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Inclusão de Co-produtos no concentrado inicial de bezerros leiteiros

VÁRIOS AUTORES

CARLA BITTAR

EM 27/09/2013

9 MIN DE LEITURA

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Embora tenhamos muita pesquisa com a utilização de co-produtos na alimentação de bovinos, não existe muita literatura disponível sobre seu uso para bezerros jovens. A formulação de alimentos concentrados ou concentrados iniciais para bezerros leiteiros é extremamente importante para o desempenho destes animais, que passam pelo processo de transição de pré-ruminantes para ruminantes funcionais. Além disso, estes alimentos são sempre baseados em milho como fonte energética e percebe-se em campo e em outras pesquisas uma grande variação diária no consumo de concentrado, provavelmente devido a problemas de acidose ruminal. A substituição de milho por co-produtos poderia resolver parte deste problema, além de reduzir custo.



O fornecimento de concentrado inicial é de extrema importância para bezerros leiteiros do ponto de vista de desempenho e também de desenvolvimento anatômico-fisiológico. Normalmente estes concentrados são formulados a base de milho e farelo de soja, pois assim como animais monogástricos, os bezerros precisam de alimentos de baixa fibra e alto valor energético e proteico. Além disso, o alimento precisa ser de alta palatabilidade, de forma que o consumo seja estimulado.

O rúmen se desenvolve em resposta da presença de alimentos sólidos de alta digestibilidade e consequente produção de ácidos graxos de cadeia curta por bactérias ruminais através de fermentação. Um fato depende do outro: bactérias precisam de substrato para que colonizem o rúmen; o substrato só pode ser utilizado se as bactérias estiverem presentes para realizarem fermentação; os produtos de fermentação precisam ser absorvidos e metabolizados pelo epitélio ruminal; o epitélio se desenvolve em resposta da presença destes produtos finai de fermentação.

Podemos alimentar estes animais durante um tempo somente com leite ou substituto do leite (dieta líquida), mas isso onera o custo de produção de bezerras. Um aspecto importante é que quanto maior o volume de dieta líquida fornecida, menor é o consumo de concentrado, o que pode atrasar o desenvolvimento ruminal e consequentemente o desaleitamento deste animal.

O alto custo do milho frente a alternativas mais baratas é um dos pontos que justificam sua substituição. Mas outras justificativas também podem ser utilizadas de acordo com o co-produto avaliado. A redução da inclusão de amido via milho no concentrado inicial pode auxiliar na redução de grandes variações no pH ruminal deste animal, o qual ainda está com o trato digestório em desenvolvimento. É provável que a alta variação no consumo diário de concentrado inicial se deva a estas flutuações no pH ruminal e o tempo que este sistema demora para se restabelecer depois de um pico de consumo de concentrado. Nos experimentos conduzidos no Depto. de Zootecnia tem sido observado picos de consumo a cada 2-3 dias aproximadamente e acredita-se que isso seja resultado de variações no pH. Assim, a substituição do milho como fonte de energia (rica em amido), por fontes alternativas e que possam de alguma forma auxiliar tanto na redução de custo quanto na regularização do consumo pode beneficiar o desempenho dos animais.

Alguns co-produtos, embora não auxiliem no controle do pH ruminal, podem estimular o consumo de concentrado, a exemplo do melaço e do xarope de milho. O maior consumo também traz benefícios do ponto de vista fisiológico já que alguns trabalhos mostram que quanto maior o consumo por ocasião do desaleitamento, maior o potencial de produção de leite futura da bezerra. Além disso, alguns co-produtos podem fornecer energia mais prontamente disponível para animais que ainda não tem a fermentação ruminal plenamente estabelecida, como é o caso da glicerina bruta e também do xarope de milho.
          Figura 1: Milho, polpa cítrica, melaço de cana e xarope de milho

A polpa cítrica, ingrediente rico em pectina, é um dos co-produtos mais disponíveis na região sudeste e por apresentar uma composição em nutrientes interessante para resolver problemas com acidose ruminal. Trabalhos anteriores realizados no Depto. de Zootecnia da ESALQ/USP mostraram que a polpa cítrica apresenta o mesmo valor energético que o milho e traz a vantagem de alterar o perfil de fermentação ruminal, auxiliando na manutenção da saúde ruminal. Outro aspecto interessante é que uma vez que os bezerros nascem com o rúmen não funcional, a pectina da polpa cítrica não seria, num primeiro momento, utilizada pelos animais, uma vez que sua utilização depende de fermentação por microrganismos ruminais. No entanto, a pectina poderia alcançar o intestino e auxiliar no controle das diarreias, uma fez que seria uma fonte de fibra para estes animais, como ocorre para os animais monogástricos.

