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Como o fornecimento de soro de reidratação oral juntamente com a dieta líquida pode alterar a formação de coágulo?

POR CARLA MARIS MACHADO BITTAR

E FERNANDA LAVÍNIA MOURA SILVA

CARLA BITTAR

EM 30/10/2015

9 MIN DE LEITURA

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O fornecimento com solução de reidratação oral (SRO) é o tratamento mais comum para bezerros em diarreia. É um método barato e eficaz para correção da desidratação e acidose metabólica. Entretanto, alimentar os bezerros apenas com a SRO causa déficit de energia bruta, sendo aconselhável continuar alimentando-os com leite ou sucedâneo para prevenir perdas de peso corporal.

As soluções de reidratação oral são conhecidas por aumentar o pH abomasal e, especialmente as soluções que contêm bicarbonato (HCO3-) e citrato, inibir a coagulação do leite in vitro, e, assim, possivelmente inibir a coagulação do leite no abomaso. Como o sucedâneo de leite proporciona a diminuição do desempenho de bezerros e não forma o coágulo frequentemente, acreditava-se que um adequado coágulo de leite abomasal seria responsável por aumentar a digestibilidade, aumentar o ganho de peso diário e melhorar a saúde do bezerro. Deste modo, o fornecimento do leite e da SRO deveria ser realizado em momentos distintos. No entanto, a preparação da SRO no leite ou no sucedâneo é um método que economiza tempo para fornecer eletrólitos aos bezerros. Além disso, recentes estudos de saúde em bezerros têm mostrado que o HCO3- (≤62mmol/L) e o citrato (≤12mmol/L) contidos na SRO não interferem na coagulação do leite in vivo.

Contudo, fornecer SRO simultâneo ao leite ou ao sucedâneo pode prejudicar a formação de coágulo abomasal em bezerros diarreicos, podendo resultar em aceleração da passagem abomasal e agravar a diarreia. Entretanto, não existem estudos que determinem a formação do coágulo abomasal em bezerros com diarreia. Deste modo, pesquisadores da Alemanha (Kirchner et al., 20015) avaliaram imagens ultrassonográficas do coágulo de leite abomasal e diâmetro do abomaso após fornecimento de leite ou sucedâneo e também após o fornecimento de leite ou sucedâneo associados a SRO em bezerros saudáveis ou com diarreia.

Para a pesquisa foram utilizados 28 bezerros saudáveis e 15 bezerros com diarreia. Dentre os bezerros saudáveis, 18 foram alimentados três vezes ao dia com 2L de sucedâneo lácteo e 10 duas vezes ao dia com 3L de leite cru. Já os bezerros com diarreia foram alimentados três vezes ao dia com 2L de leite cru com adição de 75g de SRO. A SRO utilizada no estudo era constituída de bicarbonato e alguns eletrólitos (Na, K e Cl), além de lactose, glicina, cálcio e magnésio.

Antes do exame ultrassonográfico, os bezerros passaram no mínimo oito horas sem receber leite, água, concentrado ou feno. Entretanto, os bezerros com diarreia tiveram água disponível até o momento da ultrassonografia. Para o experimento, os bezerros saudáveis foram submetidos aos seguintes tratamentos: sucedâneo lácteo (1); leite cru (2); SRO preparada em sucedâneo lácteo (3); SRO preparada em leite cru (4); maior quantidade de SRO (112,5g ao invés de 75g para 2L de leite) no leite (5). Os bezerros com diarreia foram apenas alimentados com os tratamentos 2 ou 4. Todas as dietas teste consistiram em 2L de leite ou sucedâneo. A osmolalidade e o pH dos diferentes tratamentos foram determinados e o conteúdo de energia das dietas foi calculado. O coágulo de leite dos diferentes alimentos foi observado in vitro após a adição do coalho.

Como resultados, os pesquisadores observaram que o sucedâneo e o leite a 39°C in vitro coagulam dentro de 5 minutos após a adição do coalho. No entanto, no leite o coalho e o soro se separam completamente, enquanto no sucedâneo, a coagulação resultou em pequenos flocos de caseína que foram homogeneamente distribuídos no soro (Figura 1). A preparação do leite e do sucedâneo com a SRO inibiu a coagulação in vitro.

