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Diagnóstico de diarréia neonatal em bezerros

POR CARLA MARIS MACHADO BITTAR

E MARCELO CEZAR SOARES

CARLA BITTAR

EM 22/02/2011

7 MIN DE LEITURA

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Em geral, índices de mortalidade de até 5% entre o nascimento e os três primeiros meses de idade são considerados aceitáveis. No Brasil, dados precisos sobre taxas de mortalidade de bezerros em rebanhos leiteiros são desconhecidos. Entretanto, levantamento recente realizado no rebanho americano indica uma taxa de mortalidade de 7,8% em bezerros na fase de aleitamento (USDA, 2008). Desse modo, considerando o alto nível tecnológico adotado no sistema de criação de rebanhos leiteiros americanos, acredita-se que no Brasil as taxas de mortalidades sejam mais elevadas.

Dentre as causas de mortalidade na fase de aleitamento, a diarréia é considerada como a principal, respondendo por cerca de 56% das causas de mortes em rebanhos americanos, seguida por doenças respiratórias (USDA, 2008). Esta moléstia não é apenas o principal fator que contribui para aumentar a taxa mortalidade, mas também por diminuir a taxa de crescimento, reduzir a eficiência de utilização dos alimentos e, principalmente, por reduzir a resistência do sistema imune do animal a outras doenças.

A diarréia é um sinal clínico de uma disfunção do trato digestório, sendo um dos principais mecanismos de reação deste contra bactérias patogênicas, vírus ou dieta com nutrientes indigestíveis. Esta disfunção se traduz em secreção e relativa falta de absorção intestinal que resulta em perda de fluidos, eletrólitos e nutrientes, resultando em fezes com menos que 12% de matéria seca. Esse sinal clínico é de fácil diagnóstico, porém não é específico. Efetivamente, esse sinal clínico é encontrado em uma série de doenças em animais jovens, devido a vários agentes: esses agentes podem atuar simultaneamente para produzir a doença no bezerro.

Normalmente, esse grupo de doenças é chamado de "enterites", entretanto a típica inflamação da mucosa pode não ser presente. Por exemplo, quando a diarréia é associada com cepas enterotoxigênicas de E. Coli há um grande aumento de secreção de líquidos devido à presença de enterotoxinas, com lesões menores da mucosa intestinal.

Em nível individual, o diagnóstico preciso não é sempre indispensável, porque não afeta o curso das ações a tomar (em geral, a reidratação de urgência seguido por uma série de medidas de higiene e tratamento de suporte). No entanto, em nível de rebanho, o diagnóstico é importante, e tem consequências para o manejo sanitário, principalmente no que diz respeito a vacinação de vacas pré-parto. Uma vez que agentes infecciosos são responsáveis pelos surtos, o diagnóstico etiológico de diarréia deve ser feito o mais rápido possível de forma a se verificar quais os agentes circulantes no rebanho. Um tratamento adaptado pode ser proposto após o diagnóstico e, sobretudo, o diagnóstico pode ajudar a definir uma profilaxia adaptada de acordo com a imunização de vacas e bezerros assim como a modificação do manejo do rebanho nas áreas de alimentação, controle do parasitismo, etc.

Finalmente, é importante também verificar se o surto se deve a um patógeno zoonótico, tais como Salmonella, Campylobacter, e outros.

Portanto, a fim de adaptar medidas terapêuticas e profiláticas, é de importância buscar a etiologia precisa dos transtornos digestivos.

Epidemiologia

A diarréia neonatal normalmente ocorre em bezerros com menos de seis semanas de idade, entretanto, bezerros com mais de quatro meses de idade também podem ser infectados, ocorrendo principalmente em animais criados em lotes e em ambientes fechados.

Todos os principais patógenos entéricos são normalmente hospedados por vacas adultas assintomáticas e a disseminação de muitas espécies de agentes patogênicos tende a aumentar em torno da época do parto. O que sugere que quanto melhor o ambiente ao parto, menores as chances dos bezerros serem infectado. Bezerros saudáveis são muitas vezes assintomáticos ou possuem uma infecção subclínica com patógenos entéricos e com isso pode haver uma ampliação da contaminação ambiental, facilitando a transmissão para outros animais, principalmente quando estão agrupados.

Muitos outros animais, incluindo animais selvagens e domésticos, também podem contribuir para a contaminação de bezerros com patógenos como Cryptosporidium, Salmonella ou rotavírus. Assim, é sempre bom lembrar que a presença de galinhas, cães e gatos em bezerreiros auxilia a disseminação de patógenos.