O melaço também foi escolhido por ser um ingrediente de alto valor energético e de alta disponibilidade na região, sendo normalmente utilizado como palatabilizante em concentrados. O melaço é rico em sacarose, podendo conter também concentrações variadas de glicose e frutose. Assim, é um ingrediente de pronta utilização por microrganismos ruminais e a glicose presente pode de alguma forma ser utilizada pelo bezerro caso alcance o intestino. O melaço é também um ingrediente que resulta em aumento de produção de ácido butírico como produto final de fermentação ruminal, o qual é o principal estimulador do desenvolvimento do rúmen. Assim, o melaço associa algumas características que podem ser interessantes na criação de bezerros: é palatabilizante; tem energia prontamente disponível; e aumenta a produção de ácido butírico. Apesar de ser um co-produto mais utilizado e mais estudado, não existem estudos sobre a substituição do milho e a comparação com o xarope de milho. Já o xarope de milho foi escolhido por ser um co-produto de alto valor energético e que pode ser utilizado pelos bezerros mais jovens de forma mais eficiente que o melaço uma vez que não contêm sacarose e frutose, açúcares de mais difícil digestão para os mesmos.

No caso da glicerina bruta, muitos trabalhos com animais adultos têm mostrado benefícios da substituição, principalmente em resposta a maior disponibilidade de ácido propiônico. O ácido propriônico também tem papel importante no estímulo ao desenvolvimento ruminal, além de ser um precursor de glicose no fígado dos animais.
Para avaliação dos co-produtos em substituição ao milho, foram conduzidos três experimentos com delineamento e procedimentos semelhantes. Os animais foram obtidos de propriedades particulares parceiras, e transportados para o Bezerreiro Experimental “Evilásio de Camargo”, do Depto. de Zootecnia da ESALQ, com aproximadamente 5 dias de vida, e alojados em abrigos individuais. O sistema de alimentação foi baseado no desaleitamento precoce e os animais receberam 4 L de sucedâneo lácteo, divididos em duas refeições, água e concentrado inicial a vontade. Os concentrados tiveram sua composição alterada conforme o tratamento em questão, havendo sempre um tratamento controle, onde a principal fonte de energia era o milho; e os tratamentos onde as substituições foram realizadas. Em todos os experimentos foram avaliados 8 animais por tratamento.

No experimento para avaliação da substituição de milho por polpa cítrica foram testadas duas taxas de substituição: 50 ou 100%. No experimento com glicerina bruta a substituição foi de 5 ou 10% da matéria seca. Já no terceiro experimento a substituição foi de 5 e 10% de melaço de cana e 5% de xarope de milho. É importante frisar que os concentrados continham outros co-produtos (casquinha de soja e/ou farelo de trigo) em sua formulação, em quantidades pequenas, de forma a ajustar o teor de fibra dos mesmos.

O consumo de alimento foi monitorado diariamente e os animais foram pesados e tiveram suas medidas corporais anotadas semanalmente. A partir da segunda semana de vida, amostras de sangue foram colhidas para determinação de uma série de metabólitos que são indicativos do desenvolvimento ruminal e conseqüente alteração no metabolismo. Também para avaliar o desenvolvimento do rúmen, amostras de fluído ruminal foram obtidas através de sonda oro-esofágica nas semanas 4, 6 e 8 de idade, para determinação de pH e da concentração de ácidos graxos de cadeia curta e de N-amoniacal. Ao final da 8ª semana de vida, os animais foram pesados e em seguida abatidos para avaliação de peso e volume dos compartimentos do trato digestório superior, assim como a contagem e medidas de altura e largura de papilas ruminais.

Os trabalhos demonstraram que a substituição do milho por co-produtos pode ser realizada sem prejuízos ao desempenho dos animais, demonstrando que mesmo animais jovens podem utilizar de forma eficiente estes ingredientes, os quais são corriqueiramente utilizados na alimentação de animais adultos. Os dados não mostram grandes alterações no metabolismo dos animais, nem no desenvolvimento ruminal, mas sugerem que o desempenho não é reduzido com a substituição. No entanto, as variações no consumo de concentrado não foram reduzidas e o pH ruminal também não foi afetado.

