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Entraves nos processos produtivos da ovinocultura - Parte 1

POR GIORGI KUYUMTZIEF

PRODUÇÃO

EM 10/09/2009

6 MIN DE LEITURA

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A necessidade de serem criadas novas opções geradoras de receita nas empresas agropecuárias é uma realidade nacional. As dificuldades de acesso aos centros consumidores atrelam os produtores de muitas regiões a fatores circunstanciais capazes de inviabilizar totalmente muitos processos produtivos, mesmo quando caracterizados por índices elevados de qualidade e produtividade. Portanto, somente empreendimentos norteados pelo profissionalismo conseguem alcançar sustentabilidade.

A ovinocultura de corte é uma atividade em expansão em todas as regiões brasileiras envolvidas no agronegócio. A produção de carne de cordeiro, a exemplo da produção de carne de frango na avicultura, tem um inquestionável potencial de vir a integrar a relação das commodities importantes para o equilíbrio da balança comercial do Brasil, desde que seja encarada com o profissionalismo, objetividade e abrangência suficientes para gerar a sustentabilidade necessária para garantir a sua perpetuação.

Obviamente, serão os ovinocultores brasileiros os precursores dessa evolução que, não só é possível, mas, também, é muito simples, embora não seja fácil.

Porém, analisando a realidade atual, pode ser constatado que, infelizmente, são muitos os empreendimentos voltados para a ovinocultura iniciados e instalados de forma desfocada e que, por desilusões empresariais (prejuízos), foram abandonados. São situações que depõem contra a atividade, contribuindo para que a sua evolução, considerando um potencial ainda inexplorado, seja extremamente lenta. Enquanto estamos desperdiçando esse potencial, acomodados no conforto de condições sócio-econômico-ambientais imensamente adequadas à produção agropecuária, ovinocultores de países vizinhos estão abastecendo, com carne ovina, o nosso mercado interno e, logicamente, sendo remunerados por isso; enquanto, em outros rincões do planeta, países tradicionalmente ovinocultores vêm desenvolvendo processos produtivos caracterizados pela modernidade tecnológica, eficiência empresarial e constante agregação de valor ao produto através de atributos específicos, nós, tupiniquins, estamos buscando, onerosa e exaustivamente, a "grande fórmula" para ganhar dinheiro com carne ovina produzida através de desnutrição, empirismo, genética oportunista, desconhecimento e marketing ilusionista.

Durante toda a história da humanidade os processos de desenvolvimento só evoluíram depois da quebra de grandes paradigmas. O conceito de que "a Terra era quadrada" e a prova do "Ovo de Colombo" são exemplos inquestionáveis. Na ovinocultura, o fato de os ovinos serem ruminantes conduz à situação paradigmática de conduzir os processos produtivos nos mesmos moldes da bovinocultura. Começa por aí o grande problema quanto à evolução da atividade, pois, enquanto o consumidor insiste em demonstrar, sempre com muita clareza, que considera a carne ovina tão diferente de carne bovina quanto é diferente da carne de frango, o produtor insiste em buscar mercado para um produto originado por processos de produção que teimam em manejar cordeiros como bezerros e ovelhas como vacas. Não querem reconhecer que a ovinocultura é tão diferente da bovinocultura quanto a carne de cordeiro é diferente da carne de boi.

E, para agravar a situação, os principais agentes fomentadores da ovinocultura brasileira, organizações públicas e privadas, estão optando pela acomodação nesse paradigma, tolerando oportunismos e hipocrisias.

Enquanto a ovinocultura, em qualquer das diversas condições edafo-climáticas do nosso país, estiver algemada à bovinocultura, o produto carne de cordeiro, considerando ser este o tipo de carne ovina desejado pelo consumidor, nunca ocupará o espaço que lhe é reservado no agronegócio nacional.

É preciso romper essa condição de atrelamento, que resulta em falta de sustentabilidade dos processos de produção envolvidos. Embora ambas, ovinocultura e bovinocultura, sejam atividades agropecuárias que exploram animais ruminantes e consumidores de capim, existem diferenças monstruosas entre os processos produtivos quando o interesse é obter lucro a partir da produção de um produto chamado carne. Essa condição provoca três ilusões graves e crônicas:

1ª - Intenção de obter lucro produzindo carne ovina na forma de carne de "carneiro" através dos mesmos modelos produtivos e mercadológicos de produção e comercialização da carne bovina.

2ª - Intenção de obter lucro na produção de carne de cordeiro manejando, em sistemas extensivos, de forma isolada ou em consórcio com bovinos, rebanhos ovinos caracterizados zootecnicamente, apenas, pela rusticidade.

3ª - Intenção de obter lucro na produção de carne de cordeiro baseada em desfrutes sazonais e/ou oportunistas, aos moldes da bovinocultura de corte.

Logo, as desilusões acontecem quando, dentre outras muitas, ficam evidentes as duas grandes diferenças entre a ovinocultura de corte e a bovinocultura de corte:

1ª - A carne de "carneiro" é um produto indefinido, enquanto a carne de boi é um produto culturalmente definido.

