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O freqüente re-agrupamento altera o comportamento social de novilhas?

CARLA BITTAR

EM 05/10/2005

9 MIN DE LEITURA

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Por Carla Maris Bittar Nussio 1

A organização de lotes ou o agrupamento de animais de acordo com a idade, o peso vivo ou estágio de produção é uma prática comum em fazendas leiteiras. Como isso afeta o comportamento e as relações de dominância e hierarquia dentro do lote de novilhas? Como estes fatores podem alterar o desempenho destes animais? Normalmente, os bezerros leiteiros são separados de suas mães logo após o nascimento, sendo criados juntamente com bezerros contemporâneos. Assim, novilhas nascidas no mesmo ano são criadas em lotes de acordo com o peso e tamanho corporal até o primeiro parto, quando então serão integradas ao rebanho em produção compondo novos grupos de acordo com o nível de produção.

O agrupamento de animais não familiarizados uns aos outros aumenta a agressividade, o estresse social e o comportamento referente a locomoção destes animais dentro do lote. Estes fatores estão por sua vez tem efeitos negativos em parâmetros produtivos como consumo de alimento, peso, ganho de peso e produção de leite. Estes problemas são mais observados em animais introduzidos do que em animais já residentes em um lote.

Trabalhos mostram que bezerras (4,5 meses) e novilhas (18 meses) com experiência anterior de re-agrupamento formam relações mais estáveis, competem menos e estabelecem relações de dominância mais rapidamente do que animais que não passaram por esta experiência (Bouissou, 1975; Veissier et al., 1994). Experiências de re-agrupamento parecem melhorar o comportamento social subseqüente de novilhas como demonstrado pelo fato de que bezerros que sofreram agrupamento no início da vida se mostram superiores na escala hierárquica quando agrupados com bezerros da mesma idade criados individualmente. Este dado poderia nos levar a pensar que bezerros em aleitamento deveriam então ser criados em grupos, mas um interessante trabalho mostrou que bezerros criados individualmente até o desaleitamento e depois agrupados dominam bezerros que foram mantidos em grupo desde o nascimento. Entretanto, isso só ocorre quando bezerros criados individualmente têm contacto visual com outros bezerros. Assim, deve existir um nível ótimo de experiência social, sendo que quando ultrapassado, pode ter efeitos negativos no comportamento social de bovinos.

O comportamento social de bovinos também varia de acordo com a idade e maturidade do animal. Nos primeiros meses de vida, bezerros têm pequenas interações agressivas, as quais tendem a ser lúdicas e bidirecionais. São animais que não formam hierarquia social clara e definida. Trabalhos reportam menos de 2 interações agressivas entre bezerros 3h após o re-agrupamento, enquanto são observadas mais de 10 interações agressivas na primeira hora após o re-agrupamento de novilhas. Após a puberdade, comportamentos relacionados à dominância e interações antagônicas próprias de animais adultos passam a ser mais freqüentes. Assim, é esperado que o re-agrupamento tenha maiores efeitos em novilhas do que em bezerros.

Em trabalho conduzido na fazenda experimental do INRA na França, Raussi et al. (2005) avaliaram o efeito do freqüente re-agrupamento de novilhas no comportamento social de novilhas. Os autores avaliaram duas hipóteses:

1)Novilhas devem se habituar ao re-agrupamento, tornando-se menos agitadas a cada re-agrupamento;
2)Novilhas devem adquirir mais experiência com o re-agrupamento, de forma a estabelecerem relações de dominância mais rapidamente e, portanto resultando em interações antagônicas menos freqüentes.

Foram utilizadas 32 bezerras, as quais foram alojadas em duplas em baias de 1,8 x 2m e receberam sucedâneo e feno até 12 semanas de vida, quando foram desaleitadas. Aos 6 meses de idade as novilhas foram transferidas para outra instalação, sendo alimentadas com concentrado e feno de boa qualidade.

Logo após o desaleitamento, os animais foram submetidos a dois tratamentos: controle ou re-agrupamento. Os animais controle foram mantidos em pares (8 pares) do início ao fim do experimento. Os outros 8 pares foram re-agrupados repetidamente a partir de 11 meses de vida, sempre com um animal diferente, duas vezes por semana durante 5 semanas e depois uma vez por semana durante as próximas 6 semanas, totalizando 16 re-agrupamentos. Para evitar o efeito "residente-convidado", animais re-agrupados nunca foram alojados em baia em que um dos bezerros estivera anteriormente. Para a realização do re-agrupamento, todos os animais foram levados a balança para pesagem, sendo então re-agrupados ou recolocados na mesma baia com o mesmo par (controle).

