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É possível reduzir a dor e o estresse durante o procedimento de descorna?

POR CARLA MARIS MACHADO BITTAR

E LUCAS SILVEIRA FERREIRA

CARLA BITTAR

EM 27/07/2010

5 MIN DE LEITURA

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De maneira geral, os animais de fazendas leiteiras são descornados com o objetivo de ser evitar acidentes, principalmente com tratadores, além de lesões a outros animais, numa eventual disputa no rebanho.

Assim, para se evitar o seu crescimento, os chifres e o tecido circundante são retirados utilizando-se uma variedade de métodos, como a cauterização por calor ou química e a cirurgia. Recomenda-se que a descorna seja feita quando a bezerra tenha idade inferior a 3 meses, devido a mais rápida cicatrização. Entretanto, o procedimento deve ser evitado durante as semanas anteriores e posteriores ao desaleitamento, período de intensas alterações na rotina de vida do animal. A recomendação de descorna antes dos 3 meses de idade é importante porque, após este período, com o desenvolvimento dos chifres, haverá necessidade da remoção cirúrgica, um processo bem mais trabalhoso e doloroso ao animal.

A escolha do método depende em grande parte da experiência e preferência do produtor, entretanto, a utilização do ferro quente e a cauterização química são os métodos mais utilizados. A prática de campo mostra que quando se opta pela utilização do ferro quente, é necessário maior atenção e trabalho, principalmente devido à necessidade de contenção do animal durante o procedimento, além da dor pós-operatória durante as horas seguintes e problemas com inflamações em situações de procedimento realizado de forma inadequada.

Atualmente, é crescente o apelo da sociedade em relação às práticas de manejo visando o bem-estar animal. Assim, estudos têm mostrado que a administração de uma combinação de anestésico local e drogas anti-inflamatórias podem reduzir a dor e o sofrimento associado ao procedimento de descorna. A administração de um anestésico local pode reduzir os comportamentos associados com a imediata resposta à dor (por exemplo, abanar a cauda, movimentos de sacudir a cabeça, coices) e os indicativos de dor pós-operatória (esfregar a cabeça insistentemente, sacudir a cabeça e orelha, além de apatia).

Embora seja bem estabelecido que os anestésicos locais sejam eficazes na redução da resposta à dor imediata após a descorna, seu uso na maioria das vezes parece ser insuficiente por duas razoes principais. A primeira delas é que as bezerras respondem à dor não só devido ao procedimento de descorna, mas, principalmente, pelo estresse devido à necessidade de contenção. Um segundo aspecto negativo é que o anestésico não fornece alívio adequado da dor pós-operatória. Por isso, após cerca de 2 ou 3 horas da administração, os animais começam a sentir dor local.

Entretanto, poucos estudos com a administração da pasta cáustica foram desenvolvidos. Um destes estudos mostrou que o comportamento relacionado à dor nos animais com a utilização da pasta cáustica é bastante semelhante ao método com o ferro quente (Morisse et al., 1995).

Com base nestes questionamentos, uma equipe liderada pelo professor D.M. Weary (Vickers et al., 2005) desenvolveu um estudo bastante interessante, com o objetivo de avaliar os efeitos do método de descorna (ferro quente ou pasta caustica) no comportamento de bezerras leiteiras no pré e pós procedimento.

O estudo avaliou 36 bezerras, criadas de maneira semelhante, alimentadas com sucedâneo comercial 2 vezes ao dia (5% do PV), com livre acesso a água e concentrado inicial.

Em seguida, os animais foram divididos em 4 grupos, de acordo com um tratamento testado, em 2 experimentos distintos, e o comportamento de cada grupo foi avaliado nas 12 horas seguintes, após a descorna:

Experimento 1:

1) Pasta cáustica + sedativo + anestésico local;
2) Pasta cáustica + sedativo (sem anestésico local).

Experimento 2:

1) Ferro quente + anestésico local
2) Pasta cáustica + anestésico local

Os resultados do experimento 1 mostraram que os animais tratados somente com sedativo apresentaram pouca inquietação e comportamento típico de dor durante as 4 horas após a aplicação da pasta. Entretanto, os animais tratados com sedativo e anestésico local apresentaram intenso comportamento relacionado à dor, exatamente no período entre 1 e 4 horas após a descorna, quando o efeito anestésico da medicação começava a perder efeito (Figura 1).