Após o fornecimento de sucedâneo, os bezerros saudáveis não apresentaram uma completa separação do coágulo e do soro em todo o período experimental. Em contraste, 60 minutos após o fornecimento do leite, um grande coágulo foi detectado. O diâmetro abomasal dos animais que consumiram leite estava de volta ao tamanho em jejum 240 minutos após o fornecido. Por outro lado, o diâmetro abomasal dos animais que consumiram sucedâneo se encontravam aumentados comparado a valores em jejum entre 240 a 300 minutos após o fornecido. Assim, as dietas líquidas tem um comportamento diferente no que se refere a formação de coágulo, assim como o seu tempo de permanência no abomaso dos bezerros saudáveis.



A SRO adicionada ao leite ou ao sucedâneo não causou diferença notável nas imagens ultrassonográficas do conteúdo abomasal em comparação as imagens quando fornecido leite ou sucedâneo sem a SRO. A cada momento específico, o diâmetro abomasal não diferenciou entre o sucedâneo e SRO adicionada ao sucedâneo, ou entre o leite, a SRO adicionada ao leite e a SRO em maior quantidade (112,5g) adicionada ao leite. Em todos os bezerros com diarreia, a formação do coágulo foi detectada 60 minutos após o fornecimento de leite ou SRO adicionada ao leite. O diâmetro abomasal de bezerros com diarreia apresentou-se maior comparado com bezerros saudáveis 240 minutos após a ingestão. Aos 300 minutos, o diâmetro abomasal dos bezerros saudáveis estava similar ao de um animal em jejum, enquanto o diâmetro dos bezerros com diarreia só chegou perto do diâmetro em jejum aproximadamente nove horas após o fornecido.

A coagulação enzimática do leite é um processo de três estágios: 1) ação enzimática da quimosina; 2) micelas de caseína começam a se agregar e formar uma rede em gel, estágio da coagulação acompanhado por mudanças na viscosidade; e 3) a rede é fortalecida e o coágulo e o soro são reparados. O coágulo abomasal é responsável pela prolongada permanência da caseína e da gordura do leite no abomaso. O soro, incluindo a lactose, passa rapidamente para o intestino delgado.

Há evidências de que as diferentes fontes de proteína, os métodos de fabricação e a inclusão de outras fontes menos digestíveis de nutrientes no sucedâneo e a formação inadequada do coágulo são responsáveis pelo menor crescimento de bezerros. Além disso, o leite tem uma melhor biodisponibilidade de nutrientes do que o sucedâneo e pode conter fatores de crescimento desconhecidos. No entanto, apesar de existir a possibilidade de após o consumo de sucedâneo a formação adequada do coágulo não ser observada, nota-se um aumento do diâmetro abomasal 240 e 300 minutos após a refeição, indicando prolongada passagem abomasal. Portanto, o rápido esvaziamento abomasal provavelmente não seria a razão que dificulta o crescimento e a saúde dos bezerros alimentados com sucedâneo de leite.

Em estudo realizado por (Heath et al., 1989), bezerros com diarreia que receberam leite de vaca com adição de SRO contendo bicarbonato ganharam menos peso. Estes achados levaram à suposição de que soluções de reidratação alcalinas podem inibir a coagulação do leite no abomaso e, portanto, interferir na digestão, uma vez que a formação do coágulo no abomaso regula o fluxo de gordura e proteína para o duodeno. Entretanto, de acordo com estudos recentes e resultados do presente estudo, a coagulação do leite abomasal não é perturbada devido à alimentação simultânea de leite/sucedâneo e a SRO contendo HCO3-(≤62mmol/L) em bezerros saudáveis ou diarreicos. Além disso, a formação do coágulo abomasal não foi prejudicada em bezerros saudáveis após o fornecimento do leite junto a SRO com um HCO3- na concentração de 93mmol/L. Portanto, problemas com a coagulação da dieta líquida no abomaso provavelmente não foram responsáveis pelos efeitos sobre o ganho de peso mencionados por Heath et al. (1989).

Os determinantes mais importantes do esvaziamento gástrico em animais saudáveis são: volume, densidade energética, tipo de proteína ou de gordura e a osmolalidade da refeição ingerida. O valor do pH do alimento líquido não tem ou tem pouco efeito sobre o esvaziamento do abomaso. A adição de SRO ao leite ou ao sucedâneo aumenta a osmolalidade e o conteúdo energético (Tabela 1).