Para monitoramento dos animais, foram utilizadas câmeras de filmagem, sendo o comportamento dos animais avaliado logo após o re-agrupamento para avaliar o efeito imediato. O comportamento foi filmado durante 3h após o 2o, 7o, 13o e 16o re-agrupamento, sendo distinguidas as seguintes ações mutuamente exclusivas: descanso, parado em pé, em movimentação, alimentação, lambendo sal e bebendo água. As interações entre novilhas também foram monitoradas, sendo classificadas como: briga (cabeça do animal encostada ou empurrando outro animal), cabeçada eficiente (contacto violento da cabeça ou chifre de um animal fazendo com que o outro se afaste), cabeçada ineficiente (o animal não se afasta), ameaça eficiente (mesmo movimento que a cabeçada, mas sem contacto físico com o animal se afastando), ameaça ineficiente (o animal não se afasta), afastamento (animal se vira ou sai de perto quando outro animal se aproxima sem ameaça), farejando o corpo do outro animal, farejando a área anogenital do outro animal, cabeça-cabeça (animais parados com as cabeças encostadas sem empurrar), brincadeira com a cabeça (animal esfregando a cabeça no corpo do outro animal), lambendo o outro animal, montando o outro animal. Estes eventos foram agrupados como antagônicos ou não de acordo com Bouissou et al. (2001).

O comportamento durante o período de 24h foi monitorado para verificar se o re-agrupamento repetido teve efeito no comportamento social espontâneo após o estabelecimento da relação de domin6ancia. Os animais foram observados antes do primeiro re-agrupamento e 2 dias após o 5o, 12o e 16o re-agrupamentos.

Para novilhas re-agrupadas, o tempo em que a relação de dominância foi estabelecida foi determinada da seguinte forma: quando os animais foram re-agrupados, comportamentos agressivos podiam ser expressos por um ou ambos animais; mas, após um período de tempo isso foi manifestado por apenas uma das novilhas (dominante) enquanto a outra novilha expressou comportamento de subordinação. O tempo (minutos) para que os dois animais parassem de expressar comportamentos agressivos e começassem a expressar a relação dominante-subordinado foi considerado o tempo em que a relação de dominância foi estabelecida.

Um teste de confronto social também foi realizado para avaliar se futuras respostas sociais com animais estranhos diferem entre animais que sofrerem re-agrupamento e aqueles do grupo controle. Dois animais, sendo um controle e outro do grupo de re-agrupamento, foram colocados em uma área, na qual foi colocado um balde com alimento 4 minutos após a entrada dos animais, sendo os animais avaliados quanto ao comportamento e as atividades.

Após cada re-agrupamento, novilhas re-agrupadas farejaram mais suas baias, passaram mais tempo em pé e paradas e menos tempo deitadas do que novilhas controle (Figura 1). As novilhas re-agrupadas exibiram interações antagônicas mais rapidamente e numa maior freqüência do que animais não re-agrupados. De maneira geral, as interações foram eficientes em novilhas re-agrupadas e ineficientes no grupo controle. As relações de dominância foram estabelecidas mais rapidamente após o 7o. re-agrupamento.

Neste estudo as novilhas não se habituaram ao re-agrupamento. Após os re-agrupamentos de 2, 7 e 16, as novilhas re-agrupadas foram mais ativas que as novilhas controle, demonstrando que mesmo após 16 re-agrupamentos, as novilhas ainda respondiam a esta prática de manejo. O primeiro re-agrupamento parece facilitar o estabelecimento de relações de dominância, com menor número de interações antagônicas, sendo o 7o. re-agrupamento aquele com menor tempo para estabelecimento de dominância. Entretanto, após um grande número de re-agrupamentos, o número e freqüência de interações antagônicas voltou a crescer, como foi observado após o 16o. re-agrupamento. Assim, se a experiência do re-agrupamento é necessária para acelerar a formação de relações de dominância, seja num par ou num lote de animais, reduzindo assim interações antagônicas, esta prática não deve ser excessivamente realizada. Os resultados deste trabalho demonstram que para grupos de 2 bezerros 7 re-agrupamentos parecem ideal para que os animais adquiram experiência. Entretanto, como os nem todos os re-agrupamentos foram monitorados, pode ser que o ideal seja entre 3 e 12 re-agrupamentos.

