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Vacas leiteiras com maior eficiência alimentar também apresentam maior eficiência proteica?

VÁRIOS AUTORES

NUTRIÇÃO & TRANSIÇÃO

EM 07/05/2020

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Hoje, na nutrição proteica de vacas leiteiras, nosso objetivo é trabalhar com concentrações proteicas mais modestas nas dietas de vacas em lactação, mas sem comprometer a produção de leite e sólidos, ou seja, obter maior eficiência no uso dos ingredientes proteicos. Neste momento em particular que, por conta da subida do dólar, a cotação do farelo de soja está alcançando cotações próximas a R$2.000,00/t, isto é ainda mais crítico.

Podemos observar que esforços vêm sendo realizados para melhorar essa eficiência proteica (proteína da dieta capturada na proteína do leite), considerando que 40% do custo da alimentação pode ser atribuído a proteína (St-Pierre, 2012). Vários são os meios para melhorar a eficiência proteica como: suplementar diferentes fontes de proteínas, suplementar nitrogênio não proteico (ureia), aminoácidos específicos (por exemplo, metionina protegida) e redução dos níveis de proteína na dieta (Sinclair et al., 2014; Broderick et al., 2015; Gidlund et al., 2015).

No entanto, observa-se que raramente a eficiência de utilização da proteína da dieta em proteína do leite supera 30% em rebanhos comerciais (Huhtanen e Hristov, 2009). De fato, em levantamento conduzido pelo nosso Grupo do Leite da UFPR (Jerszurki et al., 2012) em 28 rebanhos leiteiros de alta produtividade em Arapoti-PR, esta eficiência foi de 27,3% em média. Mais detalhadamente, neste estudo o %PB dietético médio foi de 15,6% (média ponderada dos diversos lotes de vacas em lactação), o teor de proteína do leite ficou em 3,14% (teor baixo pois a época não se bonificava por sólidos do leite), o consumo de N dietético foi de 523g e a secreção de N no leite ficou em 143g.

Talvez uma maneira de aumentar a eficiência no uso da proteína seja selecionar vacas que apresentem maior eficiência alimentar. Da mesma forma que isso já é feito para consumo de matéria seca (MS), por meio de uma avaliação individual conhecida como consumo alimentar residual (ou CAR), que é o cálculo da diferença entre o consumo real e o consumo alimentar previsto para cada animal (Connor, 2015; VandeHaar et al., 2016). O consumo alimentar previsto é estimado usando a energia secretada no leite, o peso metabólico (PV0,75) e a mudança na energia corporal, calculado a partir das mudanças de peso e de escore de condição corporal. Ou seja, o CAR permite identificar quais animais são mais eficientes, que são aqueles que ingerem menor quantidade de alimentos do que o previsto, sem comprometer sua produtividade. Se um animal tem CAR baixo (ou negativo), ele comeu menos do que o predito para atingir a produção desejada, sendo portanto, mais eficiente do que um animal de CAR alto (ou positivo).

Alguns dados interessantes foram demonstrados num estudo recente publicado por Liu e VandeHaar (2020), pesquisadores da Universidade de Michigan, EUA, buscando saber se vacas em lactação mais eficientes quanto ao consumo (baixo CAR) também tem maior eficiência no uso da proteína dietética. E ainda se vacas leiteiras com baixo ou alto CAR mantem esse mesmo desempenho quando se muda o nível proteico da dieta, ou ainda quando estão no início ou no final da lactação.

Os pesquisadores avaliaram 166 vacas Holandesas no pico de lactação (entre 50 e 130 dias em leite ou DEL) e 69 vacas Holandesas no fim da lactação (entre 190 e 250 DEL). As vacas foram alocadas em dois tratamentos (alta e baixa proteína na dieta), tanto no pico como no final da lactação. Para as vacas em início de lactação a dieta do grupo com baixa proteína possuía 14% de PB e o grupo de alta proteína na dieta possuía 18% de PB. Já o agrupamento das vacas no final da lactação, o grupo de baixa proteína na dieta era na ordem de 13% de PB, e o grupo com alta proteína tinha 16% de PB na dieta.

