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Exigências e eficiência energética de bezerras leiteiras

POR CARLA MARIS MACHADO BITTAR

E LUCAS SILVEIRA FERREIRA

CARLA BITTAR

EM 19/02/2009

10 MIN DE LEITURA

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Do nascimento ao desaleitamento, as bezerras sofrem grandes mudanças fisiológicas e metabólicas. Durante a fase pré-ruminante, a digestão e metabolismo são semelhantes aos de animais monogástricos em muitos aspectos, sendo, dessa forma, as necessidades dietéticas melhor satisfeitas com dietas líquidas de alta qualidade. O período mais crítico nesta fase são as primeiras 2-3 semanas de vida, período no qual o sistema digestivo do bezerro é imaturo, porém em rápido desenvolvimento. Assim, as bezerras devem ser encorajadas a consumir alimentos secos desde uma idade mais precoce, para estimular o desenvolvimento funcional do rúmen.

As exigências energéticas de bezerras, assim como as de outras categorias podem ser expressas em diversas formas. Independentemente do sistema adotado, isto é imprescindível para compreender como ocorrem as grandes perdas de energia de energia durante o processo de digestão e metabolismo. Se a eficiência da conversão da energia bruta (EB) em energia digestível (ED) ou energia metabolizável (EM) e de conversão de energia metabolizável (EM) em energia líquida (EL) são conhecidos, é possível escolher o sistema que melhor se adapta às suas necessidades.

Na edição de 2001 do NRC Gado Leiteiro, as exigências energéticas dos bezerros foram derivadas com base na energia metabolizável (EM), entretanto, exigências e composição dos alimentos também são dadas em unidades de energia líquida (EL) e de energia digestível (ED) para aqueles que preferem utilizar estes sistemas.

No que diz respeito às exigências nutricionais do bezerro, três fases de desenvolvimento relacionadas com a função digestiva são reconhecidas:

1)Fase da alimentação líquida: toda ou praticamente toda a exigência nutricional é satisfeita pelo leite ou por substitutos de leite;

2)Fase de transição: tanto a dieta líquida, quanto o concentrado contribuem para a satisfação das necessidades nutricionais das bezerras;

3)Fase ruminante: a bezerra obtém seus nutrientes a partir de alimentos sólidos, principalmente através da fermentação microbiana no retículo-rúmen.

Dessa forma, este texto tem como objetivo discutir, de maneira breve, um pouco em relação às exigências e eficiência energética de bezerras em cada uma dessas fases, de acordo com os conceitos sugeridos pelo NRC Gado Leiteiro (2001).

Bezerras alimentadas apenas com leite ou substituto de leite (fase da alimentação líquida)

As necessidades energéticas de bezerras alimentadas apenas com leite ou substitutos de leite e pesando entre 25-50 kg são apresentadas na Tabela 1. De acordo com o NRC (2001), com base nos dados disponíveis, o valor de EM é fixado em 0,086 Mcal/kg0.75 de peso vivo (PV) por dia. A eficiência de utilização de energia metabolizável (EM) a partir de leite ou substitutos de leite para satisfazer as exigências de manutenção é fixado em 86%. Por conseguinte, a energia de mantença é definida como 0,100 Mcal/kg0.75 por dia. Para o grupo de pesquisadores do Agricultural Research Council (ARC), a exigência em EM é de 0,102 Mcal/kg0.75 por dia, com uma eficiência de utilização para manutenção fixada em 85% (Agricultural Research Council, 1980).

Tabela 1. Exigência energética diária de bezerras alimentadas apenas com leite ou substituto de leite.

Clique na imagem para ampliá-la.

As exigências em EM para bezerras foram calculadas de acordo com a equação derivada de Toullec (1989):

Exigência EM (Mcal/d) = 0,1 PV0.75 + (0,84 PV0.355) (GPD1.2),

Onde PV e ganho de peso diário (GPD) são expressos em quilogramas (kg).

A primeira parte da equação define a EM necessária para a manutenção de 100 kcal/kg0.75 por dia. A segunda parcela da equação é utilizada para extrair a EM exigida para o GPD, que é uma função do tamanho corporal (PV) e da taxa de ganho (GPD). Esta equação foi derivada com base em uma eficiência de conversão de EM para ELG de 69% para bezerras alimentadas apenas com leite ou substitutos de leite, o que é consistente com a maioria dos valores publicados. O conteúdo energético do GPD predito pela equação é 1556 kcal/kg de GPD para bezerras de 40 kg ganhando 200 g/dia, e 2567 kcal/kg de GPD para bezerras de 75 kg ganhando 800 g/d.

As exigências em EM indicadas na Tabela 1 para bezerras pesando entre 30-60 kg, e com diferentes taxas de ganho estão de acordo com a maioria dos dados publicados na literatura. Os valores de energia digestível (ED) na Tabela 1 são calculados a partir da EM, assumindo uma eficiência de 96% para a conversão da ED em EM.

