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Ordenha flexível: equilíbrio entre produção de leite e qualidade de vida

POR MATEUS HENRIQUE SILVA LOBO

PRODUÇÃO DE LEITE

EM 26/10/2021

5 MIN DE LEITURA

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"Flexible Milking ou “Ordenha Flexível”, é um sistema onde frequência e a hora da ordenha acontecerá em horários variados."

Você já se imaginou ter um dia normal na fazenda, ordenhando cedo e a tarde,  fazendo as demais tarefas do dia-a-dia quando sobra um tempo, mas, no outro dia, se preocupar em ligar a ordenha só lá pelas 10 da manhã e ter todo o resto do dia pra fazer outras coisas ou poder descansar? Essa é uma realidade que vem se tornando muito procurada por produtores na Nova Zelândia, e ainda por cima tem sido apresentada como economicamente viável nas condições daqui.

Assim como mencionado anteriormente no artigo sobre OAD Milking (Once-a-day milking) a problemática da mão-de-obra, qualidade de vida e saúde mental dos trabalhadores das fazendas de leite é amplamente discutida e reavaliada aqui na Nova Zelândia.

Na profissionalização da produção de leite por aqui, sempre foi buscado desenvolver um sistema simples de ser operado, necessitando poucas pessoas para operar uma fazenda.

Estação de parição, fazer a vaca buscar o alimento, ordenhas desenhadas para ordenhar o máximo em menos tempo e terceirização de serviços foram as respostas para a escassez de funcionários no passado, mas hoje já não é mais suficiente. Atualmente alternativas como adoção de OAD Milking e Flexible Milking se mostram como sendo as novas tendências para atrair e reter bons funcionários nas fazendas de leite.

Flexible Milking  ou Ordenha flexível já é um assunto relativamente antigo. Muitas fazendas já praticavam um regime de intervalo entre ordenhas de 16hrs quando o rebanho já estava em estado avançado de lactação, porém, nesse sistema, se faz muitas ordenhas noturnas, o que não é visto de bom grado pelas equipes das fazendas. Para a estação 2020/2021 então foi iniciado um estudo pela DairyNZ e a equipe do pesquisador Dr Paul Edwards para acompanhar os efeitos de maiores e mais flexíveis intervalos entre ordenhas durante toda a lactação, avaliando seus efeitos na produção de leite e rentabilidade na fazenda.
 

O que é Flexible Milking?

Flexible Milking traduz para o português para “Ordenha Flexível”, onde a frequência e a hora da ordenha acontecerá em horários variados. O modelo mais comum já adotado é o 3 ordenhas em 2 dias, mas há também o 10 ordenhas em 7 dias com a vantagem de que nesse sistema se faz uma única ordenha diária nos finais de semana.

Os intervalos entre ordenhas serão os determinantes para adotar o sistema. O intervalo mais comum no sistema 3 em 2 até agora é o 12-18-18h, onde no dia 1 a ordenha é feita as 5am e 5pm, e no dia 2 ás 11am, dando continuidade no dia seguinte ao ciclo começando no dia 1 novamente. Ainda há variações nos horários de ordenha e nos intervalos, como por exemplo o regime 10-19-19h e o 8-20-20h. No sistema 10 em 7 o rebanho será ordenhado duas vezes ao dia na segunda, quarta e sexta, e somente uma vez ao dia por volta das 11 da manhã na terça, quinta, sábado e domingo.
 

Quais as vantagens de adotar o Flexible Milking?

O principal foco na adoção deste sistema é uma busca na redução de horas trabalhadas pelos funcionários, permitindo assim que os mesmos consigam ter mais tempo livre para descansar. Na última edição da revista InsideDairy (Insidedairy Oct-Nov 2021) um casal de produtores em matéria relatou que conseguiram reduzir 12 horas semanais de trabalho por funcionário, números de grande valia até por que por aqui se paga o salário por hora.

