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Colostro fermentado ou acidificado e leite descarte em programas de alimentação de bezerros

POR CARLA MARIS MACHADO BITTAR

E LUCAS SILVEIRA FERREIRA

CARLA BITTAR

EM 21/02/2008

9 MIN DE LEITURA

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Conforme tratamos no Radar Técnico do mês passado, o uso do colostro fermentado é uma alternativa eficaz e econômica em relação ao leite ou substituto de leite em dietas de bezerros, quando existe excedente. Na maioria das fazendas os bezerros machos são vendidos, podendo haver sobra de colostro ou leite de transição, os quais podem ser utilizados na alimentação das fêmeas. No entanto, a adequação de suprimentos de colostro fermentado é dependente de um conjunto de fatores, principalmente a quantidade e qualidade do colostro produzido além da idade de desaleitamento das bezerras.

Embora o colostro produzido seja insuficiente para alimentar todos os animais do nascimento até o desaleitamento, o leite proveniente de vacas com mastite, tratadas com antibióticos e outras situações em que não podem ser comercializados, pode sofrer fermentação e servir como fonte alternativa de dieta líquida. O fornecimento de leite descarte pode ser restringido para bezerros mais velhos, enquanto que animais mais jovens podem receber colostro fermentado sem problemas. Este Radar Técnico trata do trabalho de Otterby et al. (1980) e descreve experimentos em que colostro e leite descarte foram utilizados durante a fase de alimentação líquida de animais em aleitamento.

Experimento 1

Quarenta e quatro bezerras Holandesas foram distribuídas aleatoriamente ao nascimento em uma de três dietas:

1) substituto de leite;
2) colostro fermentado;
3) colostro fermentado durante 14 dias, seguido de leite descarte fermentado até 28 dias.

As bezerras foram pesadas imediatamente após o nascimento e alimentadas com colostro, por 3 dias. No quarto dia, foram pesadas e alimentadas com as dietas experimentais, uma vez por dia, em baldes, de acordo com peso ao nascer (aproximadamente 5%) do seguinte modo:

1) menos de 45,4 kg, 2,2 kg colostro;
2) 45,4 kg ou mais, 2,73 kg de colostro.

O colostro foi diluído em 0,91 kg de água morna, resultando em aproximadamente 3 L de dieta líquida/dia.

O substituto de leite comercial (22% de proteína, 10% de gordura) foi preparado com 0,41 kg do produto seco para 2,7 kg de água quente, para as bezerras com menos de 45,4 kg de peso vivo; e 0,45 kg do produto mais 3,2 kg água morna para as bezerras com mais de 45,4 kg de peso.

Os animais alimentados com o leite descarte receberam 3,2 ou 3,6 kg de leite não diluído, respectivamente.

Um concentrado inicial grosseiro com 20,6% de proteína bruta foi oferecido a vontade, do 4º ao 42º dia de idade. Os animais foram alojados em baias individuais, com livre acesso a água, e foram desaleitados aos 28 dias de idade. As pesagens foram realizadas nos dias 4, 7, 14, 21, 28, 35, e 42 de vida dos animais. O consumo efetivo de dieta líquida e sólida foi monitorado diariamente, assim como observações individuais em relação a saúde.

O colostro utilizado foi obtido das seis primeiras ordenhas de cada vaca e armazenado em recipientes de plástico revestido, à temperatura ambiente, sendo agrupado o colostro de vacas com diferença máxima de 3 dias entre os partos. Durante a fermentação, o material foi agitado, uma vez por dia e os lotes mais antigos foram utilizados primeiro. O leite descarte foi armazenado e fermentado de forma semelhante ao do colostro.

O colostro fermentado e o leite descarte foram analisados para nitrogênio total, nitrogênio não-protéico (NNP), sólidos totais, acidez total titulável (titulação de 10 ml de fenolftaleína com 0,1 N NaOH) e pH com pHmetro digital (Orion Modelo 701A). Amostras do concentrado inicial foram retiradas a cada lote e compostas para determinação de proteína bruta e de matéria seca.

Experimento 2

Bezerros Holandeses foram distribuídos aleatoriamente ao nascimento, de acordo com o sexo, dentro de uma entre quatro dietas:

1) Colostro acidificado;
2) Colostro acidificado fornecido por 14 dias, seguido por aleitamento com leite descarte acidificado até os 28 dias de vida;
3) Leite descarte acidificado;
4) Leite integral (controle).

