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Fornecimento da mesma quantidade de leite em diferentes sistemas e o desempenho das bezerras

POR CARLA MARIS MACHADO BITTAR

E GERCINO FERREIRA VIRGINIO JÚNIOR

CARLA BITTAR

EM 30/01/2019

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O desempenho de bezerras em aleitamento é fortemente influenciado pela quantidade e pelo método de fornecimento de dieta líquida. Vários programas alimentares foram desenvolvidos para promover maior ganho de peso e estimular o desenvolvimento funcional do rúmen. Um dos programas alimentares mais populares e simples é o aleitamento convencional (restrito) no qual se fornece volume restrito de dieta líquida (leite ou sucedâneo), equivalente a 10% do peso ao nascer (PN) dos animais até o desaleitamento. No entanto, este programa resulta em menores taxas de crescimento. Assim, o fornecimento de maiores volumes de dieta líquida, mas sem prejuízos no consumo de dieta sólida e possíveis benefícios no aumento do potencial de produção futura de leite se torna interessante. Ajustar o volume de fornecimento, de forma a respeitar a menor capacidade inicial de consumo de dieta líquida e ao mesmo tempo estimular o consumo de concentrado na fase inicial aparece como uma boa alternativa.

No programa alimentar step-down (STD), o volume de leite é ajustado de acordo com a idade do bezerro, sendo maior (20% do PN do bezerro) durante as primeiras 3 semanas e, em seguida, gradualmente limitada a 10% do PV até o seu desaleitamento. Do mesmo modo, no programa step-up/step-down (SUSD), o fornecimento de leite é aumentado até atingir seu pico (8 a 10 L/dia) no meio do período de aleitamento, em seguida, é gradualmente reduzido para o nível mais baixo (2 L/dia) perto do desaleitamento.

Em estudos comparativos, o sistema SUSD melhorou o desempenho da bezerra em comparação com o STD ou convencional. Entretanto, existe uma grande diferença no volume total de leite oferecido entre os programas alimentares. Por exemplo, o programa STD forneceu 120 L a mais de leite do que o programa convencional. Da mesma forma, o protocolo SUSD forneceu 162 e 220 litros de leite a mais durante o período de aleitamento (56 dias) em comparação com o STD e o convencional, respectivamente. Há grande diferença no volume total de leite fornecido entre os protocolos, mas não parece que o próprio protocolo de aleitamento teria contribuído para o melhor desempenho da bezerra.

Se o consumo total de leite for mantido constante ao longo do período de aleitamento, o programa de alimentação tem efeitos menores no desempenho da bezerra? Essa pergunta pode ser de suma importância, pois um protocolo de aleitamento baseado na variação do volume fornecimento do leite exige uma força de trabalho considerável e está sujeito a erros, o que torna problemática a viabilidade de sua implantação na criação de bezerros.

Pensando nisso, pesquisadores (Khani et al., 2017) investigaram como o desempenho de bezerros pode ser influenciado pelo programa de alimentação quando a ingestão total de leite é a mesma. Os pesquisadores compararam volumes totais semelhantes, mas com variações no volume diário, com volumes constantes (CONS) comparados com volumes que aumentam e depois diminuem (SUSD) ou volumes maiores que são reduzidos no final do período (STD). Os animais foram avaliados durante o período de aleitamento e 15 dias após o desaleitamento, ou seja, até os 80 dias de vida no experimento 1 e até os 60 dias no experimento 2.

No primeiro experimento, 44 bezerras holandesas de 3 dias de idade foram distribuídas aleatoriamente para um dos dois protocolos de aleitamento (Figura 1a):

(1) CONS = 6 L/d de leite dos dias 3 a 60 e 3 L/d dos 61 aos 65 de idade. Total = 363 litros.

(2) SUSD = 5 L/d de leite dos dias 3 a 15, 8 L/d dos 16 aos 40, 6 L/d dos dias 41 a 50, 3 L/ d dos 51 aos 60, 2 L/d dos dias 61 a 65 de idade. Total = 365 litros.