Devido a sua etiologia infecciosa, a incidência de diarréia aumenta em rebanhos onde o manejo de colostro é inadequado e consequente falha de aquisição de imunidade passiva.

Etiologia

A diarréia em bezerros é uma doença multifatorial que pode ser resultado da combinação de ambiente inadequado, imunidade baixa dos animais e contato com agentes infecciosos. Apesar da deficiência de só um desses fatores poder levar à doença, os surtos de diarréia geralmente refletem um problema em todas as três áreas. Por isso, para resolver esse problema em nível de rebanho, é importante avaliar todos os fatores de risco e implementar um manejo preventivo.

Vários agentes patogênicos podem, isoladamente ou, mais frequentemente, em conjunto, provocar diarréia em bezerros jovens. Estes agentes podem também atuar sucessivamente no mesmo bezerro ou entre bezerros em um mesmo rebanho. Agentes enteropatogênicos estão normalmente presentes no ambiente dos bezerros ou são hospedados pelas vacas e disseminados para outros animais do rebanho: animais doentes, convalescentes ou portadores assintomáticos.

Os principais agentes responsáveis pela diarréia em bezerros são as bactérias (especialmente a Escherichia coli), parasitas (principalmente Cryptosporidium) e, finalmente os vírus (entre eles, particularmente o rotavírus e o coronavírus a um menor grau) (Tabela 1).

Agentes enteropatogênicos são frequentemente isolados de fezes de bezerros com diarréia que não foram previamente tratados com antibióticos, sendo a E. coli a mais comum. A E. coli pode ser encontrada isolada em apenas na metade dos casos, mas uma ação de vários agentes em conjunto não pode ser descartada. Em outros casos, a E. coli é isolada, juntamente com outros agentes como Cryptosporidium, rotavírus, coronavírus e torovírus.

Finalmente, um ponto essencial que devemos levar em consideração é que qualquer que seja o patógeno responsável, a diarréia frequentemente acomete bezerros podendo levar a uma toxemia e/ou septicemia que complicam e agravam o prognóstico da doença.

Tabela 1. Resumo dos principais agentes patogênicos responsáveis pela diarréia em bezerros.



Diagnóstico clínico

Diagnóstico prático começa com um exame clínico completo dos bezerros afetados, realizando-se medidas de temperatura, freqüência respiratória, além de avaliar a condição geral do bezerro e seu nível de desidratação.

O aspecto da diarréia pode ajudar a orientar o diagnóstico que será baseado nos sintomas associados juntamente com a idade dos animais afetados (Tabela 2). Efetivamente, cada doença neonatal caracterizada por diarréia nos bezerros tem seu pico de incidência em uma idade específica como mostra a Figura 1.

Tabela 2. Elementos úteis para o diagnóstico diferencial de diarréia em bezerros.





Figura 1. Incidência de diarréia de acordo com a idade dos bezerros.

A colibacilose é geralmente observada em bezerros bastante jovens (menos de 5 dias de idade) enquanto a coccidiose afeta preferencialmente bezerros acima de 3 semanas.

Por causa do curso patogênico da diarréia, o animal afetado normalmente apresentará desidratação junto com uma acidose pouco ou bastante severa relacionada com perda fecal de bicarbonato ou produção de L-lactato seguida de desidratação ou produção de D-lactato pelos Lactobacilos. A idade do animal desempenha um grande papel na susceptibilidade do bezerro para diarréia. Desidratação e acidose (especialmente a acidose D-lática que ocorre na "diarréia sem desidratação" no décimo dia de idade dos bezerros) têm consequências sistêmicas levando o animal a decúbito, depressão, ou até mesmo insuficiência cardíaca ou renal. Hipotermia ou morbidez também podem ser observadas nos animais afetados.

Juntamente com a idade dos bezerros afetados, a observação dos efeitos sistêmicos e sua severidade pode ajudar no diagnóstico. Por exemplo, uma febre com temperatura superior a 40,5-41ºC e alta taxa de mortalidade pode levar a suspeita de colibacilose, salmonelose ou coronavírus. Em contrapartida, uma baixa mortalidade é bastante sugestiva para rotavírus. Nós podemos também notar que a ausência ou a presença de hipertermia nos animais afetados determina a escolha do tratamento que será feito, levando em conta a responsabilidade e prudência na utilização dos antibióticos.

Quando a diarréia é acompanhada de morte, o médico pode obter informações importantes realizando um exame de necropsia. A necropsia também ajuda evidenciando a possível implicação do patógeno suspeito causador da diarréia: é preciso ter em mente que a presença de um enteropatógeno em um bezerro afetado não é suficiente para provar o seu papel no processo patogênico. Na verdade, é normal existir portadores assintomáticos e hospedeiros, e a evidência de lesões associadas é necessária para demonstrar a implicação de um patógeno suspeito.

