EUA: Como a indústria de leite fluido "azedou" e o que outros negócios podem aprender com isso
A demanda por leite tem estado em queda livre há décadas. O consumo de leite fluido nos Estados Unidos caiu em 36% desde os anos setenta. Isso ilustra os perigos de focar em somente um produto altamente commoditizado, ignorando as tendências de mercado, e tentando valentemente vender o que você faz ao invés de fazer o que as pessoas querem.
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O acordo chamado de “fiscal cliff" (leia a matéria relacionada: EUA: Congresso aprova lei para evitar aumento nos preços dos lácteos) feito pelo Congresso dos Estados Unidos incluiu uma extensão de nove meses à lei agrícola que tinha expirado, evitando que os preços do leite no varejo dobrassem para US$ 7 por galão (US$ 1,85 por litro, aproximadamente) ou mais em 2013. Isso é um grande alívio aos produtores de leite, mas esse adiamento feito no último minuto não deve impedir o fato de que eles caiam em seu próprio precipício.
A demanda por leite tem estado em queda livre há décadas. O consumo de leite fluido nos Estados Unidos caiu em 36% desde os anos setenta (leia matéria relacionada: Consumo de leite nos EUA cai 30% em três décadas). A indústria de lácteos serve de advertência para outras indústrias cujo o produto principal caiu em desuso ou está sob ataque de ativistas. Isso ilustra os perigos de focar em somente um produto altamente commoditizado, ignorando as tendências de mercado, e tentando valentemente vender o que você faz ao invés de fazer o que as pessoas querem.
Nenhum bigode de leite na história da publicidade pode encobrir o fato de que o leite fluido não é mais a bebida de escolha – não para adolescentes e pessoas de 20 e poucos anos, ou pessoas com vidas agitadas ou para os baby boomers que estão envelhecendo ou para os idosos. Com o consumo per capita de leite nos Estados Unidos caindo em 36% entre 1970 e 2011, um porta-voz de um grupo comercial da indústria recentemente admitiu algo que todo mundo já sabia: o setor leiteiro está em apuros.
Ainda, a indústria não tem ninguém para culpar a não ser ela mesma. Está em apuros porque focou nas vacas ao invés dos consumidores. Por décadas, sua estratégia tem sido tornar a produção de leite mais eficiente. E teve sucesso: de 1970 para 2006, o número de vacas declinou em 25%, enquanto a produção de leite por vaca mais que dobrou. Porém, enquanto as companhias de lácteos focaram em tirar mais leite de menos vacas, ignoraram o fato de que a demanda estava pressionada também. No começo dos anos oitenta, o consumo per capita de refrigerantes ofuscava o consumo de leite. As crianças que bebiam caixinhas de leite em seu lanche escolar se tornaram a Geração Pepsi, que preferia mais refrigerantes refrescantes; as gerações seguintes descobriram a água vitaminada e as bebidas esportivas. O aumento nos preços do leite, os defensores da saúde que questionaram as calorias do leite e seu valor nutricional e os ativistas preocupados com hormônios bovinos levaram a mais queda nas vendas.
Ao mesmo tempo, durante os últimos 40 anos, novas bebidas lácteas ou produtos lácteos, como iogurte, leite de soja, fórmulas para reparo muscular e substitutos de refeições se tornaram amplamente populares. Os membros originais da Geração Pepsi de 1963 agora pessoas com 60 e poucos anos com ossos frágeis, que precisam de cálcio e vitamina D, mas não querem leite. As pessoas de 20 e poucos anos que cresceram tomando Gatorade e água engarrafada bebem Muscle Milk depois da prática de exercício físico e tomam um iogurte grego como lanche. Seus frágeis avôs octogenários bebem Ensure (suplemento nutricional para adultos).
Em sua busca por vender mais leite fluido, as companhias de lácteos ignoraram largamente esses mercados altamente lucrativos, embora tenham o controle do ingrediente básico de muitos deles. Ao invés disso, companhias como a General Mills (que é dona da Yoplait) estão obtendo lucros no mercado de US$ 1,5 bilhão por ano com o iogurte grego, produto que se tornou mania. O mercado de US$ 2 bilhões para “substitutos de refeição” – misturas em pó para bebidas, shakes líquidos, barras comestíveis que substituem refeições e produtos semelhantes – pertencem quase que totalmente a Abbott e Mead-Johnson, ambas indústrias farmacêuticas e médicas. A CytoSport faz o Muscle Milk, comercializado para os praticantes de exercícios físicos para ajudar a reparar os músculos e se recuperar de exercícios.
Os produtores de leite também falharam com as embalagens. Demorou-se décadas para que re-projetassem a embalagem e abandonassem as tradicionais caixas. As garrafas com porção individual que os consumidores podem facilmente pegar em uma loja de conveniência e beber na hora são uma oferta relativamente nova.
Em resposta aos competidores que estão drenando seus negócios, os produtores de leite se agarraram teimosamente à campanha “Got Milk?”, uma tentativa fracassada de fazer aumentar o consumo de leite.
O que eles deveriam ter feito todos esses anos? Primeiro, eles deveriam ter redefinido eles mesmos como um fornecedor de nutrição baseado em leite ao invés de um negócio de leite. Um exemplo foram as empresas a United Parcel Services (UPS) e a IBM, que voltaram atrás e redefiniram seus negócios, criando serviços com valor agregado que são baseados em seus produtos principais. A UPS não é somente um expedidor de embalagem; é um gerente de logística. A IBM não vende somente computadores e software; ajuda as companhias a tornar seus negócios mais competitivos com serviços de consultoria e tecnologia de informação.
Se fossem um fornecedor de nutrição ao invés de um produtor de leite, a indústria de lácteos poderia ter mudado seu foco da produção ao marketing. As companhias de lácteos teriam sido mais rápidas em reconhecer a oportunidade para criar bebidas à base de leite que suprem a crescente demanda dos consumidores por bebidas mais refrescantes. Eles poderiam ter adicionado produtos populares, de alta margem, como iogurte e shakes nutricionais a seus portfólios, para se proteger das mudanças na demanda por leite, ao invés de deixar companhias como a General Mills avançar.
Os produtores de leite também deveriam adotar embalagens convenientes, do tipo “pegue e beba”, para levar o leite além da mesa do café da manhã. Eles deveriam ter formado parcerias estratégicas com outras companhias, como a Campbell’s Soup fez quando se uniu com a Coca-Cola Company, para distribuir o V8, e como a Pepsi fez com a CytoSport para distribuir o Muscle Milk.
A indústria pode começar uma nova página? Em um período quando muitos estão ponderando resoluções para o novo ano, o setor leiteiro precisa fazer sérios exames de consciência. Talvez suas resoluções serão ouvir mais; focar nos outros ao invés de em si mesmos; encontrar novas formas de seus produtos poderem ajudar as pessoas a melhorar sua nutrição e a viver melhor. Porém, enquanto continuar seu foco nas vacas e na produção, sua perspectiva continuará “azeda”.
A matéria é da Forbes, traduzida e adaptada pela Equipe MilkPoint.
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QUEDAS DO IGUAÇU - PARANÁ - OVINOS/CAPRINOS
EM 14/03/2013
Muito tem-se citado que uma das causas da queda de consumo seja a substituição do leite por outras bebidas. Isso não é verdade. Simplesmente o leite passou a ser menos consumido pela população. Isso se deve a uma série de fatores. Entre eles pode-se destacar a mudança de habitos da população. Em 1970 16% da população alimentava-se fora de casa, hoje são 48%. As embalagens que você encontra nos mecados americanos são de 1 galão ou meio (não via nenhum problema nisso, pois tomava mais de um galão por dia quando vivia lá). Esse tipo de embalagem é destinada ao consumo em residencias. Alem disso a diversidade de alimentos com diferentes sabores e texturas não foi acompanhado pela industria lactea e o leite passou a perder a atratividade dos consumidores. Outra questão é a volatilidade dos preços deste produto. Diferente de outros produtos nos EUA o leite liquido sofre grande volatilidade de preços. Comparando os preços de janeiro de 2012, U$4,01 por galão, aos atuais veremos uma variação de mais de 10%. Isso faz com que os consumidores reduzam o consumo deste produto. Quando os preços caem o consumo não volta ao mesmo patamar. Os consumidores aprendem nesses periodos que podem viver sem leite.
No entanto há razão para otimismo. Pesquisas realizadas com consumidores afirmar que investimentos feitos para corigir as razoes que levaram a esta situação podem reverter este quadro a curto e médio prazo.
Pensando nisso a DMI - Dairy Management Inc. esta trabalhando em conjunto a industria para estimular o consumo fluido de leite. Recentemente foi aprovado a aplicação de 9 milhões para açoes de curto prazo. Mais 80 milhões estão previstos para ações de médio e longo prazo.
O que podemos aprender com isso é que a industria precisa estar atenta a mudança de hábitos dos consumidores, gerando produtos que satisfaçam suas necessidades. Mas se isso não foi feito é preciso agir rápido, sem chorar pelo leite deramado, para reverter a situação antes que seja tarde.
Abraço
Michel Kazanowski
PIRACICABA - SÃO PAULO - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS
EM 05/02/2013
Já a entidade Milk-PEP, da indústria (a maior parte cooperativas de leite fluido), tem focado suas ações na publicidade.

