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Se a Nova Zelândia é um exemplo, que seja um exemplo completo!

JULIO CESAR PASCALE PALHARES

EM 03/01/2014

4 MIN DE LEITURA

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Se a Nova Zelândia é um exemplo, que seja um exemplo completo!

No final de novembro, a Comissão de Meio Ambiente do Parlamento Neozelandês publicou um relatório intitulado “Water quality in New Zealand: land use and nutrient pollution” (Qualidade da água na Nova Zelândia: uso da terra e poluição por nutrientes). A publicação traz uma série de informações sobre a história da pecuária no país, conceitos relacionados à produção animal e seus potenciais impactos nas águas superficiais, e sobre políticas, legislações e programas que estão sendo desenvolvidos a fim de melhorar a qualidade das águas. O foco do estudo é a atividade leiteira e o potencial risco que ela pode representar para os recursos hídricos.

A principal conclusão do Relatório é que a expansão da produção leiteira está degradando a qualidade das águas superficiais. Outras conclusões que se destacam:

- A principal fonte de nitrogênio para as águas neozelandesas é a urina dos animais;

- A Nova Zelândia enfrenta um dilema entre a economia clássica e a conservação ambiental; apesar dos milhares de trabalhos sobre a internalização dos custos ambientais no custo de produção, isso não é a prática; essa internalização é repleta de muitos desafios;

- De um lado, há iniciativas destinadas a reduzir o impacto da agricultura na qualidade das águas. De outro, programas que visam à obtenção de maior retorno financeiro o que pode intensificar o impacto das atividades nessa qualidade;

- As práticas da produção leiteira mudaram e continuam a mudar de duas maneiras que afetam a concentração de nutrientes nos cursos d’água. Primeiro, o aumento da produtividade é muitas vezes acompanhado por uma maior perda de nutrientes. Segundo, as ações mitigatórias reduzem a perda de nutrientes.

O Relatório propõe as seguintes medidas mitigatórias para melhorar e conservar a qualidade das águas: não permitir o acesso dos animais aos rios, cercando a área e construindo passagens quando necessário; fazer o correto uso dos fertilizantes químicos e do efluente da ordenha na agricultura; preservar e recuperar as matas ciliares; evitar a erosão dos solos. Estima-se que o uso correto do efluente como fertilizante e da água na irrigação e a retirada dos animais dos cursos d’água podem reduzir as perdas de nitrogênio em até 20%.

Um ponto a se destacar são as similaridades históricas daquele país com o Brasil. Antiga colônia agroexportadora, no passado, o objetivo era fornecer produtos para o Reino Unido, atualmente, é produzir commodities para o mercado externo, sendo a principal o leite em pó exportado para Ásia; a produção agropecuária inicia-se com a derrubada e queima das florestas para criação de ovinos e bovinos de corte, tendo como uma das consequências a perda dos solos por erosão; o uso da terra é determinado pelo valor econômico das commodities; intensificação das atividades agropecuárias, no caso do leite, pelo uso de fertilizantes, irrigação de pastagens e aumento da lotação animal por hectare. Essas similaridades nos permitem prever que as mesmas ações poderão gerar reações similares no Brasil, sejam elas reações sociais e/ou ambientais.

Fatos históricos importantes foram a campanha “Dirty Dairing” (versão traduzida, “Produção Leiteira Suja”), iniciada em 2002, que atribuía à atividade a maior responsabilidade pela poluição das águas. Em 2003 foi assinado o Dairying and Clean Streams Accord (versão traduzida, “Acordo Produção Leiteira e Rios Limpos”) entre a Fonterra, Ministérios do Meio Ambiente e Agricultura e Conselhos Regionais. A partir disto, legislações e ações foram implantadas a fim de melhorar a relação da atividade com a qualidade do recurso natural. Em 2012 a avaliação desse acordo verificou que alguns objetivos foram alcançados e outros não. Neste ano, novo acordo foi estabelecido “Sustainable Dairying: Water Accord” (versão traduzida, “Produção Leiteira Sustentável: Acordo das Águas”) que preconiza o uso de boas práticas e condiciona, por algumas empresas, a coleta do leite ao cumprimento das metas.

A história é uma ciência fundamental para o desenvolvimento de um país e de uma atividade econômica. Aprender com sua própria história e com a dos outros, garantirá um futuro mais seguro com bem-estar social e econômico e qualidade ambiental. Abrir mão desse aprendizado significará incorrer nos mesmos erros; avançar e retroceder ao mesmo tempo; investir tempo e recursos financeiros sempre nas mesmas ações, não tendo resultados concretos e duradouros; depender de ações drásticas, com elevados custos social e econômico, pois não há planejamento, somente correção.

O setor leiteiro brasileiro tem a história e a condição da produção neozelandesa como um exemplo a ser seguido, basicamente por sua excelência produtiva, que nos últimos 20 anos aumentou em 60% sua produtividade.

O Relatório mostra que essa excelência também gerou e continuará gerando impactos ambientais negativos e conflitos sociais. Infelizmente, essa história não é uma exceção. Todos os países com tradição em produção de proteína animal têm a mesma história. Cabe ao Brasil mostrar que a história pode ser diferente!