Considerações

A diarréia neonatal continua sendo a doença de maior importância nos bezerros com menos de 4 semanas de idade, responsável por enormes prejuízos econômicos. Vários enteropatógenos podem atuar sucessivamente ou em conjunto para um surto de diarréia em um rebanho onde fatores de risco estão presentes, prejudicando a imunidade dos bezerros, especialmente quando há falhas na transferência de imunidade passiva.

Embora a diarréia neonatal em bezerros seja bastante fácil de identificar, um diagnóstico etiológico preciso é de difícil realização. Em rebanhos onde a taxa de infecção é crescente é indispensável adaptar tratamentos corretos e acima de tudo tomar medidas preventivas. Também é útil ter o conhecimento do agente etiológico em relação a problemas de saúde pública.

Referências bibliográficas

MILLEMANN, Y. Diagnosis of neonatal calf diarrhea. Revue Méd. Vét., 2009, 160, 8-9, p. 404-409.

CARLA MARIS MACHADO BITTAR

Prof. Do Depto. de Zootecnia, ESALQ/USP

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CUCA BELUDO

CAMPINAS DO PIAUÍ - PIAUÍ - PESQUISA/ENSINO

EM 24/09/2014

carla parabens pelo artigo

como voce, ta?
GUILHERME MOTTA

SÃO GABRIEL DO OESTE - MATO GROSSO DO SUL - ESTUDANTE

EM 24/09/2014

parabens pra ti tbm carla  ... linda como o seu artigo
CUCA BELUDO

CAMPINAS DO PIAUÍ - PIAUÍ - PESQUISA/ENSINO

EM 24/09/2014

parabens professor do meu coração, belissimo artigo
GUILHERME MOTTA

SÃO GABRIEL DO OESTE - MATO GROSSO DO SUL - ESTUDANTE

EM 24/09/2014

parabens professor ... otimo artigo ... isso e uma das coisas q voce me ensinou obrigado
EDWARD ZACKM

LONDRINA - PARANÁ - INDÚSTRIA DE INSUMOS PARA A PRODUÇÃO

EM 29/07/2013

Boa tarde. observei que este artigo ja tem mais de 2 anos, porem problemas com bezerra(o)s é constante, infelizmente. Tenho observado que em muitos casos o quadro inicia-se de modo descomplicado. Será que é simplesmente uma incapacidade transitorio que alguns animais tem de produzir de forma adequada e lactase. Sendo um açucar, quando nao digerido, fermenta e assim ocasiona a diarreia inicial e dai evolui para um quadro de infecção tipica. Gostaria do comentario do colegas tecnicos e dos criadores.

Obrigado pela atenção.
CARLA MARIS MACHADO BITTAR

PIRACICABA - SÃO PAULO - PESQUISA/ENSINO

EM 09/07/2012

Caros Danilo e Eliane,

A silagem de colostro não é adequada para o fornecimento aos recem-nascidos. Para adequada transmissão de imunidade deve-se fornecer colostro de alta qualidade, de preferência o de primeira ordenha.  O colostro fermentado realmente pode ser armazenado por longo tempo, mas devido ao abaixamento do pH as imunoglobulinas, que são proteínas, desnaturam, perdendo sua função biológica. Este material só deve ser utilizado como substituto do leite e não de colostro.

Att.,

Carla
DANILO ANTÔNIO

TORIXOREU - MATO GROSSO

EM 09/07/2012

Eliane estava lendo seu sofrimento aqui e li que as pessoas que te vendem esses bezerros ñ deixam eles serem colostrados adequadamente, vc já ouviu falar da silagem de colostro? pode ser guardado por 2 anos e serviria perfeitamente pros seus animais e resolveria em partes seus problemas.
ELIANE S. MENDES

LORENA - SÃO PAULO

EM 22/03/2012

E complicado Dr.Carla , vou me concentrar nos que me sobraram estou investindo neles ja tive prejuizo demais para quem nao tem para investir . Vou tentar engorda-los  para ver se vai compensar continuar na luta, vamos ver oque vai acontecer daqui em diante , consegui desmamar 3 e estao bem mas ainda falta 8 que enfraqueceram e nao acompanharam os outros .Mas se Deus quiser vai dar certo , eles estao comendo bem. Agradeço a atençao, um abraço
Eliane
CARLA MARIS MACHADO BITTAR