Os usuários devem estar cientes de que a exigência de EM para a manutenção pode ser subestimada para bezerras durante as primeiras semanas de vida, devido à elevada taxa metabólica basal e variáveis observadas durante este período. Além disso, como o aparelho digestivo é imaturo e tem desenvolvimento rápido, o metabolismo da dieta pode ser menor durante este período, assim superestimando o valor energético da dieta. O saldo líquido resultante destes efeitos é que o GPD das bezerras durante as primeiras semanas de vida pode ser consideravelmente inferior ao predito e apresentado na Tabela 1.

Os valores de exigência energética para bezerras na edição do NRC Gado Leiteiro (2001) representam várias melhorias em relação a edição anterior (National Research Council -NRC, 1989). Primeiro, os valores tabulados nesta edição foram obtidos diretamente a partir das equações apresentadas, em contraste com os valores apresentados nos quadros da edição de 1989 que não pôde ser calculado a partir das informações fornecidas. Em segundo lugar, como explicado acima, os valores para o conteúdo energético do ganho apresentados nesta edição corroboram os dados disponíveis sobre bezerras derivados de abates experimentais, já que os valores da edição de 1989 foram muito baixos.

A Tabela 2 apresenta o potencial de ganho de peso em função da quantidade de leite consumida com base no teor energético do leite e nas exigências de bezerro. Como mostra a Tabela, considerando-se o teor de matéria seca do leite de 12,5%, o fornecimento de quatro litros de leite resulta no consumo de 500 g de MS ou 2,68 Mcal de EM, o que possibilita ganhos de apenas 354 g. Embora maiores quantidades de leite obviamente possibilitam maiores taxas de ganho de peso, ao mesmo tempo reduzem o consumo de concentrado. As avaliações econômicas normalmente mostram que o tradicional fornecimento de 4 L/d seria o mais vantajoso tanto do ponto de vista financeiro quanto de manejo uma vez que o fornecimento limitado de leite estimula o consumo de concentrado pelo bezerro, permitindo o desaleitamento precoce.

Tabela 2. Potencial de ganho em função da quantidade de leite fornecida.



Bezerras alimentadas com leite ou substituto de leite e concentrado (fase de transição)

Em um bom sistema de produção leiteira, as bezerras devem ser estimuladas a consumir alimentos sólidos desde a segunda semana de vida. Para incentivar o consumo precoce de concentrado inicial, os animais devem ter livre acesso à água e concentrado de alto valor nutritivo e altamente palatável desde a primeira semana de vida até o desaleitamento. O consumo de concentrado inicial é fundamental para o desenvolvimento do rúmen.

O conhecimento das necessidades energéticas de bezerras alimentadas com uma dieta combinada (alimento líquido + alimento seco) requer a aplicação de alguns conhecimentos básicos já que existem poucos dados sobre o assunto. Por exemplo, a eficiência de utilização de EM para a manutenção e ganho será menor para concentrado inicial que para o leite ou substitutos de leite. Conforme descrito na Tabela 1, as bezerras utilizam a EM proveniente do leite ou de substitutos de leite com eficiência de 86% e 69% para a manutenção e ganho, respectivamente. Assim, a eficiência da utilização do leite ou de substitutos de leite não é alterada quando há também o consumo de concentrado inicial.

A edição anterior do NRC (National Research Council, 1989) utilizarva as equações de Garrett (1980) para obter os ganhos de eficiência de utilização do concentrado para mantença (km) e ganho (kg):
km = 51,045 EM - 10,836 EM2 + 0,754 EM3 - 7,35
kg = 76,149 EM - 15,755 EM2 + 1,062 EM3 - 69,7
onde EM é expressa em Mcal/ kg de MS.

No entanto, estes dados foram obtidos de animais em crescimento confinados e mais velhos, alimentados com dietas não apropriadas para bezerros. De acordo com as equações, para um concentrado inicial contendo 3,1 Mcal EM/ kg MS, a eficiência de produção para a manutenção e ganho foi de 69,4 e 46,4%, respectivamente. Entretanto, estes rendimentos são inferiores aos calculados a partir de dados experimentais e utilizados em outros sistemas como o ARC (1980). Portanto, a equação de Garrett (1980) para bezerras não foi utilizada na edição do NRC de 2001, que adotou valores fixos de 75 e 57% para manutenção e ganho, respectivamente. A eficiência de utilização de EM da dieta total é então calculada como a média de cada uma das eficiências para o leite e concentrado, ponderada de acordo com a sua contribuição ao total de EM da dieta.

Tabela 3. Exigência energética diária de bezerras alimentadas com leite ou substituto de leite e concentrado.

Clique na imagem para ampliá-la.

