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Efeitos de doenças, manejo e nutrição no ganho de peso diário de novilhas do nascimento aos 4 meses de idade

POR CARLA MARIS MACHADO BITTAR

E LUCAS SILVEIRA FERREIRA

CARLA BITTAR

EM 19/03/2007

9 MIN DE LEITURA

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Introdução

Bons sistemas de criação de novilhas de reposição são aqueles que minimizam tempo e investimento financeiro para desenvolver novilhas produtivas para reposição no rebanho leiteiro. O custo de criação de novilhas de reposição representa de 15 a 20% do custo de produção de fazendas leiteiras. De acordo com Hoffman e Funk (1992), os fatores mais importantes para o crescimento de novilhas são aqueles que influenciam a reprodução e a lactação. Assim, o padrão ótimo de crescimento para novilhas leiteiras é aquele que permite que as novilhas desenvolvam seu potencial de produção na idade desejada com o mínimo de custo.

O conhecimento dos processos de crescimento é de suma importância uma vez que controla a idade à primeira inseminação assim como a idade e o peso à primeira parição. O manejo adequado de bezerras e novilhas permite que esses animais estejam sexualmente maduros por volta dos 13 meses de idade, que possam ser inseminados aos 15 meses e que estejam adequadamente desenvolvidos (570 kg) para a lactação aos 24 meses de idade ou até mesmo antes.

Dentro do sistema de criação de novilhas, o manejo de bezerros jovens é um ponto critico uma vez que podem ser considerados como monogástricos até aproximadamente o segundo mês de idade, quando então passam a ter metabolismo de um ruminante maduro. Quantidades adequadas de colostro de alta qualidade ao nascimento, quantidades de leite ou sucedâneo suficientes, adequado manejo de desaleitamento e adequado consumo de alimento sólido tem todos grande importância para o bem estar geral e crescimento de bezerros leiteiros.

Existem poucas pesquisas a respeito do crescimento de bezerros, mais especificamente sobre ganho de peso diário (GPD) e sua relação com aspectos de nutrição, manejo, doenças e outras variáveis durante o período entre nascimento e os 4 meses de idade. Assim, o estudo de Place et al. (1998) teve como objetivo medir o efeito de doenças, manejo e nutrição no crescimento de bezerros jovens do nascimento aos 4 meses de idade.

Material e métodos

Vinte e uma fazendas leiteiras do estado da Pensilvânia (EUA), todas com mais de 80 vacas em lactação, participaram de um estudo de manejo de bezerros com duração de 18 meses. A coleta de dados e as visitas nas fazendas foram realizadas por um técnico, sendo registradas as informações sobre problemas de saúde e seus tratamentos.

Durante as visitas quinzenais, a identificação dos bezerros, parições e problemas de saúde foram atualizados ou coletados em função das duas semanas anteriores. O perímetro torácico de cada bezerro foi medido a cada 2 semanas até os quatro meses de vida, assim como o consumo individual de alimento; quando os animais foram alimentados em grupo, a quantidade de alimento foi dividida igualmente entre os bezerros do grupo para determinar o consumo médio de cada animal.

Amostras de leite, sucedâneo e concentrado foram coletadas a cada visita para determinação de PB, MS, cálcio e fósforo. Amostras de feno e silagens foram colhidas para análises de MS, PB, FDN, FDA, cálcio e fósforo e estimação de NDT. A cada visita, foram tomadas medidas da concentração de amônia, % de umidade e temperaturas mínimas e máximas de cada instalação. Amostras de fezes foram colhidas nas visitas correspondentes às idades de 4 a 6, 8 a 10, 12 a 14 e 16 a 18 semanas de idade para contagem de oócitos de coccida e cryptosporidia.

Práticas de manejo de cada propriedade foram registradas utilizando-se questionários, os quais foram aplicados por entrevistas com o dono ou funcionário responsável. Outras informações também foram obtidas por fontes como o DHIA, ou através de registros de parição e inseminação e de serviços veterinários dos rebanhos (Tabela 1).

Os dados foram checados para possíveis erros durante sua tabulação. O consumo de MS máximo teórico foi baseado no peso vivo dos bezerros (<75, 75 a 125 e >125), o ganho de peso diário na fazenda e ganhos esperados de acordo com o NRC (1989). As quantidades de alimento oferecidas para bezerros foram ajustadas de acordo com o número de observações. A maioria dos ajustes foram necessários devido à falta de dados de concentrado e forragem. Consumos equivalentes foram assumidos para bezerros com peso e idade similares, quando estes foram alimentados em grupo. A diferença no GPD médio foi mínima quando esta variável foi avaliada estatisticamente.

Tabela 1. Características de 21 fazendas na Pensilvânia (EUA).


