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Utilização do consumo de matéria seca como porcentagem do peso vivo ao nascer como critério para desaleitamento

CARLA BITTAR

EM 13/05/2005

7 MIN DE LEITURA

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Por Carla Maris Bittar Nussio1

Um dos critérios de desaleitamento utilizado por produtores é o consumo de de concentrado durante um determinado período de tempo, geralmente 3 dias consecutivos. As recomendações observadas em literatura são de 450 g/d e 800 g/d, para bezerros da raça Jersey e Holandesa, respectivamente. Entretanto, determinar um consumo fixo necessário para o desaleitamento implica em bezerros mais leves devendo consumir maior quantidade de concentrado, em % de seu peso ao nascer (PN), quando comparados a bezerros mais pesados. O resultado pode ser o aumento no período de aleitamento de bezerros com menores pesos ao nascimento. Por exemplo, o consumo de 800 g/d representa 2,2% do peso ao nascer para um bezerro de 35kg, mas apenas 1,8% para um bezerro com peso ao nascer de 45kg. Assim, parece interessante que o consumo necessário para o desaleitamento seja ajustado de acordo com o peso do bezerro. Isso será mais importante em rebanhos com animais com variados graus de sangue, uma vez que existe grande variação do peso ao nascer dos bezerros.

Com o objetivo de determinar o consumo de concentrado (% do PN) apropriado para se realizar o desaleitamento de bezerros, Greenwood et al. (1997) avaliaram 42 bezerros (32 fêmeas e 12 machos) distribuídos nos seguintes tratamentos:

 

 

  • Consumo de 1% PN, durante 3 dias consecutivos, para a realização do desaleitamento;

  • Consumo de 1,5% PN, durante 3 dias consecutivos, para a realização do desaleitamento;

  • Consumo de 2% PN, durante 3 dias consecutivos, para a realização do desaleitamento.

Os bezerros só foram desaleitados quando atingiram, além do consumo diário determinado pelo respectivo tratamento, os seguintes critérios: 1) idade mínima de 3 semanas; 2) consumo de concentrado de 9% do PN, durante o período; e 3) ganho de peso ³ 12% do PN.

Os bezerros receberam leite na quantidade de 8% do PN em duas refeições, sendo o desaleitamento realizado de forma abrupta quando os critérios foram alcançados. Os bezerros tiveram acesso livre à água. O concentrado inicial foi fornecido a partir do primeiro dia de vida do animal, em quantidades comparáveis ao consumo diário, de forma que os animais sempre tivessem concentrado fresco para um consumo a vontade. O consumo de concentrado foi monitorado diariamente até 8 semanas, quando as fêmeas foram agrupadas em baias coletivas e alimentadas da mesma forma e os machos foram descartados.

Os bezerros foram pesados ao nascer, e a cada 2 semanas até a 8a semana, e mensalmente até o final do experimento na 20a semana.

O período de aleitamento dos bezerros foi de 31,7; 42,9 e 45,2 dias para os tratamentos 1, 2 e 3, respectivamente. Os autores observaram uma redução no período de aleitamento quando se utilizou o valor de consumo de concentrado de 1% do PN para a realização do desaleitamento, quando comparado ao período de aleitamento dos outros tratamentos. Entretanto, o número de dias necessários para que o consumo fosse de 1,5 e 2% PN não foi estatisticamente diferente, demonstrando que pode haver um platô para o consumo necessário a desmama. Outros autores também observaram que a medida que o consumo mínimo de concentrado para realização do desaleitamento aumenta, ocorre um aumento no período de aleitamento.

A redução na idade de desaleitamento de bezerros, quando se adota o consumo de concentrado como critério seria benéfica, pois auxiliaria na formação de lotes homogêneos de bezerros recém-desaleitados. O consumo de concentrado de 1% do PN poderia reduzir o fornecimento de leite, devido a redução do período de aleitamento, quando comparado a bezerros desaleitados quando o consumo fosse de 1,5 ou 2% do PN. Entretanto, esta prática ainda parece ser de difícil adoção uma vez que a maior parte dos produtores não pesa os bezerros ao nascimento, tornando difícil a determinação do consumo necessário para o desaleitamento.

A Tabela 1 apresenta as médias de consumo de concentrado e de ganho de peso do nascimento até 8 semanas de idade. Bezerros no tratamento 1 apresentaram maior consumo de concentrado durante todo o período experimental, quando comparado aos tratamentos 2 e 3. O maior consumo total era esperado uma vez que o consumo de concentrado tem correlação negativa com o fornecimento de leite, ou seja, bezerros desaleitados mais cedo, geralmente apresentam maior consumo de concentrado no período subseqüente.

O consumo total de concentrado antes do desaleitamento foi de 5,2 (durante 31,7 dias), 8,6 (durante 42,9 dias) e 11,4 kg (durante 45,2 dias) para bezerros nos tratamentos 1, 2 e 3, respectivamente. Bezerros no tratamento 3, consumiram mais concentrado que animais no tratamento 2, que por sua vez consumiram mais concentrado que animais no tratamento 1, sendo estas diferenças estatisticamente significantes. Após o desaleitamento, o contrário foi observado, embora as diferenças entre os tratamentos 2 e 3 não tenham sido significativas.

