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Há relação entre consumo alimentar no pré-parto e distúrbios de saúde no pós-parto?

VÁRIOS AUTORES

NUTRIÇÃO & TRANSIÇÃO

EM 10/06/2020

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Sabe-se que vacas leiteiras reduzem sua ingestão de matéria seca (IMS) durante o período de transição, e têm tipicamente o início da lactação marcado pelo aumento na incidência de distúrbios do parto que comprometem a produtividade e a longevidade destes animais. Dentre estes distúrbios, podemos citar a distocia, o nascimento de bezerros gêmeos e natimortos, além de doenças ligadas à agentes patológicos como no caso da infecção uterina, conhecida como metrite.

O declínio da IMS durante o pré-parto tipicamente ocorre nos últimos 10 dias de gestação, embora seja mais pronunciado nos quatro dias que antecedem o parto. Este fato aliado a insuficiente IMS no pós-parto e súbito aumento da exigência para a produção de colostro e leite geram um estado de balanço negativo de nutrientes caracterizado pela mobilização lipídica (gordura corporal) e aumento da circulação de ácidos graxos não esterificados (AGNE ou NEFA) e β-hidroxibutirato (BHB).

Os problemas no parto (distocia, partos gemelares e natimortos) e a metrite estão associados à redução na produção de leite, piora no desempenho reprodutivo e aumento do descarte involuntário de animais. Por esse motivo, é de grande importância conhecer os fatores que estão associados a estes problemas. Conhecendo estes fatores podemos desenvolver estratégias que minimizem os efeitos negativos sobre a saúde e lucratividade do rebanho leiteiro.

A Figura 1 sugere que a IMS e o balanço energético negativo durante o período de transição estão associados com disfunções imunológicas, falhas reprodutivas, desordens do parto, retenção de placenta, metrite e descarte de vacas leiteiras no pós-parto. Grande parte destes problemas podem ser consequência da diminuição da IMS seguida de um acentuado balanço energético (BE) negativo que se inicia nos dias que antecedem o parto em vacas leiteiras de alto potencial produtivo.

As desordens do parto podem estar relacionadas com a febre do leite (hipocalcemia) ou com a redução da ingestão de matéria seca, ou com ambas as condições (Figura 1). No primeiro caso, o desequilíbrio orgânico ocasionado pela elevada demanda de cálcio para suprir a produção de colostro e leite prejudica a disponibilidade deste mineral em reações fisiológicas (como por exemplo a contração muscular para expulsão do feto e anexos fetais), consequentemente podendo resultar em distocia e retenção de placenta (CORREA; ERB; SCARLETT, 1993). No segundo caso, suspeita-se que a redução da IMS que acontece durante os dias que antecedem o parto seja responsável pela ocorrência de distúrbios no periparto (PROUDFOOT; HUZZEY; VON KEYSERLINGK, 2009), em condições de um balanço negativo de nutrientes. Há relatos de vacas que desenvolveram metrite grave após apresentarem uma redução na IMS no pré-parto (proeminente na última semana de gestação) (OSPINA et al., 2010). 

Percebe-se (Figura 1) que a metrite é uma doença multifatorial, e que pode depender de fatores como o status imune, o balanço energético negativo e a presença de corpos cetônicos no sangue, além de complicações no parto e retenção de placenta. O útero de vacas no pós-parto imediato é suscetível a patógenos bacterianos. Esta susceptibilidade pode estar associada à imunossupressão e ao estado energético em que o animal se encontra. O declínio das células de defesa (neutrófilos periféricos do sangue) começa antes do parto, assim como a redução da IMS, a liberação de AGNE do tecido adiposo e o aumento dos níveis sanguíneos de BHB. Estes fatores afetam de forma negativa funções importantes das células imunes, com possíveis implicações em casos de infecções sistêmicas no pós-parto (HAMMON et al., 2006).     

Figura 1. Diagrama de causa e efeito mostrando as relações da IMS e o balanço energético negativo com disfunções no pós-parto e suas consequências. Adaptado de PÉREZ-BÁEZ et al. (2019).

consumo transição vacas leiteiras

Baseado nestes relatos, hipoteticamente, a ingestão de matéria seca (%PV) e o balanço energético no pré-parto poderiam estar associados à distúrbios como a distocia, partos gemelares, natimortos e a metrite no pós-parto. As informações a seguir (Figuras 2 e 3) ajudam a esclarecer os principais pontos relacionados a esta questão.

De acordo com os resultados (Figura 2), não foi encontrada associação da ingestão de matéria seca e o balanço energético no pré-parto com a ocorrência de distúrbios no pós-parto. Neste estudo de PÉREZ-BÁEZ et al. (2019) as variáveis não foram capazes de explicar os distúrbios do parto. Em contrapartida, há relatos na literatura que vacas que apresentaram distocia tiveram uma redução no consumo (12%) durante os dois dias que antecederam ao parto. Quando os autores consideraram o período pós-parto, houve associação, sendo que as vacas que passaram por algum distúrbio no parto consumiram menos alimento, tiveram um balanço energético mais negativo e produziram menores volumes de leite corrigido para energia do que aquelas que não foram acometidas.

