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A produção animal nos bastidores: muito além de carne e leite

POR ROBERTA ZÜGE

NA MIRA

EM 10/02/2017

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Esta semana foi publicado um levantamento feito pela World Animal Protection, que identificou quais as empresas estão priorizando o bem-estar animais dentro das produções. A organização faz uma estratificação por níveis, classificando as empresas que mais possuem políticas com maior aderência ao bem-estar animal até aquelas que não estão sensibilizadas. O levantamento foi realizado em âmbito mundial, assim, muitas empresas brasileiras (pelo número muito grande de organizações) não foram contabilizadas. No entanto, alguns grandes nomes do Brasil já figuram no relatório apresentado.

Ações como essa são reflexos de uma nova visão do consumidor. Indiscutivelmente, o setor agropecuário sofreu diversas mudanças, notadamente após o final da II Guerra Mundial. A produção de alimentos e fibras demonstrou um incremento grande, pelas novas tecnologias empregadas, mecanização, utilização de insumos químicos, da especialização e algumas políticas para favorecer a maximização da produção. Inegavelmente, apensar de uma distribuição não justa, hoje há muito mais disponível e mais barato alimentos do que há algumas décadas.

Para o consumidor, eminentemente das cidades, sanadas as necessidades primárias de volume de produção, outros requisitos estão sendo solicitados, ou mesmo exigidos, como premissa de comercialização. Afinal, o acesso aos alimentos, principalmente, as proteínas de origem animal atingiram grande parte da população dos países desenvolvidos e têm chegado à mesa, com frequência, de muitos consumidores de países emergentes, onde há espaço para criar novas demandas e exigências.

Neste cenário, as práticas utilizadas no campo estão sendo questionadas pelos consumidores. Não basta apenas ser competitivo, deve-se produzir com qualidade, mas isto vai muito além de um alimento saudável e palatável, requisitos, anteriormente, satisfatórios para ser considerado adequado aos anseios do consumidor. Entre as novas exigências dos consumidores, pode-se destacar o atendimento à sustentabilidade da produção, que permeiam as práticas que atendam às necessidades ambientais, sociais e, na pecuária, ao bem-estar animal. Assim, os problemas ocasionados pela intensificação da produção estão sendo questionados.

A preocupação do consumidor em relação ao bem-estar animal tem feito com que muitos optem por uma alimentação sem proteína animal. Sendo assim, cresceu, substancialmente, a quantidade de pessoas que adotam alimentação vegetariana, vegana etc. No entanto, mesmo os indivíduos que buscam não se alimentar diretamente de proteína de origem animal, consomem produtos da pecuária de várias outras formas.

Há diversos medicamentos sintetizados a partir da origem animal. Utilizado como anticoagulante, para cirurgias ou pacientes com risco de AVC (acidente vascular cerebral) e também em tratamentos estéticos para combater a gordura localizada, a Hialuronidase tem o uso muito difundido. Ela é extraída a partir de testículos bovinos. Também com função anticoagulante há a heparina, de origem animal, que é extraída do fígado, pulmões e intestino de bovinos e suínos. A heparina é utilizada para a fluidificação do sangue (reduzir a viscosidade), retardar a coagulação (inibe a conversão da pró-trombina em trombina), utilizada em exames de sangue, em procedimentos cirúrgicos e em transplante de órgãos.

Outro medicamento importantíssimo, pois sua síntese permitiu a sobrevivência de bebês prematuros, o surfactante, também tem sua molécula extraída de matéria prima animal. A lista de medicamentos, e diversos tipos de produtos, originados na pecuária é muito grande, passa por cosméticos à pinceis. Suínos, por exemplo, são usados como manequim para tatuadores (bem anestesiados, claro), pois sua pele tem muita semelhança com a humana.

Assim, mais que simplesmente achar que não consumir carne, leite, ovos, peixe etc., estará contribuindo com a diminuição do sofrimento animal, a sociedade deve entender que preconizar e exigir as boas práticas agropecuárias deveria ser a bandeira a ser hasteada.

A sensação de “estou fazendo minha parte” por não consumir, na forma de alimento ou produtos da pecuária, além de criar uma falsa ilusão, não dá o devido valor que deveria à criação animal. Quanto mais pessoas se conscientizarem que eles são dependentes dos animais, mas irão buscar preservá-los e, também, irão adquirir alimentos que tenham sido produzidos sob os critérios de sustentabilidade que também respeitam o bem-estar animal.

ROBERTA ZÜGE

Membro do CCAS.
Consultora técnica em fazendas e industrias de alimentos com foco no atendimento a requisitos legais e normas de qualidade. Coordenou o projeto da norma Brasileira de Certificação de Leite (MAPA/Inmetro).
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CURITIBA - PARANÁ - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 14/02/2017

Agradeço os comentários.
Quando a ampliarmos a divulgação, acho muito importante. A repetição destes mantras vai "criando verdades". Podemos ter gerações muito influenciadas por estas afirmações.
Como disse o colega Roney, não podemos deixar o silêncio dos bons.

Quanto ao bem-estar, acredito que isto seja de uma maior conscientização da população. E nós, que somos do setor, sabemos como a não atendimento a estas premissas interferem em várias aspectos de produtividade. Alia-se o desejo do consumidor com o incremento da produção.

