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Tuberculose bovina: considerações gerais sobre a doença

PRODUÇÃO DE LEITE

EM 01/10/2003

5 MIN DE LEITURA

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Por Juliana M. Ruzante1

A tuberculose é uma doença crônica causada por bactérias do gênero Mycobacterium que acomete ruminantes, suínos, aves, animais silvestres e humanos. A tuberculose bovina é causada pelo Mycobacterium bovis (M. bovis) e é responsável por perdas econômicas significativas além de constituir uma das mais importantes zoonoses de relevância para a saúde pública.

A doença está amplamente distribuída em todo o mundo, sendo alvo de programas de erradicação em diversos países. No Brasil, órgãos oficiais estimam que a prevalência da doença esteja ao redor de 1% e, até o presente momento, não há programa de erradicação obrigatório. Em 2001, foi criado pelo Ministério da Agricultura, o PNCEBT (Programa Nacional de Controle e Erradicação da Brucelose e Tuberculose), programa de adesão voluntária que regulamenta as estratégias de controle e visa reduzir a prevalência da doença no país. Contudo, é o proprietário quem deve arcar com os custos de implementação do programa (informações sobre o PNCEBT podem ser obtidas na unidade local do serviço de defesa oficial ou pelo site http://www.agricultura.gov.br/dda/regulamento.htm).

A principal via de transmissão do agente é a aérea, sendo a inalação de aerossóis a mais comum. O contato direto (focinho com focinho) com secreções nasais e a ingestão de leite cru de animais infectados também constituem possíveis vias de transmissão, esta última especialmente importante quando consideramos a infecção de animais jovens. A infeção transplacentária não é comum.

Fatores como a elevada densidade animal e prevalência no rebanho contribuem para a transmissão do agente. Quanto maior o número de animais infectados, maior o número de bactérias presentes no ambiente e maior a chance de contaminação.

A doença se desenvolve lentamente e pode levar meses até o aparecimento dos primeiros sintomas, sendo que a maioria dos infectados não irão apresentar sintomatologia clínica apesar de serem capazes de eliminar a bactéria no ambiente e no leite, representando importante fonte de infecção. Desta forma é crucial identificar os animais positivos e eliminá-los do rebanho.

O teste mais utilizado para o diagnóstico in vivo da tuberculose é a tuberculinização, que pode ser basicamente de três formas: caudal, cervical simples ou cervical comparada. É importante observar que estes testes somente podem ser realizados por Médico Veterinário credenciado pelo Ministério da Agricultura (MA).

O princípio do teste de tuberculina é bastante simples,. Em linhas gerais, se trata de uma medida da resposta imune do animal ao M. bovis. Uma vez exposto ao agente, o animal desenvolve resposta imune específica e quando a tuberculina, um derivado proteico purificado (PPD), é injetada intradermicamente, este sistema é ativado gerando um aumento de volume no sítio de injeção. A magnitude do aumento de volume e rubor da região caracteriza a reação positiva.

No teste caudal (utilizado em rebanhos de corte), 0,1ml de tuberculina são injetados intradermicamente na prega da cauda e após 72 horas, o Med. Veterinário realiza a leitura, avaliando a presença ou ausência de alterações na região. O mesmo principio é utilizado no teste cervical simples (teste de triagem para rebanhos leiteiros), porém a injeção da tuberculina é feita na tábua do pescoço, em região previamente tricotomizada, onde a espessura da dobra da pele é medida com um cutímetro antes e 72 horas após o teste. Apesar de simples e relativamente barato, estes testes tendem a superestimar o número de animais positivos (falso positivos).

Em função da semelhança do M.bovis com M. avium (causador da tuberculose aviária) e com o M. paratuberculosis (agente da paratuberculose), reações não específicas podem ocorrer, ou seja o animal responderá positivamente ao teste sem ter sido exposto ao M.bovis. Segundo dados da Universidade de Michigan, de 100 animais testados, 5 serão apontados como positivo sem estarem infectados e este número será maior em rebanhos onde a exposição ao M.avium ou ao M. paratuberculosis são maiores.