Clique na imagem para ampliá-la.

Figura 1. Comportamento de bezerras (número de vezes por hora, realizando atividade relacionada à dor) descornadas com a utilização de pasta cáustica, com ou sem a administração de sedativo.

No experimento 2, as resposta foram semelhantes, em relação ao tempo de respostas de dor, que foram mais frequentes entre 1 e 4 horas após a descorna. Neste experimento, observou-se que os animais descornados com a utilização do ferro quente apresentaram, nas primeiras horas, maior inquietação, com maiores transições entre a posição deitado e em pé neste período e comportamento de balançar a cabeça. Porém, em relação ao comportamento de esfregar (coçar) a cabeça, não foram observadas diferenças entre os animais tratados com o ferro quente ou com a pasta cáustica, embora ambos apresentassem este comportamento (Figura 2).



Figura 2. Comportamento de bezerros (número de vezes realizando atividade relacionada à dor) descornados com a utilização de ferro quente ou pasta cáustica, com a administração de sedativo.

Em resumo, os resultados destes experimentos mostram que, em relação à resposta à dor, a utilização da pasta cáustica ou do ferro quente apresenta respostas semelhantes.

Outro resultado interessante é em relação à administração do anestésico local com o objetivo de diminuir a dor do procedimento. Neste trabalho, ficou evidente que a aplicação do anestésico, conforme previsto, não resultou em alívio da dor, principalmente nas primeiras horas após a descorna. Com base nos resultados deste trabalho, podemos concluir que a administração de sedativo parece resultar em melhor conforto e reduzir o estresse do animal no momento da descorna. Por outro lado, embora os resultados sejam positivos, sua utilização necessita de acompanhamento de um veterinário, para assim evitar problemas decorrentes da sua utilização incorreta.

Bibliografia consultada

Faulkner P.M.; Weary, D.M. Reducing pain after dehorning in dairy calves J. Dairy Sci 83:2037-2041, 2000.
Morisse, J.P., Cotte, J.P. Huonnic D. Effect of dehorning on behavior and plasma cortisol responses in young calves. Appl. Anim. Behav. Sci. 43:239-247, 1995.
Vickers, K.J.; Niel, L.; Kiehlbauch, L.M.; Weary D.M. Calf response to caustic paste and hot-iron dehorning using sedation with and without local anesthetic J. Dairy Sci. 88:1454-1459, 2005.


Comentários

Práticas de manejo que reduzam o estresse animal são de extrema importância para o bem estar e, consequentemente para desempenho animal. Bezerros passam por várias práticas que resultam em estresse e que podem reduzir o seu desempenho quando mal realizadas. São exemplos destas práticas, a separação do bezerro de sua mãe logo após o nascimento, o desaleitamento, aplicação de vacinas e vermífugos, mudanças no manejo alimentar e instalações. É primordial que novas técnicas de manejo sejam aplicadas de forma a reduzir o estresse animal, que pode ser percebido por alterações marcantes no comportamento, de forma a otimizar o desempenho e a saúde animal.

CARLA MARIS MACHADO BITTAR

Prof. Do Depto. de Zootecnia, ESALQ/USP

LUCAS SILVEIRA FERREIRA

Engenheiro agronômo formado pela UFSCar e Doutor em Ciência Animal e Pastagens pela ESALQ - USP na área de nutrição e avaliação de alimentos para bovinos. Atualmente exerce a função de Nutricionista de Ruminantes na Agroceres MMX Nutrição Animal

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LUIZ FERNANDO GARCIA

ESTUDANTE

EM 03/10/2016

Afinal, o anestésico foi bom ou ruim na conclusão do trabalho? Sua conclusão está redundante e confusa.
CARLA MARIS MACHADO BITTAR

PIRACICABA - SÃO PAULO - PESQUISA/ENSINO

EM 23/08/2010

Caro Wellington,

Dugiro que você entre em contacto com o Prof. Marcos Veiga através do Radar Técnico sobre Qualidade do Leite.
Att.,
Carla Bittar
WELLINGTON MASCHIO