Paulo, não vou parar. Eu acredito no que faço. Acredito que realmente seja o certo. Precisamos unir forças, e conhecimento, para combater o barulho dos maus!

Abraços
RONEY JOSE DA VEIGA

HONÓRIO SERPA - PARANÁ - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 14/02/2017

Já disse uma vez alguém sábio, - O que assusta não é o barulho dos maus, mas o silêncio dos bons - , ou algo assim....Enfim, ainda é mais fácil organizar minorias raivosas, barulhentas e ignorantes, do que organizar pessoas que pensam, e logo, desconfiam!
Desculpem a ironia, mas é a realidade.
Organizar demanda tempo e dinheiro, duas coisas difíceis de ter quando se trabalha honestamente!
Mas creio que a maioria silenciosa ainda prevalece, mas com certeza devemos nos moblilizar mais.
Grande Artigo!
JOSÉ HERMANO MACHADO

SÃO PAULO - SÃO PAULO - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 13/02/2017

Quem realmente está por trás das exigências dos consumidores? Quem introduziu aos consumidores, a ideia de grandes sustentabilidades? Sabemos que o consumidor, apesar de toda informação existente, haja vista as redes sociais, são "conduzidos" a pensar de maneira coletiva - engraçado, igual aos rebanhos- de maneira a exigir algo que jamais souberam de que forma é ou foi feito. Concordo, que as coisas evoluam e que devemos faze-las o melhor possível, mas por que não existe por exemplo, Códigos Florestais tão rígidos como o nosso, na Europa, Ásia e Estados Unidos. Por que utilizam estas ideias, o que seria até lógico, como barreira contra nossos produtos? A resposta será dada em 50 anos, quando não conseguirem mais produzir para suas populações. Em que terras vão produzir? Sabemos onde. Cuidado, mais do que nunca a humanidade está sendo conduzida a pensar coletivamente, sob a luz do bem estar.
PAULO CESAR DIAS THOMAZELLA

SOROCABA - SÃO PAULO - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 13/02/2017

Dra Roberta excelente artigo.Meus parabéns pela publicação.A vida no seu dia a dia nos ensina muitas coisas e ao ler seu artigo mais uma vez aprendi sim a dar valor para matérias como a sua que tem lógica e convicção e baseada em estudos.Continue nos ajudando,não pare.Vale a pena estudar e se dedicar a compartilhar o que sabe.
ROBERTA ZÜGE

CURITIBA - PARANÁ - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 13/02/2017

Márcia
A internet deu voz a todos. Algo muito positivo. No entanto, como nossa população ainda é bastante carente de conhecimento, os assuntos polêmicos e alarmantes sempre ganham destaque. Compartilham-se mil vezes as curas milagrosas, os tratamentos sem fundamento, ou as chances de ganhar (apenas compartilhando) um carro.

Quando publicamos algo técnico, mesmo com embasamento, ou são totalmente desprezadas ou são rechaçadas com argumentos vazios.

Este artigo está me fazendo aprender a usar o botão bloquear!!! Argumento até um certo ponto, depois, quando percebo que não há interesse em discutir tecnicamente, vai para o bloc!
ROBERTA ZÜGE

CURITIBA - PARANÁ - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 13/02/2017

Obrigada Daniela.

Outro dia, nas minhas arguições (inclusive com estudante de MV) tive que ler "acredito nas minhas convicções". Fica realmente difícil argumentar sob estas condições. O tema parece torcida de time.

Penso que nós técnicos, os comprometidos, temos que exercer também este papel, de conscientizar e capilarizar o conhecimento. Com isto, também teremos a profissão mais valorizada pela sociedade.

Como citado pelo Dr. Ronei, o setor precisa investir mais neste tipo de ação: conversar com o consumidor. Quem sabe seja o momento de agirmos com mais assertividade!
MARCIA POPOSKI

GUARAPUAVA - PARANÁ - PESQUISA/ENSINO

EM 13/02/2017

Concordo plenamente! Infelizmente estamos na era da idiotização disseminada pelas redes sociais onde o maior problema é que aqueles que não sabem do assunto e se imaginam "experts", proliferando desinformação....














DANIELA COCO

SÃO PAULO - SÃO PAULO - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 13/02/2017

Parabéns Roberta, como sempre suas palavras trazem verdades que precisam ser ditas, mas que nem todos querem ouvir, por isso os ataques rss. Acho que é uma questão de confiança, de transparência e de clareza ao longo da cadeia de produção, seja do leite, da carne bovina, suína, de frango e etc. O consumidor cada vez mais conectado demanda mais informações e mais confirmações. O que os setores do agronegócio não podem é ficar na defensiva, sempre se justificando no modo reativo. É preciso antecipar-se a esses movimentos, agir com proatividade.
ROBERTA ZÜGE

CURITIBA - PARANÁ - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 13/02/2017

Prezado Ronei.
Obrigada.
Sim, o setor não se comunica como deveria. Penso que mais ações neste sentido deveriam ser feitas. Acho que precisamos conversar sobre isto :-)

Por conta deste artigo, que também compartilhei via redes sociais, fui atacada algumas vezes, pelos radicais defensores do veganismo, entravam na minha página e me insultavam. Meu apelido agora é Dra Morte!!!!
RONEI VOLPI

CURITIBA - PARANÁ - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 13/02/2017

Belo artigo Roberta. Talvez nosso maior problema esteja em não nos comunicar com qualidade com os consumidores.