No experimento de substituição de milho por glicerina bruta, o desempenho e o metabolismo energético dos bezerros não foram afetados de forma negativa pela substituição do milho por glicerina bruta no concentrado inicial de bezerros até a taxa de 10%. Estes resultados sugerem que a glicerina pode ser utilizada como ingrediente energético alternativo no concentrado inicial de bezerros leiteiros no período de aleitamento sem afetar o crescimento, o desenvolvimento ou o metabolismo do animal.

A substituição de 50 ou 100% do milho por polpa cítrica no concentrado não alterou o consumo de concentrado, desempenho, escore fecal e parâmetros sanguíneos de bezerros em aleitamento. Porém, observou-se que a inclusão de polpa cítrica aumentou a concentração de butirato ruminal e o desenvolvimento do trato digestório superior, podendo refletir em melhor desempenho na vida futura do animal.

A substituição do milho por 5 ou 10% de melaço de cana ou 5% de xarope de glicose no concentrado inicial não alterou o consumo, desempenho, escore fecal e desenvolvimento do trato digestório superior de bezerros da raça Holandês, sendo, portanto, duas fontes energéticas passíveis de utilização em dietas sólidas de bovinos em aleitamento. O tratamento com 5% de melaço resultou em maior concentração total de ácidos graxos de cadeia curta e também de ácido propiônico, quando comparado ao controle, não sendo diferente dos outros tratamentos. Estes resultados indicam um maior aporte de energia para os animais, uma vez que o ácido propiônico é precursor de glicose no fígado dos ruminantes. A avaliação dos dados mostra uma tendência de maior consumo e maior ganho de peso para animais recebendo concentrado contendo 10% de melaço, mas as diferenças não foram significativas.

Os resultados mostram que a substituição de milho por estes co-produtos é viável, uma vez que não ocorrem reduções no desempenho dos animais. No entanto, os benefícios esperados, como maior consumo de concentrado, além de controle de pH ruminal (substituição de milho por polpa), e conseqüente maior desempenho, não foram observados. Existem algumas vantagens em termos de fermentação ruminal, o que sugere que possa haver benefícios na vida futura. O objetivo do trabalho foi avaliar os animais até a 8ª semana, mas é provável que os benefícios fossem maiores após o desaleitamento, quando o consumo de concentrado é maior.

Do ponto de vista econômico, é importante ter alternativas para a formulação de concentrados para animais mais jovens sabendo-se taxas seguras de substituição. Alguns co-produtos podem aumentar casos de diarréias e reduzir desempenho dos animais, além de aumentar os custos com tratamento veterinários, por isso a necessidade de estabelecimento de taxas de inclusão seguras.


 

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CARLA MARIS MACHADO BITTAR

Prof. Do Depto. de Zootecnia, ESALQ/USP

CARLOS EDUARDO OLTRAMARI

GUSTAVO GUILHERME OLIVEIRA NÁPOLES

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MARIANA POMPEO DE CAMARGO GALLO

PIRACICABA - SÃO PAULO

EM 14/04/2014

Gostaria de convida-los a participar do Curso Online  "Aleitamento de bezerras com sucedâneos lácteos".



O curso terá início em 29/04 e a instrutora Carla M. M. Bittar, irá esclarecer os principais aspectos relacionados ao uso de sucedâneo para aleitamento de bezerras, além de tirar dúvidas através do fórum de perguntas e conferência online.



Para mais informações ou realizar sua inscrição acesse nossa página de cursos: https://www.agripoint.com.br/curso/aleitamento-bezerras/



Ou mande um e-mail para: cursos@agripoint.com.br
GUSTAVO SALVATI

PIRACICABA - SÃO PAULO - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 23/10/2013

Parabéns pelo artigo. Gostaria de saber apenas uma informação, a glicerina usada no experimento foi a bruta (com resíduos de metanol) ou a purificada? Houve análise econômica neste experimento? Se sim, no contexto econômico de preços de co-produtos em que ocorreu o experiemnto, qual foi o concentrato que foi mais viável nesta situação específica?





Att,
ALUÍZIO LINDENBERG THOMÉ

CARANGOLA - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 06/10/2013

O estudo apresentado vem ao encontro das dúvidas da maioria dos produtores, nesses tempos de preços cada vez mais altos dos chamados grãos nobres.  Fiquei surpreso ao ler sobre os resultados com a polpa cítrica, pois todas as vezes em que tentei incluí-la empiricamente no concentrado dos bezerros jovens, até quatro meses de idade, tive problemas com diarreia. Mesmo em níveis baixos de substituição. Aguardo estudos mais detalhados.