Os produtores relatam melhorias significativas nos índices zootécnicos, principalmente fertilidade do rebanho, manutenção do ECC (escore de condição corporal) e redução de problemas de casco.

Quanto a produção de leite, os mesmos relataram que houve uma pequena diminuição na produção, porém muito menor do que nos 11-20% de redução na produção observado em estudos no regime de OAD, Dr P. Edwards tem observado uma redução em torno de 5% quando comparado á rebanhos ordenhados duas vezes ao dia. Mas como o estudo ainda não foi publicado, ainda é cedo para trazer números de fato sobre os efeitos do Flexible Milking.

Pra quem fica curioso com o resultado final de uma fazenda normal, um casal de produtores em Taranaki-NZ abriu os resultados da última estação para uma matéria na revista Inside Dairy, lá eles relatam que após adotarem o sistema de ordenha flexível eles ordenharam 200 vezes menos, reduziram 800 horas trabalhadas pelos funcionários, tiveram uma redução na receita anual de $715/ha, porém, uma redução de custos de $637/ha resultando uma redução de $78/ha na lucratividade da fazenda. Sem contar na melhoria na reprodução, redução nos problemas de casco, e ECC. Lembrando que a produção aqui é sazonal, todas as vacas iniciam e terminam a lactação ao mesmo tempo, ficando a ordenha parada por volta de 60 dias durante o período seco das vacas.

Ao decidir adotar o sistema, produtores relatam quem algumas rotinas devem ser reconsideradas na fazenda, assim como o planejamento no manejo do pasto, pois como os intervalos entre ordenha serão maiores é necessário adaptar a oferta de forragem para cada período, a hora de inseminar os animais na estação de monta, uma vez que em um dia a inseminação ocorrerá mais tarde do que no dia anterior, organização dos funcionários, assegurando que os mesmos realizem as tarefas importantes e consigam ir pra casa no objetivo de reduzir horas trabalhadas.

No final das contas, a decisão de adotar ou não o sistema baseia-se no trade-off entre lucratividade, produção e a geração de um ambiente amigável e atrativo para os funcionários, principalmente os jovens que são o futuro da pecuária de leite.

Aqui na Nova Zelândia, pelo andar da carruagem, o Flexible Milking ou Ordenha flexível, assim como o OAD Milking são respostas para resolver parte do problema da oferta e qualidade de mão-de-obra em fazendas de leite, mas vale lembrar que são decisões baseadas em um sistema de produção de baixíssimo custo,  permitindo assim o produtor tomar decisões que refletem no bem estar de todos em detrimento de parte da sua lucratividade oriunda do leite.

Um sistema que não se traduz ao pé da letra para o nosso Brasil, mas vale a pena a reflexão, será que um dia podemos chegar em diferentes formas de seguir essa linha de pensamento?

Conta pra gente nos comentários o que você acha sobre esse tipo de sistema! 
 

Leia também: 

 

Referências            

https://www.dairynz.co.nz/milking/milking-intervals/flexible-milking/implementing-flexible-milking/
https://www.dairynz.co.nz/media/5794731/inside-dairy-oct-nov-2021-web.pdf

MATEUS HENRIQUE SILVA LOBO

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RODRIGO SANSANA DE CRISTO

IVAÍ - PARANÁ - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 17/11/2021

Parabéns pelo texto.
Na sua visão, como conhece os dois países, qual ou quais gargalos pra implantar este modelo aqui no Brasil?
ALYSSON PINTO CAMPOS BELO

