FAZER LOGIN COM O FACEBOOK ESQUECI MINHA SENHA SOU UM NOVO USUÁRIO
Buscar

Efeito do tratamento com calor e da contagem bacteriana de colostro na absorção de imunoglobulina G e saúde de bezerros neonatais

POR CARLA MARIS MACHADO BITTAR

E THAIS MANZONI

CARLA BITTAR

EM 05/08/2015

4 MIN DE LEITURA

2
0
Bezerros nascem com imunodeficiência devido a uma falta de circulação sanguínea de IgG e outras moléculas Ig, sendo capazes de absorver Ig do colostro materno se ingerido em até 24h depois do nascimento. A absorção é mais eficiente logo após o nascimento, mas mesmo quando o colostro é fornecido em tempo hábil, a eficiência aparente de absorção é raramente >50% e frequentemente < 35%. O tratamento do colostro por calor é um método de manejo de colostro que pode beneficiar a eficiência da absorção de IgG entre 20% a 35%. O mecanismo pelo qual o tratamento por aquecimento melhora a absorção de IgG não está claro, mas pode ser devido a redução da competição entre o IgG e proteínas não Ig ou bactérias que são desnaturadas ou mortas pelo calor. As bactérias podem também se ligar ao IgG no lúmen intestinal induzindo a descamação de células absortivas do epitélio intestinal dos bezerros neonatais ou por interferir nos receptores de IgG. A exposição intestinal a bactérias antes de receber colostro diminui significantemente a absorção de IgG em bezerros, porém o mecanismo de como a bactéria consegue afetar a absorção de IgG não é claro.

Um estudo foi realizado com o objetivo de avaliar o efeito combinado de colostro contendo bactérias e tratamento por calor e seu efeito na absorção de IgG. Nesse estudo, primeiramente todas as vacas foram ordenhadas e o colostro congelado para formação de pool. Todo o colostro congelado foi descongelado e misturado homogeneamente, sendo divididos em 4 tratamentos:

1) Colostro sem tratamento, baixa contagem bacteriana: o colostro não foi aquecido, mas foi congelado novamente a -20°C até ser usado para alimentar bezerros;

2) Colostro sem tratamento, alta contagem bacteriana: o colostro não foi aquecido, mas foi congelado a -20°C após permanecer durante 60h em temperatura de 20°C, de forma a estimular o crescimento bacteriano;

3) Colostro tratado por aquecimento, baixa contagem bacteriana: o colostro foi aquecido a 60°C, mantido a esta temperatura por 30 minutos e então rapidamente resfriado e congelado a -20°C até o fornecimento;

4) Colostro tratado por calor, com alta contagem bacteriana: o colostro foi aquecido a 60°C, inoculado com bactérias e mantido a 20°C por 72h para permitir o crescimento bacteriano e então congelado a -20°C até o fornecimento.

Entre os resultados obtidos, foi visto que a concentração de IgG não diferiu entre os tratamentos, concluindo-se que o tratamento por aquecimento não afeta a concentração de IgG no colostro (Tabela 1). Porém, como o esperado, houve diferença na quantidade de bactérias presentes, uma vez que o colostro com alta contagem bacteriana apresentou aproximadamente 3 vezes mais UFC/mL que o colostro com baixa contagem bacteriana.

Tabela 1. Média (± desvio padrão) de concentração de IgG e população bacteriana em cada tratamento de colostro

SPC= Contagem padrão de bactérias; CC= Contagem de coliformes; NC= bactérias gram-negativas, não coliformes; ES= Estreptococci ambientais; CS= Estreptococi contagiosos

Os bezerros com baixa contagem bacteriana apresentaram concentrações de proteína total mais altas do que os bezerros que receberam colostro com alta contagem bacteriana, esses bezerros (que receberam colostro com alta contagem bacteriana) também tiveram diminuição na concentração de IgG no plasma as 48h (tabela 2), sendo o mecanismo pelo qual as bactérias diminuem a absorção de IgG não bem esclarecido. O tratamento do colostro por aquecimento não apresentou nenhum efeito sob a proteína total dos animais.

Tabela 2. Média (± desvio padrão) do peso ao nascer, idade no fornecimento de colostro, e parâmetros sanguíneos dos bezerros de cada tratamento.

1 Medido por imunodifusão radial

Aparentemente as bactérias podem competir diretamente com IgG na absorção por células epitaliais, o que faz com que a absorção de IgG seja reduzida em situações em que o colostro apresenta alta contagem bacteriana. Além disso, as bactérias podem também se ligar ao IgG no lúmen intestinal, tornando o mesmo indisponível para absorção, porém, mais estudos são necessários para descrever melhor essas relações. De qualquer modo, o fornecimento de colostro com alta contagem bacteriana pode aumentar o risco de falha na transferência de imunidade passiva.