Com base na eficiência alimentar a partir do cálculo do CAR, as vacas foram ranqueadas em alto CAR (menos eficientes) e baixo CAR (mais eficientes) nas duas fases de lactação. Foi calculado também, para cada vaca, a eficiência proteica, definida com a porcentagem da proteína ingerida na dieta que é capturada na proteína do leite. Os principais resultados obtidos nesse estudo são mostrados nas tabelas seguintes:

Tabela 1. Resultados obtidos avaliando dois níveis de proteína na dieta de vacas leiteiras no pico e no final da lactação.

eficiencia proteica vacas leite

Basicamente, as vacas alimentadas com as dietas de baixa proteína, em geral, consumiram menos matéria seca, produziram menos leite e diminuíram o peso corporal, em relação ao grupo de vacas alimentadas com alta proteína, tanto no pico quanto no final da lactação.

Os autores observaram alta correlação entre CAR com eficiência proteica no leite, tanto no início, quanto ao final da lactação. Logo, esses achados já respondem uma das perguntas dos pesquisadores... Vacas de maior eficiência alimentar também são mais eficientes no uso da proteína dietética!

Nas tabelas 2 e 3, é mostrado que vacas mais eficientes (baixo CAR) durante o pico de lactação tiveram maior eficiência proteica do leite, independente do teor de proteína na dieta.

Tabela 2. Resultados obtidos avaliando dietas com alta proteína no pico ou no final da lactação em relação aos grupos de vacas com alto ou baixo CAR.

eficiencia proteica vacas leite

No entanto para vacas em final de lactação, alimentadas com dieta de baixa proteína, CAR alto ou baixo não repercutiu em melhora na eficiência proteica.

Tabela 3. Resultados obtidos avaliando dietas com baixa proteína no pico ou no final da lactação em relação aos grupos de vacas com alto ou baixo CAR.  

eficiencia proteica vacas leite

E sobre a indagação se vacas leiteiras com CAR negativo ou positivo teriam esse mesmo desempenho quando mudasse o nível proteico da dieta, ou ainda se mudaria quando estão no início ou final da lactação? Foi verificado que vacas com baixo CAR numa dieta de alta proteína, ainda mantinham o baixo CAR quando alimentadas com dieta de baixa proteína. Na avaliação do pico da lactação, o CAR foi moderadamente repetível nas dietas de alta e baixa proteína (r = 0,59; P <0,01), já na avaliação das vacas no final da lactação, o CAR foi menos repetível entre os níveis de proteína (r = 0,41; P = 0,03).

Assim, os resultados mostrados por este estudo, evidenciam que vacas com dietas de baixa proteína diminuem o consumo de alimentos e a produção de leite, tanto no pico quanto no final da lactação. Vacas com baixo CAR (mais eficientes) utilizam a proteína dietética de forma mais eficiente. De forma geral os autores sugerem que o CAR está fortemente associado à eficiência da proteína em vacas no pico e final da lactação.

No entanto, devido à dificuldade da coleta de dados individuais de consumo, estimar o CAR ainda é difícil na realidade das fazendas leiteiras. Selecionar indivíduos de maior eficiência de conversão alimentar já é uma realidade na avicultura e na suinocultura e, mesmo na bovinocultura de corte, já existem sumários indicando quais são os reprodutores que transmitem maior eficiência alimentar a sua progênie. Contudo, na bovinocultura de leite, ainda assumimos que as vacas que comem mais são as mais produtivas, o que nem sempre é correto... Enfim, na pecuária de leite ainda temos um longo caminho a trilhar na busca de animais que conciliem alta produtividade com menor uso de recursos.

Referências Bibliográficas

Broderick, G. A.; A. P. Faciola; L. E. Armentano. 2015. Replacing dietary soybean meal with canola meal improves production and efficiency of lactating dairy cows. J. Dairy Sci. 98:5672-5687.

Connor, E. E. 2015. Invited review: Improving feed efficiency in dairy production: Challenges and possibilities. Animal 9:395-408.

Gidlund, H.; M. Hetta; S. J. Krizsan; S. Lemosquet; P. Huhtanen. 2015. Effects of soybean meal or canola meal on milk production and methane emissions in lactating dairy cows fed grass silage- based diets. J. Dairy Sci. 98:8093-8106.

Jerszurki, D.; L. Jerszurki; R.B. Navarro; A. Ostrensky; G.T. Santos, R. Almeida. Nitrogen utilization efficiency in specialized dairy herds in southern Brazil. American Dairy Science Association & American Society of Animal Science Joint Annual Meeting, 15 a 19 de julho, Phoenix, Arizona, Estados Unidos, J. Dairy. Sci., v.95, Suppl.2, p.92.

