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Caça ao desperdício

* Prof. Dr. Paulo Machado


O sobe e desce dos preços do leite ainda preocupa muitos produtores. Como não é possível alterar o cenário externo, o melhor para garantir a rentabilidade do negócio em meio à oscilação do mercado é olhar para dentro, aperfeiçoando a gestão da fazenda. Isso inclui o controle do processo produtivo, o rigor no gerenciamento de custos e a busca incessante por qualidade. 

Quando o assunto é controle de custos, cabe olhar com atenção para um grande vilão da rentabilidade: o desperdício. Existente em todo o processo produtivo, ele pode assumir diferentes formas ou, o que é pior, se esconder em pequenas falhas no fluxo de trabalho, passando despercebido. Mas, afinal, o que é desperdício? De forma simplificada, desperdiçar significa não utilizar (ou subaproveitar) parte dos recursos disponíveis e mobilizados para uma determinada atividade ou, ainda, produzir em excesso.

Na rotina das fazendas, o desperdício está presente no uso inadequado de matérias-primas, equipamentos e tempo das pessoas. Estima-se, por exemplo, que as perdas de alimentos representam de 15% a 20% do custo total com nutrição do rebanho. Isso é desperdício puro! Da mesma forma, cada vez que um empregado da fazenda perde tempo procurando uma ferramenta ou refazendo tarefas (o famigerado retrabalho), o recurso humano está sendo mal aproveitado.

Caso a fazenda não tenha um sistema de gestão que ajude a identificar as perdas, fica difícil perceber o quanto essas pequenas falhas, somadas, impactam os resultados do negócio. É como uma goteira que fica pingando lentamente, sem parar. Enquanto a água desce pelo ralo, não conseguimos perceber o volume que está sendo desperdiçado. Porém, se desviarmos o fluxo para um balde, rapidamente teremos a visão de quanta água estamos perdendo.

Vale lembrar que desperdício, seja qual for, é igual a menos dinheiro no bolso. Por isso, eliminá-lo deve ser um mantra em qualquer fazenda, compartilhado com os empregados e repetido à exaustão, até que todos compreendam o quanto essa prática é importante. Conforme propõe o Sistema MDA, modelo de gestão desenvolvido pela Clínica do Leite, os desperdícios devem ser identificados como anomalias no processo produtivo, de modo que seja possível entender suas causas e eliminá-las.

A seguir, destacamos cinco passos fundamentais ao controle de desperdícios na fazenda:

1) Caracterize o resultado esperado de cada processo fundamental ao negócio a partir do atendimento das necessidades dos interessados no produto do processo. Os interessados podem ser internos ou externos. Os internos, por exemplo, são aqueles que recebem uma novilha desmamada para recriar, enquanto que os externos são as indústrias, no caso do leite. Isso fará com que fique claro o que é efetivamente necessário para a entrega do resultado e o que é desperdício.

2) Organize o ambiente de forma que os desperdícios sejam facilmente identificados. Um dos caminhos para essa organização é a implantação do 5S, conforme propõe o Sistema MDA.

3) Os desperdícios precisam ser anotados. Os empregados que executam as tarefas (operadores) são os que mais têm condições de identificar os desperdícios. Eles precisam ser capacitados para essa tarefa. Se os desperdícios não forem anotados serão tomados como eventos “normais” e esquecidos.

4) Ao identificar desperdícios, aja imediatamente para eliminá-los. Não deixe para depois - os desperdícios se acumularão e passarão a ser considerados como obstáculos intransponíveis. A pessoa mais adequada para solucionar os problemas, de imediato, são os operadores, desde que estejam devidamente capacitados a tomar decisões no nível de sua autoridade. Se, no entanto, não forem capazes em um caso específico, devem procurar ajuda com seu supervisor/gerente.

5) Os desperdícios recorrentes (que ocorrem mais de uma vez) devem ser solucionados com a ajuda do gerente/proprietário. Isso deve ser feito em um momento específico, que chamamos de Evento Kaizen. Nele são incluídos os envolvidos e o problema estudado. Em seguida são identificados as possíveis causas e soluções. Essas soluções, após priorização, são implementadas e sua execução deve ser acompanhada para verificar a eficiência do plano de ação - o uso da chamada Carta de Controle é o caminho recomendado para esse acompanhamento.

Com essas práticas, o desperdício ficará cada vez mais distante da rotina da fazenda, reduzindo os custos de produção. E, diferentemente da situação do mercado, essa mudança depende apenas de você. Mãos à obra!

* Coordenador da Clínica do Leite, é professor da Esalq/USP, professor titular em Bovinocultura de Leite, com 43 anos de experiência em gestão de fazendas.

CLÍNICA DO LEITE

Vinculada à ESALQ/USP, a Clínica do Leite é uma instituição sem fins lucrativos que atua em gestão da pecuária de leite, por meio da geração de conhecimento e da formação de pessoas.

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ANGELA RIBEIRO FIGUEIREDO

EM 14/09/2017

Professor
Excelente artigo ..Sou pequena produtora de leite e sempre vi o desperdício mas não tinha coragem de enfrenta´lo; não sabia como começar.
Agora vou avaliar cada etapa e iniciar a correção.
Parabéns e obrigada
PAULO FERNANDO MACHADO

PIRACICABA - SÃO PAULO - PESQUISA/ENSINO

EM 06/09/2017

Legal, Marina. É isso mesmo. Nos processos relacionados com a alimentação dos animais, o fornecimento de excesso ou de insuficiência de nutrientes são exemplos de desperdícios que precisam ser evitados. Isto sem falar das perdas visíveis nos cochos, silos...
Grande abraço e sucesso no seu trabalho.
Paulo
FABIO SPINA FRANCA

ITATIBA - SÃO PAULO

EM 06/09/2017

Professor, excelente artigo. Profissionalmente temos experimentado osfatos mencionados e o agir imediatamente é importante e necessário para a sobrevivência do negócio. Os processos possuem metodologia, técnica, insumos, trabalho e custos devidamente parametrizados. Então, não precisa "achar" que "talvez" o caminho esteja correto, mas anotar, analisar e deliberar em direção às boas técnicas.
MARINA A. CAMARGO DANES

LAVRAS - MINAS GERAIS - PESQUISA/ENSINO

EM 05/09/2017

Professor, ótimo artigo!! Eu venho discutindo que nutrição de precisão não tem necessariamente que envolver nenhum equipamento moderno, mas sim significa o controle dos processos visando reduzir variabilidade e assim poder trabalhar com menores margens de erro, evitando o desperdício.
Obrigada e um abraço!
Marina