Contudo, os efeitos no diâmetro abomasal não foram detectados por meio da ultrassonografia quando os bezerros receberam dieta líquida com adição de SRO, embora estas dietas tenham uma osmolalidade duas vezes maior do que o leite e o sucedâneo. Vários estudos em bezerros revelaram que a densidade energética é o principal fator que influencia o esvaziamento abomasal e que a osmolalidade é menos importante. Entretanto, adição de SRO a dieta líquida não aumenta substancialmente o conteúdo energético. Somente quando se utiliza solução hipertônica como 112,5g de SRO adicionada à 2L de leite, há uma tendência ao atraso da passagem abomasal em comparação a soluções que tem teor de energia semelhante, mas menor osmolalidade.

Tabela 1. Osmolalidade, pH e conteúdo energético das diferentes dietas líquidas, com ou sem a adição de solução de reidratação oral (SRO).



Em bezerros com diarreia, o diâmetro do abomaso 240 e 300 minutos após a alimentação foi maior, em comparação a bezerros saudáveis submetidos as mesmas dietas. Diferentes tipos de gordura, tratamento térmico de proteínas, separação ausente do coágulo e do soro de leite, e uma osmolalidade ligeiramente superior podem causar um esvaziamento mais lento do abomaso das dietas compostas por sucedâneo, com ou sem adição de SRO, em comparação ao leite, mas não pode explicar o maior diâmetro abomasal em bezerros com diarreia. É possível que a redução do esvaziamento do abomaso seja mediada por meio de hormônios intestinais responsáveis por regular o fluxo de nutrientes para o intestino de animais diarreicos.

Como conclusão, a formação inadequada do coágulo no abomaso parece não resultar em passagem mais rápida abomasal. Em bezerros saudáveis, a coagulação do leite não é afetada quando se combina o fornecimento do leite associado a SRO contendo bicarbonato (HCO3-). Além disso, a formação do coágulo abomasal não é perturbado devido à diarreia. Em contraste com bezerros saudáveis, o esvaziamento abomasal é prolongado em bezerros com diarreia.

Literatura citada

Kirchner, D., Schwedhelm, L., Wenge, J., Steinhöfel, I., Heinrich, C., Coenen, M., Bachmann, L. 2015. Ultrasonographic imaging of abomasal milk clotting and abomasal diameter in healthy and diarrheic calves. Animal Science Journal (in press) Doi: 10.1111/asj.12382.

Heath, S.E., Naylor, J.M., Guedo, B.L., Petrie, L., Rousseaux, C.G., Radostits, O.M., 1989. The effects of feeding milk to diarrheic calves supplemented with oral electrolytes. Canadian Journal of Veterinary Research-Revue Canadienne De Recherche Veterinaire 53, 477-485.

Comentários

O fornecimento de soluções de reidratação oral pode se tornar uma prática que demanda muito tempo de mão de obra, principalmente quando a frequência de animais com diarreia é maior do que aquela aceitável. As recomendações sempre foram para que a solução fosse fornecida um tempo depois do fornecimento da dieta líquida, de forma que não houvesse efeito negativo na formação do coágulo, reduzindo a digestibilidade dos nutrientes. No entanto, o presente trabalho mostra que o fornecimento da solução juntamente com a dieta líquida, seja esta composta por leite ou sucedâneo, pode não afetar a formação do coágulo, assim como o tempo de permanência da dieta no abomaso. Outros fatores, associados a composição da dieta líquida, seu conteúdo em energia, além da osmolalidade, podem afetar não só a formação do coágulo como o tempo de permanência. Para evitar o aumento na necessidade de tempo de mão de obra, assim como possíveis problemas com a digestão da dieta líquida, outras soluções de reidratação tem sido elaboradas, sem a inclusão de bicarbonato (HCO3-). Estas soluções sem inclusão de bicarbonato podem ser administradas em conjunto com a dieta líquida, sem riscos aos processos de digestão, facilitando também o manejo e tornando mais eficiente o uso da mão de obra.

CARLA MARIS MACHADO BITTAR

Prof. Do Depto. de Zootecnia, ESALQ/USP

FERNANDA LAVÍNIA MOURA SILVA

Doutoranda em Ciência Animal e Pastagens, ESALQ/USP.

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ALEXANDRE DOS REIS E SILVA

GOIÂNIA - GOIÁS - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 01/11/2015

Ótimo esclarecimento no seu comentário final!
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