No exemplo dado na Tabela 3, assumindo-se que um bezerro com cerca de 2 semanas de idade consome em média uma dieta na qual 60% da MS é derivada do substituto de leite (EM = 4,75 Mcal/kg de MS) e 40% de concentrado (EM = 3,28 Mcal/kg de MS), o substituto de leite, fornece 68% do total de EM, e o concentrado os 32% restantes. Assim, o balanço global das eficiências de utilização de energia metabolizável (EM) na dieta (substituto de leite + concentrado) é de 82,5 e 65,2% para a manutenção e ganho, respectivamente, calculado com base na ponderação média (ponderada pela contribuição ao total de EM da dieta).

A comparação entre a exigência em EM de uma bezerra de 50 kg ganhando 400 g/d quando alimentados apenas com leite ou substituto de leite (ver Tabela 1) com a mesma exigência quando alimentado com leite e concentrado ou substituto de leite e concentrado (Tabela 3) revela uma diferença relativamente pequena entre os valores encontrados (3,00 vs 3,15 Mcal/d).

Bezerras (Raças grandes e pequenas) do desaleitamento até 100 kg de peso corporal (fase ruminante)

Na edição anterior da NRC Gado Leiteiro (1989) nenhuma informação foi dada sobre as exigências nutricionais de bezerras do desaleitamento até os 100 kg de peso corporal, embora este seja um período crítico na vida dos animais. Da mesma forma que para bezerros consumindo leite e concentrado, poucas pesquisas sobre o assunto utilizando calorimetria ou abate comparativo foram realizadas para esta categoria. Métodos utilizados na edição de 2001 estabelecem exigências para o crescimento de novilhas de 100 a 500 kg de peso corporal, entretanto estes dados não poderiam ser extrapolados para bezerros com peso inferior a 100 kg. Dada a escassez de dados sobre o crescimento dos tecidos e utilização de nutrientes para esta classe de bezerras, as exigências estimadas foram derivadas utilizando a mesma metodologia descrita para os animais mais jovens. Os cálculos foram realizados por modelo estimado a partir de 25 tratamentos em 19 estudos publicados e as comparações foram expressas como preditas/observadas; a média foi de 1,04. Doze valores preditos foram maiores que os observados, doze foram menores que os observados e um foi igual.

No futuro, como mais pesquisas estão sendo realizadas, as futuras edições do NRC poderão ser melhor capazes de definir as exigências para este grupo. No entanto, as exigências e ganhos estabelecidos na edição de 2001, quando comparados com dados da literatura, mostram que a metodologia apresentada prevê adequadamente ganhos de animais de raças grandes até 100 kg e de raças pequenas até 80 kg.

A Tabela 4 mostra as exigências de bezerros desaleitados pesando entre 50-100 kg e com várias taxas de ganho. Para essas bezerras pesando entre 50-80 kg, foi assumido consumo de um concentrado contendo 3,1 Mcal de EM/kg de MS, e para as pesando entre 90-100 kg um concentrado com 3,0 Mcal de EM/kg de MS. Dada a escassez de dados, não é feita uma distinção entre raças pequenas e raças grandes. Do mesmo modo, não é feita qualquer distinção entre machos e fêmeas, pois as diferenças são insignificantes antes dos 100 kg de peso vivo (National Research Council, 1978).

Tabela 4. Exigência energética diária de bezerras desaleitadas até 100 kg.

Clique na imagem para ampliá-la.

Referências

National Research Council. Nutrient requirement in dairy cattle. 7th ed. Washington : National Academy of Science, 2001. 381p.

Comentários:

Muitos estudos ainda precisam ser realizados para aumentar o banco de dados para cálculos de exigências energéticas de bezerros em aleitamento, principalmente no que diz respeito a fase de transição entre pré-ruminante e ruminante funcional. O manejo alimentar tradicional de bezerros tem sido razoavelmente eficiente em manter adequadas taxas de ganhos de peso durante a fase de aleitamento. No entanto, tem-se observado a campo que os erros de manejo geral do bezerreiro tem sido os maiores responsáveis pelo baixo desempenho e altas taxas de mortalidade e morbidade. É importante entender quais são as exigências energéticas destes animais em suas diferentes fases do crescimento, de forma a adequar dietas e manejo alimentar. Entretanto, não menos importante é a escolha de alimentos adequados, de boa qualidade e palatabilidade, com ingredientes nobres e digestíveis por animais com o sistema digestório ainda em fase de desenvolvimento. Além disso, o manejo geral do bezerreiro deve ser o melhor possível de forma a não anular todo o trabalho realizado com a nutrição dos animais.

CARLA MARIS MACHADO BITTAR

Prof. Do Depto. de Zootecnia, ESALQ/USP

LUCAS SILVEIRA FERREIRA

Engenheiro agronômo formado pela UFSCar e Doutor em Ciência Animal e Pastagens pela ESALQ - USP na área de nutrição e avaliação de alimentos para bovinos. Atualmente exerce a função de Nutricionista de Ruminantes na Agroceres MMX Nutrição Animal

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