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Controle e prevenção da raiva dos bovinos

POR CHRISTIAN HIRSCH

E GERALDO MÁRCIO DA COSTA

PRODUÇÃO DE LEITE

EM 19/10/2020

9 MIN DE LEITURA

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Conforme foi discutido na primeira parte do artigo sobre a Raiva, ela traz sérias consequências para a produção animal, marcadamente de herbívoros e, dentre eles, é especialmente importante para a bovinocultura, tanto de leite como de corte. Estes animais são muito atingidos na América Latina em função da elevada transmissão a partir de morcegos que se alimentam do seu sangue. Estima-se que pelo menos meio milhão de herbívoros domésticos morram por ano apenas na América Latina (FAO(1)). No entanto, acredita-se que a ocorrência da doença seja muito maior, uma vez que a subnotificação de casos de Raiva em bovinos, equinos e pequenos ruminantes, costuma ser prática comum. Nessa segunda parte, serão apresentados ao leitor as opções de controle e prevenção da Raiva nos bovinos. Estas medidas são comuns, independente do objetivo de produção, leite ou carne.

Como primeiro ponto relevante para o entendimento das medidas de controle e prevenção, é importante esclarecer que a Raiva dos bovinos não é passível de erradicação, diferente da Raiva dos cães e gatos. Por quê? A resposta está no transmissor e na variante viral envolvida. Enquanto na raiva urbana o cão infectado é o principal mantenedor e transmissor do vírus, na Raiva dos herbívoros – incluindo aí os bovinos, o responsável pela manutenção do vírus e sua transmissão é o morcego hematófago Desmodus rotundus. Os cães, dada sua proximidade com o homem e o fato de serem domesticados, podem ser vacinados massiva e periodicamente, o que leva a um estado de proteção imune na população de cães e, como consequência, erradicação da doença causada pela variante 2 (do cão) nos centros urbanos. Uma vez erradicada no cão, não há transmissão da variante 2 para homens e animais domésticos, de forma que o vírus e a doença desaparecem nas cidades que fazem campanhas de vacinação eficientes.

Infelizmente, no que se refere à raiva dos herbívoros, não contamos com essa facilidade. Na Raiva dos bovinos, o transmissor é um animal selvagem com ampla distribuição e ocorrência, cujos abrigos (locais onde eles passam o dia) são de difícil acesso ao homem. Além disso, pelo fato do morcego ser um mamífero alado, a área de cobertura de uma única colônia de morcegos pode ser maior que a área de muitos municípios da região Sudeste do Brasil. Em um único dia de voo, o Desmodus rotundus pode cobrir distâncias acima de 30 Km em linha reta (2). “É muito chão!”.

Essa dificuldade de acesso ao morcego e seu amplo raio de ação já seriam, por si só, motivos de sobra para dificultar muito a estratégia de vacinar o transmissor – que aqui seria o morcego – e, assim, erradicar a doença neles, de forma que não chegaria aos bovinos. Porém, ainda existe um fator complicador. O conhecimento sobre processos de vacinação e imunização nos morcegos é pequeno quando comparado a animais domésticos. A própria biologia do vírus durante a infecção dos morcegos ainda é pouco estudada. Assim, no momento, não existe vacina homologada para imunização de morcegos, nem processo viável de vacinação massificada dos mesmos. Também desconhecemos as implicações ecológicas que esta medida poderia ocasionar.

Diante deste desafio, o que pode ser feito? Conforme preconiza o Manual de Controle da Raiva dos Herbívoros do Mapa(3), duas diretrizes fundamentais devem ser seguidas de forma persistente para o adequado controle da Raiva dos herbívoros: a primeira consiste em reduzir e controlar as populações do transmissor D. rotundus; a segunda consiste em manter cobertura vacinal sistematizada nos rebanhos que residem em regiões de médio e alto risco para a Raiva.