Explicando: Carne de carneiro é uma expressão que generaliza a carne ovina independentemente dela ter sido originada por uma fêmea jovem magra, uma fêmea velha gorda e sadia, uma fêmea velha magra e doente, um macho jovem recém desmamado, um macho adulto magro e inteiro, um macho velho gordo e capão, etc., etc.,... Porém, é uma realidade, e o consumidor sabe identificá-la, que cada uma das categorias citadas gera carcaças com características organolépticas (sabor, cheiro, cor e maciez) completamente diferentes.

Já, por exemplo, quando um consumidor compra "dois quilos de contrafilé" bovino, ele não tem como identificar, e nem se interessa em fazê-lo, se esse boi era uma vaca velha gorda, um boi de dois anos, uma novilha, um boi de cinco anos, etc.. A maior variação na qualidade fica por conta da maciez, mas, aí, é padrão a culpa recair sobre a cozinheira. O volume de uma carcaça bovina possibilita a manutenção do padrão de qualidade do produto requerido pelo consumidor sem necessitar segregar categorias, raças, sexo ou idade dos animais abatidos.

2ª - Reconhecida a carne de cordeiro como produto alvo da atividade, as carcaças disponibilizadas para o consumidor necessitam atender a quesitos de padronização (tamanho, musculosidade, gordura, cor, maciez, sabor e odor) predefinidos e obtidos a partir de um processo de acabamento pré-abate com prazo de execução limitado.

Explicando: Se a padronização exigida pelo Mercado Consumidor estabelecer que, para gerar "carne de cordeiro", o animal deva ser abatido na faixa etária de três a cinco meses, e o produtor se deparar com problemas climáticos, de preço ou falta de demanda, não existe como protelar o referido abate e aguardar uma situação conveniente, pois, com dois a três meses a mais de idade, o animal já terá perdido as características de carcaça preconizadas para definir o produto. Já um bovino em ponto de abate, desconsiderando o fator custo de produção, pode aguardar no pasto de um ano para outro sem perder as características de carcaça aguardadas pelo consumidor.

É claro que existem situações onde o consórcio de bovinos com ovinos pode ser interessante:

a) quando forem considerados os sistemas extensivos de produção de carne bovina e de lã ovina;
b) quando o rebanho ovino tiver a finalidade de produzir carne, apenas, para a subsistência familiar, consumo interno da fazenda ou "generosidades sociais"; e
c) quando as instituições fomentadoras da ovinocultura reconhecerem que em pequenos e médios estabelecimentos rurais, juntando-se ovelhas com vacas, pode ser obtido um resultado satisfatório e financeiramente sustentável com a produção de leite de vaca e de carne de cordeiro nas mesmas áreas de produção forrageira, predefinindo e explorando, de forma sistematizada e intensiva, os mesmos espaços.

Resumindo com outras palavras: a ovinocultura é uma atividade que pode ser desenvolvida sob condições ambientais diversas e com objetivos adequados a elas. Sendo assim, basta reconhecer que, quando o assunto é lucro, o foco, inevitavelmente, é produzir um produto com características que satisfaçam o mercado consumidor. Se o produto for carne de cordeiro produzida em ambiente tropical, só é possível viabilizar um empreendimento através de sistemas intensivos de produção com sustentabilidade garantida pela previsibilidade de resultados. Ambicionar lucratividade manejando um rebanho ovino sobre os mesmos pastos ocupados, simultaneamente, por bovinos de corte, é, apenas, uma fantasia demagógica. A possibilidade de fracasso do empreendimento é eminente na "quase" totalidade dos casos. Todavia, neste "quase" ficam resguardadas as situações onde existe a possibilidade de abastecimento de "nichos de mercado", formados por comunidades de consumidores com características sócio-econômico-culturais específicas e amplitude espacial restrita, não contribuindo, assim, para a consolidação de uma atividade.

Depois de observar muitos, analisar vários, conviver e sofrer o suficiente com processos produtivos desfocados, adotamos um lema:

"Quem lucra com pílulas douradas é, apenas, o farmacêutico. O lucro do ovinocultor está na realidade de fatos e dados." (GK)

Artigo publicado na revista "O BERRO"-nº 122 - Maio de 2009

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ROBERTO MACHADO DAL-CIN

CASTELO - ESPÍRITO SANTO - PRODUÇÃO DE OVINOS

EM 11/03/2010

Prezado Giorgi!

Mais uma vez parabenizo pelas colocações e tambem concordo.
atcc roberto
DIEGO MASCULINO BERNARDES

RIBEIRÃO PRETO - SÃO PAULO - INDÚSTRIA DE INSUMOS PARA A PRODUÇÃO

EM 27/10/2009

Prezado Giorgi!

Mais uma vez parabenizo pelas colocações e tambem novamente concordo.

