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Comportamento estereotipado em bezerros

POR CARLA MARIS MACHADO BITTAR

E GIOVANA SIMÃO SLANZON

CARLA BITTAR

EM 26/12/2017

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Comportamento estereotipado é caracterizado por movimentos repetitivos e sem objetivo ou função aparente, ou seja, comportamentos anormais dentro do repertório da espécie. Mas para detectar tais comportamentos é fundamental que os criadores e técnicos que lidam com os animais conheçam muito bem o comportamento normal dessa espécie. Em um sistema de produção de ruminantes, é necessário compreender as distintas interações dos animais com o ambiente. Esse entendimento irá permitir a fácil detecção de situações negativas que podem resultar em estresse e prejuízos econômicos.

Muitas vezes o produtor subestima o estresse nos animais de criação, acreditando que os mesmos só estão enfrentando situações que ameaçam seu bem-estar quando apresentam alguma manifestação patológica. Mas as manifestações clínicas e fisiológicas não são os únicos indicadores de bem-estar animal. É necessário levar em consideração uma série de fatores, entre eles a mudança comportamental dos animais do rebanho. Para o entendimento, alguns parâmetros comportamentais como consumo de água e alimento, atividade, agressividade, vocalização, postura, e resposta ao manejo podem ser medidos. Além disso, sinais fisiológicos como temperatura corporal, respiração, perda de peso podem auxiliar.

A intensificação da produção faz surgir a necessidade de alterar de maneira significativa o ambiente natural de criação dos animais. Animais de produção confinados podem ter dificuldade em se adaptar ao ambiente em que estão inseridos e uma das respostas a esse fator é o comportamento estereotipado. A explicação etológica para esses comportamentos é a frustração.

O animal tenta repetidamente encontrar um substituto para o comportamento. Mamíferos precisam desenvolver o habito de sucção quando lactentes. E no manejo alimentar de bezerros leiteiros quando o leite é ministrado em baldes ou mamadeiras, o tempo de aleitamento se torna mais curto. Um grande volume de leite passa rapidamente pela boca, reduzindo a sensação desse alimento na cavidade oral. Essa prática pode gerar uma frustração para os animais e aumentar a incidência de estereotipias. Na maior parte das vezes isso se traduz nas chamadas mamadas-cruzadas (um animal mamando no outro (figura 1) ou nas mamadas não nutritivas, quando por exemplo o animal fica mamando sua instalação (figura 2).

Figura 1. Animais realizando mamada-cruzada.

comportamento estereotipado em bezerros

Figura 2. Animais realizando mamada não nutritiva.

comportamento estereotipado em bezerros

Os desvios comportamentais observados frequentemente em bezerros são: o hábito de mastigar e sugar as instalações dos abrigos, mamadeiras, trincos, cadeados e canos de ferro. A repetição de brincar com a língua (tongue-playing) é a estereotipia mais frequente em ruminantes. Os animais afetados costumam ficar grande parte do tempo jogando sinuosamente a língua para fora da boca ou, às vezes, abrem a boca e ficam enrolando a língua dentro da cavidade oral.

Figura 3. Tongue-playing.

comportamento estereotipado em bezerros

Para encontrar o motivo, talvez seja necessário relembrar que os bovinos evoluíram sempre com bezerros ao pé da vaca, podendo realizar mamadas frequentes e consumir grandes volumes de leite. Quando criados com suas mães, mamam com a frequência de 4 a 10 vezes por dia, com duração de mamadas entre 7 a 10 minutos. Atualmente, muitos sistemas ainda fornecem volumes restritos de dieta líquida (4 litros/dia) e normalmente o fazem utilizando baldes e não mamadeiras, em duas refeições. No entanto, em aleitamento restrito o fornecimento tanto em balde quanto em mamadeira não supre toda a necessidade comportamental do animal no que diz respeito a mamar. Enquanto o animal gasta em torno de 40 segundos para mamar 2 litros do balde, vai levar por volta de 2,5 minutos para mamar o mesmo volume de uma mamadeira.

Se somarmos duas refeições, o animal gastaria 5 minutos realizando o comportamento de mamar, o que ainda é muito menor do que ocorreria naturalmente. Soma-se a isso a frustração relacionada ao menor volume de leite fornecido. Quando maiores volumes são fornecidos, menores são as ocorrências desses comportamentos estereotipados.

Portanto, a supressão do tempo gasto mamando devido o manejo alimentar deve ser o principal agente desencadeador da estereotipia em bezerros leiteiros. A preocupação com as estereotipias é que estes comportamentos servem como indicadores de falta de bem-estar. Além disto, especificamente para os animais de produção, os comportamentos estereotipados orais influenciam diretamente seu desempenho, pois ao invés do animal passar a maior parte do seu tempo se alimentando ou descansando ele substituiu a sua rotina pelo desenvolvimento dos comportamentos estereotipados.

Para evitar tais comportamentos e promover maior bem-estar e a saúde dos seus animais, além de fornecer maiores volumes de dieta líquida, quando for utilizar mamadeiras, evite alargar o bico das mesmas para acelerar o processo de aleitamento.

Para saber mais sobre criação e aleitamento de bezerras, conheça os cursos online apresentados por Carla Bittar no EducaPoint:

* Aspectos práticos da Criação de Bezerras
* Aleitamento de bezerras com sucedâneos lácteos 


Referências bibliográficas

Malafaia et al. 2011. Distúrbios comportamentais em ruminantes não associados a doenças: origem, significado e importância.Pesq. Vet. Bras. 31(9):781-790.

Sato S. & Wood-Gush D.G.M. 1988. The development of behaviour in beef suckler calves. Biol. Behav. 13:126-142.

de PASSILÉ A. M. 2001. Sucking motivation and related problems in calves. Applied Animal Behaviour Science, v.72, p.175-187.

CARLA MARIS MACHADO BITTAR

Prof. Do Depto. de Zootecnia, ESALQ/USP

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EDMUNDO PEREIRA FURTADO

JUIZ DE FORA - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 31/12/2017

Sou pequeno produtor de leite,crio as bezerras em mamadeiras ,o assunto apresentado é formidavel.Gostaria de comprar literatura completa.
GUSTAVO ESTEVES

POÇOS DE CALDAS - MINAS GERAIS - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 31/12/2017

Ótima matéria de fácil compreensão tanto para os técnicos quanto para os produtores ....
VANESSA PILLON DOS SANTOS

PIRACICABA - SÃO PAULO - INDÚSTRIA DE INSUMOS PARA A PRODUÇÃO

EM 28/12/2017

Vamos voltar as mamadeiras!!!!!
VIRGÍLIO JOSÉ PACHECO DE SENNA

SANTO AMARO - BAHIA - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 27/12/2017

Muito boas as observações,devem ser difundidas nas Escolas de Medicina Veterinária de todo o País, comportamento animal é indicativo de muitas enfermidades e deformações de manejos.
LUIZ GUSTAVO FONTOURA DO NASCIMENTO

LONDRINA - PARANÁ - TÉCNICO

EM 26/12/2017

Excelente matéria