1Vacas em lactação e secas;
2Fêmeas e machos;
3Somente fêmeas.

As instalações dos bezerros variaram nas 21 fazendas, sendo identificados 8 tipos mutuamente exclusivos: gaiolas individuais, baias coletivas em áreas abertas, contenção individual dentro do estábulo de vacas, baias coletivas dentro do estábulo de vacas, contenção individual entre as vacas, contenção individual em bezerreiro separado, free-stall e baia coletiva em bezerreiro.

Bezerros que tiveram excessivo ganho ou perda de peso vivo (mudança maior que 1 kg/ dia) durante o período de duas semanas foram avaliados para correção de possíveis erros. Problemas com bezerros que tiveram crescimento deficiente foram limitados uma vez que isso ocorreu normalmente devido a doenças, mudanças na dieta ou alteração de instalações.

O peso vivo médio inicial na primeira visita (0 a 2 semanas de idade) utilizado para análise dos dados foi de 43,9 kg. Foram colhidas 68 variáveis as quais incluíam aquelas envolvidas com o ganho de peso diário dos bezerros. Das 68 variáveis, 66 são variáveis preditoras, e as outras duas foram o ganho de peso diário dos bezerros e o ganho de peso diário da fazenda. A variável estação do ano foi definida como primavera, verão, outono e inverno.

Outras variáveis incluídas no modelo foram: local de parição (free-stall, piquete maternidade, tie-stall, pastagens, etc); paridade da vaca; horas para separação do bezerro após o parto (0; 12; 12-24; mais que 24h); escore do parto (eutócico; moderadamente distócico; distócico); quantidade de colostro fornecida; instalação após a separação da mãe; cura do umbigo; problemas respiratórios.

Estas variáveis foram testadas em modelo multivariado para determinar o ganho de peso diário dos bezerros sendo mantidas no modelo somente variáveis com efeito significativo.

Resultados e discussão

O consumo de MS teve um efeito importante e altamente significativo no ganho de peso diário (Tabela 2). O aumento em ganho de peso de 0,26 kg para cada 1 kg de aumento no consumo de MS foi similar à relação encontrada por Murphy et al. (1991) para bezerros do nascimento às 16 semanas de idade que pesaram ≤ a 136 kg. Relações mais estreitas (aproximadamente 1:4) são esperadas para bezerros jovens, uma vez que a maior parte dos alimentos ofertados nesta idade (leite e concentrados) tem alto valor biológico.

O primeiro tipo de instalação para os bezerros após a separação da mãe também foi importante para o ganho de peso diário (Tabela 2). Considerando tanto os efeitos estimados quanto seus níveis de significância pode-se inferir que a alocação dos bezerros no estábulo de vacas ou em grupos foram prejudiciais ao GPD quando comparados a alocação dos bezerros em gaiolas individuais ou outras instalações fora do estábulo de vacas. Tantos as instalações quanto o consumo de MS devem ser manipulados por produtores que desejam aumentar o GPD de novilhas até os 4 meses de idade.

A manipulação da estação de nascimento é mais restrita para propriedades que desejam parições durante todo o ano. Na média, os bezerros passaram 2,5 meses dos 4 meses de avaliação na estação seguinte a de seu nascimento. A razão pela qual a estação verão apresentou efeito mais negativo não é clara, mas pode ter sido causada pela disponibilidade de tempo do tratador.

O efeito não pode ter sido influenciado grandemente pelo ambiente durante a estação uma vez que a umidade, as concentrações de amônia e a temperatura não foram variáveis significativas no modelo avaliado, ou seja, não tiveram efeito significativo na predição do ganho de peso de bezerros. Essas variáveis não foram altamente correlacionadas com a estação. Bezerros nascidos no verão ou outono deveriam ter acesso a melhor forragem; assim, os efeitos negativos associados ao verão não podem ser baseados na qualidade da forragem.

Poucos esforços foram empregados na interpretação entre fazendas. As propriedades diferiram em diversas áreas, incluindo manejo, tipo de instalação, nutrição, ambiente, doenças e genética. Diferenças no GPD eram esperadas e a variação deste fator entre fazendas esteve dentro de uma faixa observada em estudos anteriores.

O local de parição que foi mais prejudicial ao GPD foi a parição de bezerros em piquetes maternidade sem cobertura. Entretanto, uma vez que somente 3 bezerros (0,63%) nasceram neste tipo de instalação não existe explicação clara para esta diferença.

