Tamanho da micela de caseína pode alterar a coagulação do leite

 

A lucratividade das indústrias laticinistas é dependente da eficiência e rendimento da transformação do leite em produtos lácteos como o queijo, leite em pó e leite fluido. Desta forma, o rendimento e a qualidade dos produtos lácteos são dependentes da composição e das propriedades tecnológicas que o leite apresenta. De todos os componentes principais do leite, a proteína é um dos que apresenta maior importância quando o leite é submetido a tratamentos térmicos, tais como aquecimento, secagem ou congelamento.

As caseínas representam cerca de 80% da proteína total do leite. As micelas de caseínas são compostas por partículas coloidais imersas no leite, com formato arredondado e tamanho médio de 200 nm. A kappa-caseína localiza-se na região externa das micelas de caseína, sendo responsável pela estabilização do leite frente aos tratamentos térmicos. Alguns estudos mostraram que o tamanho das micelas pode variar de acordo com a dieta dos animais, época do ano (menores no verão e maiores no inverno) e fatores genéticos. A quantidade de caseína e de proteínas do soro do leite também afeta o tamanho das micelas, enquanto as concentrações de cálcio e fosfato inorgânicos presentes no leite não afetaram o tamanho da micela. Para a fabricação de queijos há necessidade da coagulação do leite a partir da hidrólise da kappa-caseína por ações enzimáticas.

Um estudo recente demonstrou que coágulos formados a partir de leite com micelas de caseína de tamanhos menores foram mais firmes quando comparados com o coágulo formado a partir de micelas de caseína de tamanho maior. Em relação ao tempo de coagulação, para as moléculas de tamanho reduzido a coagulação foi mais lenta. O teor de proteína, caseína, teor de Ca, pH, relação caseína:proteínas do soro influenciam a coagulação do leite, desempenhando importante papel no processamento de queijos.

No mesmo estudo, pesquisadores suecos avaliaram a importância do tamanho das micelas de caseína e da composição do leite sobre a propriedade de coagulação do leite, a fim de se otimizar a produção de queijos em relação. Neste estudo, amostras de leite individuais por animal e de tanque foram coletadas em dois rebanhos comerciais, em dois períodos do ano (inverno e verão), com duas coletas por propriedade por período, as quais foram comparadas com resultado padrão de estudos anteriores. As amostras provinham de animais da raça Sueca Vermelha (SV) e Sueca Holandesa (SH), de alto mérito genético.

O tamanho das micelas de caseína in natura foi determinado pela técnica de espectroscopia (mede a transmissão, absorção ou reflexão da energia radiante incidente em uma amostra). Após a adição de quimiosina para a formação do coágulo, avaliou-se o tamanho das micelas nos tempo 1, 3 e 7 minutos após a formação do gel, sendo o tempo zero correspondente a adição do coagulante.

Não foram observadas diferenças entre as raças estudadas para a resistência do coalho e o tempo de coagulação. Para avaliação da estabilidade coloidal, realizou-se o teste de condutividade elétrica, uma vez que valores elevados proporcionam maior estabilidade à micela. Não foi encontrada diferença estatística para o leite analisado, sendo o menor valor observado para o leite analisado no verão, em relação leite referencia, conforme Tabela 1.

Tabela 1. Médias não ajustadas para o tamanho da micela de caseína, força do coágulo, tempo de coagulação e potencial elétrico no inverno e verão das amostras do rebanho estudado para animais da raça SR, SH e leite referência.

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*P < 0.05; **P < 0.01; ***P < 0.001.

O tamanho das micelas de caseína foi menor para as amostras no período de verão quando comparados com rebanho referência. Os resultados mostraram efeito do pH (correlação positiva) e do conteúdo de potássio e magnésio (correlação negativa) do leite sobre o tamanho micelar. O menor pH do leite aumentou a força do gel, reduziu o tempo de coagulação, diminuindo o tamanho da micela.

Os resultados do estudo sugerem que a seleção genética para produção de leite com menor tamanho da micela de caseína e menor pH do leite pode melhorar as propriedades de coagulação do leite para produção de queijos.

Fonte: GLANTZ ET AL. J. Dairy Sci. 93 :1444-1451, 2010.

Saiba mais sobre os autores desse conteúdo:

Luís Henrique Andreucci Conti    Socorro - São Paulo

Estudante

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Comentários:

Olávio

Armazém - Santa Catarina - Indústria de laticínios
postado em 28/02/2011

Trabalho em um laticínio e uma parte do leite industrializado que é originário de vacas holandesas com gordura média de 3,4%, Proteína média de 2,9%, acidez de 16 ºD e pH de 6,75 se destaca entre os demais leites, de outras raças, com um rendimento bem inferior, tempo de coagulação muito maior e coalhada bem mais mole.
Gostaria de saber se existe algum estudo que aponta alguma técnica que o laticínio possa utilizar para amenizar estes prejuízos.

Olávio B. Corrêa


Resposta do autor:

Prezado Olávio,

Pelos dados que você enviou, o principal problema do rebanho é o baixo teor de proteína, o qual está na concentração mínima estabelecida pela legislação brasileira (2,9%). Neste caso, deve ser feito um trabalho de balanceamento de dieta ou revisão do manejo nutricional, pois estes valores podem indicar que a dieta pode ser melhorada.

Outro ponto que considero importante é que o leite deve ser pago pela sua qualidade, para sinalizar ao produtor quais as características da matéria prima são valorizadas (gordura, proteína, CCS e CBT).

Atenciosamente, Marcos Veiga

Marcelo

São Paulo - São Paulo - Indústria de insumos para a produção
postado em 28/02/2011

Um ótimo estudo que pode impulsionar os laticinios para "criarem" novos produtos, a partir de uma análise mais apurada da matéria prima que recebem.

Jose Paulino Siqueira

Imperatriz - Maranhão - Usina de Beneficiamento de Leite
postado em 07/03/2011

E quanto à produção de leite em pó...o trabalho nao deixa claro seus impactos?

Resposta do autor:

Prezado Jose Paulino Siqueira,

O trabalho não avaliou os efeitos sobre a produção de leite em pó. Minha opinião é de que a importância relativa seria menor em relação a produtos como os queijos. Atenciosamente, Marcos Veiga

delson filho

Redenção - Pará - Pesquisa/ensino
postado em 06/06/2011

Quer dizer que devo baixar o PH antes de coagular o leite, para obter micelas de tamanho menor, ou somente os leites (originais) com PH baixo pode ter micelas pequenas?

Resposta do autor:

Prezado(a) delson filho,

O pH é um dos fatores que altera o tamanho da micela e consequentemente a capacidade de coagulação, conforme os dados do estudo apresentado. No entanto, eu não explicaria este efeito do menor pH sobre a capacidade de coagulação somente pela tamanho da micela, pois o pH apresenta influência sobre outras características como ação enzimática, por exemplo. Eu não colocaria esta recomendação (abaixar o pH antes da coagulação) somente com base nos resultados do estudo.

Atenciosamente,

Marcos Veiga

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