INDÚSTRIA DE LATICÍNIOS
EM 02/02/2013
Y aparentemente este es el problema del industrial lacteo norteamericano, que tiene toda la tecnologia y las organizaciones para hacer los estudios necesario y poder prevenir cualquier situacion indeseada. Pero hemos visto que lo mas probable es que la facilidad de ubicar cantidades de litros de leche fluida, haya nublado y haber hecho obviar las señales y advertencias de los consumidores y las ong de la lecheria norteamericana.
La lecheria que su ubica al sur del continente (paises del mercosur, etc) deberan tomar debida nota para anticiparce a estos problemas, hacer las inversiones necesarias para industrializar nuevos productos, e investigar en el mercado interno y externo (exportaciones), cuales son las expectativas del consumidor, que quiere, que busca, que espera de un alimento lacteo. Esto nos debe dejar un aprendizaje a quienes tienen que transformar la leche del productor a las necesidades del consumidor.
DESCALVADO - SÃO PAULO - PRODUÇÃO DE LEITE
EM 01/02/2013
Ao relê-lo, porém, percebo um viésque não se encaixa direito, quando diz que a "cadeia se preocupou apenas com a eficencia das vacas". Penso que melhorar o segmento pós porteira não exclui a importancia do ganho de competitividade dentro da porteira.
Não há porque criticar o produtor apenas porque ele fez bem a lição de casa nos ultimos 30 anos, sugerindo que "esqueceu" do mercado consumidor.
Parece que por lá falta exatamente o que não temos aqui; um pensamento convergente dentro do setor, buscando ganhos de eficencia sistemica em todos os elos.
Ainda bem que eles tem o bigode de leite e eficiencia no setor primario. O que seria deles se além da falta de criatividade comercial levantada no artigo, ainda fossem ineficientes na produção e não colocassem recursos em marketing?
PATROCÍNIO PAULISTA - SÃO PAULO - INDÚSTRIA DE LATICÍNIOS
EM 01/02/2013
É verdade também que esse preço somente é conseguido devido ao pesado subsídio dado pelo governo americano, que, ainda segundo a notícia, caso fosse retirado, dobraria o preço do produto no país.
Mesmo com um preço baixo e com uma propaganda consistente ("bigode do leite") feita há anos pela associação de classe, o consumo nos EUA tem diminuído.