Huhtanen, P.; A. N. Hristov. 2009. A meta-analysis of the effects of dietary protein concentration and degradability on milk protein yield and milk N efficiency in dairy cows. J. Dairy Sci. 92:3222-3232.

Liu, E.; M. J. VandeHaar, M. J. 2020. Relationship of residual feed intake and protein efficiency in lactating cows fed high- or low-protein diets. J. Dairy Sci. 103: 3177-3190.

Sinclair, K. D.; P. C. Garnsworthy; G. E. Mann; L. A. Sinclair. 2014. Reducing dietary protein in dairy cow diets: Implications for nitrogen utilization, milk production, welfare and fertility. Animal 8:262-274.

St-Pierre, N. R. 2012. The costs of nutrients, comparison of feedstuffs prices and the current dairy situation. Buckeye News. The Ohio State University Extension. http://dairy.osu.edu/bdnews/Volume%2014%20issue%206/Volume%2014%20 Issue%206.html#Costs.

VandeHaar, M. J.; L. E. Armentano; K. Weigel; D. M. Spurlock; R. J. Tempelman; R. Veerkamp. 2016. Harnessing the genetics of the modern dairy cow to continue improvements in feed efficiency. J. Dairy Sci. 99:4941-4954.

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DANIELI CABRAL DA SILVA

Médica Veterinária, Doutoranda em Zootecnia (UFPR)
Professora do Departamento de Medicina Veterinária (UNIGUAÇU)

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MARINA A. CAMARGO DANÉS

LAVRAS - MINAS GERAIS - PESQUISA/ENSINO

EM 18/05/2020

Pessoal, parabéns por trazerem um assunto tão importante. Uma coisa que me chamou a atenção nas tabelas 2 e 3 é que o NUL não acompanhou a eficiência de uso do N. De modo geral, o NUL é considerado uma ferramenta muito útil para avaliação da eficiência proteica. Por que será que nesse trabalho essa correlação desapareceu? Alguma ideia?
ELOIZE JAQUELINE ASKEL

CURITIBA - PARANÁ - ESTUDANTE

EM 20/05/2020

Olá Marina, agradecemos a pergunta.
No artigo o grupo de vacas no pico da lactação com dieta de alta PB (n=166, em virtude do delineamento crossover), citando como exemplo, estavam sob mesma dieta, com consumo médio de 24,3 kg/d e produção de 41,2 kg/d, sendo subdivididas pelo alto ou baixo CAR. Acreditamos que em decorrência da provável homogeneidade do grupo e dos fatores impostos serem os mesmos (dieta, p.e.), o único tratamento imposto tenha sido o CAR, este não foi sensível para detectar diferenças entre grupos quanto ao NUL. No entanto, o consumo levemente menor (como imaginamos que tenha acontecido), do grupo de baixo CAR, promoveu maior eficiência proteica no leite.
No entanto, quando houveram mudanças no teor de PB da dieta, tanto no pico quanto no final da lactação, houve mudança no NUL. Como esperado, dietas de menor teor proteico repercutiram em menor NUL.
Att.
RODRIGO DE ALMEIDA

CURITIBA - PARANÁ - PESQUISA/ENSINO

EM 20/05/2020

Prezada Marina

Bom dia e obrigado por prestigiar o artigo escrito pela Danieli e pela Eloize. Concordo com os comentários acima da minha ex-orientada Eloize. Também concordo contigo que tipicamente o NUL (nitrogênio ureico do leite) reflete a EUN (eficiência de utilização de nitrogênio). Mas os autores Liu & VandeHaar (2020) encontraram correlações de "apenas" -0.42 entre CAR (consumo alimentar residual) e EUN no pico da lactação e de -0.24 entre CAR e EUN no fim da lactação. Estas correlações são significativas e de fato demonstram que vacas mais eficientes (CAR mais baixo) têm melhor aproveitamento da proteína dietética (EUN mais alto), mas talvez a magnitude destas correlações não tenha sido alta o suficiente para que o NUL "espelhasse" a resposta observada em EUN.

De qualquer forma, sua observação foi ótima e novamente agradecemos.

Se cuide e abraços.

Prof. Rodrigo de Almeida (UFPR)