O tratamento por calor do colostro não afetou nenhum dos parâmetros considerados, muito embora outros trabalhos da literatura tenham mostrado maiores concentrações de IgG plasmático em bezerros alimentados com colostro tratado. Embora a concentração de IgG e a eficiência aparente de absorção não tenham sido melhoradas, o tratamento do colostro com calor reduziu de forma eficiente a contagem bacteriana, o que pode claramente aumentar também a absorção de IgG.

Bezerros que receberam colostro tratado pelo calor com baixa contagem bacteriana, tenderam a ter menos dias de escore fecal ≤2 do que quando comparados aos animais que receberam colostro não tratado também com baixa contagem bacteriana. Experimentos anteriores, com maior número de bezerros mostraram que o tratamento com calor foi bastante eficiente em reduzir a ocorrência de diarreias.

Pode se concluir neste estudo, que a alta contagem bacteriana no colostro afeta negativamente a concentração de IgG no plasma e que alimentar os animais com colostro tratado pelo calor com baixa contagem bacteriana pode reduzir o número de dias em diarreia de bezerros na primeira semana de vida.

Referência

Gelsinger, S. L., Jones, C. M., Heinrichs, A. J. Effect of colostrum heat treatment and bacterial population on immunoglobulin G absorption and health of neonatal calves. Journal of Dairy Science, 98:4640–4645, 2015.

Comentários

Embora o tratamento com calor seja uma estratégia eficiente para reduzir a contagem bacteriana de colostro, o que pode aumentar a concentração de IgG sérico pela maior eficiência de absorção, cuidados devem ser tomados. Uma vez que as imunoglobulinas são proteínas, o calor pode provocar a desnaturação e consequentemente a perda da função biológica. Assim, o controle da temperatura para o tratamento, assim como o tempo de tratamento devem ser rigidamente controlados. Além disso, após o tratamento com calor, o material deve ser rapidamente congelado para evitar o crescimento bacteriano de forma a manter sua agora reduzida contaminação. Este é um problema muito comum em propriedades que utilizam pasteurizador para o leite de bezerras. Após a pasteurização o leite deve ser rapidamente fornecido, de outra forma poderá apresentar contagem bacteriana muitas vezes superior àquela encontrada antes do processo de pasteurização.

ARTIGO EXCLUSIVO | Este artigo é de uso exclusivo do MilkPoint, não sendo permitida sua cópia e/ou réplica sem prévia autorização do portal e do(s) autor(es) do artigo.

CARLA MARIS MACHADO BITTAR

Prof. Do Depto. de Zootecnia, ESALQ/USP

2

DEIXE SUA OPINIÃO SOBRE ESSE ARTIGO! SEGUIR COMENTÁRIOS

5000 caracteres restantes
ANEXAR IMAGEM
ANEXAR IMAGEM

Selecione a imagem

INSERIR VÍDEO
INSERIR VÍDEO

Copie o endereço (URL) do vídeo, direto da barra de endereços de seu navegador, e cole-a abaixo:

Todos os comentários são moderados pela equipe MilkPoint, e as opiniões aqui expressas são de responsabilidade exclusiva dos leitores. Contamos com sua colaboração. Obrigado.

SEU COMENTÁRIO FOI ENVIADO COM SUCESSO!

Você pode fazer mais comentários se desejar. Eles serão publicados após a analise da nossa equipe.

BENEDITO VICENTE DA SILVA FILHO

ANÁPOLIS - GOIÁS

EM 10/08/2015

Boa noite!

No último paragrafo, você coloca a seguinte frase:

"  Após a pasteurização o leite deve ser rapidamente fornecido, de outra forma poderá apresentar contagem bacteriana muitas vezes superior àquela encontrada antes do processo de pasteurização."

Quando você diz "rapidamente", é muito subjetivo dependendo da quantidade de animais e o tamanho do bezerreiro, pois o primeiro bezerro pode estar consumindo um leite de boa qualidade más o ultimo não.

Dessa forma, gostaria de saber qual seria o máximo de tempo recomendado desde o fim do processo de pasteurização até o fornecimento do leite para o bezerro, afim de que se possa evitar o crescimento bacteriano mencionado tornando o leite impróprio para o consumo do animal.

Certo de sua atenção,

Agradeço
ADONY QUERUBINO ANDRADE NETO

SANTA CRUZ CABRÁLIA - BAHIA - PESQUISA/ENSINO

EM 08/08/2015

Qual temperatura seria ideal ao tratamento térmico do colostro?  e por quanto tempo o colostro deve ficar direto sobre influencia desta temperatura? ou deve ser feita semelhante ao banho maria na temperatura indicada?

Embora ferramentas venham a somar para termos um colostro de melhor qualidade é preciso termos o conhecimento das questões relacionadas ao tempo de fornecimento após nascimento, aos critérios de higiene na obtenção e manipulação desde alimento tão nobre e importante para os bezerros!
MilkPoint AgriPoint