Os animais foram separados da mãe logo após o nascimento e posteriormente alimentados com o auxilio de balde ou mamadeira. O colostro e o leite descarte foram acidificados com ácido propiônico (0,7% vol/peso) e armazenados em recipientes adequados. No 2º e 3º dia de vida, o colostro fresco fornecido aos animais foi sendo substituído em etapas pelo material acidificado. No terceiro dia, os bezerros foram transferidos da baia maternidade para baias suspensas em galpão com iluminação e ventilação artificiais. A partir desta data, as dietas experimentais foram fornecidas uma vez por dia, sendo que os animais tinham livre acesso à água e concentrado inicial (20,7% de PB, na base seca).

O leite integral e o leite descarte acidificado foram fornecidos na quantidade de 8,3% do peso corporal. Uma mistura de colostro acidificado e água foi fornecida em igual volume ao leite descarte, com o objetivo de se obter teor de sólidos próximo ao leite integral (12,5%). No 14º dia, as quantidades de leite fornecidas foram aumentadas de acordo com o peso corporal. Todo o leite recusado e sobras de concentrado foram pesadas e registradas. Os animais foram pesados ao nascer e semanalmente até os 42 dias de idade. O leite descarte acidificado e o colostro utilizado nas dietas experimentais foram analisados como no Experimento 1.

Resultados e discussão

Composição das dietas líquidas

A Tabela 1 mostra que colostro fermentado no Experimento 1 continha cerca de uma unidade percentual a mais em sólidos do que o leite fermentado. No Experimento 2 o colostro apresentou maior teor de sólidos que o leite. A composição do colostro estava dentro das obtidas na revisão apresentada por Foley & Otterby (1978). O nitrogênio não-protéico em todas as amostras de colostro foi semelhante. A composição em ácidos nos alimentos fermentados foi principalmente de ácido láctico. De acordo com os dados do Experimento 2 os autores sugerem que deve ter ocorrido uma fermentação considerável mesmo após a acidificação.

Tabela 1. Composição do colostro e do leite descarte.


Desempenho de Bezerros - Experimento 1

Não foram observadas recusas de dieta liquida pelos animais durante o período experimental. O ganho de peso (Tabela 2) dos bezerros alimentados com colostro fermentado foi superior (P<0,01) ao dos bezerros alimentados com substituto de leite entre o 4º e 14º dia. Entretanto, estes animais apresentaram ganho similar entre o 15º e 28º dia, e diferenças nos ganhos foram pequenas do 4º ao 28º e do 4º ao 42º dia, embora os animais alimentados com colostro apresentassem peso ligeiramente maior.

O consumo de matéria seca de substituto de leite foi maior (P<0,01) quando comparado com os animais que receberam colostro fermentado entre o 4º e o 14º dia. Maiores ganhos de peso podem ter sido conseqüência de maior conteúdo de gordura e proteína do colostro e/ou uma melhor utilização dos nutrientes pelos animais que consumiam colostro do que os que consumiam substituto de leite.

Além disso, bezerros alimentados com colostro consumiram maior quantidade de concentrado inicial entre o 4º e o 14º dia que os alimentados com substituto de leite, mas não entre o 15º e o 28º dia. O consumo de matéria seca total não foi diferente durante qualquer período avaliado, porém o consumo de proteína foi superior (P<0,01) para os animais alimentados com colostro ou leite e colostro.

Tabela 2. Desempenho de bezerros alimentados com substituto de leite, colostro fermentado e colostro fermentado trocado repentinamente para leite descarte fermentado (Experimento 1).


a, b, cMédias na mesma linha diferem para (P<0,05).
A, B, CMédias na mesma linha diferem para (P<0,01).

Desempenho de Bezerros - Experimento 2

O peso vivo dos animais não apresentou grandes alterações durante os primeiros 14 dias de vida, exceto no caso dos pequenos ganhos observados para os bezerros alimentados com leite integral (Tabela 3). Muitos animais apresentaram considerável perda de peso durante as primeiras semanas de vida. Entre o 15º e o 28º dia e o 29º e o 42º dia, o ganho de peso foi semelhante para todos os grupos.

Tabela 3. Desempenho de bezerros alimentados com leite integral, colostro acidificado, leite descarte acidificado ou colostro acidificado seguido de leite descarte acidificado (Experimento 2).


a, b, cMédias na mesma linha diferem para (P<0,05).
A, B, CMédias na mesma linha diferem para (P<0,01).