Tendo em vista a ocorrência de falsos positivos no teste caudal e cervical simples, o teste cervical comparativo é usado como confirmatório a fim de eliminar a possibilidade de reação não específica com o M. avium. Neste teste duas áreas da tábua do pescoço são tricotomizadas, a espessura da pele é medida com cutímetro e então o PPD bovino e aviário são injetados. Após 72 horas, a espessura dos locais é medida novamente e a diferença avaliada.

É importante que animais suspeitos ou positivos no teste caudal ou cervical simples sejam mantidos sob quarentena até que o cervical comparativo seja realizado. Após a tuberculinização, o animal reduz sua capacidade de responder a novos testes, portanto é fundamental que este somente seja realizado após 60 dias da realização do primeiro teste, quando esta capacidade é recobrada.

Falsos negativos também podem ser um problema quando avaliamos a performance dos testes de tuberculina. Estes são mais comumente observados em estágios iniciais da infeção ou em condições de comprometimento do sistema imune, como a imunossupressão no periparto e estados de subnutrição. Segundo dados da Universidade de Michigan, de 100 animais testados, 15 apresentaram resultados falsos negativos. Problemas com a execução e leitura dos testes também devem ser considerados, portanto sempre procure um Med. Veterinário de sua confiança e credenciado pelo MA, que recebem treinamentos específicos para a realização adequada do teste.

A inspeção após o abate também é fundamental na identificação de animais positivos. Neste momento, os animais são cuidadosamente inspecionados por funcionários treinados do MA. Uma vez identificado um animal com lesões características, o órgão oficial competente desencadeia um estudo epidemiológico na propriedade de origem, podendo resultar na interdição de trânsito da mesma.

Além do impacto econômico, devido aos gastos com testes, perda na produção de leite e no valor do animal, a tuberculose bovina constitui uma das zoonoses de maior relevância em saúde pública especialmente quando consideramos países em desenvolvimento onde a doença não está controlada e o consumo de leite cru e seus derivados é frequente. Infelizmente não há dados recentes sobre o impacto da tuberculose bovina na saúde humana. Porém, em 1917, quando os EUA iniciaram seu programa de controle, estimava-se que cerca de 20% dos casos de tuberculose humana estavam associados ao contato direto com animais infectados ou ao consumo de leite cru. Já em estudo realizado na Argentina, entre os anos de 1984 e 1989, 2,4 a 6,2% dos casos humanos de tuberculose foram causados pelo M. bovis.

Testar e eliminar animais positivos da propriedade é estratégia indispensável para o produtor que queira erradicar a tuberculose em seu rebanho. Medidas de biossegurança como o controle de origem, correta identificação e teste de animais novos a serem integrados no rebanho, bem como o controle de visitantes e a correta higienização das instalações, são medidas fundamentais para proteger seu rebanho de novas infecções.


Referências:

http://www.agricultura.gov.br/dda/regulamento.htm
http://www.oie.int/eng/normes/mmanual/A-00050.htm
http://www.bovinetb.com
http://www.cdfa.ca.gov
http://www.mgar.vet.br/buiatria/tbbovnet
Grange, J.M, Yates, M.D Zoonotic aspects of M.bovis infection. Veterinary
microbiology, p. 134-151, 1994.
Kirk, J.H. Tuberculsis in Cattle, 2002
Kirk, J.H Tuberculosis iin human and cattle, 2002
Pollock, J.M., Neill, S.D. Mycobacterium bovis Infection and tuberculosis in cattle. The
veterinary journal, 163, p. 115-127, 2002
___________________________________________
1Médica veterinária,Dairy Food Safety Laboratory Department of Population Health and Reproduction School of Veterinary Medicine University of California - Davis

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CARLA CAMPOS

UBERLÂNDIA - MINAS GERAIS

EM 16/04/2018

Bom dia,
No caso de ter positivos no rebanho, de quem é a responsabilidade de execução? Se for do produtor, isto tem algum custo?
JULIO