BARBACENA - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 08/11/2021

Boa noite! Sou técnico em agropecuária, tem 1 ano que retomei as atividades com o gado leiteiro, buscando produtividade com baixo custo, investindo a dieta a base de volumoso, apenas balanceando com farelo de soja e núcleo ( no período de estiagem deste ano). Dobrei minha área de pastejo rotacionado (Mombaça), com adubação correta, e seguindo meu planejamento os resultados serão gratificantes!
E estudando esse conteúdo sobre "ordenha flexível", assim que as vacas começarem a entrar nos piquetes, estou querendo fazer um teste e adotar o sistema! Por motivo de já ter aplicado algumas mudanças em horários de ordenha para "ganhar mais tempo" no meu dia, e obtive resultado e pouca diferença na produção, creio que posso adotar esse sistema de ordenha flexível, e que vai funcionar.
LUCAS MELO

LAJEDO - PERNAMBUCO - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 28/10/2021

Bom dia .
Na maior parte do Brasil é muito difícil funcionar esse sistema pois os custos de produção são muito elevados . Parte da minha vida foi com o sistema de 1 ordenha dia e hoje não funciona mas .tem q ser 2 ou mas depende da produção.
MATEUS HENRIQUE SILVA LOBO

PRODUÇÃO DE LEITE

EM 28/10/2021

Amigo, este sistema de ordenha flexível é desenhado para sistemas a pasto, onde se depende muito pouco de silagem de milho e usa menos ração do que o sistema de alto custo que o brasileiro vem adotando. Como o neozelandes maneja o pasto muito bem ele consegue armazenar silagem do próprio pasto, reduzindo muito o custo de produção, permitindo assim ele fazer extravagâncias. Nós brasileiros ainda precisamos muito aprender a manejar pasto de forma que traga tais benefícios para nossas fazendas no Brasil.
MATEUS HENRIQUE SILVA LOBO

PRODUÇÃO DE LEITE

EM 02/11/2021

Bom dia.

Concordo com voce amigo. O custo de produção é o principal fator que determina a viabilidade deste sistema.

Na Nova Zelandia por exemplo toda a estrutura e e organização na produção de leite foi focada no mínimo custo pra produzir, tecnologias foram adotadas, manejos foram ajustados e filosofias em como tocar uma fazenda foram revistas.

Infelizmente no Brasil temos acompanhado aumentos exorbitantes nos custos de produção, porém acredito eu que podemos reduzir muito os custos de produção adotando práticas de manejo e focar em produção de forragem por exemplo, visto que em modo geral o produtor brasileiro ainda não consegue explorar o máximo potencial das pastagens tropicais na minha opinião.
EDMILSON MARTINS DE MENDONÇA

CORONEL XAVIER CHAVES - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 28/10/2021

Esse sistema, embora me encha os olhos na questão da diminuição da sobrecarga de trabalho dos funcionários, não deve se adaptar para produtores que mantenham suas vacas confinadas. Entendo que o debate em torno da resolução dos intermináveis problemas de mão de obra nas fazendas leiteiras deve sempre existir e espero, um dia, poder adotar alguma alternativa que possa resolver esse impasse. Com toda certeza, esse gargalo do problema da mão de obra já tirou várias horas de vida dos produtores.
MATEUS HENRIQUE SILVA LOBO

PRODUÇÃO DE LEITE

EM 27/10/2021

Sim amigo, concordo com você, gado confinado seguindo o modelo americano acaba gerando altíssimos custos de produção e o aumento da produtividade por animal e fundamental para a rentabilidade do negócio. Esse sistema de ordenha flexível e desenhado para fazendas a pasto, onde o custo operacional e baixo, onde se busca alta produtividade de leite por hectare, não por vaca, podendo assim tomar decisões que mesmo que diminuam a produção de leite por vaca, essa diminuição não afetará de forma tão grave o resultado final da fazensa.
JARBAS JOSÉ SABINO

NOVA FRIBURGO - RIO DE JANEIRO - INDÚSTRIA DE INSUMOS PARA A PRODUÇÃO

EM 26/10/2021

Para quem ordenha ou já ordenhou as vacas leiteiras, apoia em 100% o sistema de uma única ordenha/dia. Acredito que funcione muito bem em sistemas a pasto com lactações até 4.500 kg
MATEUS HENRIQUE SILVA LOBO

