Em 1896, eles começaram a produzir, na cidade de Zoetermeer, uma fórmula que buscava adaptar o leite de vaca para os bebês. Nascia ali a empresa que, alguns anos depois, adotaria o nome Nutricia. Mais de duas décadas depois, em Barcelona, outra história começava também partindo da saúde infantil. Em 1919, Isaac Carasso passou a produzir iogurtes depois de se interessar por pesquisas sobre bactérias lácticas e saúde intestinal.
O produto chegou a ser vendido em farmácias e Carasso batizou a marca de Danone, em homenagem ao apelido de seu filho Daniel. Apesar de ter surgido na Espanha, foi em Paris que ela se consolidou como grupo francês. Embora tenham surgido em contextos diferentes, Danone e Nutricia pulsavam algo em comum: a tentativa de usar a ciência da alimentação para responder a problemas de saúde que começavam nos primeiros anos de vida.
As duas trajetórias só se encontrariam quase 90 anos depois. Em 2007, a Danone comprou a Royal Numico, grupo holandês que controlava a Nutricia, e incorporou mais de um século de conhecimento em nutrição infantil e médica desenvolvido na Holanda. Seis anos depois, essa união ganhou um endereço. Em 2013, a Danone inaugurou seu centro global de pesquisa e inovação, em Utrecht, a cerca de 30 minutos da capital Amsterdã, onde também mantém uma sede corporativa.
Com mais de 330 mil habitantes, a cidade fica no coração dos Países Baixos e está entre as mais antigas do país. Ao lado do polo da Danone, está a Universidade de Utrecht, fundada em 1636 e referência europeia em pesquisa, reforçando a vocação local para a ciência e a inovação. E foi ali que uma história iniciada com a tentativa de nutrir crianças passou a ganhar outra escala: desenvolver soluções para necessidades que mudam ao longo de toda a vida.
Hoje, a ambição global da companhia é promover saúde por meio da alimentação, da primeira infância ao envelhecimento. Em 2025, a divisão de nutrição especializada faturou 9,22 bilhões de euros. A Holanda, onde essa trajetória começou, se tornou um dos principais polos de inovação da Danone no mundo.
Enquanto o centro de Paris-Saclay, na França, concentra pesquisas ligadas principalmente a laticínios frescos, produtos à base de plantas e águas, Utrecht se dedica à nutrição especializada. O centro integra uma rede global de Pesquisa e Inovação que reúne cerca de 2 mil especialistas em mais de 40 países. Ali, os estudos vão de leite humano e fórmulas infantis a microbiota, imunidade, nutrição clínica, músculos e envelhecimento.
À frente da agenda médica e de nutrição clínica da área de Nutrição Especializada da Danone, Alma Nauta acompanha de perto a tradução da pesquisa em soluções. “A ciência está no DNA da Danone, é o nosso fundamento e isso nos diferencia. Tudo é baseado em evidência científica”, destacou. Segundo ela, a outra ponta é entender para quem aquela ciência deve servir. “Qualquer inovação começa na necessidade do consumidor e do paciente. Isso nos faz ter uma conexão com o sistema de saúde.”
Em entrevista, José Arthur Lorenzetti, vice-presidente de Nutrição Especializada da Danone no Brasil, reforça que essa base científica passou a sustentar uma agenda mais ampla. “A ciência desenvolvida ao longo de décadas em áreas como saúde intestinal, absorção de nutrientes e resposta imunológica nos permite compreender melhor como apoiar a vitalidade, a mobilidade e a independência das pessoas ao longo da vida".
Com o envelhecimento da população, a estratégia avança para outro extremo. Sem abandonar o foco em bebês e pacientes com necessidades específicas, a divisão passa a investir também em pesquisas e soluções voltadas à longevidade, à preservação de massa muscular, autonomia e qualidade de vida.
Por dentro do centro de inovação em Utrecht
É nos corredores do centro de Utrecht que essa virada ganha forma. O que sai dali não fica restrito à academia: os estudos ajudam a orientar o desenvolvimento de novos produtos, desde a escolha de ingredientes e formulações até testes de desempenho, segurança, textura e aceitação de sabor.
Para Bernd Stahl, diretor de P&D de Pesquisa em Leite Humano e Ciência Analítica do centro, a alimentação tem um papel importante na saúde, mas não deve ser tratada como uma "bala de prata". “Na vida adulta, não espere que a alimentação possa sempre te curar. Mas ela vai ajudar", afirmou.
Uma das primeiras paradas está no intestino. Parte importante da pesquisa realizada lá tenta compreender o que acontece no sistema gastrointestinal depois que um alimento é consumido. Em ambientes controlados, pesquisadores simulam funções do organismo e observam como diferentes ingredientes e formulações se comportam.
E o interesse vai muito além da digestão. A microbiota intestinal passou a ser associada a diferentes aspectos da saúde, da resposta imunológica à interação com outros órgãos, como cérebro e músculos. Em 2025, essa frente ganhou ainda mais espaço na estrutura de pesquisa da Danone com novos investimentos dedicados ao estudo do microbioma.
Em em outro andar, o trabalho sai dos modelos laboratoriais e chega mais perto das pessoas. Adultos saudáveis participam de estudos em que diferentes alimentos podem ser consumidos e posteriormente avaliados por meio de exames e análises clínicas. Amostras enviadas de diferentes países também passam pelas máquinas do centro.