No experimento 02, 26 bezerros holandeses machos foram distribuídos aleatoriamente aos 3 dias de idade para um dos dois protocolos de aleitamento (Figura 1b).

(1) CONS = 7 L/d de leite dos dias 3 a 40 e 2 L/d dos dias 41 a 45 da idade. Total = 276 litros.

(2) STD = 8 L/d de leite dos dias 3 a 30, 4 L/d dos dias 31 a 40 e depois 2 L/d dos dias 41 a 45 de idade. Total = 274 litros.

Figura 1- Esquemas representam as quantidades fornecidas de leite aos bezerros durante o período de pré-desmame por diferentes procedimentos. (a) Experimento 1; (b) Experimento 2.

Fornecer grandes volumes de leite durante a fase de aleitamento pode contribuir para o subdesenvolvimento do rúmen e o insuficiente estabelecimento do ecossistema microbiano neste compartimento. Isto gera desafios para bezerras durante a transição para alimentação sólida, como diminuição da ingestão de alimentos sólidos e digestibilidade de nutrientes e, assim, menores taxas de crescimento. As consequências podem até ser mais graves, com perda de peso, se o aleitamento terminar de forma abrupta, razão pela qual a redução gradual do leite antes do desaleitamento foi proposta.

A taxa de crescimento e ingestão de matéria seca inicial, durante e após o desaleitamento, não apresentaram diferença entre os diferentes programas de aleitamento (Tabela 1 e 2). Quando se comparou o programa de fornecimento de volume constante (CONS) com o programa stepup/step-down (SUSD) houve uma tendência para maior ganho de peso diário durante o aleitamento (3-65d) e no período dotal (3-80d). 

O programa alimentar constante (CONS) resultou em redução mais brusca no fornecimento de leite que os programas SUSD ou STD à medida que os bezerros se aproximavam da idade de desaleitamento. No entanto, esse fato não foi suficiente para afetar o desempenho após o desaleitamento.

Tabela 1 - Ingestão de matéria seca (IMS), ganho diário médio (GMD) e eficiência alimentar em bezerros alimentados com leite através de diferentes métodos (Experimento 1).

O menor consumo de leite estimula a ingestão de alimentos sólidos e, assim, promove o desenvolvimento metabólico do rúmen. Isto pode explicar o maior consumo de matéria seca dos dias 30 a 45 nos bezerros no sistema STD comparado ao CONS. Neste período os bezerros no STD receberam 29 litros de leite menos do que os bezerros CONS, resultando em consumo de 1,03 ±0,12 e 0,67 ± 0,10 kg/d, respectivamente. No entanto, estas diferenças não foram significativas.

Tabela 2 - Ingestão de matéria seca (IMS), ganho diário médio (GMD) e eficiência alimentar em bezerros alimentados com leite através de diferentes métodos (Experimento 2).

Estudos anteriores relataram uma maior taxa de crescimento em bezerros que recebem maiores volumes de leite, o que é função da maior ingestão de nutrientes. Durante as primeiras semanas de vida (5 semanas de idade), o rúmen-retículo do bezerro é subdesenvolvido e fisiologicamente não funcional, o que não permite que os bezerros, recebendo baixas quantidade de leite, aumentem a ingestão de matéria de seca do concentrado a um nível que podem compensar totalmente a menor oferta de nutrientes do leite.

Estudo anterior sugeriu que se o potencial do bezerro para o crescimento rápido durante as primeiras semanas de vida não for suficientemente atingido pelo sistema de alimentação, altos níveis de ingestão tardia na vida podem não permitir o crescimento compensatório. No entanto, o presente estudo descobriu que os bezerros da STD não mantiveram essa vantagem de ganho de peso, mesmo com consumo diferente entre 31-45d (Figura 2).

Já a comparação entre o programa de volume constante e SUSD não resultou em diferença alguma no consumo de concentrado nos diferentes períodos de avaliação (Figura 2). 

Figura 2. Consumo de concentrado de acordo com a idade dos animais.