Que a história da produção neozelandesa seja um exemplo completo para o Brasil! Que aumentemos nossa produtividade de leite por animal e por hectare, mas ao mesmo tempo, devemos impedir o acesso de nossos animais aos rios, usar fertilizantes químicos e orgânicos de forma agronômica e ambientalmente corretas, ter o correto manejo dos resíduos e efluentes da produção, promover o uso eficiente dos recursos naturais e dos insumos e adequar nossas propriedades as exigências da lei.

A história está nos ensinando que o simples aumento da produtividade sem a consideração do manejo ambiental produzirá danos que irão afetar o desenvolvimento da própria atividade, pois não existe produção de leite sem água de qualidade, bem como intensificará os conflitos entre a atividade e a sociedade.

Precisamos começar a escrever a história ambiental da produção de leite no Brasil!

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JULIO CESAR PASCALE PALHARES

Pesquisador da Embrapa Pecuária Sudeste

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PAULO RICARDO F. MENDONÇA

BARRA DO GARÇAS - MATO GROSSO - ESTUDANTE

EM 12/01/2014

bom dia!!!

muito bom o resumo, fazendo a diferencia e as comparação entre Nova Zelandia x Brasil, sabemos que podemos aprender com erros dos outros.
JULIO CESAR PASCALE PALHARES

SÃO CARLOS - SÃO PAULO - PESQUISA/ENSINO

EM 10/01/2014

Ubiretama,



Concordo que não devemos importar o modelo de qualquer outro país para qualquer uma de nossas atividades agropecuárias. Já fizemos isso no passado e foi um erro.

A assistência técnica é fundamental para internalizarmos o manejo ambiental nas produções, mas infelizmente, ainda formamos profissionais agropecuários com um conhecimento ambiental mínimo, senão ausente, o que dificulta qualquer mudança na condição ambiental de nossas produções. Educação sempre foi uma fraqueza de nosso país e na questão ambiental não é diferente.

Não acho que a agricultura e pecuária brasileiras buscam modelos de outros países para copiar, temos sim, países que tem tradição em determinado produto como padrão de excelência, não vejo nada de errado nisso, mas defendo, como no texto, que esse padrão seja entendido como um todo, com seus aspectos positivos e negativos. Geralmente, só vemos os positivos.




LAUDIO WEISS

UBIRETAMA - RIO GRANDE DO SUL - REVENDA DE PRODUTOS AGROPECUÁRIOS

EM 08/01/2014

Bom dia!!

Com um país continental que temos, com clima diferenciado de uma região para a outra, não podemos querer copiar o exemplo da Nova Zelandia.

Devemos sim, ter pesquisa séria, assistência técnica a campo capaz de analisar as peculiaridades de cada micro região.

Na questão ambiental, devemos ter mais informações concretas da poluição causada pela atividade, pois na cidade temos mais contaminação por dejetos humanos ou industriais.



Num país que se tenta buscar um modelo de fora para produzir, deve rever os gastos em pesquisas.
JOSE L M GARCIA

AGUAÍ - SÃO PAULO - PESQUISA/ENSINO

EM 07/01/2014

Por favor defina ''estar conjecturando'' e ''fazer o dever de casa bem feito '' senhor Garcia.

Gostaria de saber melhor a respeito.



Jose Luiz M Garcia
JOSE L M GARCIA

AGUAÍ - SÃO PAULO - PESQUISA/ENSINO

EM 06/01/2014

A raiz dessa discussão passa pela discussão do próprio papel do chamado agronegócio na produção de alimentos X preservação do meio ambiente.

Da mesma forma que precisamos ter um novo paradigma econômico para o mundo também precisamos rediscutir o papel do agronegócio na produção de alimentos.

O agronegócio até agora só conseguiu produzir grãos (comida de roedores e pássaros) que evolutivamente não é a nossa comida, leite ( que em algumas décadas será comida exclusivamente de classe C e D) e demais alimentos obesogênicos que estão gerando uma civilização de pessoas doentes. Olhe ao seu redor.

Tudo isso a um custo muito elevado tanto para as pessoas quanto para o meio ambiente.

Toda vez que o dinheiro for colocado na frente de outras prioridades vamos ter problemas.



Enquanto o homem continuar a servir ao dinheiro e não a Deus ou a Natureza a equação não vai ser resolvida.

''Vocês não podem servir a Deus e ao Dinheiro'' Matheus 6;24

Acreditar que podemos resolver esse problema com esse governo atual também é excesso de otimismo.
MARIO ALVES GARCIA

BELO HORIZONTE - MINAS GERAIS - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 06/01/2014

Muito esclarecedor o artigo Júlio, não adianta ficar conjecturando, temos é que fazer o dever de casa bem feito mesmo. Parabéns!
GISELA MARINA ALVARADO

CAMPINAS - SÃO PAULO - INDÚSTRIA DE INSUMOS PARA LATICÍNIOS

EM 06/01/2014

Resumindo, independente de legislações, o Brasil através de seus "cidadãos" tem a oportunidade de fazer a coisa certa!
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