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Diarreia em bezerros na fase de aleitamento: O regime alimentar influencia na ingestão de água, leite e concentrado?

POR CARLA MARIS MACHADO BITTAR

E GLAUBER DOS SANTOS

CARLA BITTAR

EM 12/05/2014

6 MIN DE LEITURA

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 A diarreia é a enfermidade que mais está presente em todos os sistemas de criação de bezerras, uma vez que sua causa é multifatorial. Frequentemente, esta doença acomete os animais nas primeiras semanas de vida, podendo causar grandes prejuízos, como o aumento nos custos de produção para prevenção e tratamento, consequências negativas na vida produtiva do animal, redução no desempenho e, não muito raro, pode levar o animal a óbito.

A diarreia pode ter origem infecciosa, onde os agentes Escherichia Coli, Salmonella, Clostridium, Rota e Coranavírus e os Cryptosporidium estão na maioria das vezes presentes. Ou ainda, a origem pode ser não infecciosa, como alterações abruptas na dieta líquida, mudanças climáticas repentinas e outras alterações na rotina diária. Um fator importante para reduzir a incidência e duração da diarreia é a correta colostragem das bezerras, pois quanto maior a transferência de imunidade passiva menor será os danos causados pela enfermidade.

Durante as diarreias os bezerros perdem quantidades consideráveis de água e eletrólitos (sódio, fósforo, potássio, cloro e outros). Assim, a preocupação em repor a água e eletrólitos e eliminar o agente causal são medidas extremamente importantes (Quigley, 1997). O correto diagnóstico e medidas paliativas terão correlação direta com o bom desempenho dos animais durante a fase de aleitamento, já que animais diarreicos reduzem consideravelmente a ingestão de energia, o que causa atraso no desenvolvimento e apatia para combater a infecção.

O tratamento para animais com diarreia, quando diagnosticado no início da enfermidade, se baseia na reidratação com solução oral sem abrir mão das refeições de leite ou sucedâneo lácteo, uma vez que são as principais fontes de energia para o animal nesta fase. A antibioticoterapia pode ser uma alternativa interessante para casos mais agudos da doença. No passado, pensava-se que bezerros com diarreia deveriam ter a dieta líquida interrompida, pois poderia causar mais fermentação e, consequentemente, mais diarreia. No entanto, hoje a recomendação é de não se interromper o fornecimento da dieta líquida uma vez que esta fornece energia para que o animal possa se recuperar e não perder peso.

Assim, um grupo de pesquisadores testou dois regimes alimentares: fornecimento de leite ad libitum e restrito; além de utilizar um produto repositor de eletrólitos via diluição na dieta líquida ou via água (Wenge et al., 2014), sendo então avaliados os seguintes tratamentos:

T1 – Solução de reidratação oral diluída em 2 litros de leite, em 3 refeições diárias (6L de leite/dia);
T2 – Solução de reidratação oral diluída em 2 litros de água, oferecido 2 horas após as três refeições com leite (6L de leite + 6L de solução oral/dia);
T3 - Solução de reidratação oral diluída em 2 litros de água, e fornecimento de leite ad libitum via aleitador automático.

Avaliou-se o consumo de água, de leite e de concentrado, além do ganho de peso de 100 bezerros (54 machos e 46 fêmeas), do segundo ao vigésimo dia de vida.

Durante o período de avaliação, 98% dos animais apresentaram diarreia; somente um bezerro não teve evidência de um patógeno específico; e nenhum animal morreu devido este distúrbio. A diarreia geralmente iniciou-se no oitavo dia de vida, sem apresentar diferença entre os regimes alimentares, com duração média de 5 dias, considerando todos os sistemas de alimentação (Tabela 1).

Tabela 1 – Duração da diarreia, ingestão de leite, energia, fluido total (água + leite) e ganho de peso em bezerros, durante o período de diarreia.



Nos primeiros 21 dias de vida os bezerros consumiram em média 10 e 13g de concentrado, chegando a 20 e 55g na terceira semana de vida dos animais, quando tiveram acesso livre e restrito ao leite, respectivamente. Tal diferença no consumo pode ser pelo fato dos bezerros compensarem a baixa energia via ingestão de leite com a maior ingestão de concentrado, porém, isso pode não ter sucesso nas primeiras semanas de vida devido o incompleto desenvolvimento do rúmen. O consumo de concentrado é reduzido quando animais ingerem altas quantidades de dieta líquida, uma vez que bezerros preferem esta a consumir dieta sólida quando ainda estão com o rúmen em desenvolvimento (de Passillé et al., 2011).