CÂNDIDO MOTA - SÃO PAULO - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 18/08/2010

Vaina para mastite , qual sua eficássia e qual os laboratorios?
CARLA MARIS MACHADO BITTAR

PIRACICABA - SÃO PAULO - PESQUISA/ENSINO

EM 17/08/2010

Caro Marcelo,
Estes são erros no manejo da descorna bastante comuns nos rebanhos. É muito importante que todas estas práticas de manejo sejam realizadas por pessoa treinada para o mesmo, sendo que o treinamento deve também enfatizar a questão de bem estar do animal. Muitas vezes o estresse da contenção é maior do que o estresse da prática que se está realizando, e isso tem consequências marcantes no desempenho dos animais no período subsequente. Vamos tentar abordar outros temas relacionados a descorna.
Abs.,
Carla Bittar
CARLA MARIS MACHADO BITTAR

PIRACICABA - SÃO PAULO - PESQUISA/ENSINO

EM 17/08/2010

Caro José,
Se o sr. percebe que os bezerros se recuperam mais rápido é por que está funcionando bem. Seria interessante utilizar um sedativo para a realização da descorna, mas o analgésico após a mesma já traz resultados positivos como relatado.
Att.,
Carla Bittar
MARCELO ERTHAL PIRES

BELÉM - PARÁ - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 14/08/2010

Prezados Lucas e Carla, muito bom, mesmo! Gostaria de lhes sugerir, que abordassem outros problemas da descorna; como o de se conter o bezerro pelas orelhas, dificultando a cicatrização da ferida de descorna; a mochação "mal feita" (tocos de chifres que crescem parcialmente). respeitosamente marcelo
JOSÉ AFONSO LAURENTINO JÚNIOR

ITABUNA - BAHIA - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 13/08/2010

Tema bem abordado. Utilizava apenas o ferro quente, onde percebia a inquietação dos bezerros, eles mal conseguiam abaixar a cabeça para mamar. Então decidi aplicar um analgésico (dipirona ou diclofenaco) após a descorna, este não alivia a dor de imediato, mas no final da tarde os animais já conseguem se movimentar normalmente. Pergunto: estou correto? Um abraço a todos.
CARLA MARIS MACHADO BITTAR

PIRACICABA - SÃO PAULO - PESQUISA/ENSINO

EM 06/08/2010

Caro José Tiago,
O sedativo utilizado no trabalho foi xilazina (Rompun) e sua hipótese pode estar certa se este efeito for duradouro. Sabe-se que o efeito da xilazina está relacionado a dose aplicada e para bovinos isso varia de 30 minutos até 5 horas.
Att.,
Carla Bittar
CARLA MARIS MACHADO BITTAR

PIRACICABA - SÃO PAULO - PESQUISA/ENSINO

EM 06/08/2010

Caro Salah,
Existem várias recomendações quanto ao melhor momento para a descorna. Eu, pessoalmente, prefiro realizar esta atrefa por volta de um mês de idade quando o desaleitamento é realizado com 60 dias, ou mais tarde tarde quando o desaleitamento também ocorre mais tarde (90 dias, por exemplo). O importante é que a descorna não seja realizada em período próximo ao desaleitamento uma vez que este, por si só, já é uma grande fonte de estresse para os bezerros leiteiros.
Att.,
Carla Bittar
JOSE TIAGO DAS NEVES NETO

MINEIROS - GOIÁS - MÉDICO VETERINÁRIO

EM 05/08/2010

Excelente matéria, veio a suprir algumas dúvidas que nós técnicos temos no dia a dia no campo. Parabéns aos autores.
Sobre o texto, qual sedativo foi utilizado no trabalho? Não poderia ser o resultado benéfico do sedativo, um efeito de relaxamento muscular que estaria impedindo o animal a demonstrar resposta a dor?
SALAH ELDIN ZENATE

GOIÂNIA - GOIÁS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 03/08/2010

Excelente materia relacionada a redução do estresse durante a descorna dos animais. Gostaria de interagir, perguntando aos ilustres articulistas, qual a idade ideal para se fazer a descorna, apartir de quantos dias após o nascimento posso efetuar o procedimento, sem prejuizo para os bezerros(as) ?
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