PIRACICABA - SÃO PAULO - PESQUISA/ENSINO

EM 15/03/2012

Eliana,

se você está comprando os animais precisa deixar claro que os mesmos devem ser colostrados adequadamente...
ELIANE S. MENDES

LORENA - SÃO PAULO

EM 14/03/2012

Pois é Dr. Carla só que meus bezerros são comprados de fazendeiros da proximidade e eles não permitem que os bezerros fiquem na fazenda mais do que um dia para o outro então ai começam meus poblemas. Em questão de limpeza eu garanto que é tudo limpo aqui é tudo feito por mim, limpeza de onde eles dormem alimentaçao, faço tudo com muito AMOR E CARINHO. E Tenho prazer no que faço,os trato como crianças dou muito amor e carinho. E sou feliz em fazer. MAS CHORO e me entristeço muito quando perco como perdi hoje ...Morreu mais um. Me sinto impotente. Obrigada pela sua atençao mais uma vez.
Eliane
CARLA MARIS MACHADO BITTAR

PIRACICABA - SÃO PAULO - PESQUISA/ENSINO

EM 14/03/2012

Eliane,

é mesmo muito complicado com as taxas de mortalidade são altas...O mais importante para a redução dos problemas de diarreia é um bom programa de colostragem, que implica na vacinação de vacas no pré-parto e o fornecimento adequado de colostro em termos de tempo, quantidade e qualidade. Quando isso é realizado, muitos problemas com diarreias diminuem. Também, verifique a higiene dos utensílios para fornecimento do leite. No caso de utilizar sucedâneo, verifique também sua composição.

Abs. e boa sorte!

Carla
ELIANE S. MENDES

LORENA - SÃO PAULO

EM 14/03/2012

Dr. Carla fico muito feliz em conseguir chegar ate esta pagina sou leiga em net mas vou aprender assim como estou aprendendo a criar meus bezerros com vcs . Esse comentario e otimo . E tenho tido esses desconfortos com minhas crianças, diarreia, desnutriçao, sapinho e ate morte. Nao tenho muito recurso mas dentro do possivel faço o que posso, leite, purina, volumoso, fuba, soja, trigo . E mesmo assim ta dificil. Ja pensei ate em desistir mas seria o mesmo que eu estivesse desistindo de mim... por isso procuro soluçoes com vcs. E este artigo é otimo. Obrigada Eliane
CARLA MARIS MACHADO BITTAR

PIRACICABA - SÃO PAULO - PESQUISA/ENSINO

EM 11/03/2011

Caro Varlon,

O tratamento depende do tipo de agente, mas é normalmente baseado na aplicacao de antibioticos.
O ideal é que o fornecimento do leite nao seja suspenso, de forma que animal se mantenha alimentado. No entanto, com o agravamento do quadro a suspensão do fornecimento acaba sendo necessá¡rio para evitar acidose metabólica.
Sugiro a leitura do radar tecnico http://www.milkpoint.com.br/existe-a-necessidade-de-suspender-o-fornecimento-do-leite-durante-periodos-de-diarreia_noticia_54863_61_162_.aspx

Att.,
Carla Bittar
VARLON SANTOS PORTO

CARIACICA - ESPÍRITO SANTO - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 04/03/2011

olá,muito bom o artigo, no quesito de identificar o tipo de infecção no entanto gostaria que fosse esclarecedor tbm na parte de tratamento de cada tipo e qual a melhor forma de hidratar os animais.




grato.


CARLA MARIS MACHADO BITTAR

PIRACICABA - SÃO PAULO - PESQUISA/ENSINO

EM 02/03/2011

Caro Leonardo,

A etiologia das diarréias é mais ou menos a mesma e vai variar sempre dentro de sistemas de produção. No entanto, não posso afirmar que a frequência de diarréia devido a determinado patógeno de acordo com a idade de cabritos vai ser a mesma apresentada no trabalho.
Att.,
Carla Bittar
LEONARDO JOSÉ LENTE

CÁCERES - MATO GROSSO

EM 24/02/2011

Gostaria de saber em ate que ponto posso utilizar estas informacoees na caprinocultura?

Agradeco.
LEONARDO JOSÉ LENTE

CÁCERES - MATO GROSSO

EM 24/02/2011

Parabens Carla/Marcelo pelo artigo, estas informacoes sao de grande importancia aos produtores de leite e criadores. Deixar os protutores mais informados significa fazer com que os mesmos alcancem a tao desejada lucratividade, alem disso o produto final chega ao consumidor com qualidade.

Sucessos
parabens
MilkPoint AgriPoint