Animais que receberam quantidade restrita de leite apresentaram maior ingestão de água quando comparado aos animais que tiveram acesso livre ao leite (Figura 1), sendo esta diferença de 1,1 x 0,8 L/dia. A relação da ingestão diária de água e ingestão de matéria seca foi de 1,6 L/kg para animais com acesso restrito ao leite e 0,9 L/kg para animais que tiveram acesso ad libitum ao leite. Quando se considerou o total de fluido e não apenas água, essa relação passou para 8,4 e 7,7 L/kg, respectivamente. Quando os animais não têm acesso ad libitum ao leite, buscam a complementação de suas exigências em água através do aumento da ingestão da água de bebida. Sabe-se de décadas atrás da importância do fornecimento de água para bezerros nos primeiros dias de vida, porém em países da Europa por questão de economia de água essa pratica ainda não é realizada. Além do atendimento da exigência em água, a água de bebida é importante para estabelecimento de processos fermentativos no rúmen em desenvolvimento desses animais.

Figura 1. Consumo de água (L) por animais em diferentes regimes alimentares




















Devido as maiores perdas de fluido via fezes em bezerros diarreicos, o aumento na ingestão de água é uma consequência, na tentativa que o animal tem de buscar o equilíbrio osmótico e prevenir a desidratação. A ingestão de água foi mais acentuada para o grupo de animais que receberam a solução de reidratação oral diluída no leite, uma vez que receberam uma solução hipertônica aumentando assim, a osmolaridade sanguínea e consequente ingestão de água.

A ingestão diária de leite foi de 9,5 e 5,6 litros para os bezerros que tiveram acesso restrito e livre ao leite, respectivamente, porém esta ingestão foi reduzida em todos os regimes de alimentação, durante o período em que os animais permaneceram com diarreia. Consequentemente, a ingestão de energia também foi reduzida. No grupo que recebeu leite ad libitum, a ingestão de energia antes da diarreia era de 26,2 MJ e passou para 17,3 MJ. A ingestão de leite é reduzida durante este período devido ao menor apetite, porém o estimulo à ingestão de energia neste período pode fornecer uma maior resistência do animal aos patógenos, devido esta melhor alimentação (Figura 2).

Figura 2. Consumo de leite por bezerros em diferentes protocolos de hidratação e alimentação

















Bezerros em sistema de aleitamento ad libitum suplementados com a solução oral diluída no leite ganharam 587 g/dia durante o período de diarreia, enquanto animais que receberam 6 litros de leite mais 6 litros da solução de reidratação oral ganharam 474 g/d e ainda, animais que receberam a solução oral diluída no leite o ganho diário foi de 658 g. Neste último grupo, 15% da energia ingerida foi via solução oral, por outro lado, nos animais alimentados ad libitum apenas 5% da energia foi proveniente da solução de reidratação. Esta solução continha glicose como fonte de energia rapidamente disponível, bem como aminoácidos que são diretamente absorvidos no intestino delgado, enquanto leite contém lactose e proteína as quais precisam ser hidrolisadas antes da absorção.

Independente do sistema de alimentação, todos os animais apresentaram diarreia até a terceira semana de vida. Um método simples de fornecer uma solução para reidratação oral é a diluição desta solução no próprio leite, porém os bezerros devem ter acesso à água ad libitum a partir da primeira semana de vida. Fornecer água para bezerros é primordial para que o consumo de concentrado seja iniciado, mas essencial para a boa saúde ou recuperação de animais acometidos por diarreia.

Referência

Wenge, J.; Steinhöfel, I.; Heinrich, C.; Coenen, M.; Bachmann, L. Water and concentrate intake, weight gain and duration of diarrhea in young suckling calves on different diets. Livestock Science, v.159, p. 133-140, 2014.

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CARLA MARIS MACHADO BITTAR

Prof. Do Depto. de Zootecnia, ESALQ/USP

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CARLA BITTAR

PIRACICABA - SÃO PAULO - PESQUISA/ENSINO

EM 12/06/2014

Marcos,

Os animais estavam individualizados em gaiolas suspensas.

Abs.,

Carla
POLLIANA VILELA

JATAÍ - GOIÁS - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 11/06/2014

Além do refratrômetro de proteína e de Brix, existe também o colostrômetro. É um aparelho de fácil manuseio e mede a qualidade do colostro.