 


A Tabela 1 apresenta os resultados referentes à atividade das novilhas durante as 24h após o 1o., 5o., 12o. e 16o. re-agrupamentos. Antes do primeiro re-agrupamento não havia diferenças na atividade ou proximidade entre os animais. Entretanto, após o 5o. re-agrupamento, novilhas re-agrupadas tenderam a ter menor contacto com seu par e a duração deste contacto foi menor do que o observado em novilhas controle.

Novilhas do grupo controle foram menos agressivas umas com as outras e passaram mais tempo próximas a seus pares do que novilhas re-agrupadas. Isso foi observado 24h após o 5o. e o 12o. re-agrupamentos. Outros trabalhos haviam demonstrado que novilhas criadas em grupos durante os 6 primeiros meses de vida apresentam menos interações antagônicas e formam relações preferenciais e mais estáveis. É sabido que o completo desenvolvimento de relações preferenciais ocorre mais facilmente no início da vida do animal. Neste trabalho, os re-agrupamentos foram iniciados com 11 meses de vida, de forma que as novilhas tiveram tempo para formar estas relações estáveis antes do primeiro re-agrupamento. Isso explica por que novilhas controle estiveram mais próximas de seus pares permanentes do que novilhas re-agrupadas.

Durante o teste de confronto social, novilhas apresentaram uma média de 11,7 interações antagônicas, 2,75 não antagônicas, 3,25 interações sexuais e consumiram alimento por 1,54 minutos, não havendo diferenças entre os tratamentos.

Em pares de novilhas, a relação de dominância foi mais rapidamente estabelecida após o 7o. re-agrupamento com menos interações antagônicas e redução na atividade subseqüente; enquanto o oposto foi observado após o 16o. re-agrupamento. Assim, parece haver uma quantidade ótima de experiência social após a qual um aumento no número de re-agrupamentos não auxilia no estabelecimento de relação de dominância. A hierarquia social dentro do lote ajuda a reduzir conflitos e brigas, sendo recomendado que novilhas sejam re-agrupadas em várias ocasiões de maneira a serem preparadas para sua integração no rebanho de animais adultos.

Tabela 1. Comportamento durante 24h de novilhas controle ou re-agrupadas antes do primeiro e 2 dias após o 5o., 12o. e 16o. re-agrupamentos.

 


Referências:

Bouissou, M.F.; Boissy, A.; Lê neindre, P.; Veissier, I. The social behaviour of cattle. In: Keeling, L.J., Gonyoy, H.W. (Eds.). Social behaviour of Farm Animals. CABI International, Wallingford, UK, pp. 113-145.
Raussi, S.; Boissy, A.; Delval, E.; Pradel, P.; Kaihilahti, J.; Veissier, I. Does repeated regrouping alter the social behaviour of heifers? Applied Animal Behaviour Science, no. 93, p. 1-12, 2005.


Comentários:

Este trabalho mostra como a prática de re-agrupar animais em crescimento pode alterar seu comportamento social. É sabido que o comportamento social, as relações de dominância e a hierarquia dentro de lotes podem afetar de forma marcante o desempenho de animais, uma vez que podem afetar diretamente o consumo de alimentos, principalmente em animais não habituados a esta prática. A oportunidade de chegar ao cocho e a distância individual, descrita como a distância em que um animal pode permanecer do outro, é dependente das relações sociais e da dominância entre os animais. O trabalho demonstrou que a prática de re-agrupamentos repetitivos pode ser prejudicial, aumentando a agressividade dos animais e, portanto a freqüência de interações antagônicas. Entretanto, animais sem nenhuma experiência estão sujeitos a assumirem posições mais baixas na hierarquia do lote ou posição de submissão em relação a animais que já foram re-agrupados. Assim, deve-se efetuar esta prática de manejo com cautela, de forma a estabelecer experiência em rearranjo social de animais em crescimento, sem que isso aumente a agressividade e atividade dos animais, sempre pensando na formação de lotes os mais homogêneos possíveis em termos de peso e altura, reduzindo ainda mais problemas com dominância.


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1 Depto. de Zootecnia, ESALQ/USP.

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