GOIÂNIA - GOIÁS - MÍDIA ESPECIALIZADA/IMPRENSA
EM 01/02/2013
Atenciosamente,
Fernando Melgaço.

RIO DE JANEIRO - RIO DE JANEIRO
EM 01/02/2013
QUIRINÓPOLIS - GOIÁS - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS
EM 01/02/2013
Temos que nos adaptar para sobreviver, é a Lei do mais apto, que vale na natureza e no sistema de livre mercado.
Essas mudanças já estão aqui em nosso país, só não enxerga quem não quer ou é teimoso demais para perceber que se não mudarmos nossa forma de agir ficaremos sem mercado.

BORDA DA MATA - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE
EM 31/01/2013

RIO VERDE - GOIÁS - PRODUÇÃO DE LEITE
EM 31/01/2013
CARRANCAS - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE
EM 31/01/2013
Saudações aos companheiros de atividade!
Wellington Paiva

RIO DE JANEIRO - RIO DE JANEIRO
EM 31/01/2013
Parabéns Sr. Celso. Ao terminar estas linhas li sua preocupação que também é minha, embora não seja da área, mas tenho umas vaquitas.

NOVA OLÍMPIA - MATO GROSSO - PRODUÇÃO DE LEITE
EM 31/01/2013
PORTO ALEGRE - RIO GRANDE DO SUL - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS
EM 31/01/2013
IBAITI - PARANÁ - PESQUISA/ENSINO
EM 31/01/2013
Para mudarmos o consumo temos que redirecionar o foco social, para a classe de baixa renda, que é menos susceptível ao modismo e mais dependente do "alimento". Para que isto ocorra o litro do leite deve baixar de custo junto ao consumidor, a níveis para que este possa comprá-lo. Desta forma, para que isto ocorra temos que aumentar a eficiência energética do sistema de produção na cadeia produtiva do leite, que começa pela mudança do paradigma do modelo "baldes de leite por vaca" para o do modelo "leite por unidade de área".
POUSO ALEGRE - MINAS GERAIS - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS
EM 31/01/2013
SALTO DO LONTRA - PARANÁ - ESTUDANTE
EM 31/01/2013
Quanto a manter o foco na produção este é fundamental, produzir melhor e mais barato significa oferecer derivados lácteos com menor preço e com maior qualidade. Supondo que o foco fosse todo voltado para o consumidor e em pouco tempo o consumo se elevasse por conta disso. nesse exato momento o setor produtivo estaria preparado para atender a nova demanda ou estaria deficiente? Atenda bem as necessidades do consumidor mas nao esqueça que existem milhares de produtores de leite que sobrevivem desta atividade.
UBERABA - MINAS GERAIS - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS
EM 31/01/2013
As indústrias nacionais que seguirem o exemplo da General Mills, inovando o que os consumidores realmente querem, se darão bem.

SÃO CARLOS - SÃO PAULO - INDÚSTRIA DE LATICÍNIOS
EM 31/01/2013
Dentro de no máximo 15 anos, teremos a mesma situação no Brasil.

JOAQUIM TÁVORA - PARANÁ - INSTITUIÇÕES GOVERNAMENTAIS
EM 31/01/2013