A ocitocina exógena está sendo utilizada de forma disseminada nos sistemas com ordenha mecanizada para facilitar a ordenha ou para corrigir falhas de manejo?
A aplicação de ocitocina pela via intravenosa é uma prática frequente na maioria das propriedades leiteiras que adotam vacas mestiças e tem como objetivo, favorecer o reflexo de ejeção do leite, diminuir a quantidade de leite residual e aumentar a eficiência produtiva. De acordo com os usuários, essa prática facilita o processo de ordenha, pois elimina a necessidade da presença do bezerro para que a vaca seja estimulada a liberar ocitocina endógena. Por outro lado, verifica-se que os animais que recebem ocitocina exógena podem apresentar maior resistência para entrar na sala de ordenha, muitas vezes necessitam de “peia” para serem contidos (oferecendo maior risco de acidente para os ordenhadores), sapateiam, defecam e urinam mais durante a ordenha (contribuindo para sujar o ambiente).
Apesar do aumento do custo de produção do leite ser irrelevante para alguns produtores, não podemos desconsiderar os gastos com as compras de ocitocina, seringas e agulhas. Outra preocupação que devemos ter é com o aspecto sanitário da aplicação de ocitocina. A utilização de uma mesma agulha para aplicar ocitocina em vários animais pode aumentar o risco de transmissão de doenças, tais como, leucose, tuberculose, tricomonose, leptospirose, diarréia viral e rinotraqueíte infecciosa bovina. Além disso, não se sabe quais são os efeitos a longo prazo da utilização de ocitocina exógena.
Nesse contexto, surgem os conceitos de bem-estar animal. Como está a qualidade de vida das vacas que recebem ocitocina? Elas estão em harmonia com o ambiente onde vivem? Elas estão adaptadas ao sistema de produção de leite? Sendo assim, ao invés de adotar a aplicação de ocitocina, não seria mais interessante amansar e adaptar as novilhas e as vacas mestiças ao ambiente da sala de ordenha?
Algumas propriedades de gado mestiço leiteiro que adotam fêmeas meio sangue e/ou ¾ Holandês x Zebu já despertaram para a necessidade de amansar os animais e abolir a utilização de ocitocina exógena, visando promover o bem-estar, facilitar o processo de ordenha, reduzir o custo de produção do leite e aumentar a eficiência produtiva. Essa prática está começando a se tornar realidade, portanto, muitas informações ainda deverão ser obtidas para responder um questionamento que foi feito no início desse artigo: é viável produzir leite de vacas meio sangue e ¾ Holandês x Zebu sem a presença do bezerro e sem ocitocina?
Quanto mais cedo algumas técnicas de “doma racional” forem adotadas na cria e na recria para amansar as fêmeas mestiças leiteiras, maiores poderão ser os benefícios adquiridos durante as primeiras ordenhas nas primeiras lactações. No caso das vacas (primíparas e pluríparas) que já estão em lactação, o processo de amansamento e a conscientização dos funcionários sobre a importância das boas práticas de manejo no pasto, no curral e na sala de ordenha, devem ser adotados antes de eliminar a utilização de ocitocina exógena. Algumas vacas apresentam diminuição temporária na produção de leite após a retirada da ocitocina, porém, ao ser estabelecida a nova rotina de ordenha, elas tendem a melhorar o desempenho produtivo. Os animais que se encontram na fase final da lactação ou apresentam menor média de produção diária podem secar antecipadamente. Recomenda-se a continuação do processo de amansamento e a readaptação ao ambiente da sala de ordenha durante o período seco para aumentar a eficiência produtiva desses animais na lactação subsequente.
Técnicas de “doma racional” que podem ser adotadas em rebanhos mestiços leiteiros
As técnicas adotadas nos cursos de doma de bovinos são baseadas na observação do comportamento e na relação dos animais com o meio no qual estão inseridos. O comportamento do animal é produto da biologia (características inerentes a cada espécie) e de variáveis do ambiente no presente (interação com o meio no qual está inserido atualmente) e no passado (experiências adquiridas anteriormente). Cabe ao homem fornecer os recursos necessários para a adaptação dos bovinos aos sistemas de produção, evitando assim, prejuízos ao bem-estar animal e ao retorno econômico.
De maneira semelhante aos outros ruminantes, os bovinos apresentam características primitivas de comportamento, mantendo-se em estado de alerta. Sendo assim, eles identificam e fogem de possíveis predadores, evitando situações de risco. Quando se sentem ameaçados, eles podem reagir de maneira agressiva. Durante o processo de amansamento, a aproximação dos animais deve ser realizada de forma gradativa. Inicialmente é estabelecida a zona de fuga para o lote que está sendo amansado, sendo que a delimitação dessa área possibilita a adoção de técnicas para aproximar ou afastar, dependendo da reatividade de cada animal. A redução da zona de fuga e a aproximação podem ser realizadas por meio de cordas e “cotonetes gigantes” (Figuras 1 e 2).
Figuras 1 e 2. Estabelecimento da zona de fuga e aproximação gradativa durante o processo de amansamento de fêmeas mestiças. Fontes: Fazenda São Francisco, Mogi Mirim-SP (1) e Fazenda Experimental da EPAMIG, Felixlândia-MG (02).
À medida que o animal percebe que a presença do homem não é negativa, ele passa a reagir de forma mais tranquila e permite a aproximação com contato físico. O contato físico positivo é uma forma de “agradar” os animais. Acariciar, coçar e escovar as fêmeas mestiças, principalmente aquelas que não tiveram a oportunidade de ter contatos positivos com os humanos anteriormente, facilita o processo de adaptação à sala de ordenha. Essas ações possibilitam a dessensibilização prévia das novilhas e vacas consideradas “ariscas”, inclusive na região do úbere e nos membros posteriores (Figuras 3 e 4). Considerando que a boa interação entre os homens e as vacas pode resultar em benefícios para ambos, diminuindo os riscos de acidentes, promovendo o bem-estar e aumentando a produção de leite, o estabelecimento da confiança durante o processo de amansamento é muito importante (Figuras 5 e 6).
Figuras 3 e 4. Dessenssibilização da região do úbere e dos membros posteriores de fêmeas mestiças por meio da adoção de “cotonetes gigantes” e escovas. Fonte: CIALNE-CE.
Figuras 5 e 6. Estabelecimento de confiança entre o homem e os animais durante o processo de amansamento. Fonte: CIALNE-CE.