Claro que todas essas exigencias mercadologicas são necessarias como tambem uma eficiencia do produtor em atender o que ele se propôs a fazer ou seu mercado exigiu.
Por exemplo: Trabalho numa empresa e em uma de suas fazendas no sul de minas possuimos uma criação de ovinos em pequena escala. Sempre ofertamos ao mercado produtos de excelente qualidade (carcaças entre 12 e 16kg aos 5-6 meses). Claro que por ser uma cidade de medio porte o mercado nao é forte. Porem sempre vendemos o que produzimos, que é bem pouco (30 a 50 carcaças/ano). Estamos a 120km de Ribeirão Preto, um bom mercado consumidor.
Porem o abatedouro mais proximo fica a 250km. Em toda a regiâo aqui, a maioria produtores ainda abatem e comercializam informalmente. E com tambem a maioria dos que conheço não pensam ou tem receio de aumentar a escala de abate pois o escoamento da produção seria um entrave pois em quase sua totalidade a ovinocultura ainda é uma segunda atividade dentro da fazenda.
Assim penso que ha varios, varios e varios pontos que podem melhorar, e devagar estão. Mas é uma realidade, mesmo estando nao muito longe de mercados consumidores.
Sou um apreciador da carne e da criação de ovinos. Acredito e tento fazer o que posso para forrtalescer a ovinocultura.

Abraços e mais uma vez obrigado!
DIEGO MASCULINO BERNARDES

RIBEIRÃO PRETO - SÃO PAULO - INDÚSTRIA DE INSUMOS PARA A PRODUÇÃO

EM 21/10/2009

Concordo plenamente prezado Giogi!

Claro que a produção de carcaças de CORDEIROS é um foco que os ovinocultores devem sempre nortear-se. Porem o fato de que essa inflexibilidade na idade de abate que ´´passou da hora a carne não é a mesma´´, como você enxerga uma saida para produção de cordeiros em regiões onde não há plantas frigorificas abatendo e comprando ovinos e o mercado informal é inconstante.
Há estudos relacionados entre escalas de produção e distancia de mercados consumidores (frigorificos)?

Obrigado!
Diego M. Bernardes.

<b>Resposta do autor</b>

Prezado Diego Magri Bernardes:

Agradeço-lhe a oportunidade de poder trocar idéias sobre realidades que interferem na solidificação de uma atividade tão nobre, interessante e potencialmente lucrativa.

A idade de abate dos ovinos não é um fator inflexível. Quando defendemos, por exemplo, a conveniência de conjugar a satisfação do consumidor, o pico de maior converção alimentar e as características organolépticas da carne de um cordeiro abatido entre três e cinco mêses de idade, estamos buscando a sustentabilidade financeira do processo de produção. Havendo demanda de consumo e conveniência do produtor, produzir carne proveniente de carcaças de borregos com idade entre, também por exemplo, dez e doze mêses pode ser interessante. Porém, o importante é que haja definição de qual é o produto que será produzido pelo processo, que deverá ser específico para tal. Processo específico significa manejar o rebanho ovino, principalmente quanto à nutrição e à reprodução, dentro duma sistematização direcionada para a geração do produto alvo, seja ele qual for. O consumidor habitual de qualquer produto não aceita descaracterizações. Portanto, é o produtor quem deve escolher se é mais conveniente investir para produzir carcaças de "cordeiros" ou carcaças de "borregos", que são, inquestionavelmente, produtos diferentes.

Quanto à vocação regional para produzir carne de cordeiro, a limitação não é a existência ou ausência de um frigorífico comprador. Este é o modelo mercadológico da carne bovina que, não perdendo a oportunidade de se enfatizar, é extremamente daninho ao bolso do bovinocultor. Ser um ovinocultor profissional, considerando a conjuntura atual, significa a profissionalização na produção de CARNE de cordeiros, e não de CORDEIROS VIVOS. Sendo assim, quando, numa determinada região, estiver acontecendo uma produção de carcaças de cordeiro com quantidade e regularidade previsíveis, os produtores, profissionais na atividade, facilmente encontrarão empresas do setor de abate e frigurificação interessadas em ingressar nessa atividade rentável.

E, para encerrar, é preciso lembrar de um conceito importante: Todo e qualquer produto, para entrar no seu MERCADO CONSUMIDOR, precisa ter um PADRÃO DE QUALIDADE, uma ESCALA DE PRODUÇÃO e uma REGULARIDADE DE FORNECIMENTO.

Consequentemente, quando voce refere-se a comercialização, se existe informalidade e inconstância, não existe Mercado, pois o mesmo é fruto da DEMANDA que é filha do HÁBITO DE CONSUMO que é resultado da presença do produto ao alcance do consumidor, o que responde, também, a sua pergunta sobre escala de produção e distância do consumidor.

Atenção: Frigorífico não é consumidor de carne.

Estamos à disposição para prosseguir o assunto.

Um abraço.

Giorgi Kuyumtzief
gkovinos@ig.com.br