Queijo da Ilha de Marajó, tradicionalmente consumido fresco. Foto: Cecília Pinheiro/Acervo pessoal.
Na fazenda São Victor, Cecília e Marcus Pinheiro são a sétima geração na lida com este queijo, fabricado há mais de 200 anos. “Nossa família está aqui desde 1756 e já produzia queijo para consumo nas fazendas”, comenta Marcus. Ele passou 15 anos nos Estados Unidos e em 2000, decidiu voltar e investir no queijo “mas sem expectativas, pois a legislação nem existia”, completa.
Receita de pai pra filho
Victor, filho de Cecília e Marcus. Foto: Cecília Pinheiro/Acervo pessoal
O modo de fazer o queijo da ilha não se encaixa em nenhuma das famílias tecnológicas de queijo descritas nos livros e conhecidas no mundo inteiro. É um queijo de coagulação láctica, que fermenta por horas, e depois a massa é cozida, algo inédito na Europa.
A recepção do leite cru começa a partir das 8 horas. Imediatamente o creme é retirado do leite com ajuda de uma desnatadeira elétrica. “Não usamos coalho, nem fermentos do comércio, nem fermentos naturais como o pingo. Nosso leite tem tudo que precisa dentro para o sucesso da nossa receita histórica”, conta Cecília. A fermentação espontânea começa a coagular lentamente o leite.
Algumas horas depois, a coalhada é cortada e fica no soro até o dia seguinte, o que potencializa a fermentação. A dessoragem se dá no dia seguinte de manhãzinha, cerca de 15 horas depois do início da fabricação. Em seguida, a massa é lavada por duas horas com água morna para diminuir a acidez, processo que pode ser feito também com leite desnatado ao invés de água. “Dependendo da época do ano, quando o calor está mais forte e o leite muito ácido, precisamos lavar mais vezes”, explica Cecília.
Peça inteira antes de ser moída. Foto: Cecília Pinheiro/Acervo pessoal
O queijo é então prensado para, em seguida, ser moído, com a ajuda de uma máquina, e salgado. Para finalizar, a massa vai para o tacho onde ela é “frita” com o creme de leite que foi retirado no início da fabricação. “Aqui a temperatura pode chegar a 90 ºC”, detalha Cecília.
Momento de acrescentar o creme. Foto: Cecília Pinheiro/Acervo pessoal
Para fazer um 1 kg de queijo é preciso 7 litros de leite. A produção diária de 70 kg é cortada em barrinhas de 250g ou 500g para começar sua aventura até a casa do consumidor: 8 km no lombo das búfalas até o porto da fazenda e mais 24 horas até a capital.
Da ilha para o mundo
“Participar do evento na França nos inspirou e agora queremos fazer uma receita ainda mais cremosa do queijo, seguindo o mesmo processo, porém, vamos adicionar um pouco mais de creme no final”, conta Cecília. “Temos orgulho da Ilha de Marajó, queremos trazer progresso para a nossa região. A nossa vontade é proteger ainda mais o queijo que estava ilhado e agora está ganhando o mundo”, fala ela contente.
Queijo da ilha sendo “explicado” aos visitantes do stand da SerTãoBras no Mundial de Tours.
Queijo de terroir: inimitável
Mesmo seguindo a receitinha acima, é impossível fazer o queijo de Marajó fora do seu território. O resultado desse sabor vem da união do clima, das águas, da flora abundante, do pasto rico. É a biodiversidade da ilha que está presente no queijo.
O Brasil não está avançado no reconhecimento das Denominações de Origem Protegida (DOP) como a França (que já tem 45 queijos protegidos). Aqui, em matéria de queijo temos duas Indicações Geográficas em Minas Gerais, os queijos canastra e serro. O coalho do agreste pernambucano fez seu dossiê desde 2010 mas ainda não teve resposta. “A nossa associação de produtores de leite e queijo deu entrada no processo de reconhecimento da indicação geográfica em dezembro de 2018. Esperamos poder usar o selo de indicação de procedência dentro de dois anos”, explica Cecília.
No Marajó, de acordo com o SEBRAE, 60 queijarias fabricam o mesmo queijo, porém só 11 são certificadas e apenas seis possuem toda a regulamentação em dia.
Onde comprar queijo da ilha no continente
- Galeria do queijo SP;
- Armazém do Mineiro SP;
- Mestre queijeiro SP;
- Os legítimos quitutes de Minas SP;
- Sonhos de queijo /Campinas;
- Imediatto /Campinas;
- Santo João – em Piracicaba;
- Na Venda – RJ;
- Produtos DOC RJ;
- Tarsitano produtos de origem – Brasília;
- Emporio Capital Brasília;
- Varanda Artesanais Brasília;
- Ao queijo – Florianópolis;
- Dom Rico – Goiânia.
As informações são do blog Só Queijo, de Débora Pereira, para o Paladar, do Estadão.