Bezerros no tratamento 1 apresentaram maior ganho de peso na quarta semana do que o observado em bezerros no tratamento 3, mas não diferiu de bezerros no tratamento 2. Na quarta semana de vida, aproximadamente 31% dos animais do tratamento 1 já haviam sido desaleitados. O consumo de concentrado aumenta rapidamente após o desaleitamento, o que pode ser um dos motivos para maior ganho de peso para animais no tratamento 1, muito embora o efeito de enchimento ruminal não possa ser descartado.
A Tabela 2 apresenta o ganho de peso de novilhas após 8 semanas. Alguns autores observaram que bezerras desaleitadas mais cedo apresentam menor ganho de peso na 8a. semana, quando comparadas a bezerras desaleitadas mais tardiamente. Neste estudo, as diferenças entre tratamentos para bezerras entre 8 e 20 semanas de idade não foram estatisticamente significantes, concordando com outros trabalhos que também não observaram diferenças no ganho de peso durante este período, em bezerras desaleitadas de maneira mais precoce ou mais tardia.

Conclusões:

A utilização do consumo de concentrado em % do peso ao nascer de bezerros, como critério para desaleitamento, pode reduzir a variação na idade de desaleitamento de bezerros, causada pela variação no peso ao nascer, observada em muitos rebanhos. A utilização do valor de consumo de concentrado de 1% do PN de bezerros reduziu o período de aleitamento, aumentou o consumo de concentrado após o desaleitamento e não apresentou efeito negativo no desempenho de bezerros, quando comparado aos valores de 1,5 e 2% do PN. Entretanto, trabalhos adicionais são necessários para investigar implicações metabólicas e econômicas desta prática.

Tabela 1. Médias de consumo de concentrado e ganho de peso vivo, do nascimento até 8 semanas

 

 

 


* Tratamento 1: consumo de 1% do PN para o desaleitamento; Tratamento 2: consumo de 1,5% do PN para o desaleitamento; e Tratamento 3: consumo de 2% do PN para o desaleitamento.
** NS: não significativo
a, b, c, d, e Médias seguidas de letras diferentes na linha, diferem estatisticamente (P<0,05).

Tabela 2. Médias de peso vivo (kg) de novilhas com idade de 8, 12, 16 e 20 semanas

 


* Tratamento 1: consumo de 1% do PN para o desaleitamento; Tratamento 2: consumo de 1,5% do PN para o desaleitamento; e Tratamento 3: consumo de 2% do PN para o desaleitamento.
** Erro padrão da média.

Comentários:

Embora os resultados deste trabalho tenham demonstrado que adoção do consumo de 1 % do peso ao nascer de bezerros como critério para o desaleitamento não afetou o desempenho destes animais, a recomendação parece ser audaciosa no que diz respeito aos valores de consumo. As recomendações tradicionais se baseiam em consumo fixo, independente do tamanho do animal, com consumos de 450 g/d para Jersey e 800 g/d para bezerros Holandês. Se tomarmos uma bezerra Holandêsa, com peso ao nascer de 45 kg (considerada grande mesmo para esta raça) teríamos o consumo para o desaleitamento de 450 g, durante três dias consecutivos, se adotássemos o valor de 1% do PN. Temos observado que desaleitamentos realizados quando bezerros apresentam baixo consumo de concentrado, afetam de forma negativa o desempenho animal, sendo muitas vezes necessário o re-início de fornecimento de leite.

Nussio et al. (2003) comparando 3 critérios para desaleitamento (consumo fixo de 700 g, consumo de 1,5% do PN ou 8 semanas de idade), observaram maior consumo de concentrado e de matéria seca durante todo o período para animais desaleitados quando o consumo alcançou 1,5% do peso ao nascer, o que possibilitou uma redução de 10 dias no período de aleitamento. A adoção do consumo de concentrado como 1,5% do peso ao nascer pode reduzir o custo de criação de animais devido ao menor fornecimento de leite, muito embora ocorra aumento significativo no consumo de concentrado.

Literatura citada:

GREENWOOD, R.H.; MORRIL, J.L.; TITGEMEYER, E.E. Using dry matter intake as a percentage of initial body weight as a weaning criterion. Journal of Dairy Science, v.79, p. 2542-2546, 1997.

NUSSIO, C.M.B.; RODRIGUES, A.A.; SANTOS, F.A.P.; MINOHARA, R.A. Avaliação de critérios para desaleitamento de bezerras leiteiras. Anais da Reunião Anual da Sociedade Brasileira de Zootecnia, 40, Santa Maria, 2003.

_______________________________________

1Carla Maris Bittar Nussio é Engenheira Agrônoma formada pela ESALQ/USP, atualmente trabalha no Depto. de Zootecnia da ESALQ/USP atuando na área de pesquisa em nutrição de ruminantes e é responsável técnica pelo Laboratório de Bromatologia daquele departamento.

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CARLA MARIS MACHADO BITTAR

PIRACICABA - SÃO PAULO - PESQUISA/ENSINO

EM 01/05/2008

Caro Thiago,

As recomendações são baseadas no peso ao nascer dos bezerros. A recomendação em função do peso vivo do animal é complicada pois pode ocorrer em vários momentos uma vez que o animal sempre aumenta o consumo conforme seu crescimento. Assim, as recomendações para desaleitamento estão baseadas em um consumo fixo de acordo com a raça ou em função do peso ao nascer dos animais. Ainda existe recomendação baseada na idade dos animais o que normalmente garante um consumo adequado.
Att.,
Carla Bittar
THIAGO ALVES DE OLIVEIRA

REGISTRO - SÃO PAULO - REVENDA DE PRODUTOS AGROPECUÁRIOS

EM 28/04/2008

Não se indica desmame a partir do consumo de concentrado em relação ao peso vivo?
MARCO AURÉLIO STEFFANI

MARIÓPOLIS - PARANÁ - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 10/03/2006

Não seria, então, importante procurar estabelecer uma relação de preço do litro de leite/preço do quilo do concentrado e encontrar os percentuais adequados de consumo de ração X PN.



Acredito que cada propriedade seja um caso à parte, mas, partindo-se desta relação, poder-se-ia auxiliar o criador na tomada da decisão de uma maneira mais econômica, talvez.
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