A ação de reduzir e controlar as populações de D. rotundus é complexa, trabalhosa e onerosa, e precisa ser autorizada por órgão de controle ambiental específico. Por isso deve ficar a cargo de especialistas, sob a coordenação dos órgãos de Defesa Sanitária Animal. É complexa porque envolve o custeio e manutenção de recursos humanos treinados e imunizados contra Raiva, além do suporte material na forma de veículos, equipamentos “GPS” e de comunicação, redes especiais para captura de morcegos e demais itens necessários ao trabalho. É trabalhosa porque essas pessoas capacitadas terão como tarefa identificar e registrar os abrigos do morcego na região geográfica de sua atuação. A seguir deverão capturar morcegos D. rotundus vivos e sem ferimentos em atividades vespertinas e noturnas, nos quais aplicarão no dorso um produto que envenenará lentamente esses morcegos. Finalmente, deverão manter vigilância com visitas periódicas aos abrigos de morcegos cadastrados a fim de verificar se não houve a instalação de novas colônias de morcegos.

As atividades descritas no parágrafo anterior dependem de recursos específicos, mantidos de forma sustentável ao longo dos anos. Caso não exista aporte de recursos constante e estas ações sejam descontinuadas, os morcegos voltam a se proliferar, porque o alimento estará lá (sangue dos bois, cavalos, ovinos e caprinos) e os abrigos também. Havendo abrigo e alimentação, os morcegos voltarão e se multiplicarão. Passado algum tempo, naturalmente a Raiva voltará a “dar o ar da Graça” na região desassistida. É só uma questão de tempo.

O financiamento sustentável dessas equipes de controle de D. rotundus tem sido um grande desafio no Brasil, uma vez que tradicionalmente dependem do erário público, dentro do orçamento dos órgãos de defesa sanitária animal e vegetal (DSAV) de cada estado brasileiro. Muitas vezes essa ação é preterida em função de cortes orçamentários. Isso tem contribuído muito para o atual descontrole da Raiva dos herbívoros. O que pode ser feito? Uma saída apontada por especialistas seria a celebração de parcerias público-privadas (PPPs), onde a gestão seria feita em coparticipação de associações privadas com os órgãos públicos de DSAV; o serviço em si seria executado pelo poder público e os custos seriam divididos entre os parceiros. Cooperativas, associações de produtores, sindicatos e demais organizações privadas tem papel fundamental no fomento dessas PPPs.

“E eu, produtor, o que posso fazer?” Além de levar para a pauta de discussão da sua associação o assunto das PPPs para controle dos morcegos, o produtor deve se reunir com seu veterinário de confiança e discutir a imunização contínua do rebanho. Primeiramente, o veterinário deverá avaliar se a propriedade assistida está em região classificada pelo Mapa como região de médio ou alto risco para Raiva dos herbívoros. De antemão, é interessante registrar que praticamente todos os estados com grandes rebanhos bovinos no Brasil se encontram nesse tipo de classificação. Após isso a vacinação antirrábica de bovinos, equídeos e pequenos ruminantes, deve ser implementada. Só devem ser utilizadas vacinas registradas no Mapa para este fim. Todos os herbívoros  da propriedade (bovinos, equídeos e pequenos ruminantes) devem receber a primeira dose da vacina entre os quatro e cinco meses de vida. Os que forem vacinados nessa idade e estiverem em rebanhos com histórico recente de Raiva, é recomendável uma dose de reforço após 30 dias, pois animais jovens são mais vulneráveis ao vírus. Animais recém introduzidos na fazenda devem ser também vacinados. O calendário sanitário do rebanho deverá prever a revacinação anual do plantel, que pode ser ajustado para coincidir com a data de outras vacinas obrigatórias.

“E se houver casos suspeitos de Raiva nos meus animais?” Mais uma vez o veterinário de sua confiança, ou o veterinário oficial do órgão de DSAV do seu estado, deverá ser chamado. Só ele tem imunização e treinamento técnico para coletar material dos animais (tecidos cerebrais e da medula espinal) para confirmar o diagnóstico. A raiva é um doença fatal também para os seres humanos. Desta forma, o produtor e seus funcionários devem evitar o contato com a saliva de herbívoros com sinais de doença nervosa, pois no Brasil existe uma grande chance de a causa dessa doença ser o vírus da Raiva. Pelo mesmo motivo, não devem fazer tentativas de necropsia e, principalmente, não devem manipular o cérebro e tecidos anexos. O material será enviado para diagnóstico confirmatório em laboratórios oficiais. Não há custo para o produtor em relação ao trabalho do laboratório, porém poderá haver custos para o envio das amostras, dependendo do local da propriedade. É recomendável consultar a secretaria regional do órgão de DSAV mais próxima da propriedade, pois ela tem os contatos com os laboratórios oficiais.