A DeLaval também tem uma solução a base de eletrolíticos e imunoglobulinas indicada para hidratação e reposição de eletrolíticos, que também auxilia na imunidade da bezerra, chama-se Calf Care.
MARCOS HELVECIO MONTEIRO JUNIOR

PIEDADE DO RIO GRANDE - MINAS GERAIS - ESTUDANTE

EM 26/05/2014

Professora Carla, qual sistema de criação esses animais estavam para o experimento?

Casinha?
CARLA BITTAR

PIRACICABA - SÃO PAULO - PESQUISA/ENSINO

EM 19/05/2014

Carlos,

Você deve colher sangue do animal e deixar dessorar para fazer a leitura. É muito simples! Um pingo de soro no refratômetro para verificar se a leitura está acima de 5,5 no caso do refratômetro de proteína e de 8,5% no caso de refratômetro de brix. É importante fazer essa avaliação com o animal até no máximo 48h de vida.

Abs.,

Carla
CARLA BITTAR

PIRACICABA - SÃO PAULO - PESQUISA/ENSINO

EM 19/05/2014

Marcelo,

no trabalho foi utilizado um produto comercial alemão chamado Lytafit, que foi diluído em água ou no leite de acordo com o tratamento. Tentei encontrar a composição deste produto, mas infelizmente não encontrei. No entanto, é um repositor de eletrólitos pra bezerros como os vários que temos no mercado nacional.

Abs.,

Carla
OSMAR JR. S.OLIVEIRA

LINHARES - ESPÍRITO SANTO

EM 18/05/2014

TENHO APRENDIDO MUITO COM O MILKPOINT,SÓ TENHO QUE AGRADECER.
CARLOS ESTIVALET JR

DOIS VIZINHOS - PARANÁ - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 18/05/2014

Para determinar a eficiencia da colostragem, como fazer com o refratometro: 48 horas pós parto, como realizar a tecnica. Existe algum artigo, como proceder.
MARCELO BRANQUINHO PEREIRA

TRÊS CORAÇÕES - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 17/05/2014

Por Favor Carla e ou Glauber,poderiam me informar se possível qual solução de reidratação oral foi usada no leite,fórmula e ou produto?
CARLA BITTAR

PIRACICABA - SÃO PAULO - PESQUISA/ENSINO

EM 15/05/2014

Caro Glauco,

A melhor medida para reduzir os casos de diarreia nos bezerros é realizar colostragem adequada. Lembrando que a boa colostragem e consequente adequada aquisição de imunidade passiva depende de 3 fatores: tempo para fornecimento; qualidade do colostro fornecido; e volume fornecido. Para ter colostro de boa qualidade é importante, além de coleta/ordenha feita com higiene e acondicionamento e utensílios limpos, que as vacas sejam vacinadas durante o pré-parto de forma que seu sistema imune seja desafiado.

Abs.,

Carla
MARIANA POMPEO DE CAMARGO GALLO

PIRACICABA - SÃO PAULO

EM 13/05/2014

Gostaria de convida-los a participar do Curso Online  "Aleitamento de bezerras com sucedâneos lácteos".



O curso terá início em 29/04 e a instrutora Carla M. M. Bittar, irá esclarecer os principais aspectos relacionados ao uso de sucedâneo para aleitamento de bezerras, além de tirar dúvidas através do fórum de perguntas e conferência online.



Para mais informações ou realizar sua inscrição acesse nossa página de cursos: https://www.agripoint.com.br/curso/aleitamento-bezerras/



Ou mande um e-mail para: cursos@agripoint.com.br
GLAUCO AVELINO DA SILVA

BATAGUASSU - MATO GROSSO DO SUL - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 13/05/2014

Excelente reportagem sobre sanidade e/ou manejo. Somos muito carente destas informações..

Existe vacina para prevenir?

Mas uma vez com diarreia qual o principio ativo dos remédio a ser aplicado?  
LUIZ ALBERTO TELLECHEA COSTA

BELO HORIZONTE - MINAS GERAIS - DISTRIBUIÇÃO DE ALIMENTOS (CARNES, LÁCTEOS, CAFÉ)

EM 13/05/2014

O mercado do leite  se mantém estável, mesmo com o frio já castigando os pastos e o trato para os animais em pleno curso, e caro .

Será que teremos para os meses que se sucedem o mesmo quadro,mesmo caminhando cada vez para o forte da entre safra ?
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