PRODUÇÃO DE LEITE

EM 26/10/2021

Exatamente o meu pensamento meu amigo, meu pai ordenha vacas há mais de 40 anos todos os dias e sem folgas, penso o quão bom seria se ele pudesse ter mais tempo para descanso. Eu concordo com você, vacas com lactações de 4500kg conseguem se adaptar bem ao esquema, precisamos focar muito na produção e colheita de pasto, para depender cada vez menos de silagem de milho para baratear os custos.
MARLUCIO PIRES

EDEALINA - GOIÁS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 26/10/2021

Bom dia Mateus. Gostaria de mais informações a respeito da alimentação do rebanho. Sou produtor em sistema familiar, e gostaria de implantar esse sistema 3 em 2 dias, mas preciso buscar mais informações a respeito de manejo alimentar do rebanho, por exemplo, nas águas trato com capim, na seca, 100% no cocho. Precisaria fazer muitas adaptações?
MATEUS HENRIQUE SILVA LOBO

PRODUÇÃO DE LEITE

EM 26/10/2021

Bom dia Marlucio.

Aqui os animais são alimentados basicamente a pasto, na maior parte pasto de Azevém, mas também Festuca , Crocksfoot, pastos de ótima qualidade, mas no norte do país eles tem o Quicuio, que é um capim tropical semelhante aos pastos do Brasil. O normal aqui é as vacas receberem não mais que 3kg de ração por dia, na ordenha mesmo.

A estação de produção aqui é definida com a primavera sendo a época em que as vacas estão recém paridas e alimentando exclusivamente a pasto, o produtor faz silagem do pasto que sobra pta ser usado no inverno. No inverno, que seria equivalente a "seca" que voce mencionou, as vacas estão secas, vão para áreas de Couve ou Foder Beet, alimentos de baixíssimo custo e menor valor nutricional, mas elas estão secas, demandando menos qualidade do alimento.

Foco sempre no baixo custo de produção.
EM RESPOSTA A MATEUS HENRIQUE SILVA LOBO
LUCAS MELO

LAJEDO - PERNAMBUCO - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 28/10/2021

Bom dia .vacas de alta produção nesse sistema 3 em 2 não suportaria o acúmulo de leite eocorreriam outros problema mas graves que a mão de obra . E vacas de baixa produção não cobrem a despesa de produção. Vejo como inviável para o Brasil esse sistema .
EM RESPOSTA A LUCAS MELO
MATEUS HENRIQUE SILVA LOBO

PRODUÇÃO DE LEITE

EM 28/10/2021

Apesar de várias vacas aqui onde trabalho produzirem 30L sendo ordenhadas uma vez ao dia eu concordo com voce. Produtores aqui na Nova Zelandia buscam vacas que produzam 5mil litros de leite por lactação, eles ganham dinheiro na produtividade por hectare, não por vaca. Vacas de menor produção, muito saudáveis e férteis, alimento barato, infra estrutura muito simples. Infelizmente não é o caso de uma vaca de 30L no Brasil, pois cada vez mais sistemas confinados dependentes cada vez maisde silagem de milho e insumos, gerando altos custos operacionais, forçando o produtor a produzir mais e mais por animal, impedindo-o assim de poder fazer ordenhas flexíveis ou ordenhar uma vez ao dia.
EM RESPOSTA A LUCAS MELO
MATEUS HENRIQUE SILVA LOBO

PRODUÇÃO DE LEITE

EM 02/11/2021

Amigo, quando falamos deste sistema aqui na Nova Zelandia falamos de fazendas que adotam este sistema produzem em média 5mil litros de leite por vaca/ano, se trouxermos esse volume de leite produzido a pasto focando no baixo custo de produção te garanto que é viável, resta a nós avaliarmos se outros desafios que serão encontrados no Brasil tornarão este sistema viável, ou não!
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