Confirmado o diagnóstico, o produtor e seu veterinário deverão adotar a vacinação imediata de todos os herbívoros, se esta já não é prevista no calendário sanitário do rebanho. Se a última vacinação antirrábica foi a mais de seis meses, é recomendável a revacinação de todos os herbívoros domésticos, novamente, com uma dose de reforço por animal. O produtor precisa saber que é possível que outros animais morram de Raiva mesmo após vacinados. Isso ocorre porque o vírus já havia chegado ao sistema nervoso na sua porção central naquele animal, local onde os anticorpos gerados na vacinação não conseguem mais deter a infecção. Isso é bem mais raro de acontecer em animais que são vacinados sistematicamente, dentro do planejamento do calendário sanitário do rebanho. É por isso que manter a vacinação constante do plantel é fortemente recomendada no Brasil. Um ponto a ser frisado é que o produtor não deve esperar os casos de raiva acontecerem em sua propriedade para adotar a vacinação. Caso a sua propriedade esteja localizada em região classificada como de médio ou alto risco para Raiva dos herbívoros ou em se contatando a presença de animais com sinais de mordedura de morcegos ou mesmo a ocorrência da doença em propriedades vizinhas, a vacinação sistemática dos herbívoros deverá ser prontamente instituída. Prevenir é sempre melhor que remediar!

“E a doença, vai desaparecer do meu rebanho após a vacinação sistematizada?” A tendência é que sim. Mas é importante lembrar que uma eventual falha vacinal pode ocorrer. Elas não são raras quando se fala de imunização de bovinos, dadas as condições muitas vezes difíceis para se vacinar adequadamente os animais. É por isso que a vacinação sozinha, sem o devido controle das populações de D. rotundus e a consequente redução da exposição dos herbívoros às mordeduras e transmissão do vírus, não acabará com a Raiva na região. Fica aqui então a sugestão aos produtores para olharem com atenção a possibilidade de fomentarem PPPs com foco na manutenção das equipes de controle dos morcegos. Um elevado nível de segurança antirrábica só é alcançado quando se associa a vacinação do rebanho com a redução das populações dos morcegos transmissores.

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Referências bibliográficas

(1) Sota, C.A. Control of bovine paralytic rabies in Latin America and the Caribbean. Disponível em: http://www.fao.org/3/v0600t/v0600T0a.htm. Acessado em 18/08/2020.

(2) Bredt, A. e colaboradores. Morcegos em áreas urbanas e rurais. Manual de manejo e controle. Brasília: Fundação Nacional da Saúde. 1998. 117p.

(3) Brasil. Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Controle da raiva dos herbívoros: manual técnico 2009 / Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Secretaria de Defesa Agropecuária. – Brasília: Mapa/ACS, 2009. 124 p.

CHRISTIAN HIRSCH

Médico Veterinário, Doutor em Ciência Animal, professor nas áreas de Imunologia, Virologia e Doenças Infecciosas dos Animais Domésticos. DMV/UFLA.

GERALDO MÁRCIO DA COSTA

Médico Veterinário, Doutor em Ciência Animal, professor nas áreas de Microbiologia e Doenças Infecciosas dos Animais Domésticos. DMV/UFLA.

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JOÃO LEONARDO PIRES CARVALHO FARIA

MONTES CLAROS - MINAS GERAIS - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 20/10/2020

A vacinação é simples, barata e com eficácia gigantesca!
Já coloco em qualquer calendário sanitário bovino que faço.....
CHRISTIAN HIRSCH

LAVRAS - MINAS GERAIS - PESQUISA/ENSINO

EM 20/10/2020

Acreditamos que esse é o caminho lógico, João Leonardo. Obrigado por compartilhar sua experiência. Infelizmente muito produtor, principalmente aqueles que não contam com atendimento veterinário regular, ainda perdem animais valiosos por falta de vacina, daí a importância de estarmos sempre lembrando disso. Abraço!
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