O volume ajuda a dar dimensão à operação: são cerca de 650 mil análises realizadas por ano. Ao mesmo tempo, mais de 100 estudos clínicos podem estar em andamento, investigando desde ingredientes e respostas metabólicas até necessidades nutricionais específicas. Durante a visita, um dos especialistas explicou que o centro também funciona como uma espécie de "fábrica em miniatura". Ela não foi feita para produzir em escala comercial, mas para errar, comparar e testar. Enquanto uma fábrica da Danone pode processar cerca de 10 mil litros de leite por hora, lá são apenas 100 litros.
A diferença está no propósito. Em vez de repetir milhares de vezes uma mesma fórmula, pesquisadores podem produzir dezenas de variações de um produto para testar alterações de composição, textura, estabilidade ou sabor. Em um único processo, podem surgir cerca de 25 versões diferentes de uma mesma ideia.
Por que o leite materno ainda intriga os cientistas
Em um dos laboratórios de Utrecht, amostras de leite humano ajudam pesquisadores a tentar compreender uma substância que, apesar de décadas de estudos, continua cheia de incógnitas. Bernd Stahl dedica parte de seu trabalho a decifrar essa complexidade. O leite humano muda de uma mulher para outra e sua composição também pode sofrer alterações de acordo com fatores como alimentação e condições ambientais.
Para o especialista, ainda há uma distância enorme entre o que a ciência já descobriu e tudo o que ainda está em aberto. “Até hoje, apenas vimos a ponta do iceberg que é o leite humano”, destacou. É um campo delicado também porque qualquer avanço em fórmulas infantis parte de uma limitação: reproduzir integralmente o leite materno é impossível.
Com mais de cinco décadas de pesquisas nessa área, a Danone estuda componentes do leite materno e suas relações com o desenvolvimento infantil, a microbiota e a imunidade. O trabalho também mostra que a alimentação não pode ser estudada de maneira isolada. A amamentação, por exemplo, não está associada apenas a efeitos sobre a criança. Há evidências de benefícios fisiológicos para as próprias mães. A fronteira entre alimentação e medicina é uma das bases da nutrição especializada. Os produtos não são apresentados como substitutos de tratamentos, mas como ferramentas capazes de atender necessidades específicas para cada fase da vida.
Da primeira infância à longevidade
O envelhecimento da população mudou o tamanho do desafio nutricional. Viver mais anos não significa, necessariamente, passar mais tempo com independência ou qualidade de vida. Entre as questões que ganham relevância com o aumento da expectativa de vida estão a redução de massa e força muscular, alterações no metabolismo e necessidades diferentes de proteínas, vitaminas e minerais. “A longevidade e o envelhecimento saudável representam uma das prioridades estratégicas da Danone globalmente”, confirmou o VP de Nutrição Especializada da Danone no Brasil.
Segundo o executivo, parte da ciência construída durante décadas em outras áreas passou a fornecer ferramentas para responder a essa nova realidade. Mas essa virada de longe não significa abandonar a origem da companhia. Pelo contrário, a nutrição infantil continua sendo uma das principais áreas de pesquisa em Utrecht.
No começo da vida, o desafio está no crescimento e no desenvolvimento. Mais tarde, a alimentação assume outros aspectos. Em situações clínicas, pode ser necessária para atender demandas específicas. Com o envelhecimento, entram em cena questões como preservação muscular, imunidade, mobilidade e independência. “Diante da rápida transição demográfica observada no Brasil e no mundo, nosso objetivo é desenvolver soluções nutricionais que contribuam para que as pessoas vivam mais e melhor”, complementa Lorenzetti.
Como o envelhecimento saudável chega ao Brasil
Uma das apostas dessa estratégia é um novo produto que começa a chegar ao mercado brasileiro, fruto da divisão de nutrição especializada. É o Nutridrink Protein Senior, voltado ao público a partir dos 50 anos.
Seu desenvolvimento partiu da ideia de que, com o avanço da idade, as necessidades nutricionais se tornam mais complexas. Manter massa e força muscular continua sendo importante, mas outros aspectos, como imunidade, disposição e ingestão adequada de vitaminas e minerais, também passam a ganhar peso.
O produto reúne 32 gramas de proteína por porção, além de 18 vitaminas e minerais, e foi pensado para atuar não apenas na ingestão proteica, mas também em necessidades associadas a músculos, imunidade e disposição. A versão sem sabor foi criada para poder ser incorporada a diferentes preparações e rotinas alimentares, em uma tentativa de facilitar o consumo contínuo.
Segundo Lorenzetti, esse é um exemplo de como Utrecht funciona como uma espécie de ponte entre o conhecimento científico produzido globalmente e os mercados locais. Pesquisas podem gerar tecnologias ou formulações que depois são adaptadas às necessidades de diferentes populações.
No Brasil, a Danone também mantém há cerca de uma década produção ligada à nutrição especializada em Poços de Caldas, em Minas Gerais. No centro de inovação em Utrecht, a missão é acompanhar o que muda no organismo desde os primeiros meses de vida até uma idade cada vez mais avançada. Mais de um século depois das experiências que deram origem à Nutricia e à Danone, essa ciência continua tentando responder essencialmente à mesma pergunta: de que tipo de nutrição uma pessoa precisa em cada fase para viver melhor?
As informações são da Exame.
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