O impacto destes problemas sobre o consumo e metabolismo energético já eram esperados, visto que as consequências (lacerações) de um problema no momento do parto geram dor e desconforto para a vaca, fato que implica em alterações no apetite dos animais acometidos. Além disso, a distocia e o nascimento de bezerros gêmeos e natimortos são fatores predisponentes para ocorrência de infecções causadas por agentes patológicos, como no caso da metrite. Os sinais clínicos (febre, dor e letargia) causados pela infecção podem potencializar o impacto negativo sobre a redução do consumo de alimento. 

Em relação a metrite, foi encontrado associação com a IMS e o balanço energético no pré-parto (Figura 3), de modo que vacas que desenvolveram metrite no pós-parto tiveram o consumo de alimento reduzido, evento esse que foi mais pronunciado durante os três dias que antecederam o parto. Apesar disso, este efeito sobre o consumo de matéria seca foi pequeno; estimou-se que uma redução de 0,1% na ingestão de matéria seca durante o pré-parto é capaz de aumentar em 8% as chances de ocorrência deste distúrbio no pós-parto.

Além da ingestão de matéria seca, a associação entre a metrite e o balanço energético e a produção de leite corrigida para energia também foram observadas. Este fato também era esperado, afinal em vacas acometidas por uma doença infecciosa ocorre liberação de mediadores inflamatórios (citocinas e quimiocinas) que levam a uma condição de anorexia (distúrbio alimentar que causa o jejum) no animal. A anorexia por sua vez, pode piorar o balanço energético no pós-parto, justamente por estimular a mobilização de gordura corporal e a produção de corpos cetônicos, fato que pode adiar a retomada de consumo de matéria seca nas semanas seguintes da lactação.

Outra questão percebida no estudo em questão merece destaque; as vacas que tiveram metrite apresentaram maior balanço energético negativo durante o 2o até 9o dia no pós-parto. As vacas com metrite produziram menores quantidades de leite corrigida para energia durante quase todos os primeiros 30 dias de lactação e a ingestão de matéria seca recuperou-se ao final deste período. É interessante que a recuperação da ingestão de matéria seca não acompanhou a produção de leite corrigida para energia, que se manteve constante. 

Figura 2. Associação da (A) IMS como porcentagem de peso corporal (IMS % PC), (B) balanço energético (BE, Mcal/d) durante o período de transição (de -21 a 28 d) e (C) produção de leite corrigida para energia (kg/d) durante os primeiros 28 d pós-parto, com distúrbios do parto. Adaptado de PÉREZ-BÁEZ et al. (2019).

Estes resultados sugerem que os distúrbios do parto podem estar associados a alterações na partição de nutrientes a longo prazo. Durante os processos inflamatórios e infecciosos, a resistência periférica à insulina diminui, fato que torna a glicose mais disponível para células inflamatórias agirem contra infecções e, consequentemente, reduz a captação deste nutriente pela glândula mamária, reduzindo assim a produção de leite. 

Figura 3. Associação da (A) IMS como porcentagem de peso corporal (IMS % PC), (B) balanço energético (BE, Mcal/d) durante o período de transição (de -21 a 28 d) e (C) produção de leite corrigida para energia (kg/d) durante os primeiros 28 d pós-parto, com metrite. Adaptado de PÉREZ-BÁEZ et al. (2019).

Em resumo, os problemas no parto (distocia, partos gemelares e natimortos) foram associados com a ingestão de matéria seca e o balanço energético apenas no pós-parto. Considerando a metrite, houve associação tanto no pré quanto no pós-parto. Apesar disso, as contribuições da IMS e do BE no pré-parto foram secundárias ou não prioritárias. Assim, a IMS e o BE no pré-parto não podem ser utilizados com segurança para identificar vacas que apresentarão metrite no pós-parto. Ou seja, parece que não há uma relação considerável de causa e efeito entre distúrbios de saúde do pós-parto e os parâmetros de consumo e metabolismo energético no pré-parto antecedente, esta relação de causa e feito parece ser mais concreta no período pós-parto.

Referências

CORREA, M. T.; ERB, H.; SCARLETT, J. Path analysis for seven postpartum disorders of Holstein cows. Journal of Dairy Science, v.76, p.1305-1312, 1993.

HAMMON, D. S.; EVJEN, I. M.; DHIMAN, T. R.; GOFF, J. P.; WALTERS, J. L. Neutrophil function and energy status in Holstein cows with uterine health disorders. Veterinary Immunology and Immunopathology, 2006.

OSPINA, P. A.; NYDAM, D. V.; STOKOL, T.; OVERTON, T. R. Evaluation of nonesterified fatty acids and β-hydroxybutyrate in transition dairy cattle in the northeastern United States: Critical thresholds for prediction of clinical diseases. Journal of Dairy Science, v.93, p.546-554, 2010.

PÉREZ-BÁEZ, J.; RISCO, C. A.; CHEBEL, R. C.; GOMES, G. C.; GRECO, L. F.; TAO, S.; THOMPSON, I. M.; DO AMARAL, B. C.; ZENOBI, M. G.; MARTINEZ, N.; STAPLES, C. R.; DAHL, G. E.; HERNÁNDEZ, J. A.; SANTOS, J. E. P.; GALVÃO, K. N. Association of dry matter intake and energy balance prepartum and postpartum with health disorders postpartum: Part I. Calving disorders and metritis. Journal of Dairy Science, v.102, p.9138-9150, 2019.

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JEAN CARLOS STEINMACHER LOURENÇO

Aluno de doutorado do programa de pós-graduação em zootecnia da Universidade Federal do Paraná (UFPR).

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