Os bezerros alimentados com leite integral apresentaram maior consumo de matéria seca devido ao maior consumo de MS da alimentação líquida durante as primeiras semanas (P<0,01). Entretanto o consumo de concentrado inicial não apresentou diferenças. O consumo total foi maior para os animais alimentados com leite integral e para o grupo alimentado com colostro acidificado, quando comparados com os bezerros alimentados com leite acidificado (P<0,01) somente durante as duas primeiras semanas de vida.

O consumo de proteína bruta foi maior para os animais alimentados com colostro (P<0,05) e menor para aqueles alimentados com leite (integral ou acidificado).

Durante a realização do experimento, alguns animais apresentaram rejeição no consumo do colostro ou leite acidificados, em média 2 a 3 dias, sendo que os animais que consumiam leite integral quase não apresentaram recusa (Tabela 4). Quando a dieta líquida apresentava rejeição persistente durante vários dias, leite era acrescentado à alimentação para induzir o consumo, embora as razões para a recusa não sejam totalmente claras.

O pH do colostro e do leite diminuiu depois da acidificação, com média para o colostro acidificado de 4,40 (4,04 a 4,57) correspondente aos meses de outubro a abril e 3,98 (3,73 a 4,40) para o mês de maio até setembro. Para o leite acidificado foram observados valores de pH de 4,70 (4,54 a 4,90) e 4,01 (3,90 a 4,06), respectivamente. A acidez titulável ficou entre 0,192 e 0,252 meq/ml de colostro e 0,100 e 0,177 meq/ml para o leite armazenado durante períodos quentes e frios, respectivamente.

Tabela 4. Aceitabilidade do leite integral e dos alimentos acidificados por bezerros (Experimento 2).


A, B, CMédias na mesma linha diferem para (P<0,01).

Referências

FOLEY, J. A.; OTTERBY, D.E. Availability, storage, treatment, composition, and feeding value of surplus colostrum. A review. J. Dairy Sci., v. 61, p.1033, 1978.

KEYS, J. E.; PEARSON, R.E.; FULTON, L.A. Fermentation of mastitic milk from antibiotic treated cows. J. Dairy Sci., v. 59, p.1746, 1978.

OTTERBY, D.E.; JOHNSON, D.G.; FOLEY J.A.; TOMSCHE, D.S.; LUNDQUIST, R.G.; HANSON P.J. Fermented or Chemically-Treated Colostrum and Nonsalable Milk in Feeding Programs for Calves. J. Dairy Sci., v. 63, p. 951-958, 1980.

Comentários

A maior parte dos trabalhos com colostro e leite descarte fermentados ou acidificados data da década de 80, sendo ainda trabalhos com baixo número de animais e manejo um pouco diferente do utilizado atualmente. O trabalho descrito avaliou diferentes dietas líquidas com fornecimento em uma única refeição, o que não tem sido recomendado atualmente, o que pode ter prejudicado a avaliação, principalmente no que se refere a recusa das dietas acidificadas.

De qualquer maneira, o trabalho mostra que, em comparação ao fornecimento de leite integral ou sucedâneo, o colostro ou leite descarte fermentados ou acidificados podem ser fornecidos a bezerros sem comprometimento de desempenho animal. Os animais aleitados com estas dietas líquidas alternativas apresentaram consumo de concentrado e ganho de peso diário semelhantes àqueles alimentados com leite integral ou sucedâneo.

Assim, havendo colostro ou leite descarte excedente em quantidades superiores àquela utilizada diariamente para o aleitamento de bezerras ou à capacidade de armazenamento em geladeira por curto espaço de tempo, a fermentação ou acidificação são alternativas para sua conservação e posterior fornecimento, com redução no custo de produção da bezerra desaleitada.

CARLA MARIS MACHADO BITTAR

Prof. Do Depto. de Zootecnia, ESALQ/USP

LUCAS SILVEIRA FERREIRA

Engenheiro agronômo formado pela UFSCar e Doutor em Ciência Animal e Pastagens pela ESALQ - USP na área de nutrição e avaliação de alimentos para bovinos. Atualmente exerce a função de Nutricionista de Ruminantes na Agroceres MMX Nutrição Animal

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CARLA MARIS MACHADO BITTAR

PIRACICABA - SÃO PAULO - PESQUISA/ENSINO

EM 29/05/2009

Caro Ronaldo,

Não temos dados de literatura com mensuração de imunoglobulinas na silagem de colostro. A informação de um professor da ESALQ, especialista em transferência de imundade em neonatos, é de que durante a fermentação as imunoglobulinas têm sua estrutura alterada ficando inativas no que diz respeito a imunidade. Ainda assim, os valores de análise de imunoglobulinas em colostro fermentado podem ser altos devido a resultados falso positivos. Estamos inciando um grande experimento com estudo do perfil de fermentação que contemplará análise de imunoglobulinas. Esperamos poder publicar os resultados em breve.
Att.,
Carla Bittar
RONALDO MENDONÇA DOS SANTOS

UBERABA - MINAS GERAIS

EM 27/05/2009

Assim que possível, gostaria de saber dos resultados das imunuglobulinas na silagem do colostro.