O banco de dados teve 4 variáveis relacionadas à saúde mantidas no modelo após a remoção de variáveis sem efeito significativo: quantidade de colostro fornecida, infestação de coccida, cura do umbigo, e porcentagem de dias com problemas respiratórios. Ao contrario das expectativas, nenhuma das variáveis relacionadas à saúde foram significantes na predição do GPD quando o consumo de MS, as instalações, a estação do ano e a fazenda foram incluídas no modelo.

Entretanto, esses procedimentos estatísticos não podem descartar efeitos indiretos. Variáveis relacionadas à saúde e as 4 variáveis finais não foram altamente colineares. Por exemplo, deve ter ocorrido um efeito depressivo de problemas respiratórios no GPD que foi mediado pelo consumo de MS de bezerros com problemas respiratórios que apresentaram apetite reduzido.

Tabela 2. Preditores de ganho de peso diário de 795 bezerros do nascimento aos quatro meses de idade, em 21 fazendas do Estado da Pennsylvania (EUA) (R2=0,64).


Conclusões

Variáveis relacionadas ao nascimento de bezerros e aos cuidados com o recém nascido têm efeitos significativos no GPD. O GPD foi principalmente associado com variáveis mais bem conhecidas como: instalação após a separação da mãe, consumo de MS, estação do ano, variação entre fazendas. Das 4 variáveis finais do modelo, o consumo de MS foi o de maior importância, uma vez que pode ser diretamente manipulado dentro de algumas circunstâncias. A manutenção do consumo deve incluir concentrações adequadas de proteína e energia de forma a alcançar as melhores relações de eficiência alimentar.

Pode-se concluir deste estudo que agrupar bezerros em piquetes ou realizar a contenção de bezerros juntamente com as vacas são prejudiciais ao GPD. De forma contraria, maiores GPD podem ser obtidos quando gaiolas individuais são utilizadas ou quando bezerros são contidos longe das vacas.

Comentários

O modelo matemático testado por Place et al. (1998) demonstrou o que costumamos observar na prática: bezerros com adequado consumo de matéria seca e manejados em instalações adequadas apresentam maiores ganhos de peso diário. A manutenção de adequadas taxas de ganho de peso durante os primeiros meses de vida de novilhas de reposição terão impacto em sua idade à puberdade e conseqüentemente em sua idade à primeira inseminação e ao primeiro parto.

Todos estes fatores têm grande impacto na planilha de custo de criação de novilhas, sendo crucial a busca por redução nestas idades, tornando esta atividade economicamente viável dentro do sistema de produção de leite. O fornecimento de rações concentradas durante a fase de aleitamento e de forragem de alta qualidade além de concentrados após o desaleitamento serão determinantes do ganho de peso diário de bezerros. O consumo de concentrado durante os dois primeiros meses promoverá o desenvolvimento do rúmen destes animais, permitindo o desaleitamento sem redução no desempenho.

O modelo também demonstrou que o desempenho destes animais está diretamente associado com a instalação após o nascimento, sendo recomendada a individualização dos animais em ambiente fora do estábulo de vacas. Esta recomendação se baseia no fato de que a disseminação de doenças, como as diarréias, é reduzida em animais individualizados, uma vez que apresentam disseminação do tipo oral/fecal. Em instalações individualizadas também são menos freqüentes problemas de competição por alimento.


Referências

HOFFMAN, P.C.; FUNK, D.A. Applied dynamics of dairy replacement growth and management. Journal of Dairy Science, v.75, n.9, p. 2504-2516, 1992.

PLACE, N.T.; HEINRICHS, A.J,; ERB, H.N. The effects of disease, management, and nutrition on average daily gain of dairy heifers from birth to four months. Journal of Dairy Science, v. 81, n.4, p.1004-1009, 1998.

CARLA MARIS MACHADO BITTAR

Prof. Do Depto. de Zootecnia, ESALQ/USP

LUCAS SILVEIRA FERREIRA

Engenheiro agronômo formado pela UFSCar e Doutor em Ciência Animal e Pastagens pela ESALQ - USP na área de nutrição e avaliação de alimentos para bovinos. Atualmente exerce a função de Nutricionista de Ruminantes na Agroceres MMX Nutrição Animal

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DANIEL DAVILA

LAJEADO - RIO GRANDE DO SUL - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 07/10/2007

Na atividade leiteira as coisas estão intimamente ligadas, e se refletem, invariavelmente, na produção. A correta criação de uma terneira valoriza o investimento feito com uma boa dose de sêmen e permite a manifestação das características genéticas, aumentando a perspectiva de que este animal venha a ter uma boa produção. Lembre-se que o contrário ocorre quando o produtor não valoriza a criação da terneira esquecendo de que a terneira hoje será a vaca de leite amanhã. Pense...

"Uma terneira bem criada, filha de um touro "barato" pode ser mais produtiva que uma terneira mal criada filha de um touro "caro".
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