ALThomé
MARISA DE ALENCAR IZAEL FROTA

FORTALEZA - CEARÁ - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 03/10/2013

Parabéns pelo artigo Dra. Carla.

Aqui no Ceará estamos utilizando a substituição do milho pelo milheto. Gostaria de saber se posso substituir integral o milheto para bezerros?
TEODORO TELES MARTINS

VARGINHA - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 02/10/2013

Carla, Carlos e Gustavo, excelente artigo! Parabéns!

Gostaria de saber sobre a inclusao de alimentos volumosos para bezerros. Quando deveriamos fazer a inclusao? Quais tipos de alimentos seriam interessantes de trabalharmos? Silagem para bezerros é adequado? Faço uso de silagem para meus animais a partir dos 25-30 dias e aparentemente não tenho tido problemas com esse manejo!

Abraços,

CARLOS AUGUSTO MARTINS RODRIGUES

UBERLÂNDIA - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 01/10/2013

Excelente artigo , Carla , sou veterinário e responsável pelo desenvolvimento do sistema ruter de  desmama superprecoce na região de Triângulo mineiro e trabalhamos com a ração inicial peletizada e extrusada que promove o desenvolvimento do rúmen (Ruter ) produzida pela ACA , na Argentina , sistema existente a mais de dez anos no mundo com resultados comprovados de eficiência ruminal aos 35 dias de vida da bezerra , onde o consumo gira em torno de 800 g/dia neste período , mostrando uma bezerra saudável, sem acidose e não dependendo mais de leite . As produções de leite destas vacas confirmam seus dados , elas desenvolvem um número de papilas ruminais superiores e tem uma melhor conversão alimentar .
CLOVIS MAURICIO LOPES

CARANGOLA - MINAS GERAIS - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 30/09/2013

Também penso na inclusão do açúcar invertido, ainda mais concentrado que o

melaço.

Parabéns pelo trabalho.

Clovis
DELMIRO DANTAS NETO

JABOATÃO DOS GUARARAPES - PERNAMBUCO - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 30/09/2013

Excelente artigo.

Haveria algum trabalho semelhante com xarope de sorgo sacarino ?

Faço a pergunta pelo fato de que esse ingrediente, (xarope de sorgo) poderia ser produzido em várias regiões do país, em nível de propriedade.

Parabéns pelo trabalho!



Delmiro
MARCIO HENRIQUE

UBERLÂNDIA - MINAS GERAIS - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 29/09/2013

O que me diz de probiotico, bacterias ruminais, bacterias intestinais, levedura viva no suplemento mineral?
HARRY KINER FRADE

RESENDE COSTA - MINAS GERAIS

EM 27/09/2013

Parabéns pela pesquisa!!!

Gostaria de ver esses resultados lidos à cima em números, para melhor entendelos?

Gráficos, tabelas e etc.
LUIS MAURICIO ZENTENO BURELO

PRODUÇÃO DE LEITE

EM 27/09/2013

Excelente Carla, la inclusión de proteína de origen animal en esos suplementos líquidos, ofrecidos en tomas directas son algo de que dará espectaculares resultados.... Saludos desde Mexico...
CLÁUDIO HENRIQUE OLIVEIRA DE CARVALHO

CÁSSIA - MINAS GERAIS

EM 27/09/2013

Parabéns pelo belo artigo, professora Carla.



A polpa, nesse trabalho, era fornecida na forma peletizada integral mesmo, ou era moída? Se moída, qual a granulometria?

Na composição do concentrado havia farelo de trigo?



Obrigado.



Cláudio H. O. de Carvalho
JULIANO BERGAMO RONDA

UBERABA - MINAS GERAIS - PESQUISA/ENSINO

EM 27/09/2013

Excelente artigo e ótima visão!  Penso que muitos trabalhos ainda deverão ser realizados para fortalecer os resultados, mas já é um grande passo. Precisamos agora de resultados expressivos que estejam relacionados com o acompanhamento das fêmeas após o desaleitamento. Conseguindo assim resultados fortalecedores em relação as futuras taxas reprodutivas e produtivas. Penso também que como técnicos iremos nos esbarrar no grande pilar cultural. Abs
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