Att,
Ronaldo M. dos Santos
MARA HELENA SAALFELD

OUTRO - RIO GRANDE DO SUL - PESQUISA/ENSINO

EM 03/04/2008

Evando,

O principal objetivo da silagem de colostro é ser um substituto para ao leite, e nossa recomendação é o seu uso diluído em igual quantidade de água. A cada dia recebemos mais e-mails solicitando informações e relatando sucesso obtido com a autilização desta tecnologia, simples, barata e eficiente.

Em nossa exaperiência já utilizamos a silagem de colostro para rescém nascidos que perderam a mãe e obtivemos sucesso. Nesta forma de uso não recomendamos a diluição, ou seja, a silagem de colostro deve ser utilizada pura.

A maior causa de desnaturação de imunoglobulinas é o aquecimento, inclusive ao usar colostro congelado, deve-se aquecer em banho-maria sem alcançar temperaturas maiores que 50°C.

Estamos desenvolvendo pesquisas para avaliar se as imunoglobulinas permanecem na silagem de colostro e se continuam efetivas. Assim que tiver os resultados entro em contato.

Atenciosamente
Mara Helena
CARLA MARIS MACHADO BITTAR

PIRACICABA - SÃO PAULO - PESQUISA/ENSINO

EM 24/03/2008

Caro Evando,

Após a ensilagem, o colostro perde sua função no que diz respeito a transferência de imunidade passiva. Assim, o colostro fermentado não deverá ser utilizado para a colostragem de bezerros e sim para o aleitamento, podendo substituir o leite ou sucedâneo lácteo.
Um abraço,
Carla.
EVANDO ALVES FILGUEIRAS

GOIÂNIA - GOIÁS - ZOOTECNISTA

EM 24/03/2008

Caros amigos

Bom Dia!

Sou estudante de zootecnia, porém ja estou atuando na área. Tenho uma dúvida sobre a silagem de colostro. Gostaria de saber se a qualidade imunológica do colostro continua a mesma após a fermentação, resumindo: posso usar a silagem de colostro para passar a imunidade necessária para animais enjeitados ou que perderam a mãe no parto?
Creio eu que não, pois a fermentação e a forma de diluição do colostro podem desnaturar os anticorpos, gostaria de saber a opnião de vocês.

Abraços

Evando Alves Filgueiras
MARA HELENA SAALFELD

OUTRO - RIO GRANDE DO SUL - PESQUISA/ENSINO

EM 06/03/2008

Prezada Carla,

Sou Extensionista e Instrutora dos cursos de profissionalização da EMATER do RS. Acho muito importante que extensionistas e pesquisadores continuem pesquisando alternativas que possam diminuir custos para os produtores de leite.

Desenvolvemos a silagem de colostro, um método de fermentação anaeróbia com o colostro excedente. Este método pode ser feito em garrafas pets, e tem armazenamento por tempo bastante longo. Já guardamos a silagem por mais de três anos e não houve deteriorização. Mas aconselhamos usar sempre a silagem mais antiga dentro da propriedade.

Segundo revisão de bibliografia, a utilização do colostro fermentado de forma aeróbia tem apresentado alguns problemas de alopecia, diarréia e aparecimento de odores desagradáveis. Além de ter um tempo muito curto para sua utilização.

Como sei do grande alcance deste site, coloco informações sobre nosso trabalho à diposição no email: msaalfeld@emater.tche.br. Também no site www.youtube.com.br tem dois vídeos sobre a tecnologia. Um que explica o processo e outro produzido pela Fundação Banco do Brasil.

Um abraço
Mara Helena
REGINALDO CLASEN MACIEL

CANGUÇU - RIO GRANDE DO SUL - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 25/02/2008

Sou técnico da ASCAR/EMATER-RS, instrutor e cordenador do Centro de Treinamento de Agricultores de Canguçu/RS. Gostaria de parabenizar a todos pelas excelentes matérias que são publicadas neste site, esclarecendo e informando técnicos e produtores, mantendo-os atualizados de tudo que acontece no setor, pois a informação e o conhecimento são fatores imprescindíveis para aquelas pessoas que querem ter sucesso em qualquer atividade.
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