SANTA HELENA - TOCANTINS - PESQUISA/ENSINO

EM 25/03/2015

Teste prático, mas não conclusivo, para uma propriedade com um número considerado de animais em produção, qualquer falso positivo pode levar a prejuízos econômicos e ainda emocionais para queles que tem a atividade como principal fonte de renda, na minha humilde opinião cabe ao MAPA evoluir e buscar essas novas opções de exames laboratoriais. Parabéns pelo tema abordado.
LÚCIA MARIA

GRAVATÁ - PERNAMBUCO

EM 02/04/2013

muita informações boas aprendi muitooo
LIC.HECTOR L. SALAVERRIA

PRODUÇÃO DE GADO DE CORTE

EM 10/10/2003

Gostaria preguntar a Dra. Juliana M. Ruzante, porque na suas considerações gerais sobre a doença da Tuberculosis bovina, nao faze mencion algunha sobre as bondades do teste de Gamma Interferon (Bovigam) para optimizar a proba intradermica caudal e comparativa.

Hoje no mundo moderno esta proba aporta importantes soluciones para o control e a erradicacao da doenca.
Tratase de uma nova ferramenta de diagnsotico reconocida como proba oficial em Australia,Nova Zelanada,a Comunidade Europea e no Continente ja foi aprovada por o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA/APHIS) e o Sagarpa do Mexico.

Outros paises do ambito LatinoAmericano caso de Panama,venezuela e Costa Rica conocen bem as venatjas do uso e aplicacao de este test que junto com a proba intradermica apresenta uma verdadera solucao.

O Dr.Claudio Madruga da Embrapa Gado de Corte pode dar referencias sobre o teste. Em o journal de Veterinaria J.Vet.Med B 46, 353-358 (1999)

1999 Blackwell Wissenschafts-Verlag-Berlin- ISNN 0931 - 1793,tamben pode consultar o astract do Dr.Walter Lilembaum (UFF) Comparison between a g-IFN assay and intradermal tuberculin test for the diagnosis of bovine tuberculosis in field trials in Brazil
Lilenbaum, W .; Schettini, J.C.; Souza, G.N.; Ribeiro, E.R.; Moreira, E.C. & Fonseca, L.S.

Gostosamente forneceremos tudo tipo de referencias cientificas e material informativo.

Atenciosamente,

Lic. Hector L. Salaverria
Asesor Programas Sanitarios
E-Mail: hsalaverria@hlsvbp.com

<b>Resposta da autora</b>Estimado Sr. Salaverria,

O artigo "Tuberculose: considerações gerais sobre a doença" puplicado no MilkPoint neste mês, traz informações básicas sobre o assunto. Não era seu objetivo discutir extensamente todos os aspectos da doença.

No que diz respeito ao diagnóstico, optei por abordar apenas a tuberculina, por ser este o teste mais comunmente utilizado e de eleição em programas de controle e erradicação da tuberculose. Tanto o manual de erradicação da tuberculose nos Estados Unidos publicado pelo USDA (http://www.aphis.usda.gov/vs/nahps/tb/tb-umr.pdf) bem como o Programa Nacional de Controle e Erradicação da Brucelose e Tuberculose (PNCEBT) (http://www.agricultura.gov.br/dda/regulamento.htm) criado pelo Ministério da Agricultura Brasileiro, apontam a tuberculina como teste de escolha. A tuberculina também continua sendo o teste recomendado pela OIE para programas de controle e erradicação e o teste requerido para exportação de animais (http://www.oie.int/eng/normes/mmanual/A_00050.htm).

Desta forma não só o gamma interferon (Bovigam) não foi mencionado, mas outros testes como PCR (reação em cadeia da polimerase), cultura, ELISA (Enzyme-Linked ImmunoSorbent Assay) e "lyphocyte proliferayion assay" também não foram abordados por não serem o foco do artigo publicado, apesar de serem amplamente utilizados e apresentarem uma série de benefícios quando consideramos o diagnóstico da tuberculose.

O seu comentário foi bastante oportuno e espero que tenha clarificado suas considerações, caso contrário por favor entre em contato novamente.

Obrigada por sua carta.

Juliana M. Ruzante
Dairy Food Safety Lab - University of California/Davis
MilkPoint AgriPoint