidade do Leite, 2017, Curitiba. Anais do VII Congresso Brasileiro de Qualidade do Leite. Curitiba: CBQL, 2017. p. 100-101.

KNOB, D. A.; Alessio, D.R.M. ; PERAZZOLI, L. ; MENDES, B. P. B. ; PADILHA, C. G. ; SOARES, L. A. P. ; DORS, I. ; THALER NETO, A . Produção, composição e contagem de células somáticas do leite de vacas mestiças Holandês x Simental e vacas Holandês durante o inverno. In: Congresso Brasileiro de Qualidade do Leite, 2017, Curitiba. Anais do VII Congresso Brasileiro de Qualidade do Leite. Curitiba: CBQL, 2017. p. 102-103.

Pelizza, A. Características de produção e composição do leite e do perfil metabólico de vacas da raça Holandês e mestiças Holandês x Jersey no período do periparto. Dissertação (Mestrado em Ciencia Animal) - Universidade do Estado de Santa Catarina, 2015.

PRENDIVILLE, R.; PIERCE, K. M.; BUCKLEY, F. An evaluation of production efficiencies among lactating Holstein-Friesian, Jersey, and Jersey x Holstein-Friesian cows at pasture. Journal of Dairy Science, v. 92, p.6176-85, 2009.

PRENDIVILLE, R.; PIERCE, K. M.; BUCKLEY, F. A comparison between Holstein-Friesian and Jersey dairy cows and their F1 cross with regard to milk yield, somatic cell score, mastitis, and milking characteristics under grazing conditions. Journal of Dairy Science, v. 93, p.2741-2750, 2010.

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ANDRÉ THALER NETO

Médico veterinário, doutor em melhoramento genético de bovinos de leite. Professor da Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC), no Centro de Ciências Agroveterinárias (CAV) em Lages, SC

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KAMILA MACIEL DIAS

LAGES - SANTA CATARINA - PESQUISA/ENSINO

EM 16/05/2018

Parabéns Prof. Andre, ótimo texto com informações muito relevantes para a cadeira leiteira.
ANDRÉ THALER NETO

LAGES - SANTA CATARINA - PESQUISA/ENSINO

EM 14/05/2018

Obrigado Saulo, Ademir e Prof. Geraldo pelas palavras de estímulo. Muito nos honram. Estamos a disposição
GERALDO TADEU DOS SANTOS

MARINGÁ - PARANÁ - PESQUISA/ENSINO

EM 14/05/2018

Excelente artigo, meus parabéns ao Prof. André Thaler Neto por nos brindar com estas informações importantes, principalmente agora que estamos iniciando na Fazenda Experimental de Iguatemi da Universidade Estadual de Maringá com vacas da raça Jersey. Possivelmente, iremos ter também esta terceira via que é a do cruzamento Jersey x holandês.
ADEMIR PEDRO THOMAS

TRÊS DE MAIO - RIO GRANDE DO SUL - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 11/05/2018

Muito bom artigo ; É exatamente isso que vejo aqui na minha propriedade onde as vacas mestiças tem produção quase igual as holandes ... mas posuem melhor escore corporal ; Emprenham mais facil .. e ainda aumenta a gordura nos solidos ; entre outras .
SAULO DA BOIT GOULARTE

SIDERÓPOLIS - SANTA CATARINA - INSTITUIÇÕES GOVERNAMENTAIS

EM 11/05/2018

Excelente artigo mestre, corrobora exatamente a conversa que tivemos outrora.