Com o fornecimento de quantidades iguais de leite durante o período de aleitamento, o programa de alimentação afetou de forma pouco significante o consumo do concentrado e a taxa de crescimento antes da fase de desaleitamento, diferença que que desapareceu quando a idade do bezerro avançou após o desaleitamento.

Assim, o aleitamento a uma taxa consistente pode ser recomendado como um protocolo de fornecimento menos trabalhoso (menor mão de obra) e portanto mais econômico para sistemas de aleitamento intensivo, onde o aleitamento em quantidades variáveis pode resultar erros no fornecimento de leite e dificuldades operacionais.

Referências bibliográficas

Khani, M.; F. Ahmadi; M. Ariana; S. Omidian; S. Sharifi; M. H. Ghaffari; and H. Beiranvand. Performance of Holstein calves receiving equal quantities of milk at fixed or variable  amounts per day during milk-feeding period. Animal (2017), 11:10, pp 1737–1744.

Comentários

Já faz alguns anos que o aleitamento intensivo ganhou espaço nos sistemas de criação de bezerros no Brasil. No último levantamento disponível com produtores (Alta Cria 2018), apenas 12% dos produtores ainda fornecem volumes restritos de dieta líquida aos bezerros. Enquanto 59% fornece em torno de 6L/d, 29% já se arrisca a fazer investimentos maiores e fornecer de 7 a 8L/d. Esta tendência para o fornecimento de maiores volumes de dieta líquida se deu em função dos dados de literatura que mostram aumentos no potencial de produção futura, assim como pela melhor saúde destes animais, o que tem revertido em menores custos com medicamentos. O problema é que programas alimentares muito complicados, com aumentos e reduções no volume de fornecimento em diferentes idades, podem trazer confundimento aos tratadores e exigir métodos de identificação dos volumes e monitoramento muito frequentes. Assim, entender se o programa de alimentação, quando comparamos o mesmo volume total de leite fornecido no aleitamento, altera o desempenho dos animais, se torna importante do ponto de vista operacional. Embora fornecer volumes constantes não tenha resultado em diferenças com relação aos programas mais sofisticados como step-down ou step-up/step-down, é importante que a redução do volume seja feita em um período que antecede o desaleitamento para que o animal aumente o consumo de concentrado. O aspecto chave de todo o processo é desaleitar o animal quando este estiver com o rúmen desenvolvido o suficiente para que o animal mantenha sua taxa de crescimento após a interrupção no fornecimento do leite. Como o consumo de dieta sólida está negativamente relacionado com o consumo de dieta líquida, os bezerros só vão consumir concentrado quando os volumes de leite fornecidos forem reduzidos. Então, vamos fornecer bastante dieta líquida, mas sempre de olho no consumo de concentrado!

 

 

 

 

 

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CARLA MARIS MACHADO BITTAR

Prof. Do Depto. de Zootecnia, ESALQ/USP

GERCINO FERREIRA VIRGINIO JÚNIOR

Doutorando na Esalq

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JULIANO CÉSAR

BOTUCATU - SÃO PAULO - ESTUDANTE

HÁ 2 DIAS

Oii boa noite tenho interesse de fazer um TCC sobre o desenvolvimento de bezerras em diferentes tipos de bezerreiro, queria uma opinião sicera sobre esse tema
Obrigado!!!
FERNANDA SECCHIN DE MELO

VITÓRIA - ESPÍRITO SANTO - PESQUISA/ENSINO

EM 05/02/2019

Boa tarde, o artigo original está disponível? Tenho interesse em ler na integra. Obrigada!
FABIO RIBEIRO LEMBI

SÃO PAULO - SÃO PAULO - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 30/01/2019

Muito interessante. Excelente artigo! A melhor coisa do mundo é quando se consegue provar cientificamente que o mais simples é tão ou mais eficiente do que o mais complexo. Principalmente na atividade leiteira que envolve inúmeros procedimentos e controles complexos. Muitas vezes o resultado prático é ainda melhor do que o científico pois, no dia a dia, a dificuldade de se executar uma rotina muito elaborada, acaba levando a erros que impactam negativamente o resultado esperado.